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Desmatamento gera mais perdas para economia do que mercados, diz estudo

RICHARD BLACK
da BBC News

A economia global está perdendo mais dinheiro com o desaparecimento das florestas do que com a atual crise financeira global, segundo conclusões de um estudo encomendado pela União Européia.

A pesquisa, "A Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade" (Teeb, na sigla em inglês), foi realizada por um economista do Deutsche Bank. Ele calcula que os desperdícios anuais com o desmatamento vão de US$ 2 trilhões a US$ 5 trilhões. O número inclui o valor de vários serviços oferecidos pelas florestas, como água limpa e a absorção do dióxido de carbono.

O estudo tem sido discutido durante várias sessões do Congresso Mundial de Conservação, que está sendo realizado em Barcelona.

Em entrevista à BBC News, o coordenador do relatório, Pava Sukhdev, enfatizou que o custo com a degradação da natureza está ultrapassando o dos mercados financeiros globais. "O custo não é apenas maior, ele é contínuo", disse Sukhdev. "Enquanto Wall Street, segundo vários cálculos, tenha perdido entre US$ 1 trilhão a US$ 1,5 trilhão, estamos perdendo capital natural no valor de pelo menos US$ 2 a US$ 5 trilhões todos os anos".

Pobres

O relatório foi iniciado na Alemanha quando o país ocupava a presidência rotativa da União Européia, com fundos da Comissão Européia.

A primeira, concluída em maio, apontou que as perdas com a destruição das florestas equivalem a 7% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Segundo o economista, para entender as conclusões do estudo é preciso saber que à medida que as florestas são destruídas, a natureza pára de fornecer serviços que normalmente oferecem de graça.

Como conseqüência, o homem tem de passar a produzir tais serviços, seja pela construção de reservatórios ou de estruturas para seqüestrar dióxido de carbono ou áreas para o plantio que antes estavam disponíveis naturalmente. Ainda segundo os dados do Teeb, os gastos com a degradação do ambiente recaem mais sobre os mais pobres, que tiram boa parte de seu sustento diretamente da floresta, principalmente nas áreas tropicais.

Para as nações do Ocidente, as maiores gastos se refletiriam com as perdas dos elementos absorvedores naturais dos gases poluentes.

O relatório tomou como base o Stern Review, um estudo divulgado em 2006 na Grã-Bretanha, que analisa o impacto econômico do aquecimento global e afirma as mudanças climáticas podem causar o mais profundo e extenso dano à economia mundial já visto.

"Os dados divulgados no Stern Review fizeram com que os políticos acordassem para a realidade", afirmou Andrew Mitchell, diretor do Programa Global Canopy, uma organização que canaliza recursos financeiros para a preservação florestal. "O Teeb terá o mesmo valor, e mostrará os riscos que nós corremos se não os avaliarmos corretamente".

Alguns participantes do evento esperam que o novo estudo será uma nova forma de convencer legisladores a criar políticas que financiem a proteção da natureza em vez de permitir que o declínio de ecossistemas e espécies continue.

O artista plástico Mark Jenkins, autor de instigantes esculturas construídas com fitas adesivas, promoveu um divertido protesto na capital americana semana passada em parceria com o Greenpeace local, para protestar contra a falta de ação do governo Bush para frear as emissões de gases do efeito estufa. Jenkins espalhou ursos polares pela cidade com cartazes pedindo ajuda, no estilo 'sem-teto' - veja abaixo a galeria de fotos:

Há outras fotos também no Flickr e um filme da atividade no Youtube:

O urso polar entrou recentemente para a lista de espécies ameaçadas de extinção por conta dos efeitos do aquecimento global em seu habitat natural que é o Pólo Norte. Mas mesmo com a Suprema Corte americana batendo o martelo em abril de 2007 para exigir que o governo americano levasse em conta o aquecimento global como grave problema climático, Bush e companhia deram de ombros para o problema. E está claro que se John McCain e Sarah Palin forem eleitos na eleição deste ano, a tendência é termos mais do mesmo - leia aqui um pouco do histórico ambiental da candidata a vice na chapa republicana. Palin foi governadora do Alasca nos últimos dois anos (justamente a terra dos ursos polares) e defende com unhas e dentes a reabertura das prospeções de petróleo no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico - além de não acreditar que o aquecimento global seja provocado pelas atividades do homem no planeta.

Eu sinceramente não sei o que é pior: os futuros chefões do país mais poderoso do planeta fazerem pouco do aquecimento global e apoiarem a destruição de um dos últimos refúgios selvagens do planeta ou a população em geral dizer que está preocupada, mas pouco ou nada faz para mudar o status quo. E pior: coloca toda a responsabilidade em cima do governo, no bom e velho estilo de tirar o corpo fora. Os EUA e a Rússia querem explorar minérios e petróleo no Ártico, o Brasil tem o pré-sal, a França vende usinas nucleares pelo mundo como grande panacéia... é, tá difícil...

Mas vamo q vamo!

A entrevista abaixo com Hermínia Maricato, professora, arquiteta e ex-secretária de Habitação da prefeitura de São Paulo (gestão Luiza Erundina, PT), foi feita para um jornal da grande imprensa mas acabou engavetada. Como quem tem amigo não morre pagão, caiu nas minhas mãos e faço questão de publicar. Só não entendi porque o material não foi aproveitado no site do jornalão...

Maricato vai direto ao ponto: a gente dá muita atenção para soluções cosméticas, como a Lei Cidade Limpa, enquanto coisas muito mais importantes ficam em segundo plano.

A professora lembra que, enquanto brincamos de limpar as fachadas da cidade (o que na prática é totalmente falso...), mal conseguimos nos locomover, respiramos ar poluído, bebemos água podre e ignoramos a situação de 1 milhão de pessoas que moram em favelas construídas em áreas de proteção ambiental simplesmente por não terem onde morar na cidade. Priorizar a retirada de anúncios das fachadas no meio de tudo isso é "ridículo", diz Maricato.

Como é ridícula também a falta de coragem dos políticos de tomar medidas duras para resolver alguns desses problemas. Veja o Kassab, por exemplo: ensaiou o envio de um projeto de lei à Câmara Municipal de SP instituindo o pedágio urbano na cidade, como parte da Política Municipal de Combate às Mudanças Climáticas, mas já desistiu - em ano de eleição, provavelmente ficou com medo de perder votos dos milhões de motoristas paulistanos. Faz tempo que acho que a medida é uma das melhores medidas para diminuir o tráfego de automóveis particulares pela cidade - juntamente com o rodízio ora em voga. Em Londres rola desde 2003.

Mas enfim, vamos à entrevista:

A professora e arquiteta e ex-secretária da habitação da prefeitura de São Paulo na gestão Luiza Erundina (PT), Hermínia Maricato fala nessa entrevista sobre a Lei Cidade Limpa de São Paulo. Segundo ela, é ridículo a cidade colocar essa limpeza como prioridade enquanto outras limpezas, como a do ar e da água, e outras necessidades, como a mobilidade, ficam em segundo plano.

No começo deste ano Hermínia lançou o livro "Brasil, Cidades: Alternativas para a Crise Urbana", publicado pela Editora Vozes. Ela é professora da Faculdade de Arquitetrua e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP).

Como a sra. avalia a Lei Cidade Limpa?
A questão vista isoladamente evidentemente é muito virtuosa. A lei se propõe a fazer uma despoluição visual na cidade, na paisagem urbana. E é interessante. Claro que, até mesmo olhando isoladamente, nós não deveríamos nos ater apenas aos anúncios, mas a toda instalação elétrica, que é ultra poluidora, à quantidade de fios, postes, o próprio calçamento, enfim normatizar um pouco muros, cercas, calçadas. O problema é quando, no contexto da cidade, essa lei ganha prioridade. É simplesmente ridículo.

Por que ridículo?
Porque você tem metade da cidade na ilegalidade. Então ele é um programa por excelência que segue uma orientação na gestão urbana no Brasil, que dialoga com a cidade legal, com a cidade da elite, com a cidade formal. Quando você tem metade da cidade na ilegalidade, acho que é preciso discutir como vai se aplicar a lei. Como você vai aplicar a lei só nas fachadas e numa parte da cidade? E se tenho 10% da população morando em favelas, por exemplo.

Mas aí questão não se torna mais difícil, mais complexa?
Claro que é uma tarefa complexa. Não é uma tarefa para uma gestão. Mas quando nós vamos ter uma lei efetiva em cidades como as nossas? Porque torná-la efetiva apenas nas fachadas, apenas em relação aos anúncios? Eu diria que é um governo de fachada, uma sociedade de fachada. Não que a gente não deva se preocupar com as fachadas. As fachadas são importantes em várias cidades do mundo e também no Brasil. Se você for para São Luiz do Paraitinga, existe uma recuperação que aumenta a auto-estima dos moradores, não só recuperação de fachada. A recuperação de fachada na França é matéria constitucional.

