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Enquanto o resto do mundo se prepara para a grande discussão que ocorrerá em Copenhague em dezembro, hoje o primeiro escalão do governo federal das Maldivas anunciou o início de sua campanha engajatória "350", cujo objetivo principal é ter como meta uma atmosfera com menos de 350 ppm de CO2 emitidos (já estamos em 384.72 ppm - and counting).

CO2PerCapita- 2006
Gráfico das emissões de CO2 per capita no mundo feito pela ONU (e retirado do site deles). Embora o Brasil esteja "clarinho", isso é apenas reflexo de como esses dados foram gerados: não levam em conta emissão de CO2 fruto de queima de biomassa, principal contribuição de CO2 para a atmosfera que o Brasil faz; apenas consideram emissões derivadas de indústrias, produção de energia e transporte. Portanto, não temos motivo para comemorar.

Para atingir tal meta, o documento pede a colaboração de todos os países do mundo para que determinem um limite de menos de 350ppm de emissões. O detalhe mais bacana e criativo é que a reunião para assinar a campanha e torná-la oficial foi feita debaixo d'água, simbollizando o que pode vir a acontecer num futuro próximo com o país.

Maldivas gabinete sub
(Foto da AFP - Getty, tirada do NYTimes.)

Durante a semana, os políticos maldivenses treinaram mergulhos com dive masters do arquipélago e hoje puderam finalmente descer ao fundo da laguna e ter seu dia oficial sub sem maiores problemas. O Presidente Nasheed mais a cúpula ministerial, todos debaixo d'água. Sem dúvida, é um dia histórico para as Maldivas, e (deveria ser...) alarmante para nós, população humana que compartilha o mesmo planeta com eles. Afinal, serão alguns centímetros de elevação que poderão fazer o país desaparecer, e há previsões que indicam que isso acontecerá em menos de 100 anos.

gabinete oficial maldivense
Ministros e presidente, antes da reunião oficial sub.

O gabinete sub
O gabinete sub.

Presidente maldivense Nasheed
Presidente maldivense assinando o documento oficial da campanha "350". (As 3 fotos acima foram retiradas do press release da campanha, encontrado aqui para download gratuito.)

Das palavras do Presidente Nasheed:

"'What we are trying to make people realize is that the Maldives is a frontline state. This is not merely an issue for the Maldives but for the world.''

Ou seu discurso em setembro passado na ONU:

As Maldivas há tempos vêm lutando mundialmente por uma postura mais rígida de emissão de CO2. Mostrando preocupação pungente, criaram em novembro passado um fundo monetário para comprar terras em outros países para seus refugiados climáticos. Isso porque o país será dos primeiros, junto com Tuvalu, a ser inundado pelo aumento do nível dos oceanos (causado pelo derretimento das calotas polares).

Por mais que eu adore mergulho, ver o gabinete todo embaixo d'água é uma cena que me surpreende, pelo tanto que ela significa. E pelo tanto que eu gostaria que a gente acordasse para não deixar isso acontecer. Porque acontecendo, significa que não só as Maldivas foram pro fundo do mar: nossa capacidade de contornar um problema grave também foi jogada aos tubarões - se até lá eles ainda existirem... Triste.

Quando se vive em um outro país fazemos as contas com perdas e ganhos. Uma coisa que se perde é a noção do que é ou não é notícia no país de origem. Apesar de toda a facilidade da Internet, os jornais que leio são italianos. Sim, todos os dias dou uma olhada em três jornais brasileiros, alguns sites de notícias e uma ou outra revista on-line, mas ler, de verdade, só jornais italianos.

Há alguns dias houve uma manifestação em Roma pela liberdade de informação. Pode parecer piada em um país onde se fala o que quiser de todo mundo. As hipotéticas relações extra-conjugais do primeiro-ministro e o envolvimento dele em escândalos financeiros julgados pela justiça; transcrição de gravações investigativas usadas como provas em processos judiciais em curso; relações de salários de servidores públicos, com nomes, cargos e valores: Enfim, tem de tudo. Inclusive muita informação que em muitos países são consideradas confidenciais, pela preservação da privacidade alheia. Muitas vezes trata-se de uma falsa transparência em busca do furo jornalístico. Noutras, cortina de fumaça para desviar a atenção do que realmente é notícia.

No mês de Setembro, através das declarações de um "colaborador da justiça" (nome dado aos que se "arrependem" e denunciam os crimes em que participaram em troca de atenuantes) a polícia italiano localizou um navio afundado na costa italiana, carregado de resíduos tóxicos. Não lembro de ter lido a notícia em nenhum site de jornal, revista ou site de notícias brasileiro a não ser no site da BBC.

Pelo que li até agora, é uma investigação que teria começado 14 anos atrás, com cenas de mortes misteriosas e envolvimento de poderosos. O jornal La Repubblica foi dos poucos que dedicou uma série de matérias, que podem ser lidas - em italiano - aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui

Antes que você se perca nos links, saiba que - sempre segundo informações de "colaboradores da justiça" - não se trata de um navio, mas de 30 (trinta!) e o número pode crescer. A prática era simples e enriqueceu muita gente. Uma empresa, com sede em um paraíso fiscal, teria oferecido o serviço de estocagem de resíduos tóxicos a diversos países. Alguns governos contrataram os serviços da empresa, outros recusaram e houve os que pagaram mais caro para permanecer no anonimato. Resíduos como escória atômica e lixo hospitalar, entre outros, eram carregados em navios cargueiros que depois teriam sido afundados no mar mediterrâneo e na costa do chifre da Africa. Verdadeiras bombas ecológicas capazes de contaminar não apenas as regiões onde se encontram, mas toda a cadeia alimentar.

