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Este post faz parte do ciclo Debates Ambientais do Faça a Sua Parte.


Picada de cobra se cura com veneno de cobra.

Consumo consciente e atitudes eco compatíveis são fundamentais a uma necessária nova política ambiental, mas o comportamento humano é moldado aos poucos e produz uma forte resistência às mudanças. Sem o intervento da ciência será impossível reverter a atual situação de degrado e poluição.

Como instrumento, a ciência não pode ser a vilã da devastação dos recursos naturais, nem da crescente pobreza e marginalidade de boa parte da população mundial. Um crescimento que vem acompanhado de novos e equivocados padrões de consumo e produção, o que só faz aumentar o desperdício dos recursos, além de gerar resíduos e substâncias poluentes. O problema se dá porque ciência e tecnologia não são politicamente neutras. Mas não só: a atual dinâmica de competição, com ganhadores e perdedores, só faz aumentar a crise sócio-ambiental, transferindo todas as reservas e esforços à busca do crescimento econômico.

Na situação que vivemos de desigualdade social, onde uma minoria consome a maior parte dos recursos naturais, reflete uma distribuição heterogênea de renda e de ativos produtivos e acaba restringindo as políticas de desenvolvimento dos países pobres. Esse problema não pode ser resolvido com soluções tecnológicas. É preciso ação política. E é nesse ponto que podemos fazer a diferença, debatendo, propondo - exigindo! - o fluxo de tecnologia e pressionando os regimes políticos atuais, fortemente orientados na lógica do mercado e ao crescimento a qualquer preço. É necessário que o poder político retome para si a responsabilidade do crescimento, que hoje encontra-se nas mãos de agentes externos.

A ciência terá grande participação nessa nova ordem mundial que começa a se formar, aprimorando e difundindo o correto manejo dos recursos disponíveis. Para tanto, o sistema de competição deve ser substituído por um outro, o da cooperação. De pouco tem servido as intermináveis reuniões internacionais sobre o meio ambiente. A despeito da argumentação dos donos do poder econômico, de que faltam inequívocas evidências científicas do efeito da produção sobre os problemas ambientais, o meio ambiente não pode ser excluído dos conceitos econômicos, políticos e sociais. O desenvolvimento sócio-econômico depende exclusivamente de quem controla os recursos disponíveis e não do volume desses recursos. Isso está errado.

A ciência sem política é uma ciência para poucos.

Photobucket

"Um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade"...pois é, cresci com a conquista espacial, a chegada do Concorde, do TGV, do transplante de coração, da popularização dos eletrodomésticos e com a idéia de que a ciência e sua filha a tecnologia traziam resposta a tudo e que seu objetivo bem-estar e a felicidade. Tornei-me cientista, aprendi a experimentar e analisar e principalmente manter a mente aberta...e paradoxalmente foi daí que vieram alguns sinais de alerta sobre a concepção do mundo adotada por mim e pela minha geração.

Tudo começou quando conheci a filosofia de Gandhi e sua visão sobre a educação e sobre a tecnologia. Ele apregoava que se deveria ensinar nas escolas trabalhos manuais e artesanais de forma que todas as pessoas e comunidades se tornassem autônomas em relação à própria subsistência simplesmente com o trabalho de seus próprios braços. Na época, isto foi visto como mais uma forma de resistência ao modelo econômico do ocupante ocidental e ele nunca foi adotado na Índia. Mas isto me conduziu à reflexão : "Realmente se cada um pudesse subsistir simplesmente com seu trabalho manual em seu próprio campo, não haveria fome no mundo nem tanta desigualdade".

Mas será que o ser humano se contenta em simplesmente sobreviver? Depois de satisfazer suas necessidades básicas, ele não encontrará sempre outras mais sofisticadas que, se não estão ao alcance do trabalho de suas mãos, ele vai desenvolver "máquinas" para realizá-las?  Então negar o advento da "máquina" não seria negar o próprio intelecto humano? E não é este, fruto de seu cérebro super-desenvolvido em relação aos outros animais, que a espécie humana, que não foi dotada pela natureza de força, ou de garras, ou de pelos para se proteger do frio, conseguiu sobreviver neste planeta? E no momento que pela primeira vez ele acendeu o fogo, ou utilizou a roda, ou se sedentarizou construindo habitações para se abrigar das intempéries, ele já estava usando seu intelecto e criando ciência e tecnologia. Esta criatividade é inerente ao ser humano, não podemos simplesmente impedir o cérebro de funcionar e procurar soluções...

O problema não é a tecnologia em si, mas a utilização que é feita desta, as soluções por ela proporcionadas podem se tornar problemas em função do contexto. Muitas vezes a engenhosidade se alia à sede de dominação para causar estragos enormes, como todas essas guerras que pontuam a história. E esta ânsia de poder e de prazer levou a espécie humana a não respeitar os limites existentes em relação aos recursos do planeta e ao espaço vital das outras espécies presentes nele, nem mesmo de outros seres humanos, o que criou um desequilíbrio perigoso. E se este continua no ritmo atual, a sobrevivência do homem na Terra e o seu modelo de desenvolvimento são incompatíveis. Não por causa da ciência ou da tecnologia em si, mas do modo como são empregadas. Estará então a espécie humana condenada a desaparecer?