As fachadas são importantes mas há outras questões mais importantes?
Não quero dizer que isso não é importante, que não é objeto de uma política pública. Mas é ridículo quando isso é a prioridade. Principalmente em uma cidade onde os mananciais estão ocupados por uma população gigantesca, mais de 1 milhão de pessoas, morando em áreas de proteção ambiental simplesmente porque não conseguem morar na cidade. E a prefeitura está tendo uma atitude muito ruim com esses moradores porque ela está derrubando as casas e acusando-os de crime ambiental. Crime ambiental é da sociedade, que não provisionou essa população de moradia, que não tinha onde morar e acabou indo para os mananciais. Crime ambiental todas as gestões fizeram na hora que permitiram que essa população se instalasse ali. E ali o poder de polícia sobre o uso do solo é de diversas entidades dos governos federal, estadual e municipal. Então, quem cometeu o crime ambiental não é o sujeito, coitado, que está morando lá, em condições muito ruins, por sinal. A discussão, então, é um programa evidentemente classista. É uma visão da cidade de que a prioridade é cuidar das fachadas.

Nessa visão que a sra. critica a beleza, a limpeza, fala mais alto?
Não é propriamente beleza. Se você pega o exemplo do Time Square de Nova York, do qual todo mundo fala, é uma poluição bárbara. Agora, é um padrão. Um padrão que seria impossível em São Paulo com essa tolerância zero aí. Precisa ficar muito claro isso: essa lei não está sendo aplicada na cidade toda. Até porque se eu considerar uma parte da cidade, não são os anúncios que estão ilegais, são as ruas, as casas, tudo... É tudo! Se não encara essa fratura urbana, vai encarar o quê? A limpeza das fachadas? Mesmo considerando que ela é necessária. Não estou de forma alguma dizendo que ela não é importante, não é necessária. O que estou dizendo é que é um absurdo ela se tornar a prioridade e você não discutir as questões de fundo. Aliás, em uma cidade onde não se consegue nem respirar e onde a questão dos automóveis não está sendo enfrentada. E ela, sem dúvida, é uma prioridade.

Na visão da sra. a prioidade de São Paulo é outra?
Sim, a questão da mobilidade na cidade. A mobilidade por meio do automóvel é predominante. E isso novamente não é tarefa de uma gestão. Mas se essa sociedade e esses governos não encararam o problema da matriz baseada na circulação automobilística, essa cidade está absolutamente condenada. Aliás, moro aqui e está cada vez mais insuportável. Como você estabelece prioridades?

A cidade é limpa nas fachadas mas não cuida da limpeza do ar que respira?
Do ar que você respira! Da água que a gente bebe! Dos mananciais que estão ocupados por mais de 1 milhão de pessoas! É incrível essa nossa capacidade de botar a cabeça em um buraco que nem um avestruz e ignorar os problemas centrais. Incrível! E todo mundo bate palma! 'Tá bom, mas pelo menos...' Não tem pelo menos! Tem coisas que são prioritárias. São delas que nós temos que cuidar como prioridade. As fachadas nós vamos cuidar com a importância que elas têm.

A sra. acredita que o prefeito pode usar esse projeto Cidade Limpa como candidato à reeleição?
Ele usa muito. Foi um programa que fez um sucesso. E, diga-se de passagem, várias gestões tentaram aplicar a lei de anúncios e não conseguiram. Acho a lei exagerada. Não é necessário uma intolerância tão grande para que a paisagem urbana fique despoluída. Estou na rua e vejo, na mesma esquina, um poste de iluminação, um postinho que dá suporte às placas com os nomes das ruas, um outro postinho que sustenta a placa do trânsito, tudo isso na mesma esquina. E cheio de fios. Quer dizer, então está bom, vamos tentar começar um processo de despoluição não só dos anúncios. Realmente, é uma coisa de factóide mesmo e marketing. A despoluição é necessária, mas nem ela foi levada muito a sério.

Mas esse 'factóide', essa peça de 'marketing', como a sra. classifica, tem virtudes?
Não há dúvida de que há uma virtude no foco da coisa. Mas nós temos que abrir esse foco e falar: 'bom, em que nós temos que jogar nossa energia?' Diria que a questão da mobilidade em São Paulo é a número 1. Já tem técnico hoje fazendo cálculo do prejuízo para toda a sociedade. O fato é que esse prejuízo é distribuído. São as horas paradas das pessoas, profissionais, nos transportes. O preço de todo o suporte de ruas, de recapeamento, de sinalização de trânsito e, principalmente, como alguns professores da USP, meus colegas, estão apontando, o problema do custo na saúde. Nos dias piores os hospitais se enchem, principalmente de crianças e pessoas da terceira idade, porque o ar está irrespirável na cidade. Tenho um jardim com horta em casa e é impressionante. Você pega uma folha de couve, ela está coberta, negra. Se eu não regar, cuidar, aquilo vira uma casca em cima da planta. E é isso que vai para os nossos pulmões. E ainda tem os acidentes, que diminuíram mas ainda continuam muito altos... Os custos com combustíveis... Que contribuição estamos dando para o planeta? O que é mais importante? Alguém pode falar: 'mas ele está fazendo outra coisa, fez isso pelas fachadas'. Então, a lei dos anúncio adquiriu principalidade.

Demorou mas Rex Weyler enfim atualizou sua série sobre as origens do ativismo, ambientalismo e do Greenpeace, publicando dois novos textos no site do grupo. E que textos!!

Estamos no limiar de grandes mudanças de paradigmas de desenvolvimento e sociais, e o que Rex faz com propriedade é nos alertar para estarmos preparados. Ou nos mexemos agora, priorizando a sustentabilidade, o consumo responsável e o respeito ao meio ambiente, ou vai ser um baita barata-voa no meio do caos.

O primeiro texto, O Fim do Preço (aqui a íntegra, em inglês), começa assim, numa tradução livre minha:

Nos anos 80, pescadores capturaram a última beluga no Mar de Azov, fonte do valioso caviar, e o peixe selvagem do Mar Cáspio fracassou em se reproduzir. A captura desse tipo de peixe despencou em 95% e o custo do caviar disparou. Tal crescimento extraordinário no preço é conhecido como 'hiperinflação', ou como o economista Eric Sprott diz, "a síndrome do caviar".

Isso pode soar trivial, mas a hiperinflação se torna crítica quando se trata de commodities como óleo, gás, cobre, zinco, água ou madeira, todas elas cada vez mais raras em escala global. A civilização industrial já prospectou o melhor e mais acessível desses recursos. Belugas podem se recuperar se deixarmos elas em paz, mas cobre e óleo não se reproduzem.

Conforme a humanidade vasculha as regiões mais inóspitas do planeta por recursos, entramos em um novo período histório em que algumas commodities vitais não mais terão seu tradicional preço de mercado ligado à demanda, mas sim ao custo do acesso a elas.


Vale ressaltar um outro trecho do primeiro texto:
Os custos ambientais e sociais de se fazer negócios nunca aparecem nos orçamentos operacionais de empresas bilionárias. Dinheiro público e lagos tóxicos não aparecem nos balanços financeiros. Por que? Porque não seria rentável. Investimentos do setor público e da natureza não ganham opções de ações, apesar dos magos do mercado livre precisem desses investimentos para evitar o choque contra a parede. A estratégia do mercado livre para evitar o muro é: socializar os custos, privatizar os lucros.

E para garantir os recursos necessários para a vida perdulária que vivemos hoje, os países estão dispostos a partir pra porrada. Ou, segundo as palavras de Zhng Wenmu, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais Contemporâneas da China, citado por Weyler, "uma grande potência é aquela que controla mais recursos e nunca houve um caso na história onde isso é obtido por meio da paz."

E conclui:

Vemos agora que nossas economias galopantes dependem de dívidas enormes, guerra, abuso, desperdício. Os rios morrem, espécies são extintas, florestas desaparecem, desertos crescem e pessoas sofrem. Esse estado das coisas sinaliza uma disfunção social em escala global. O mundo industria revela um comportamento sociopata e 'ecopata'. Cidadãos inocentes às vezes parecem traumatizados, mesmo quando fazem o seu melhor para permanecerem otimistas e aplicam soluções criativas.

Daly, Henderson, Ayers, Mark Anielski, Nicholas Stern e muitos outros economistas descreveram teorias econômicas mais acuradas que reconhece o valor natural e a autêntica qualidade de vida. O que a sociedade tem que aprender é:

A ecologia é a economia.

Tudo que usamos, toda inovação tecnológica, todo empreendimento humano ou simples prazer depende do planeta. Economistas ignoram a ecologia, para o nosso perigo. O fim do preço convencional coloca a ecologia e a natureza em perspectiva apropriada: não tem preço.


No texto mais recente, Pico do Petróleo Muda Tudo (aqui a íntegra, em inglês), Rex discorre sobre as mudanças que teremos na moderna sociedade de consumo devido aos custos cada vez mais altos dos recursos naturais e energéticos (petróleo, por exemplo) necessários para prover economias em desenvolvimento como Brasil, China e Índia.