Como localizar e recuperar todos os navios antes que uma tragédia aconteça? O que fazer com o material que for recuperado? Como evitar que esse tipo de ação possa se repetir? Espero que não levem outros 14 anos para responderem essas perguntas. E que os jornais passem a tratar de modo sério as notícias sérias.

Apesar do título parecer nome de banda indie e ter a cara de título sugerido pelo Tiagón, este não é um post de bereteios criativos como vocês encontram pelas bandas de lá. É infelizmente bem concreto: o teor de mercúrio, um metal pesado, no peixe nosso de cada dia.

Afinal, saiu esses dias um estudo feito aqui no Hawaii em que os pesquisadores mediram a quantidade de mercúrio em diversos peixes que são vendidos no mercado - e consequentemente consumidos pelas pessoas. O que eles descobriram foi muito interessante.

O mercúrio é um metal pesado que chega ao mar via despejos de poluentes nos rios ou pela atmosfera. O mercúrio da atmosfera vem de basicamente 2 fontes: erupções vulcânicas (portanto fonte natural) e poluição (fonte antropogênica: queima de carvão nas usinas termelétricas ou atividades de mineração, em sua maioria). Uma vez no mar, o mercúrio-metal-pesado é convertido por bactérias e elementos do plâncton a metil-mercúrio, e este sim é o agente causador de todos os problemas neurotóxicos que a gente ouve por aí associados com ingestão de mercúrio há tempos.

O metil-mercúrio é facilmente assimilado pelos seres vivos, incluindo a gente. Uma vez no organismo, ele se acumula e gera stress oxidativo nas células, principalmente no cérebro. O organismo basicamente não dá conta de tão poderoso agente, e à medida que a concentração de mercúrio começa a subir, o organismo começa a não ser capaz mais de se desintoxicar sozinho, porque as enzimas responsáveis pela desintoxicação de metais pesados que a gente tem começam a ser inativadas. Com o tempo, o acúmulo exagerado pode levar a problemas neurológicos graves e de comportamento. (Exemplo clássico aqui.)

Nossa principal "fonte" de mercúrio direta é a dieta, principalmente via peixes. O metil-mercúrio tende a se bioacumular na cadeia alimentar, o que gera elevados índices de tal composto pesado nos animais do topo da cadeia. Por conta dessa bioacumulação, o FDA americano já há algum tempo recomenda que mulheres grávidas e crianças pequenas diminuam a quantidade de peixe ingerida, principalmente das espécies mais pelágicas, para evitar que cérebros ainda em processo de formação já sofram com os danos causados pelo acúmulo de metil-mercúrio. Mas, que peixes podem e não podem ser ingeridos?

Foi em cima dessa pergunta que muitos pesquisadores se debruçaram - e vêm se debruçando em cada vez mais lugares no mundo. Aqui no Havaí, este tópico tem aparecido com cada vez mais frequência nos jornais locais, o que demonstra uma preocupação real em responder a pergunta.

Daí que o estudo publicado no PNAS há algumas semanas traz em si uma revelação interessantíssima para o manejo da pesca - e para o nosso nível de contaminação por mercúrio, diga-se de passagem. Os pesquisadores descobriram que os peixes que se alimentam mais ao fundo acumulam mais mercúrio em sua carne, enquanto os que comem mais no raso acumulam menos. As implicações desse achado são enormes - e a repercussão já começou.

Boa parte da pesca industrial está baseada em peixes pelágicos carnívoros (ou seja, de topo de cadeia alimentar), que se alimentam no fundo: cações/tubarões, atuns, peixes-espada. Estes peixes possuem níveis de mercúrio mais elevados que os demais, como o dourado, que se alimenta mais próximo da superfície. Mas não somente peixes: os pesquisadores também mediram os níveis de mercúrio em crustáceos, lulas e polvos, e constataram que nestes animais o mesmo padrão existe: quanto mais fundo o animal vive, mais mercúrio no seu sistema.

dourado
atum
O dourado acima possui menos mercúrio acumulado em seu organismo que a espécie de atum abaixo. Ambos são consumidos por nós, espécie humana.

E para mim, a frase que o pesquisador-líder do estudo disse no press-release da universidade é a "moral da história":

"O fundo do mar é remoto, difícil de ser estudado e muitas vezes ignorado, mas nossos resultados claramente mostram como a biologia está diretamente conectada aos interesses humanos, tanto de pesca como de saúde. Alguns dos peixes que a gente se delicia na mesa de jantar crescem numa dieta de criaturas estranhas e exóticas a mais de 1,000 pés de profundidade no mar."

Pense nisso na próxima ida à peixaria.

sacolanomar
sacolinha ou água-viva no Pacífico?

A frase é do Vitor Tagore, em seu post sobre o que sentiu após assistir a um vídeo que mostra como o Oceano Pacífico está se transformando em lixão a céu aberto. Quando terminei de ler o seu texto e assistir ao vídeo, no qual pesquisadores mostram animais que têm se alimentado de plástico e correntes marítimas que levam lixo da costa para o mar aberto, refleti um pouco e cheguei à conclusão que esta vergonha deveria ser coletiva.

No entanto, as imagens no vídeo provam que a preocupação com o destino dado ao plástico dos produtos que consumimos é, infelizmente, mais individual que geral, o que é uma lástima.

E o problema está muito mais próximo a nós do que imaginamos: está dentro de casa. É com um aperto no coração que vejo sacolinhas e mais sacolinhas chegarem da feira e do supermercado, trazidas por minha filha. "Por que não levou a ecoblog (é assim que chamo minha sacola retornável da Rede Ecoblogs)? Para quê tanto plástico, meu Deus!" Sou voto vencido.