É aqui e agora que devemos decidir isto, para as próximas gerações será muito tarde. Acredito que a solução pode vir da ciência e da tecnologia sim. Elas só precisam incorporar em suas realizações o conceito da sustentabilidade, remediar os erros  já cometidos contra o planeta (quando ainda for possível) e ter em mente que não existe outra alternativa. É uma nova equação para a ciência e para o intelecto humano e de sua solução depende o futuro da humanidade. Estaremos à altura para resolvê-la?

É fato. O preço do barril do petróleo só cresce. Aqui na América do Norte a população já começa a sentir no bolso as consequências do alto preço dos combustíveis. Agora, todos só falam de buscas para alternativas de combustíveis, carros híbridos, etc. Os biocombustíveis fazem parte dessa discussão também.

Os biocombustíveis são combustíveis feitos de plantas ou resíduos, materiais que podem ser renováveis, ao contrário do petróleo, que é um recurso que um dia vai acabar. Biocombustíveis podem ser feitos de madeira, gases originados de excremento animal ou líquidos extraídos de plantas, como milho ou cana de açúcar, entre outros.

Teoricamente, os biocombustíveis são mais amigáveis para o meio ambiente porque sua matéria-prima é renovável. Porém o processamento do biocombustível pode ser tão poluidor como o combustível fóssil, dependendo de como é feito. Entretanto, estudos britânicos revelam que a redução de emissões dos biocombustíveis é de 50% a 60% menor que os combustíveis a base de petróleo.

A grande controvérsia é que o estímulo ao uso de biocombustíveis pode ter um impacto negativo na agricultura e no preço dos alimentos no mundo todo. Há também a questão da biodiversidade, da monocultura de grãos, da redução de habitats para animais e plantas.

A recente discussão na cúpula da ONU sobre a crise alimentar ressaltou que os biocombustíveis devem ser controlados, para não agravar a crise dos alimentos. O Brasil foi categórico ao defender que a tecnologia dos biocombustíveis não deve afetar o mercado dos alimentos no mundo. O pessoal do Talk Climate não concorda com isso. Eles acham que é uma solução muito simplista para um problema muito maior, cuja solução estaria na mudança de hábitos de cada indivíduo.

E você, o que acha dos biocombustíveis?

Não dá para ficar parado. Você vai ficar?

Enquanto nós ficamos parados, outros planejam, sorrateiramente como sempre fazem, mais uma onda de destruição das nossas florestas. Está em votação o Projeto de Lei 6424/2005, de autoria do Deputado Flexa Ribeiro (PSDB-PA) que autoriza um dos maiores crimes ambientais a ser cometido na história do Brasil.

Você vai ficar parado?

Enquanto nós ficamos parados, outros colocam no mercado produtos contendo transgênicos sem aviso no rótulo, em total desacordo com as leis. Ferem mortalmente nosso direito a um consumo consciente.

Você vai ficar parado?

Enquanto nós ficamos parados, outros tantos sequer aceitam que o aquecimento global é uma realidade. Alegam que os estudos não são conclusivos, que "não é bem assim", e seguem, em prol do crescimento das suas economias, produzindo GEE. Afinal, o que vale é o "aqui e agora". O futuro que se dane!

Você vai ficar parado?

Quer mais exemplos? Crescimento populacional descontrolado? Roubo da nossa flora e fauna? Há uma lista interminável de exemplos...

Nós, do Faça a sua parte, não ficaremos parados. E queremos que você se mexa. Que mexa os dedos e participe da 1º edição da série "Debates Ambientais do Faça a sua parte". Todo ano, no período de 22 de maio a 14 de junho, o Faça a sua parte promoverá debates sobre as questões do meio ambiente. E, no dia 5 de junho, acontece a blogagem coletiva para comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente.

Uma blogagem coletiva inédita. Serão duas semanas para preparar, com debates, a blogagem coletiva para comemorar o Dia do Meio Ambiente. Participe com seus comentários ou posts em seu blog sobre algum dos temas propostos. Debata, converse, troque idéias. Participe. Mas lembre-se: no dia 5 de junho não deixe de participar da blogagem coletiva do Dia Mundial do Meio Ambiente.

Mas não pára por aí. Do dia 6 até o dia 14 continuaremos debatendo, agora com as diversas contribuições realizadas no dia 5.

Veja a programação para 2008:

MAIO

22 e 23: Biodiversidade: sem flora e sem fauna?
24 e 25: Cerrados: bioma ou necroma?
26 e 27: Florestas, até quando haverá uma?
28 e 29: Educação Ambiental: a quem educar?
30 e 31: Aquecimento Global: mito ou realidade?

JUNHO

01 e 02: De quem é a culpa: do Legislativo, do Executivo, ou nossa?
03 e 04: Meio Ambiente Humano: somos parte da natureza?
05 e 06: Blogagem coletiva sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente
07 e 08: Mar: Origem da vida?
09 a 12: Tecnologia e Meio Ambiente: há futuro na ciência?
13 e 14: Consumo sustentável: o que e como fazer?