Ou nas palavras dele:

Pico do óleo não é uma teoria, mas uma simples observação de uma ocorrência comum natural. Pico do óleo é apenas um sintoma de um crescimento populacional exponencial, com demandas exponencialmente crescentes, alcançando os limites mundiais de todos os recursos.

"O pico do óleo tem sido uma realidade há tempos para a indústria do petróleo", afirma Anita M. Burke, ex-consultora da Shell sobre Mudanças Climáticas e Sustentabilidade. Em 2007, Dr. James Schlesinger, ex-secretário americano de Defesa e Energia, afirmou: "Se você conversa com os líderes da indústria, eles admitem... estamos enfrentando um declínio dos combustíveis líquidos. A batalha terminou."

E o que vem por aí?

A era pós-pico do óleo vai requerer novos padrões de desenvolvimento humano e estratégias que se alinhem aos limites do crescimento. A humanidade não tem novos continentes para explorar ou planetas para ocupar. Nações industriais podem perfurar o Ártico e cavar em areias sujas de alcatrão, mas nada disso vai aumentar ou mesmo equiparar a abundância passada de combustível líquido barato que já consumimos. No entanto, o atual momento em que a produção de óleo chega a um teto é menos relevante do que nossa preparação para o impacto...

... Nossas economias foram construídas com óleo barato. Desenvolvimento mal planejado deixou para trás florestas arrasadas, lagos tóxicos, erosão do solo, espécies perdidas para sempre, ar poluído, rios mortos, aquíferos contaminados e desertos em expansão.

A solução? Algumas dicas:

Relocalizar: Pensar globalmente, consumir localmente. Se vai estudar finanças internacionais, talvez seja interessante fazer alguns cursos de permacultura também.

Preservar fazendas: Cidades dependem da produção de alimentos e por isso é uma boa idéia ter fazendas por perto. Canberra, capital australiana é assim: fazendas ficam entre os bairros! Alguns parques também.

Mudança no padrão da comunidade: Toda distribuição da atividade pública, espaço público e áreas residênciais devem ser adaptadas para o uso de menos combustível e consumo de recursos.

Espaços urbanos verdes e produtivos: Mais áreas verdes, mais transporte público, mais ciclovias.

Viva o transporte público: Automóvel só para o essencial. Mesmo. Para muitas coisas, é melhor andar, ir de bicicleta, pegar um ônibus ou trem. Cidades inteligentes têm que ser planejadas para evitar ao máximo o deslocamento motorizado.

100% de reciclagem: A natureza recicla tudo. Nós também podemos. É possível viver num mundo sem lixo. Experiências nesse sentido já podem ser vistas no Japão e na Escócia, por exemplo.

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Estamos na reta final das eleições americanas e o mundo está atento ao que os dois candidatos têm proposto para o meio ambiente. Afinal, os EUA são o maior poluidor do planeta e passaram os oito anos da administração Bush ignorando os apelos mundiais por respostas diretas ao desafio das mudanças climáticas. Mas vendo as propostas dos dois candidatos, está claro que isso deve mudar.

O que diz Barak Obama?

Seu plano está totalmente focado no estabelecimento de metas. Quer redução de 10% nas emissões de CO2 dos veículos até 2020 e mais 1% por ano a partir daí. Todas as empresas terão que comprar permissões de CO2, para levantar recursos a serem investidos em energia limpa. Prevê a redução das emissões de CO2 do país em 80% até 2050 (que é a mesma posição dos cientistas do IPCC da ONU). As empresas terão também que usar 25% de energia renovável (solar, eólica e geotérmica, entre outras) até 2025, prevendo investimento de US$ 150 bilhões por parte do governo nos próximos 10 anos nessa área (Al Gore acha que dá pra ser mais ambicioso).

E McCain?

Evita falar em metas e muito menos em novas taxas para empresas, deixando praticamente tudo nas mãos do mercado. Em vez de impôr mudanças aos fabricantes de carros e produtores de energia, propõe redução de taxas para consumidores de carros com baixa emissão de CO2 e pretende oferecer um prêmio de US$ 300 milhõespara quem inventar a bateria de carro do futuro, que não polua. Não cita, em seu programa de governo, qualquer incentivo às energias renováveis. Mas aposta na icógnita do carvão limpo e adora nuclear: quer mais subsídios a essa indústria, propondo a construção de 45 novas usinas até 2030.

As cartas estão na mesa.

Chegamos ao fim do Ciclo de Debates Ambientais do Faça a sua parte. Em 24 dias, procuramos pensar e debater sobre as questões do meio ambiente. Uma proposta que esperamos possa ter contribuido, junto a tantas outras, para despertar a consciência sobre a necessidade de preservarmos nosso lar, esse planetinha que ainda é o único que temos nesse imenso universo.

Ao falar sobre mar, agricultura, consumo, aquecimento, educação, florestas, tecnologia, cerrado, política, biodiversidade, culpa, e tantas outras preocupações (os posts podem ser acessados na categoria "Debates Ambientais"), uma única certeza nos resta: seja com que intensidade for, o fato é que estamos destruindo a natureza. 

A proposta do Faça a sua parte é simples: é pelo somatorio das pequenas ações individuais que conseguiremos, se não anular, ao menos minimizar os impactos do homem na natureza. Daí a razão da blogagem coletiva no Dia Mundial do Meio Ambiente: quanto mais pessoas escrevendo em seus blogs, maior o número de pessoas que vão sendo tocadas pela necessidade de fazerem a sua pequena, porém importante, parte.

A equipe de colaboradores do Faça a sua parte agradece a todos pela leitura e participação nos comentários.

Mas não paramos por aqui. Continue nos visitando, lendo e comentando.

Somos uma sociedade de consumo onde ter é mais importante do que ser. Uma sociedade descartável. E que será descartada se não aprender a consumir de forma mais consciente.

Este é o sétimo princípio da Carta da Terra:

"7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário.
a. Reduzir, reutilizar e reciclar materiais usados nos sistemas de produção e consumo e garantir que os resíduos possam ser assimilados pelos sistemas ecológicos.
b. Atuar com restrição e eficiência no uso de energia e recorrer cada vez mais aos recursos energéticos renováveis, como a energia solar e do vento.
c. Promover o desenvolvimento, a adoção e a transferência eqüitativa de tecnologias ambientais saudáveis.
d. Incluir totalmente os custos ambientais e sociais de bens e serviços no preço de venda e habilitar os consumidores a identificar produtos que satisfaçam as mais altas normas sociais e ambientais.
e. Garantir acesso universal à assistência de saúde que fomente a saúde reprodutiva e a reprodução responsável.
f. Adotar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e subsistência material num mundo finito."

E o que cada um de nós pode fazer para fomentar o consumo consciente? Comecei a pensar em uma lista de regras para o consumo consciente, e adoraria que vocês dessem as suas dicas para podermos aumentá-la.

Regra 1: perguntar-se se precisa mesmo de um determinado produto antes de comprá-lo.
Regra 2: se concluir que precisa do produto (ou quer muito comprá-lo), analisar a embalagem. Há um produto semelhante que use menos matéria-prima na embalagem? Ou cuja matéria-prima seja biodegradável? Ou reciclável?
Regra 3: depois de comprar, pôr o produto na bolsa ou na sacola de compras retornável.
Regra 4: perguntar-se sobre o impacto social da produção desse item.
Regra 5: perguntar-se sobre o impacto ambiental da produção desse item.
Regra 6: não desperdiçar. Se é de comer, incremente e reaproveite. Se quebrou, veja se tem conserto. Se não tiver, pense se você não pode viver sem um novo. E não compre um novo só porque é mais bonito se o seu antigo estiver funcionando bem.

E você? No que pensa antes de comprar algo?

Estava assistindo a este filminho muito lindo e emocionante, com trilha sonora de Fábio Júnior, cantando 'Imagine" (adoooro!!! Tudo!!!), feito por um grupo de alunos para um trabalho sobre o meio ambiente, e, ao ver as imagens das crianças com fome, lembrei-me de minha netinha e de meus filhos, que sempre tiveram alimentos saudáveis e à vontade. Pensei em quanta comida já desperdiçamos, estragada, jogada ao lixo. E chorei.

Doeu muito pensar que há tanta fome no mundo enquanto nos damos ao luxo de jogar fora alimentos que sobram, em vez de reaproveitá-los. Já disse aqui que me chamam de 'pão dura' por minhas ações 'ecoconscientes', mas, se pensarmos com o coração ('o essencial é invisível para os olhos'), veremos que não se trata de 'sovinice', mas de consciência de que a fome é uma realidade no mundo.