Preciso ir mais vezes às compras. Certamente, não trago nenhuma sacola para casa, como vocês podem ver nas fotos do post que fiz sobre minhas compras em sacolas ecológicas, para divulgar a campanha Saco é um saco, do Ministério do Meio Ambiente

Hoje a blogosfera marinha gringa foi especialmente convidada a publicar uma carta escrita por Sally-Christine Rodgers e Randy Repass sobre o alarmante processo de acidificação dos oceanos. O convite veio (via Rick) de Sheril Kirshenbaum, do blog Intersection, que está coordenando a blogagem. A carta é um depoimento e um alerta. Em inglês, contém detalhes práticos de como as pessoas residentes nos EUA podem agir em prol da causa, demonstrando ao seu representante político a importância de se conter a diminuição do pH dos mares, o quanto esse processo pode modificar drasticamente o ecossistema marinho, levando-o a um caminho deveras imprevisível. De certa forma, esse conselho deveria valer para nós brasileiros também; afinal, pentelhar o seu representante político é uma das formas de alertá-lo que aquela é uma questão que importa pra você, que o elegeu. Entretanto, o desinteresse pelo povo do poder legislativo brasileiro é assunto deveras complexo e desestimulante, pra dizer o mínimo. Por isso, a intenção do conselho ainda vale, mas requer mais persistência nossa aqui na terra tupiniquim. Enfim.

Para os amigos que lêem o blog, fiz uma tradução livre em português, retirando as coisas que não competem aos brasileiros - caso você more nos EUA e se interesse pela causa, pode ler em inglês e contactar seu senador. Há considerações que poderiam ser mais discutidas sobre o tema, mas como a idéia hoje é espalhar pela web as palavras dos dois que já lutam pelo tema, deixo a discussão para um post futuro. Agora, é hora de ouvir a mensagem de quem está na linha de frente pelos mares do mundo.

Eis a mensagem de Randy & Sally-Christine sobre a acidificação dos oceanos.

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"Nós somos velejadores desde sempre. O que a gente vem aprendendo navegando pelo Pacífico nos últimos 6 anos, e especialmente dos cientistas focados na conservação marinha, é espantoso. Independente se você passa seu tempo na água ou não, a acidificação dos oceanos afeta a todos nós e é algo que acreditamos você vai querer saber mais.

O que você faria se soubesse que muitas espécies de peixes e animais que vivem nos oceanos desaparecerão em 30 anos caso os níveis de CO2 continuem aumentando na taxa atual? Nós acreditamos que você pode agir de forma a evitar este processo de acontecer, porque pessoas informadas fazem escolhas conscientes. Esta carta é sobre o que podemos e devemos fazer juntos agora para ajudar a resolver este problema tão sério e tão desconhecido, a acidificação dos oceanos.

A acidificação dos oceanos é primariamente causada pela queima de combustíveis fósseis. Quando o dióxido de carbono da atmosfera chega aos oceanos, modifica o pH deste ambiente, tornando o mar acídico e mais hostil à vida. Com o tempo, o CO2 reduz o carbonato de cálcio, o que dificulta a formação de conchas de alguns invertebrados e a formação dos recifes de corais. Na realidade, as conchas existentes podem começar a dissolver com o pH ácido. Ostras e mexilhões não terão mais a capacidade de construir suas conchas. Caranguejos e lagostas? Seus bisnetos podem ter que apenas imaginar qual era o sabor real deles.

O dióxido de carbono concentrado nos oceanos está tornando a água do mar mais acídica. Boa parte do zooplâncton, animais microscópicos na base da cadeia alimentar, têm esqueletos que não se formarão em condições acídicas, fazendo a vida nos níveis superiores da cadeia - peixes, mamíferos e aves marinhas que dependem do zooplâncton para comer - também perecerão. Sem comida não há vida. Um bilhão de pessoas dependem de peixe e frutos do mar como sua fonte primária de proteína. Muitos relatórios científicos documentam que no mundo inteiro os humanos já estão consumindo mais comida que o que vem sendo produzido. As implicações são óbvias.

A questão da acidificação dos oceanos está causando perda irreversível de espécies e habitats, e a tendência à acidificação está acontecendo até 10 vezes mais rápido que o projetado anteriormente. Nós queremos que você saiba o que isso significa, como afeta a nossa vida, e o que podemos fazer sobre.

Hoje, a concentração de CO2 na atmosfera é de cerca de 387 partes por milhão (ppm) e aumenta cerca de 2 ppm por ano. Se continuarmos com essa tendência, em 2040 a projeção é de que a atmosfera terá mais de 450 ppm, e os cientistas marinhos acreditam que o colapso da maior parte do ecossistema marinho será irreversível. Outros efeitos fisiológicos da acidificação sobre a vida marinha incluem mudanças reprodutivas, nas taxas de crescimento e até na respiração dos peixes.

Corais tropicais e de água fria estão entre as criaturas maiores e mais antigas que vivem na Terra; formam o ecossistema mais rico em termos de biodiversidade, fornecem áreas para reprodução, berçário e alimentação para 1/4 de todas as espécies do mar. Os recifes de coral estão sob risco. À medida que a concentração de CO2 aumenta, corais, crustáceos e outras espécies que produzem conchas não serão capazes de construir seus esqueletos e muito provavelmente se extinguirão.

A boa notícia é que nós podemos "consertar" este problema. Mas, como você pode imaginar, será difícil. A acidificação dos oceanos é causada pelo aumento do CO2 na atmosfera. Resolver um problema pode resolver o outro.

"O IPCC concluiu que, para estabilizar o CO2 na atmosfera a 350 ppm até 2050, as emissões de CO2 globais precisams er cortadas em 85% do nível de 2000." É bastante! Da forma como nosso sistema político funciona (ou não funciona) torna tudo mais complicado. Cabe a nós dar um passo a frente, se comprometer e arcar com a responsabilidade de permitir que isso aconteça na prática.