Fazer um delicioso risoto ou um molho incrementado para o macarrão com as sobras do frango, peixe ou mesmo da carne (para aqueles que ainda a consomem) é um ato de consciência de que os recursos naturais e os alimentos não estão disponíveis para todo o mundo. Eu mesma reaproveito tudo que é nutritivo e que, na maioria das vezes, é descartado quando se prepara um alimento. Por exemplo, os talos e as folhas de espinafre e brócolis, se bem picadinhos, podem incrementar um ensopado ou colorir um arroz branco.

Vejam o almoço ecoconsciente que preparei para minha Princesinha :

arroz branco com espinafre picadinho e proteína de soja com folhas de brócolis picadinhas

As receitinhas:

Arroz branco com espinafre
 
- Refogue alho e cebola (a gosto) em azeite
- Acrescente um copo (100 ml) de arroz branco (sem lavar) e mexa bem.
 - Pique bem fininhas, umas seis folhas de espinafre e acrescente-as ao arroz. - Coloque dois copos de água e deixe ferver
- Abaixe o fogo e tampe a panela.
- Deixe cozinhar até o arroz ficar macio.
- Sirva bem quentinho, com a proteína de soja com folhas de brócolis.

Proteína de soja com folhas de brócolis

- Ferva bem um copo (100 ml) de proteína de soja granulada para hidratá-la.
 - Escorra a água da soja em uma vasilha (ao esfriar, usei para regar minhas plantinhas)
- Refogue a proteína de soja com azeite, alho e cebola picadinhos e sal a gosto.
- Acrescente um tomate grande bem picadinho (ou molho de tomate, se preferir)
- Pique as folhas e os talos do brócolis (que iriam para o lixo) bem miudinhos e acrescente ao refogado.
- Cozinhe em fogo brando até ficar um molho bem consistente.
- Acrescente azeitonas verdes (ou pretas, se preferir).
- Sirva com o arroz branco com folhas de espinafre.

A fome é uma realidade que não podemos ignorar

Embora a Terra tenha recursos suficientes para alimentar a humanidade inteira. Estudos dizem que a Terra suportaria bem até 7,5 bilhões de pessoas. No entanto, há lugares, como a África e a Bolívia, onde as pessoas sofrem com a fome! No mundo há terras suficientes que, infelizmente, são cultivadas para fornecer alimentos aos países ricos! E os pobres, morrem de fome.

Pense nisso, e faça a sua parte! Não desperdice os alimentos: reaproveite-os!
Vídeo Yotube - daqui
Este post faz parte do ciclo Debates Ambientais do Faça a Sua Parte.


Picada de cobra se cura com veneno de cobra.

Consumo consciente e atitudes eco compatíveis são fundamentais a uma necessária nova política ambiental, mas o comportamento humano é moldado aos poucos e produz uma forte resistência às mudanças. Sem o intervento da ciência será impossível reverter a atual situação de degrado e poluição.

Como instrumento, a ciência não pode ser a vilã da devastação dos recursos naturais, nem da crescente pobreza e marginalidade de boa parte da população mundial. Um crescimento que vem acompanhado de novos e equivocados padrões de consumo e produção, o que só faz aumentar o desperdício dos recursos, além de gerar resíduos e substâncias poluentes. O problema se dá porque ciência e tecnologia não são politicamente neutras. Mas não só: a atual dinâmica de competição, com ganhadores e perdedores, só faz aumentar a crise sócio-ambiental, transferindo todas as reservas e esforços à busca do crescimento econômico.

Na situação que vivemos de desigualdade social, onde uma minoria consome a maior parte dos recursos naturais, reflete uma distribuição heterogênea de renda e de ativos produtivos e acaba restringindo as políticas de desenvolvimento dos países pobres. Esse problema não pode ser resolvido com soluções tecnológicas. É preciso ação política. E é nesse ponto que podemos fazer a diferença, debatendo, propondo - exigindo! - o fluxo de tecnologia e pressionando os regimes políticos atuais, fortemente orientados na lógica do mercado e ao crescimento a qualquer preço. É necessário que o poder político retome para si a responsabilidade do crescimento, que hoje encontra-se nas mãos de agentes externos.

A ciência terá grande participação nessa nova ordem mundial que começa a se formar, aprimorando e difundindo o correto manejo dos recursos disponíveis. Para tanto, o sistema de competição deve ser substituído por um outro, o da cooperação. De pouco tem servido as intermináveis reuniões internacionais sobre o meio ambiente. A despeito da argumentação dos donos do poder econômico, de que faltam inequívocas evidências científicas do efeito da produção sobre os problemas ambientais, o meio ambiente não pode ser excluído dos conceitos econômicos, políticos e sociais. O desenvolvimento sócio-econômico depende exclusivamente de quem controla os recursos disponíveis e não do volume desses recursos. Isso está errado.

A ciência sem política é uma ciência para poucos.

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"Um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade"...pois é, cresci com a conquista espacial, a chegada do Concorde, do TGV, do transplante de coração, da popularização dos eletrodomésticos e com a idéia de que a ciência e sua filha a tecnologia traziam resposta a tudo e que seu objetivo bem-estar e a felicidade. Tornei-me cientista, aprendi a experimentar e analisar e principalmente manter a mente aberta...e paradoxalmente foi daí que vieram alguns sinais de alerta sobre a concepção do mundo adotada por mim e pela minha geração.

Tudo começou quando conheci a filosofia de Gandhi e sua visão sobre a educação e sobre a tecnologia. Ele apregoava que se deveria ensinar nas escolas trabalhos manuais e artesanais de forma que todas as pessoas e comunidades se tornassem autônomas em relação à própria subsistência simplesmente com o trabalho de seus próprios braços. Na época, isto foi visto como mais uma forma de resistência ao modelo econômico do ocupante ocidental e ele nunca foi adotado na Índia. Mas isto me conduziu à reflexão : "Realmente se cada um pudesse subsistir simplesmente com seu trabalho manual em seu próprio campo, não haveria fome no mundo nem tanta desigualdade".

Mas será que o ser humano se contenta em simplesmente sobreviver? Depois de satisfazer suas necessidades básicas, ele não encontrará sempre outras mais sofisticadas que, se não estão ao alcance do trabalho de suas mãos, ele vai desenvolver "máquinas" para realizá-las?  Então negar o advento da "máquina" não seria negar o próprio intelecto humano? E não é este, fruto de seu cérebro super-desenvolvido em relação aos outros animais, que a espécie humana, que não foi dotada pela natureza de força, ou de garras, ou de pelos para se proteger do frio, conseguiu sobreviver neste planeta? E no momento que pela primeira vez ele acendeu o fogo, ou utilizou a roda, ou se sedentarizou construindo habitações para se abrigar das intempéries, ele já estava usando seu intelecto e criando ciência e tecnologia. Esta criatividade é inerente ao ser humano, não podemos simplesmente impedir o cérebro de funcionar e procurar soluções...

O problema não é a tecnologia em si, mas a utilização que é feita desta, as soluções por ela proporcionadas podem se tornar problemas em função do contexto. Muitas vezes a engenhosidade se alia à sede de dominação para causar estragos enormes, como todas essas guerras que pontuam a história. E esta ânsia de poder e de prazer levou a espécie humana a não respeitar os limites existentes em relação aos recursos do planeta e ao espaço vital das outras espécies presentes nele, nem mesmo de outros seres humanos, o que criou um desequilíbrio perigoso. E se este continua no ritmo atual, a sobrevivência do homem na Terra e o seu modelo de desenvolvimento são incompatíveis. Não por causa da ciência ou da tecnologia em si, mas do modo como são empregadas. Estará então a espécie humana condenada a desaparecer?

É aqui e agora que devemos decidir isto, para as próximas gerações será muito tarde. Acredito que a solução pode vir da ciência e da tecnologia sim. Elas só precisam incorporar em suas realizações o conceito da sustentabilidade, remediar os erros  já cometidos contra o planeta (quando ainda for possível) e ter em mente que não existe outra alternativa. É uma nova equação para a ciência e para o intelecto humano e de sua solução depende o futuro da humanidade. Estaremos à altura para resolvê-la?

É fato. O preço do barril do petróleo só cresce. Aqui na América do Norte a população já começa a sentir no bolso as consequências do alto preço dos combustíveis. Agora, todos só falam de buscas para alternativas de combustíveis, carros híbridos, etc. Os biocombustíveis fazem parte dessa discussão também.

Os biocombustíveis são combustíveis feitos de plantas ou resíduos, materiais que podem ser renováveis, ao contrário do petróleo, que é um recurso que um dia vai acabar. Biocombustíveis podem ser feitos de madeira, gases originados de excremento animal ou líquidos extraídos de plantas, como milho ou cana de açúcar, entre outros.

Teoricamente, os biocombustíveis são mais amigáveis para o meio ambiente porque sua matéria-prima é renovável. Porém o processamento do biocombustível pode ser tão poluidor como o combustível fóssil, dependendo de como é feito. Entretanto, estudos britânicos revelam que a redução de emissões dos biocombustíveis é de 50% a 60% menor que os combustíveis a base de petróleo.

A grande controvérsia é que o estímulo ao uso de biocombustíveis pode ter um impacto negativo na agricultura e no preço dos alimentos no mundo todo. Há também a questão da biodiversidade, da monocultura de grãos, da redução de habitats para animais e plantas.

A recente discussão na cúpula da ONU sobre a crise alimentar ressaltou que os biocombustíveis devem ser controlados, para não agravar a crise dos alimentos. O Brasil foi categórico ao defender que a tecnologia dos biocombustíveis não deve afetar o mercado dos alimentos no mundo. O pessoal do Talk Climate não concorda com isso. Eles acham que é uma solução muito simplista para um problema muito maior, cuja solução estaria na mudança de hábitos de cada indivíduo.

E você, o que acha dos biocombustíveis?





Não há nada mais representativo, na minha opinião, da história da humanidade do que esse trecho do livro/filme 2001: Uma Odisséia no Espaço (há, também, no clip acima, uma cena do filme Planeta dos Macacos). Historia humana que, na verdade, se resume à história da tecnologia. Muito antes da fala, e portanto muito antes da cultura (discussões sobre isso à parte, por favor), nossos ancestrais, em algum momento, aprenderam a se utilizar da natureza para transformá-la (observem a transposição que ocorre entre ciência e tecnologia, que ocorre por volta dos 5m32s do clip: o macaco olha os ossos; a cabeça volta-se de um lado para o outro, até que, num momento, decide pegar o osso e utilizá-lo. Impressionante a representatvidade da cena). Nenhum outro animal foi capaz de fazer do barro uma jarra para conter água.  Nenhum outro animal foi capaz de transformar um osso em uma nave espacial, ou, como fez o macaco, transformá-la para destruí-la..

Os faraós egípcios tinham um problema aparentemente insolúvel para resolver: tornarem-se imortais. Conservarem seus corpos e riquezas para quando retornassem. Os romanos também tinham os seus problemas e um deles era o abasteceimento de água. Os egípcios construiram pirâmides e os romanos aqüedutos (tadinho do trema, vai morrer...). Ambos, pirâmides e aqüedutos, existem e resistem até hoje. Faraós egípcios e romanos não! Apenas na história.

Mas, sejam macacos, egípcios ou romanos, em nenhuma época a espécie deparou-se com um problema tão sério: a sobrevivência daquilo que dá suporte à própria existência humana: a natureza. A tecnologia sempre resolveu o problema, desde os primórdios, daqueles que tinham poder. Junte-se qualquer adjetivo, não importa. Tecnologia sempre esteve do lado dos mais fortes.

Há uma crença de que a tecnologia resolve nossos problemas. Será? Saiam desse mundinho restrito da internet e olhem ao redor. Ao redor da vida real:

- a tecnologia médica/farmacêutica ajuda a resolver os problemas da humanidade? Não! Milhões de seres humanos morrem sem assistência médica e por falta de remédios. As patentes falam mais alto!

- a tecnologia ajudou a resolver o problema da fome? Não, bilhões de pessoas passam fome e milhões morrem diariamente por falta de alimento. E, no entanto, apregoa-se aos quatro cantos que os transgênicos vieram para salvar o mundo. As patentes falam mais alto!

- a expectativa de vida aumentou graças a tecnologia? Não! Olhem atentamente para a metade da espécie humana que não aparece nos jornais: morrem tão cedo quanto sempre morreram.

- energia renovável? Sol, ventos, nuclear, mar? Olhem para o mundo e não apenas para o próprio umbigo! Que parcela da humanidade, em pleno século XXI tem acesso a energias alternativas? Menos de 5%! É piada falar nisso. Façam as contas: quantas pessoas são beneficiadas com energia eólica, ou de qualquer outra fonte alternativa? Quanto precisaríamos para que toda a espécie humana pudesse viver de fontes renováveis? Alguém está interessado em investir nisso?

A verdade é que a tecnologia sempre foi de poucos para poucos. Poderia listar alguns milhares de exemplos em que a tecnologia só serve para resolver o problema de alguns faraós (dentre eles, nós, os que ainda podemos nos dar ao luxo de escrever/ler na internet), enquanto destrói tudo o mais. E, em meio a esse mais, o meio ambiente.

Repito: sejam macacos, egípcios ou romanos, em nenhuma época a espécie deparou-se com um problema tão sério: a sobrevivência daquilo que dá suporte à própria existência humana: a natureza.

A tecnologia não é capaz de garantir a sobrevivência de seres humanos. Será capaz de garantir a sobrevivência do meio ambiente?

Com licença, pois vou tomar meu banho com um sabonete desenvolvido com a tecnologia que destrói as florestas da Indonésia, calçar meus tênis, feitos com tecnologia que mantém milhões em regime de trabalho escravo; pegar minha garrafinha d'água, colhida e embalada com tecnologia que termina por esgotar fontes naturais... E pegar meu carro para chegar a tempo no trabalho, porque prefiro dormir mais dez minutos...

Enfim, gosto da tecnologia. Afinal, não sou daqueles que precisa acordar às quatro da manhã para pegar ônibus... E sem esquecer de, quando chegar em casa, jogar no lixo a tecnologia que minha filha deixou nas fraldas descartáveis...

Não acredito na tecnologia como salvadora do mundo. Tanto quanto ainda não vi faraó algum retornar para reclamar seu reino...
Hoje é o dia Mundial dos Oceanos, esse pedaço líquido do planeta pelo qual eu sou descaradamente apaixonada com todo o azul que uma paixão pode deixar transparecer. No ano passado, eu deixei em meu blog pessoal que os habitantes marinhos "gritassem" por ajuda. Tudo bem que meu blog representa uma nanomarola no verdadeiro mar virtual que é a internet, mas, lendo as notícias do último ano, a sensação que tive foi de ninguém escuta o desesperado pedido dos animais marinhos, seja em que formato for feito. O ambiente deles continua sendo a lata de lixo do mundo, as mudanças climáticas só vem piorando a situação da sobrevivência no mar para a maioria das espécies, e eles, animais marinhos, continuam morrendo em quantidades assustadoras

Então, para tentar ser mais eficiente, esse ano eu decidi fazer algo mais prático para comemorar o dia dos Oceanos, aproveitando a data e a deixa dos debates ambientais aqui do Faça. Vamos à idéia. 

Já há algum tempo que eu venho matutando que preciso pôr no papel uma lista prática sobre consumo de peixe. A princípio para mim apenas, para ter pregado na geladeira ou distribuir pra família. Mas, como tenho plena noção de que toda lista falha em algum ponto, principalmente por (in)adequação individual, essa idéia sempre era deixada de lado. 

Até que outro dia, conversando com o Inagaki sobre alimentos, ele me perguntou que tipo de peixe era mais adequado (ecologicamente falando) de se consumir. Eu respondi que na página do Aquário de Monterey estava a melhor lista disponível na web sobre consumo consciente de peixes e frutos do mar, inclusive com opções de acordo com a região dos EUA em que a pessoa mora, e que eu já indicara inúmeras vezes o link da lista aqui no blog. Entretanto, o Seafood Watch está em inglês, para o consumidor americano médio. Inagaki aí fez o contraponto que me levou a escrever esse post e publicá-lo na semana do Meio Ambiente: "Se não há nada em português, adaptado ao padrão de consumo brasileiro, escreva a sua própria lista. E compartilhe com as pessoas." 

Decidi então compilar aqui, sem a permissão oficial de todos os membros do Faça (portanto qualquer asneira que existir é responsabilidade minha), as minhas dicas pessoais sobre consumo de peixes e frutos do mar, baseadas em diferentes aspectos: como e quando é pescado, onde vive, se é importado, se está quase extinto ou não, se é nutricionalmente importante. Vale ressaltar que eu evito consumir peixes e frutos do mar sempre que possível porque sei da situação caótica que os mares do mundo estão e da enorme pressão que os peixes vêm sofrendo, principalmente aqueles utilizados para o "consumo humano" - que só aumenta. Também sei que peixe faz bem à saúde e que sua carne está entre as mais saudáveis fontes de proteína animal - e para certos nutrientes, nenhum vegetal suplanta em eficiência de absorção para o nosso organismo. Tenho plena consciência também de que para a maior parte das pessoas simplesmente parar de comer peixe não é uma opção prática - então querendo ser prática, acho melhor deixar algumas dicas que fazer nada e continuar saindo da peixaria com crise histérica por ver pessoas comprando cação. Na linha do "é melhor fazer algo que nada", se é que vocês me entendem. 

Então, vamos lá. 