A acidificação dos oceanos é uma questão em que podemos fazer algo sobre. Precisamos de uma leva de cidadãos informados que sejam capazes de mobilizar o Congresso para ter coragem de se mobilizar contra os interesses arraigados da indústria de carvão, petróleo e gás que não se comprometem com a redução do CO2. Também precisamos de verdadeiros líderes que criem agressivamente empregos usando tecnologias sustentáveis. A escolha é nossa. Nós podemos resolver este problema. O que a gente sabe é que o futuro de nossos filhos, netos e de fato, de toda a humanidade, depende da nossa decisão.

Por favor, compartilhe esta carta com outros. Nós agradecemos que você tire seu tempo e contacte a sua representação política; é fácil de fazer e efetivo.

Obrigada pelo seu apoio.

Randy Repass
Presidente
West Marine

Sally-Christine Rodgers
Diretora
Oceana

(Um relatório mais completo sobre o tema você encontra aqui.)

"

Dia dos Oceanos 2009

Hoje, 08 de junho, é o Dia Mundial dos Oceanos, uma data criada durante a Eco-92 no Rio e que finalmente este ano foi oficializada no calendário da ONU.

(Já merece atenção o fato de que levou tanto tempo para essa oficialização da ONU, quando datas relacionadas a ecossistemas terrestres me parecem em geral mais rapidamente agilizadas. Mas divago.)

O tema deste ano para a ONU é "Nossos oceanos, nossa responsabilidade". O intuito é óbvio: trazer à tona o nosso real quinhão de responsabilidade perante a situação do mar. E responsabilidade, em geral, é melhor sentida quando a gente se importa. Por isso, convidamos a todos na semana passada para compartilharem histórias pessoais em que o mar era cenário ou personagem, ou seja, onde sentimos o mar como parte de nossas vidas. O nosso intuito com isso é também óbvio: trazer para a esfera pessoal, da nossa vida diária, os oceanos. Mostrar o quanto eles estão próximos da gente. A sobrevivência saudável dos mares do mundo depende do quanto a gente se importa com eles hoje - e para se importar, precisamos estar conectados de alguma forma.

Algumas pessoas abraçaram essa aventura de compartilhar sua conexão com o mar - nós do Faça agradecemos de coração pela disponibilidade e torcemos para que outras pessoas valorizem também esta conexão. Percebam em cada texto o quanto o mar se faz presente em nossas trajetórias de vida.

Já contaram suas histórias:

- Alexandre Inagaki: O mar e eu
- Allan: O oceano dentro
- Camila Castro: Cruzeiros, e o preço que o planeta paga
- Carioca: Tanto mar
- Ery Roberto: O velho e o mar
- Flávia LadyRasta: O mar quando quebra na praia é bonito, é bonito
- Gabriel: De barquinho, pelo grande mar
- Georgia: Dia do Oceano
- Issana: O mar, quando quebra na praia...
- Lúcia Freitas: Mar de histórias, histórias do mar
- Lucia Malla: O mar em mim
- Luma: Um mar de histórias
- Lunna Guedes: A procura de casa
- Marcia: A Lagartixa e o Mar
- Mari Amorim: Mar de histórias - uma viagem pelo oceano...
- Maria Augusta: Navegando...
- Paula Belmino: Nasci no mar
- Ronaud: Outono na Praia Brava em Itajaí


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- Se você contou sua história e não está aqui linkado, por favor deixe um comentário nos avisando para acrescentarmos.

Dia 08 de junho, próxima segunda-feira, é o dia mundial dos oceanos. A proximidade da data com o dia do meio ambiente não deve ser coincidência, mas fato é que, cansados de tanta discussão sobre ambiente, a gente termina deixando de lado o dia 08 - e com isso, perde-se uma chance de ter mais pessoas conversando sobre o mar.

Sabemos que os oceanos são o suporte da vida no planeta - "sem o azul, não há verde", lembram? E sabemos que os mares vêm sofrendo um "desgaste" incomparável nas últimas décadas, com poluição, sobrepesca, aquecimento global... e mais uma lista enorme de outros problemas. Quase todo dia eu leio/comento/ouço um novo problema envolvendo os oceanos. A ladainha é sempre a mesma. É triste, confesso.

Para mudar um pouco o ritmo desse maremoto de más notícias - e mostrar o quão precioso para as nossas próprias experiências de vida o mar é - convido a todos para celebrarem o dia 08/junho de uma forma bem diferente. Podem chamar de blogagem coletiva; prefiro chamar de "um mar de histórias".

A "viagem" é: cada um conta em seu blog uma história/caso/causo/momento/evento/reflexão que teve em sua vida em que o mar esteve como cenário ou personagem, de uma forma positiva/bem-humorada/animadora. Uma história pessoal; o oceano "incorporado" ao indivíduo. Vale tudo: desde um passeio de barco que você curtiu até a primeira vez que viu o mar. De uma ação para proteger uma espécie em que você tomou parte a um domingo na praia que foi inesquecível para você. Porque acho que tão importante quanto denunciar/reclamar/choramingar pelos problemas que vemos hoje nos oceanos (algo que eu já faço quase todo dia aqui no blog e na vida real), é mostrar o quanto ele está perto das nossas experiências pessoais, lembrarmos do quanto ele também faz parte da nossa história de vida. Afinal, a gente cuida melhor daquilo com o qual nos "conectamos" de alguma forma, não é mesmo? É um exercício quase terapêutico.