Com vocês, o "Guia Malla para consumo ecoconsciente de peixes e frutos do mar":

1) NUNCA compre cação. NUNCA coma cação, independente de onde você more. Tubarões ou cações são peixes ameaçadíssimos de extinção no mundo inteiro e ao comê-los, você incentiva o tenebroso comércio de barbatanas pra China. Além do mais, tubarão/cação, como animal do topo da cadeia ecológica, é um dos peixes que mais acumula mercúrio na sua carne, o que é péssimo para a saúde humana. Tubarão não é saudável. 
2) Abuse das tilápias no seu cardápio. Tilápias são mais sustentáveis e fáceis de serem criadas para consumo, e geram menos problemas para o ambiente. Como tilápia é uma "marca" de peixe que as pessoas acham "inferior" por sua carne ter naturalmente um gosto de terra, criaram o "St. Peter", que nada mais é que uma variedade de tilápia melhorada criada em cativeiro com carne mais branca e alimentada com ração, o que não deixa que a carne fique com o gosto da terra. 
3) Evite bacalhau sempre que possível. O bacalhau consumido no país é todo importado de longe. Além disso, seus estoques nos locais onde pode ser encontrado estão à míngua. O preço do bacalhau é assustadoramente caro, e isso é um indicativo da sua raridade cada vez maior - o bacalhau já está extinto em diversas áreas. 
4) Só compre lagostas entre maio e dezembro. De janeiro a abril é a época de reprodução desses animais, e se alguém está vendendo lagosta recém-pescada nesse período, está burlando a lei, que proíbe em todo o território brasileiro a pesca da lagosta no período reprodutivo. 
5) Evite camarões e consuma-os apenas no período não-reprodutivo. No geral, a pesca do camarão ainda é feita com arrasto, atividade destruidora que joga fora muitos quilos de peixe não-consumível para cada pratinho de camarão coletado. Portanto, é um "desserviço" ao ambiente. Sendo o maior exportador de camarão o nordeste brasileiro, consumi-los por lá é ecologicamente mais adequado que em outras regiões do país. E, apesar de todos os pesares ecológicos, camarão é cultivável, o que facilita seu consumo (o desgaste ecológico da região onde são feitos esses tanques é outro papo mais complicado...) No mar selvagem, há diferentes espécies de camarão que são pescados para consumo e cada uma delas possui um período reprodutivo específico nas diferentes regiões do país. Nesse período a sua pesca é proibida pelo IBAMA. Para o camarão-rosa no extremo nordeste, o período reprodutivo é de março a maio, enquanto na Bahia e Espírito Santo é de setembro a novembro. Os pescadores que dependem dessa atividade para viver são autorizados pelo governo a pedir seguro-desemprego no período reprodutivo, que cobre as perdas por não pescar. Já o camarão-sete-barbas se reproduz entre novembro e meados de dezembro no sudeste do país, sendo essa portanto a época para se evitá-lo. Não achei na internet uma lista clara do período reprodutivo de cada espécie consumida, portanto se alguém souber de tal informação, fico deveras agradecida. 
6) Evite salmão cultivado. E se possível, evite salmão em geral, já que ele já se extinguiu em muitas áreas do mundo. Sendo o salmão um peixe de águas gélidas, o salmão selvagem que se consome no Brasil é em sua maioria importado do Chile, o que requer transporte refrigerado em longas distâncias, o que aumenta a emissão de CO2 via queima de combustível fóssil, etc. O preço reflete a dificuldade logística da sua pesca, e por isso, as fazendas de salmão parecem tentadoras. Mas não se engane: o dano que uma fazenda de salmão causa ao ambiente é insano
7) Consuma preferencialmente os peixes e frutos do mar da sua região. Se você mora perto de rio, consuma peixes de água doce. Se mora perto do mar, consuma peixes de água salgada, de preferência comuns no seu litoral e pescados de forma artesanal, por pescadores de comunidades não envolvidos com pesca em escala industrial. Procure essa informação no órgão do governo estadual ou municipal da sua área que lida com questões de pesca, e vá à peixaria munido da lista adequada de peixes e frutos do mar da sua região. 
8) Verifique a espécie de atum ao comprá-lo. Nem todas as espécies de atum estão igualmente ameaçadas de extinção. Infelizmente, o atum azul (blue fin tuna, em inglês), espécie migratória presente apenas em alto-mar e preferido pelos grandes chefs de sushi do mundo, é uma das mais ameaçadas, exatamente pelo alto consumo de sushi no Japão. O Brasil, entretanto, parece ter atum em abundância suficiente para garantir o mercado interno - embora a reportagem linkada não diga que espécies exatamente. E eu, na dúvida da procedência real, prefiro evitar atum. 
9) Preste atenção especial aos congelados. Principalmente animais sazonais, que congelados se tornam difíceis de identificar sua data de pesca - ou seja, em tese, você não sabe se o fulano da indústria pescou aquele camarão no período reprodutivo ou não. Dê preferência ao produto fresco e congele em casa, para consumo posterior. Assim você pelo menos sabe de quando o peixe realmente é.
Mas o guia carece da interatividade. Porque é baseado nas minhas visitas a peixarias espalhadas pelo Brasil (nem que seja só pra fotografar...) Como eu tenho certeza absoluta que deixei alguma informação valiosa de fora, gostaria de ouvir as dicas de vocês, principalmente de outras partes do país, sobre consumo de peixe e frutos do mar. À medida que dicas relevantes forem surgindo, vou fazendo updates no post. Combinado? 

Amanhã é o Dia Internacional dos Oceanos. Quase três quartos do nosso planeta são cobertos por essa linda imensidão azul. Portanto, não é de surpreender que os oceanos tenham grande importância para o equilíbrio ambiental na Terra. Entre tantas outras coisas, os mares regulam o clima e a temperatura, além de serem uma fonte de alimentos. Cerca de metade da população mundial vive às margens dos oceanos, a menos de 100 km do litoral. Infelizmente, isso significa mais poluição e destruição do habitat marinho.

Bem, vocês já ouviram isto antes: só porque a gente não vê, não quer dizer que o lixo que jogamos "fora" sumiu. Onde vai parar esse lixo?

Boa parte vai parar no mar. O Aquário de Aparecida distribui aos seus visitantes um folder falando sobre alguns tipos de lixo e o tempo que levam para se decompor no mar.

O plástico, pra variar, é o grande vilão. Os cientistas apelidaram de "sopa de plástico" uma região que vai do Havaí ao Japão. Essa área tem duas vezes o tamanho da porção continental dos Estados Unidos. Estima-se que haja três quilos de plástico para cada quilo de plâncton. O plástico constitui cerca de 90% do lixo encontrado nos oceanos, causando a morte de mais de um milhão de aves marinhas e mais de cem mil mamíferos marinhos por ano. Esses animais ingerem os resíduos pensando tratar-se de comida.

Além de ter tomado o mar - segundo o Programa Ambiental das Nações Unidas, estima-se que cada metro quadrado do oceano contenha cerca de 46 mil pedaços de plástico - o material ainda pode funcionar como uma esponja química. Portanto, mesmo que estejam ingerindo "apenas" pequenos pedaços de plástico, os animais marinhos ingerem, junto, produtos químicos tóxicos, como hidrocarbonetos e pesticidas.

E, antes que você pense que o problema é só dos animais, esqueça: eles fazem parte da cadeia alimentar humana, e esses produtos químicos tóxicos vão parar em nossas mesas.

Dê uma olhadinha aqui. Uma foto pode falar mais do que mil palavras. Vai uma sacolinha plástica aí?



"A gente quer ter voz ativa
no nosso destino mandar"
(Chico Buarque)

Muito se fala sobre comemorar datas. Qual a diferença entre uma data específica e todos os demais dias do ano, principalmente no que diz respeito aos cuidados com o meio ambiente? Uma, e muito importante: é nesse dia que fazemos com mais intensidade algo que nos demais dias nem sempre fazemos, envolvidos que estamos no "tocar" a vida: refletir. Concentramos esforços de reflexão.

E é esse, também, o sentido de uma blogagem coletiva: concentrar as reflexões espalhadas por ai. Formar "massa crítica" sobre um tema. Por essa razão, convidamos a todos a que participem desse esforço de reflexão sobre o meio ambiente.

A gente quer ter voz ativa e voz ativa só teremos com informação e conhecimento. Só mandaremos no destino do meio ambiente quando esse conhecimento "concentrado" virar ação também concentrada, conjunta, compartilhada.

Participe da blogagem coletiva do Faça a sua parte. Deixe nos comentários o link para o seu post. Faremos uma lista de todos.

Faça a sua parte. PARTICIPE!

A equipe do Faça agradece.

Estão participando:

Denise Rangel - Todo dia  é dia do Meio Ambiente
Georgia - Meio Ambiente
Lucia Malla - O valor do ambiente
Planeta Sustentável - Dia Mundial do Meio Ambiente
Julio Moraes - Envolva-se
Felipe (Projeto Jogo Limpo) - Preserve o meio ambiente urbano
Marisa Lopes - Dia do Meio Ambiente


"A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade da vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado." (Carta da Terra)

Fazemos parte de algo grande, complexo e belo. Mas hoje, parece que, para o homem, a natureza é uma propriedade-um objeto que pertence a ele, a um semelhante ou ao governo. Hoje, a natureza é dinheiro. O homem se pergunta: o que posso tirar dela para produzir algo que me dê retorno financeiro?