Vamos agregar as histórias que os amigos e participantes enviarem entre dia 05 e 08 de junho e listar num post na segunda-feira. Convidamos então quem quiser participar a entrar nessa onda, compartilhar a sua história, compartilhar a sua história. (E se quiserem repercutir, fiquem à vontade, agradecemos antecipadamente de coração.)

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- Recentemente, o NYTimes fez uma reportagem enorme sobre os erros das campanhas ambientais, sobre essa falta de conexão com a realidade das experiências de cada um. O texto, enviado pelo Guto, é extremamente interessante e foi o que inspirou a lembrar da data desta forma. Recomendo a leitura.

Vi a Ginnie pela primeira vez lá no Instituto de Biologia Marinha do Havaí. Sentada na bancada, parecia muito compenetrada em seus experimentos, com vários tubinhos enfileirados. Não a incomodei. Ao sair do lab, fiquei sabendo que ela trabalhava num projeto bem diferente e único sobre criopreservação de corais e que, além de tudo, era DJ nas horas vagas. A curiosidade tomou conta de mim: escrevi para ela e propus uma entrevista pro blog, onde ela contasse mais um pouco sobre suas pesquisas, compartilhando aqui com mais pessoas suas descobertas e elocubrações. Eis então minhas perguntas e as respostas da Ginnie Carter, bióloga e DJ. Como faço de costume com convidados estrangeiros, a entrevista está publicada também em seu original em inglês, de modo que minhas lambanças de tradução sejam passíveis de conserto, por quem as detectar, nos comentários.

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Ginnie Carter

- Conte um pouco sobre você: como se interessou pela carreira de bióloga?

Ginnie: Eu cresci numa fazenda de cavalos na Virginia e sempre amei todos os animais. Também passei boa parte dos meus verões em San Diego, CA, visitando meus avós, e ia ao Zoológico de San Diego, ao Wild Animal Park e ao SeaWorld todo ano. Sempre fui atraída pela vida marinha em particular. Quando eu estava no último ano de colegial, tínhamos que fazer um estágio como requisito para a formatura, e eu escolhi fazer o meu no Aquário do Tennessee, em Chattanooga (TN), que é o maior aquário de água doce do mundo. Antes do meu estágio, eu pensava que era mais interessada em sistemas marinhos que de água doce, mas terminei realmente me apaixonando pelos peixes de água doce durante aquele período. Esta experiência me animou a entrar na faculdade de Ciências de Pesca na Virginia Tech. Depois do curso, sabia que iria querer uma pós-graduação, e achei que teria uma perspectiva mais abrangente se entrasse num programa mais voltado para a biologia em si. Então fiz meu curso na Universidade do Kentucky, estudando aspectos olfativos de reprodução e côrte em peixes.

- O que te levou a estudar corais?

Ginnie: Eu nunca realmente "planejei" estudar corais, já que estava mais interessada em peixes, mas terminei vindo parar no Havaí como uma serendipidade no meio do meu período planejado na Universidade do Kentucky. Eu estava trabalhando no PhD, mas meu orientador precisava se mudar para Taiwan. Aconteceu então que eu havia executado um projeto paralelo com uma professora visitante que era do tamanho exato para escrever como uma tese de Mestrado; então fiz isso, e consegui o título de Mestre ao invés de Doutora. Meu orientador conhecia a Dra. Mary Hagedorn, mas achava que ela ainda estava trabalhando no Zoológico Nacional de Washington, D.C.. Na realidade, ela estava já no Havaí, e ficou feliz em me aceitar como sua assistente aqui. Nossa pesquisa aqui tem duas vertentes, nós trabalhamos com corais, mas também trabalhamos com peixes. Então originalmente eu tinha em mente trabalhar mais com peixes no Havaí, mas desde então comecei a curtir o trabalho com os corais tanto quanto.

Ginnie and Dr. Hagedorn diving
Ginnie e a Dra. Hagedorn trabalhando com corais-cogumelo no Havaí.

- Recifes de coral são bem sensíveis às mudanças no ambiente, como temperatura, pH, etc. e sabemos que podem ser afetados pela atividade humana. Na sua opinião, qual área de pesquisa precisa ser priorizada para entendermos este fenômeno?

Ginnie: Esta sempre parece uma questão difícil para mim, priorizar o foco de "salvar o planeta". Sem parecer que quero me livrar da questão, acho que é realmente importante nesse momento de crise crescente que percebamos a necessidade de colaboração entre os diferentes ramos, não só da ciência dos corais em particular, mas da ciência em geral. Cada mudança ambiental, se causada ou não pela atividade humana, é quase sempre ligada a um outro fator ambiental, como temperatura, pH e ciclo do carbono. Estes fatores podem afetar diferentes aspectos da biologia e fisiologia do coral e estas coisas podem afetar a ecologia de todo o ecossistema do recife de coral. É importante que as pessoas trabalhem juntas para conseguirem uma idéia geral do que pode ser feito e do que deve ser feito. Um bom exemplo disto vem do trabalho que a Dra. Hagedorn e eu nos envolvemos em Porto Rico. Nós viajamos para lá nos últimos verões para aplicar algumas das técnicas de criopreservação que aprendemos com os corais saudáveis do Havaí em espécies ameaçadas de coral lá. Entretanto, quando a gente vai para Porto Rico, trabalhamos com um grande time de aquaristas de zoológicos e aquários ao redor do mundo que vêm aprendendo quais são os requisitos necessários para que esses corais ameaçados sobrevivam e cheguem à juventude, além de outros pesquisadores de genética populacional dos corais restantes fora do recife, de forma que todos os aspectos se encaixam ao fim em prol da restauração prática dos recifes de Porto Rico, em uma ação conjunta que esperamos que comece nesse próximo verão. Eu não me canso de enfatizar o quão importante colaborações assim são para determinar o que pode ser feito para salvar os recifes de corais e o nosso planeta.