Já sabemos que todas as nossas ações têm impacto sobre o meio ambiente. E precisamos acordar para o fato de que necessitamos da natureza para sobreviver. Temos que aprender a não só querer receber, mas também a dar. A relação precisa ser de troca, não de dominância, nem de antagonismo. Não tem que ser "homem x natureza". Pode ser "homem e natureza".

Porque nos esquecemos, com uma naturalidade assustadora, de que somos parte da natureza, não seus senhores. Precisamos nos unir à natureza e procurar entendê-la para que nossa sobrevivência seja possível. Precisamos parar de achar que somos o centro do universo e que fauna e flora foram feitos para nos servir. Compreender a natureza e vê-la em toda a sua grandeza para torná-la nossa aliada. Porque, se não descobrirmos como ser aliados da natureza, o caminho da raça humana pode ser a extinção precoce.

Temos que mudar a nossa perspectiva, aprender a olhar a vida de outra forma. Tarefa difícil, mas não impossível. E como vamos chegar lá?

Lester Brown e Hugo Penteado, por exemplo, acreditam que é preciso mudar o paradigma econômico em que nossas vidas se baseiam. A economia tradicional vê os recursos como ilimitados, mas já estamos cansados de saber que nossos recursos são limitados. Se forem usados sem que sejam repostos, logo acabarão. Esse novo paradigma, onde natureza e pessoas são importantes, exige uma reestruturação do pensamento econômico e cultural. Trabalho difícil, considerando o quão arraigados estão os conceitos de exploração à exaustão em prol do crescimento econômico e de consumo desenfreado, já que hoje vemos os bens como facilmente descartáveis.

Como podemos viver em harmonia e equilíbrio com a natureza? Como podemos fazer a nossa parte?

Segundo a Declaração sobre o Meio Ambiente Humano (Conferência de Estocolmo, 1972, já citada ontem pelo Afonso): "O homem é ao mesmo tempo criatura e criador do meio ambiente, que lhe dá sustento físico e lhe oferece a oportunidade de desenvolver-se intelectual, moral, social e espiritualmente."

Se melhoramos o meio ambiente que nos cerca, melhoramos nossa qualidade de vida. Se o que acontece em nosso entorno nos afeta, alguém ainda tem dúvidas de que fazemos parte da natureza?

Finalizo com mais um trecho da Carta da Terra:

"A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida."

Qual a sua escolha?

A humanidade parece ter memória curta e adora gastar tempo criando convenções para serem esquecidas e não seguidas. Os exemplos são inúmeros. Uma das convenções mais esquecidas, talvez por ter sido a primeira grande convenção a tratar globalmente sobre as questões do meio ambiente,em especial do "meio ambiente humano", foi a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, ocorrida em Estocolmo, 1972.Trinta e seis anos após (e, pensando bem, já é muito tempo para um mundo que vive tão rápido quanto o nosso) e garanto que poucos se recordam da Declaração assinada pelos países.

Recordo, aqui, a Proclamação 6:

"6. Chegamos a um momento da história em que devemos orientar nossos atos em todo o mundo com particular atenção às consequências que podem ter para o meio ambiente. Por ignorância ou indiferença, podemos causar danos imensos e irreparáveis ao meio ambiente da terra do qual dependem nossa vida e nosso bem-estar. Ao contrário, com um conhecimento mais profundo e uma ação mais prudente, podemos conseguir para nós mesmos e para nossa posteridade, condições melhores de vida, em um meio ambiente mais de acordo com as necessidades e aspirações do homem. As perspectivas de elevar a qualidade do meio ambiente e de criar uma vida satisfatória são grandes. É preciso entusiasmo, mas, por outro lado, serenidade de ânimo, trabalho duro e sistemático. Para chegar à plenitude de sua liberdade dentro da natureza, e, em harmonia com ela, o homem deve aplicar seus conhecimentos para criar um meio ambiente melhor. A defesa e o melhoramento do meio ambiente humano para as gerações presentes e futuras se converteu na meta imperiosa da humanidade, que se deve perseguir, ao mesmo tempo em que se mantém as metas fundamentais já estabelecidas, da paz e do desenvolvimento econômico e social em todo o mundo, e em conformidade com elas." (negrito meu).


Um conceito relativamente novo e muito interessante: antroma.

Segundo a Enciclopédia da Terra (The Encyclopedia of Earth), no artigo "Anthropogenic biomes", de Erle Ellis e Navin Ramankutty:

"The biosphere has long been described using global ecosystem units called biomes, which are vegetation types like tropical rainforests and grasslands that are identified in relation to global patterns of climate.  Now that humans have fundamentally altered global patterns of ecosystem form, process, and biodiversity, it is time to remap the terrestrial biosphere to include ecological patterns produced by humans.  Anthropogenic biomes, also known as "anthromes" or "human biomes", describe the terrestrial biosphere in its contemporary, human-altered form using global ecosystem units defined by global patterns of sustained direct human interaction with ecosystems, offering a new way forward for ecological research and education."

"A biosfera vem há muito tempo sendo descrita por meio de unidades globais do ecossistema , denominadas biomas, que correspondem a tipos de vegetação, como no caso das florestas tropicais e pastagens , identificados em correlação ao modelo global de clima. Agora que os humanos fundalmentamente alteraram o modelo, o processo e a biodiversidade dos modelos globais, é hora de remapear a biosfera terrestre para que sejam incluidos os modelos ecologicos produzidos pelos humanos. Biomas antropogênicos tambem conhecidos como " antromas" ou " biomas humanos" descrevem a biosfera terrestre na sua forma contemporânea conforme alteradas pelos humanos, usando-se unidades globais do ecossistema definidos pelos padrões globais de interação humana direta com os os ecossistemas, disponibilizando- se uma nova forma para a pesquisa e a educação ecologicas"(1)

no site "Laboratory for Anthropogenic Landscape Ecology", na aba "Projects" há mais sobre antromas, incluindo um mapa muito interessante mostrando os biomas antropogênicos no mundo.


(1) Em tradução de Serrano Neves, que li no GEAI (Grupo de Educação Ambiental da Internet, vinculada ao PROJETO APOEMA - EDUCAÇÃO AMBIENTAL)
Pois é,

Também me pergunto a razão de um tema desses fazer parte de um ciclo de debates sobre questões de meio ambiente. Vivemos sob a égide da culpa e sempre procuramos por ela, seja para encontrar outro responsável, que não sejamos nós, ou para encontrar a desculpa perfeita, caso sejamos nós os responsáveis.

É de todos conhecida a fama que temos de sempre culpar o governo e o legislativo, seja por deixar de fazer aquilo que julgamos que deveria ter feito, seja por fazer de forma diferente daquela que queríamos. Não importa. Si hay gobierno, soy contra!

Da forma como lidamos com a culpa depende a solução para os atuais e futuros problemas do meio ambiente. "A culpa não é minha" é uma frase que muita gente ainda diz. A falta de culpa também tem ajudado muita gente a manter um padrão de consumo inconseqüente, valorizando soluções industrializadas em detrimento daquelas mais ecológicas.

Mas será que deveríamos agir apenas para sufocar a culpa ou para compensar a sua falta?

Domingo de manhã. A chuva em São Paulo nos faz lembrar que estamos na terra da garoa. Primeiro dia da semana do meio ambiente, e estou indo participar de um dos vários eventos ambientais que um político e ambientalista como eu precisa participar.

Precisa? Por que "precisa"?

Parte de mim hoje quer ficar dormindo o dia inteiro, namorando, tomando chá e vendo televisão, olhando a chuva pela janela; parte de mim quer resolver todos os problemas ambientais, sociais, econômicos e políticos do planeta.

Duas coisas impossíveis para esse domingo de manhã.

Assim como eu entro nessa crise quase todos os dias de manhã - principalmente quando está chovendo - a humanidade também vive essa questão, numa amplitude diferente: como podemos definir qual é a nossa participação nesse contexto sócio-político-econômico-ambiental-mundial-etc?

Eu já fui professor, jardineiro, mergulhador, aventureiro, fotógrafo, guia de trilhas. Trabalhei pela conservação dos recursos naturais, pela preservação da biodiversidade, pela educação ambiental. Participei de conferências nacionais e internacionais, grupos de trabalho para definições de políticas públicas municipais estaduais e federais.

Mas o que significa tudo isso? Será que para sermos "ambientalistas" precisamos de tudo isso?

Sei que esse processo autobiográfico parece ridículo, e que o texto em primeira pessoa pode ser um pouco pessoal demais.


Mas eu realmente quero usar esse momento para confessar uma coisa: a culpa é minha.


É minha culpa querer abraçar o mundo todo e não conseguir.

É minha culpa não ter conseguido como educador transmitir o real conceito da importância ambiental para meus alunos.