- No seu projeto de pesquisa, você está tentando fazer criopreservação de espécies de coral. Por que criopreservar é importante? O que você conseguiu até agora com a sua pesquisa?

Ginnie: Eu imagino que, idealmente, criopreservação de corais não deveria ser tão importante. Sei que soa estranho falar assim, considerando o trabalho que nós fazemos, mas o que eu quero dizer com isso é que numa situação ideal, os corais do mundo estariam em perfeita saúde e não precisariam ser guardados num banco genético desta forma. Para esclarecer, quando nós falamos sobre criopreservação de corais, ou de qualquer organismo para esse fim, significa que algumas partes do seu material genético, em geral esperma ou embriões ou linhagens celulares, estão congeladas em temperaturas super-baixas para preservar o material genético. Estes métodos existem há algum tempo e em lugares como o Zoológico Nacional e o USDA, material genético importante já tem sido crioguardado. Para algumas espécies, como as importantes para a agricultura ou para a medicina, o material é mantido para uso futuro dos humanos. Por exemplo, nossa outra linha de pesquisa lida com padronização do esperma de peixe-zebra [n.ed.: ou paulistinha, Danio Rerio]. Peixe-zebra é um importante modelo na pesquisa biomédica e possui diferentes linhagens. Manter estas linhagens vivas pode ser caro, então se pudermos criopreservar em um banco genético as mesmas, isto reduz o custo e ainda permite que as linhagens sejam reconstituídas e usadas no futuro. Corais, por outro lado, precisam ter seu material genético guardado desta forma porque estão ameaçados no ambiente natural. Este tipo de banco genético age como uma apólice de seguro, garantindo que se uma espécie de coral é extremamente reduzida na natureza, ainda haja material genético disponível dela caso precisemos no futuro restaurá-la, um processo entretanto que ainda precisa ser melhor elaborado. Isto é o que quero dizer quando acho que seria legal que minha pesquisa não fosse importante, porque eu espero que os corais do mundo possam ser salvos antes de termos que usar um material criopreservado para poder trazê-lo de volta da beira da extinção.

Neste momento, nós somos o único laboratório no mundo trabalhando com criopreservação de coral. Já conseguimos bons resultados, sendo capaz de criopreservar esperma de corais. Na realidade, esperma de espécies ameaçadas de coral com as quais trabalhamos em Porto Rico já foram armazenadas em diversas instituições nos EUA e na Europa.

- Quais são as limitações da técnica de criopreservação na atualidade?

Ginnie: Corais têm se mostrado bem difíceis de serem criopreservados. Como disse acima, nós somos capazes de congelar o esperma do coral, mas as técnicas ainda precisam ser otimizadas. Muitos fatores estão envolvidos, da taxa de congelamento à taxa de derretimento passando pelos químicos fortes onde você os congela. Nós trabalhamos tentando congelar a larva do coral, mas o processo para fazê-lo tem se mostrado bem laborioso e até agora ainda estamos nas tentativas. E nós também temos planos de tentar preservar células-tronco de coral.

- Quais são seus principais interesses fora da ciência e dos corais?

Ginnie: Fora da ciência, meus interesses são bem diversos. Quando não estou no laboratório, eu "toco" Drum & Bass e promovo alguns eventos em clubs aqui em Honolulu. Isso ocupa a maior parte do meu tempo livre. Também voluntario para a Terapia Equestre do Havaí, que é uma organização muito legal que usa cavalos como ferramenta para melhorar o corpo e a mente de crianças e adultos com diversos problemas físicos e mentais. Estando no Havaí também tento ir à praia quando dá, e até surfo um pouco.

- Sua mensagem final para os leitores.

Ginnie: Tente ser consciente do planeta em sua rotina diária. Pode ser difícil às vezes enquanto estamos ocupados e queremos nossas conveniências, mas qualquer pequena coisa que você possa fazer ajuda. Como eu disse em minha resposta sobre tentar priorizar áreas de pesquisa, todo mundo tem que trabalhar junto em tudo que acontece agora. Não é suficiente focar em reciclagem e esquecer da poluição atmosférica. Tudo precisa ser considerado, e manter isto em mente, de que cada pequeno ato que as pessoas fazem para ajudar pode ser tão importante quanto tentar criopreservar larvas de coral. Vamos todos trabalhar juntos para elaborar um planeta em que os corais vivos que temos agora em nossos oceanos possam se recuperar e florescerem, e que os corais que a gente criopreserva não sejam nunca requisitados.

- Obrigada, Ginnie, pela entrevista! :)

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[English original, here.]

Esta é a pergunta que Sylvia Earle, oceanógrafa vencedora do prêmio TED 2009 e consultora do Google Earth para a nova camada Oceans, deixa a entender para todos em sua palestra, que posto aí abaixo. A pergunta leva em consideração que os mares são o "coração" da vida no planeta, o "elemento" primário que mantém o sistema funcional como um todo.

Sylvia cita em dado momento o poeta W. H Auden, que disse certa vez:

"Thousands have lived without love, not one without water."


("Milhares viveram sem amor, ninguém sem água")


A palestra está em inglês, tem cerca de 18 minutos, e mostra imagens que fazem um bom apanhado geral do status dos oceanos na atualidade.

(Via FiNS no twitter.)

UPDATE: Xará legendou o vídeo lá no blog dela, viva!!!

Na fila da padoca, ontem à noite, fiquei na dúvida entre comprar um azeite na promoção e a última edição da Superinteressante, que traz na capa a atual situação deplorável dos oceanos do planeta. Acabei optando pela revista, o que acabou sendo uma boa escolha, não pela matéria de capa, que nada mais é do que um grande cozidão do que vem se falando sobre o tema há meses (quiçá anos). Folheando o material hoje de manhã, o que mais me chamou a atenção foi a entrevista com Tim Jackson, professor de desenvolvimento sustentável da Universidade de Surrey, em Londres, primeira instituição da Inglaterra a criar um departamento específico sobre o tema.

Jackson afirma categoricamente que o crescimento ininterrupto da economia global (um dos pilares do capitalismo moderno) é imcompatível com a sustentabilidade do planeta. Não é comunista, nem petralha, nem antiamericano, apenas mais um da crescente geração de pessoas que acredita num outro mundo possível, sob as regras da economia verde. Já foram ridicularizadas e agora são atacadas. Falta pouco para que sejam consideradas arautos do óbvio.

Enquanto governos e iniciativa privada não se mexem e continuam dando de ombros para o que se avizinha, como vimos em Poznan ou Marraquesh, cabe a nós, indíviduos tomarmos medidas diárias, pouco a pouco, pra ver se lá na frente algo muda. Alguns passos básicos, segundo Jackson, são:

Comprar menos, ser mais eficiente no uso da energia, viajar menos de carro e avião, economizar, fazer investimentos éticos e protestar!

Se for pra ir pro saco, que seja de botas calçadas!

(Este foi meu 100o. post no Ecoblogs!)

Um dos dilemas no mundo surfista é o fato de que, em geral, os praticantes deste esporte têm uma relação com a natureza muito íntima (muitos são defensores do meio ambiente fervorosos), mas para conseguirem se manter de pé em suas pranchas e cortarem perfeitamente as ondas, precisam se "grudar" sobre a prancha com parafina, um material derivado do petróleo e altamente tóxico ao ecossistema marinho.

Surfistas protegem e poluem ao mesmo tempo; uma contradição, certo?

Não mais. A empresa brasileira Go Green Surf desenvolveu a "parafina ecológica", feita basicamente com cêra de abelha e extratos florais, numa embalagem feita de papel reciclado e com cola de mandioca. Em 4 versões, de acordo com a temperatura da água em que você vai cair: água quente, água morna, água fria e água gelada. Mas há no site da empresa dicas de uso para que ela fique ainda mais firme em qualquer condição de água.

Já dá pra garantir altos cutbacks na próxima temporada de ondas sem poluir o mar. Surfe verde, aloha!

(Vi a notícia lá no blog Alohapaziada, do Maurio Borges, num post que comentava também sobre a parafina ecológica americana Matunas, feita com mel, baunilha, melancia, jasmim e morango. Não interessa a nacionalidade, o que importa é surfar verde.)

A Califórnia segue dando o exemplo. A Comissão de Proteção ao Oceano do estado americano está propondo três medidas para reduzir a quantidade de lixo que acaba poluindo o mar: banir as embalagens de isopor para alimentos, cobrança de taxas para o uso de sacolas de papel e/ou plástico, e (a principal delas, a meu ver) tornar os fabricantes responsáveis pela coleta e reciclagem das embalagens de seus produtos. É isso ou ver o mar se transformar numa imensa sopa de lixo!

Segundo a Comissão, essa última exigência já funciona em 33 países no mundo, encorajando a redução de material usado, reduzindo o peso final dos produtos, permitindo o uso de materiais recicláveis e obrigando os fabricantes a redesenharem seus produtos e embalagens. Na Alemanha, após quatro anos do início do programa, o lixo produzido por embalagens foi reduzido em 14%. É pouco ainda.

As empresas são contra, claro. Dizem que é melhor incentivar a reciclagem e ameaçam com desemprego. O velho discurso da indústria, mesquinha toda vida. Reciclar é bom, mas produzir menos lixo é ainda melhor. Reciclar gasta muita energia e recursos materiais e humanos. Ninguém em sã consciência acha confortável a quantidade de papel, plástico, isopor e quetais que acompanha um brinquedo, TV ou aparelho de som recém-comprado na loja. Repara só na pilha de lixo que se forma no Natal após a abertura dos presentes. É vergonhoso!

Lixo é um dos grandes problemas mundiais do século 21.

Pra mim, toda e qualquer empresa deveria ser responsável pela coleta e correta eliminação do produto que fabricou, seja uma embalagem, celular ou carro. Haveria exceções, claro - móveis por exemplo. Medidas como essa evitariam absurdos como a exportação de lixo eletrônico para países de Ásia, causando a intoxicação de milhares de pessoas.

O rápido avanço da tecnologia tem sido de mão-única, com o desenvolvimento de produtos cada vez mais modernos e eficientes, mas o uso de substâncias tóxicas na sua fabricação e a falta de preocupação com o seu destino final - o lixo - põe tudo a perder. Sem falar na tal obsolescência planejada...

Veja o caso dos Estados Unidos: em fevereiro do ano que vem, com a adoção da TV digital por lá, estima-se que cerca de 10 milhões de aparelhos antigos sejam dispensados no país, gerando um problema monstro. Apesar disso, poucas empresas têm programas amplos de reciclagem para atender a essa demanda e evitar que esse lixo contamine pessoas e o meio ambiente - provavelmente na Índia, China ou Paquistão. Para pressionar grandes fabricantes como Sony, Samsung, LG e Toshiba, entre outras, a evitarem essa catástrofe, ONGs americanas formaram a Electronics TakeBack Coalition e deram início à campanha Take Back My TV.

Os consumidores também têm seu papel nessa história toda. Na hora da compra, dê preferência a produtos que tenham pouca embalagem e que tenham sido fabricados de forma sustentável e responsável. Se informe na loja, ligue para o fabricante pelos serviços de atendimento ao consumidor, exija seu direito de saber o que está comprando. E questione sobre programas de reciclagem, principalmente de aparelhos eletrônicos. Quanto mais pessoas encherem os SACs (serviços de atendimento ao consumidor) das empresas, mais elas se sentirão pressionadas a tomar alguma medida. De tanto levar bica nas canelas, uma hora terão que se mexer.