É minha culpa deixar que a televisão nos entretenha tanto a ponto de nos fazer pensar que está tudo bem, que o problema não é nosso;

É minha culpa eleger políticos que não estão nem um pouco preocupados com as verdadeiras questões do meu país;

É minha culpa permitir que as pessoas dêem mais valor a seus problemas pessoais que aos problemas mundiais.

Afinal, todos temos que pagar contas, não é mesmo? Temos manter nossos empregos, pagar a escola das crianças, os livros da faculdade, tomar aquela cervejinha no final do dia - que ninguém é de ferro - e, é claro, viajar final de semana ou nas férias, para descansar um pouco da nossa vida agitada.

O tempo é curto. Não dá para fazer tudo. Minha vida é mais importante, não dá para querer resolver tudo!

Eu faço coleta seletiva em minha casa; planto árvores em um sítio de uma ONG ambiental sempre que posso; alterno ir trabalhar de carro e de bicicleta; tomo cuidado com meus gastos de água, energia e com consumo de produtos em geral, sempre atento ao que é realmente necessário.

Mas também sou humano. Quero meus prazeres; gosto de ir ao cinema (se bem que atualmente a quantidade de trabalho não tem permitido...), de roupas bonitas e ouvir música; um bom vinho, é claro, e livros, muitos livros - mesmo que não os consiga ler: sou um "livromaníaco", daqueles que sente orgasmos em bibliotecas antigas (alguém já foi na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro? É de cair o queixo...)

Ou seja: onde eu quero chegar com tudo isso?

Quero dizer que é minha responsabilidade que o mundo esteja desse jeito.  Existem diversas formas de participação,  e eu tenho que escolher a minha.  e ser eficiente em minha escolha. e acompanhar de perto os processos,  as propostas e os projetos de  resolução de problemas. 

Temos oficialmente três poderes no país: o executivo, o legislativo e o judiciário. Temos já um quarto poder informalmente estabelecido: o domínio da informação.

Mas temos um que permeia todos esses: o poder da ação pessoal.

E esse é o maior de todos, e exercê-lo só depende de mim.

(PS: E já estou atrasado: este post era para ter saído ontem...)

Vivemos num mundo que vem se aquecendo. Embora haja no passado recente momentos de esfriamento detectados pelos investigadores do clima, eles não passam de "ruído de fundo" (background noise) nos gráficos de aquecimento, cuja tendência geral é de subida. É essa realidade que devemos encarar daqui pra frente, seja com 0.5˚, 1˚, 2˚ ou 5˚ C de diferença. O mundo está em aquecimento. 

Mas quais são os impactos dessa realidade na nossa vida? 

O aumento das tragédias com ciclones, furacões e afins - como em Burma e New Orleans - é talvez o mais controverso dos impactos possíveis. Se não se pode dizer com 100% de certeza que esses furacões foram causados exclusivamente pelo aquecimento global, há indícios fortes na comunidade científica de que num mundo aquecido, a força das tempestades formadas no mar e seus ventos se tornará imprevisível e potencialmente mais destruidora. Ou seja, elas poderiam até não aumentarem em quantidade, mas aumentariam em "qualidade". 

Mas existem cerca de 30,000 fenômenos registrados desde 1970 no planeta em que o impacto do aquecimento global já foi observado e medido. Esses impactos, agudos ou crônicos, irão aos poucos delinear o futuro mundo em que viveremos. É com o angariamento desses dados que a gente melhora nosso poder de previsão do que vem pela frente. 

Um bom exemplo é o derretimento do gelo nos pólos. No ano passado, o Ártico derreteu a níveis assustadores, nunca vistos antes na história das medições. (Você pode ver um mapa interativo excelente do NYTimes sobre esse vai-e-vem do gelo no Ártico para entender melhor.) Ao ponto de já haver expulsado moradores de algumas cidades no Alaska, com medo de "afundarem" pelo derretimento da camada permanente de gelo, o permafrost.

Na Antárctica, a situação não é muito diferente. Com o derretimento, vem sendo liberado para a atmosfera também quantidades inomináveis do pesticida DDT, de décadas passadas. O derretimento já é tão previsível que o Google Earth adicionou uma camada de "derretimento" ao seu programa baseado nos números amealhados pelos cientistas. Não só o gelo dos polos derrete. Nos Alpes, no Himalaia e nos Andes, há confirmação de que é visível (até do espaço!) e acelerado o derretimento das geleiras - e com isso mais água desce cordilheira abaixo. Portanto, a continuar nesse ritmo, teremos mais gelo derretido, e consequentemente, mais água nos mares, o que acarreta a grosso modo o aumento do nível dos oceanos. 

O aumento dos mares é, aliás, outro impacto já registrado. Em média, o aumento do nível do mar desde a última glaciação há alguns milhares de anos é de 1.8mm/ano. Desde 1992, o IPCC registrou um aumento médio de 2.8mm/ano - ou seja, existe um fator a mais elevando os mares. Há ilhas na Índia que já foram evacuadas por causa da elevação do mar, e outras áreas, como ilhas do Pacífico e na costa do sudeste asiático, vêm vivenciando o problema diariamente, através de perda dessa área costeira e da inundação de locais antes "em terra". No Brasil, o aumento do nível do mar já foi registrado, mas aparentemente pouco aconteceu em termos de ameaça - pela falta de dados mais robustos, diga-se de passagem. 

Os impactos que vemos, registramos e estudamos são para as temperaturas atuais de aquecimento global já medidas - ou seja, uma média de aumento de 0.25˚C por década. Entretanto, os cientistas começam a se debruçar em busca de previsões/soluções para um mundo com diferentes graus de aquecimento em poucas décadas - uma realidade que parece não estar distante se mantivermos o atual nível absurdamente alto de emissão de CO2 na atmosfera. Com 1˚, 2˚, 3˚ e até 6˚C a mais, o que acontecerão com ecossistemas, populações, cidades? 

O artigo do link acima é uma resenha do livro do Mark Lynas "Six degrees: Our future on a hotter planet". A situação que Lynas traça grau a grau por ano de aquecimento é: 

- 1 grau: enchente das áreas costeiras baixas; água doce perdida em 1/3 das regiões; polos derretidos. 

- 2 graus: europeus morrerão em ondas de calor absurdas; mais incêndios selvagens; 1/3 da biodiversidade ameaçada de extinção; as plantas começarão a emitir CO2 ao invés de absorver, devido ao stress. 

- 3 graus: morte da Amazônia como floresta; fome na África aumenta; super-tufões e super-furacões mais comuns; CO2 será liberado do solo derretido e aumentará a velocidade do aquecimento global. 

- 4 graus: Permafrost todo derretido torna aquecimento global impossível de ser administrado; enchentes severas que tornam inabitáveis áreas costeiras; região mediterrianea abandonada. 

- 5 graus: polos sem gelo totalmente; metano é liberado dos oceanos e acelera ainda mais o aquecimento; humanos migram atrás de comida em vão. 

- 6 graus: só os fungos sobrevivem. Vida humana se torna quase impraticável. (Será que a gente se adapta?)

(O detalhe é que o autor do artigo adverte para o fato de que 5 graus é o tipping point, ou seja, o ponto teórico de não-retorno do sistema. É quando não vai dar mais para reverter situação alguma.) 

Os cenários dados por esse livro em particular são catastróficos - embora eu não os considere muito longe da realidade plausível. Mas em geral, os cenários variam de acordo com a temperatura e com o foco de pesquisa de cada um que se propõe a falar sobre o tema. Esses cenários costumam ir desde amenidades a verdadeiras catástrofes e, é claro, assumem que nada faremos para evitar o problema. Cabe ressaltar aqui que diferentes problemas têm também diferentes pontos irreversíveis. Ou seja, se para os mares um aumento de 1˚C já é suficiente para um estrago no ecossistema marinho, precisam-se 3˚C de aumento para a Amazônia se tornar uma área desértica. Se lembrarmos que a chance de evitar um aumento de 1˚C na atmosfera é ZERO, ou seja, inevitavelmente isso vai acontecer nas próximas décadas, trabalhar nesse tipo de previsão de como será o mundo aquecido é simplesmente fundamental. Não só para pesquisadores, mas também para governos, instituições, populações - enfim, para todos que habitam este planetinha azul.

É preciso acumular mais dados para dar mais robustez às decisões a serem feitas. Mas é também preciso pensar em estratégias eficientes agora, mesmo sem esses dados, que evitem a piora das condições de vida das 6 bilhões de pessoas e das incontáveis espécies animais e vegetais que sofrerão com o aquecimento global. Dada a desigualdade econômica que vivemos, é preciso pensar em estratégias que desloquem recursos de áreas mais ricas para as mais pobres, que sem dúvida sofrerão mais. Num mundo globalizado, apesar da estratificação, os impactos do aquecimento também são globalizados e a gente precisa se unir para encararmos juntos, de frente, sem fuga por negação, cada um fazendo a sua parte, esse novo estilo de vida quente

Como bem disse o pesquisador Donald Brown, da Pennsylvania University, citado num post do Dot Earth

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