A dica veio lá do Missão Verde, em post da Paula Sperb.

O Greenpeace México lançou um guia para quem quer levar as atitudes ecologicamente corretas para a cama. São dez mandamentos para a prática do "sexo verde".

1. Apagarás as luzes.
Grande parte da energia consumida no planeta é produzida através da queima de combustíveis fósseis. Substitua a luz elétrica por velas de cera de abelha e parafina, fica muito mais romântico. Se você não consegue transar sem ver cada detalhe do seu parceiro, faça amor à luz do dia!

2. Consumirás alimentos afrodisíacos orgânicos e não-transgênicos.
Algumas frutas são conhecidas por seu poder afrodisíaco. Que tal optar por sua versão orgânica, livre de transgênicos e pesticidas? Dê preferência a produtores locais.

3. Pouparás os seres marinhos.
As ostras e outros mariscos também são conhecidos por seu poder afrodisíaco. Entretanto, a pesca predatória está pondo em risco a vida nos oceanos. Sugere-se que você substitua essas iguarias por óleos e sabonetes biodegradáveis com aromas estimulantes, produzidos artesanalmente por comunidades cujo sustento seja obtido através de projetos sustentáveis. As ostras, eles informam, são biomonitores da poluição marinha, pois absorvem toda a contaminação da região em que vivem. Se você não abre mão dela, verifique a procedência.

4. Reciclarás os objetos do amor.
Embalagens que seriam jogadas fora podem ser decoradas com temas "sexy" e usadas para guardar os objetos da paixão: camisinhas, lubrificantes, brinquedinhos e lingerie.

5. Usarás ecolubrificantes.
"Nada melhor do que a lubrificação natural. A língua é sempre um bom instrumento para isso, mas se precisar de alguma ajuda a mais, recomendamos que nunca use lubrificantes à base de petróleo, como óleos ou vaselina. Prefira aqueles à base de água."

6. Serás escravo do amor, não do petróleo.
Se você gosta de apimentar a relação com brinquedinhos, acessórios de PVC/vinil devem ficar de fora. O PVC gera componentes químicos altamente tóxicos: dioxinas e furanos. Alguns países proibiram o uso desse material em brinquedos infantis, por ser cancerígeno. Prefira acessórios feitos de substâncias naturais como borracha, látex ou pele.

7. Economizarás água.
Um banho compartilhado ajuda a economizar a água do planeta. Mais de 500 milhões de pessoas não têm acesso à água potável e corrente.

8. Deitarás em leito sustentável.
Se estiver na hora de comprar uma cama nova, verifique se ela tem o selo do FSC, que garante a produção com madeira sustentável. Comprar o objeto usado ou feito com madeira de demolição também é uma boa pedida.

9. Farás sexo verde.
Se você curte uma prática sadomasô, veja se o chicotinho é feito de madeira certificada. Use óleo para massagem orgânico. Use roupas de baixo e pijamas feitos de algodão orgânico. O processo de fabricação e branqueamento do algodão convencional é um dos mais contaminantes que existem.

10. Farás amor, não guerra.

Para ler o texto na íntegra (em espanhol), clique aqui.

Os que acompanham o noticiário ambiental já estão carecas de saber que o mar não está pra peixe há tempos, no mundo inteiro, como esse excelente mapa do Guardian mostrou recentemente. Ou seja, morto, principalmente nas áreas costeiras.

Mas eis que leio no World Changing que alguns empreendedores de Israel, Autoridade Palestina e Jordânia se juntaram para se lançarem a um projeto complexo: ressuscitar o salgadíssimo Mar Morto. Ou seja, querem fazer o caminho reverso e trazer (quem sabe... eu sou uma otimista) um pouco de esperança aos mares do mundo à beira da morte.

O Mar Morto vem "secando" a uma taxa de quase 1 metro por ano, devido ao maior consumo da água do rio Jordão, o único rio que deságua nele. A idéia do projeto de ressuscitação é, entretanto, "simples": canalizar parte da água do Mar Vermelho para o Mar Morto. Com isso, o Mar Morto também seria um pouco diluído e a água poderia se tornar menos salgada, viabilizando até talvez mais formas de vida. Normalmente, só algumas bactérias e fungos vivem no Mar Morto. Mas se o megaloprojeto funcionar, poderíamos sonhar com um Mar Morto utilizável, pescável e navegável. Se lembrarmos que a região é bem desértica e que água já é um recurso escasso por aquelas bandas, essa tentativa soa menos surreal.

Ambientalistas, claro, acham que há soluções menos custosas e mais eficientes com menor impacto ao ecossistema ao redor, como por exemplo, melhorar as condições do rio Jordão (menos poluição, reabilitação da água do rio para a vida animal, uso da água de forma mais equilibrada pelas plantações, etc.).

Enquanto nada se decide, o Mar que já é Morto até no nome vai secando dia após dia. Sem caráter supranatural, mas com bom planejamento e criatividade, podemos enxergar a possibilidade de renascimento aqui. Inspiração para ressuscitar outras áreas mortas de mares maiores no mundo...? 

Só o futuro nos dirá.


Antes que eu me esqueça: o pessoal do Greenpeace vai fazer uma grande onda humana amanhã de manhã no Parque Villa-Lobos (SP) em defesa dos oceanos, que estão em situação deplorável. O encontro será às 9 horas ao lado do anfiteatro que fica na porta principal do parque. Apareça de azul e entre nessa onda!