Participe conosco. Traga suas idéias e conhecimentos. Faça a sua parte ou...

Você vai ficar parado???
Vão  ver. Relato sobre uma palestra de Niles Eldredge, mais um excelente texto da Lucia Malla.

As substâncias químicas estão presentes em vários setores da vida cotidiana (alimentação, cosméticos, outros produtos do dia a dia), participando do desenvolvimento econômico nos padrões atuais nos setores da indústria e da agricultura. No entanto, a fabricação destas substâncias tem implicado até agora em gastos de recursos naturais caros, limitados e não renováveis,  à produção de moléculas tóxicas e à geração de poluição do meio ambiente. Resumindo, a indústria química é considerada como vilã na batalha contra a degradação do planeta.

Conscientes desta situação, os responsáveis pelas pesquisas na área química, resolveram implementar uma série de procedimentos para evitar os efeitos nocivos desta indústria sobre o meio ambiente, e estabeleceram uma série de princípios visando a criação da “Química Sustentável”.

 

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Os 12 Mandamentos da Química Verde*

1. A prevenção da poluição na fonte evitando a produção de resíduos.

2. A economia de átomos e de etapas que permitam realizar, com gasto mínimo, a incorporação de funcionalidades nos produtos pesquisados sempre limitando os problemas de separação e de purificação.

3. A concepção de sínteses menos perigosas graças à utilização de condições suaves e a preparação de produtos pouco ou não tóxicos para o homem e o meio ambiente.

4. A concepção de produtos químicos menos tóxicos com o desenvolvimento de moléculas mais seletivas e não tóxicas, resultando em progresso nos domínios da formulação e da vetorização dos princípios ativos e dos estudos toxicológicos em escala celular e ao nível do organismo.

5. A pesquisa de alternativas aos solventes poluentes e aos auxiliares de síntese.

6. A limitação dos gastos energéticos com o desenvolvimento de novos materiais para a estocagem de energia e a pesquisa de novas fontes de energia com baixo teor de carbono.

7. A utilização de recursos renováveis ao invés de produtos fósseis. As análises econômicas mostram que os produtos oriundos da biomassa representam 5% das vendas globais e poderia atingir 10 a 20% em 2010. Mais de 75% da indústria química global seria então originária de recursos renováveis.

8. A redução do número de derivados diminuindo a utilização de grupos protetores ou auxiliares.

9. A utilização de processos catalíticos preferindo-os em relação aos processos estequiométricos, com a pesquisa de novos reagentes mais eficientes, e minimizando os riscos em termos de manipulação e de toxidez. A modelagem dos mecanismos pelos métodos da química teórica deve permitir a identificação dos sistemas mais eficientes a serem realizados (incluindo os novos catalisadores químicos, enzimáticos e/ou microbiológicos).

10. A concepção dos produtos visando sua degradação final em condições naturais ou forçadas de modo a minimizar a incidência sobre o meio ambiente.

11. O desenvolvimento das metodologias de análise em tempo real para prevenir a poluição, controlando o trancorrer das reações químicas. A manutenção da qualidade do meio ambiente implica em uma capacidade de detecção e se possível medida da presença de agentes químicos e biológicos considerados tóxicos em nível de traços (amostragem, tratamento e separação, detecção, medida).

12. O desenvolvimento de uma química fundamentalmente mais segura para prevenir acidentes, explosões, incêndios e emissões de compostos perigosos.

Tudo o que desejamos é que eles sejam seguidos à risca!

 

*Paul T. Anastas e John C. Warner, Green Chemistry : Theory and Practice, Oxford University Press, New York, 1998 p. 30.

Fonte :

Colóquio do CNRS sobre a "Química para o Desenvolvimento Sustentável"

A Universidade de Queensland, na Austrália, publicou hoje um documento chamado "Declaração de consenso sobre o futuro dos recifes de corais". Compilado por mais de 50 cientistas do Centro de Excelência em Estudos de Recifes de Corais, traz uma imagem nada bonita da situação dos mares do mundo. Entre os diversos tópicos citados, muitos infelizmente de difícil realização na atual conjuntura da humanidade. Destaco aqui os tópicos que mais me chamaram a atenção (tradução livre minha):

- Conclamamos a sociedade e os governos a diminuírem substancial e imediatamente as emissões dos gases de efeito estufa. Sem essas reduções, o dano decorrente do aquecimento global sobre os recifes de corais será em breve irreversível.

- Mudanças climáticas, pesca em escala industrial e poluição continuam a causar declínios elevados e rápidos na abundância das espécies de recifes de corais e mudanças globais no mesmo ecossistema. Mesmo recifes bem-monitorados e remotos estão correndo perigo com as mudanças climáticas.

- O mundo tem uma janela de oportunidade para salvar os recifes de corais da destruição causada pelas mudanças climáticas. Redução global substancial das emissões de gases de efeito estufa devem ser iniciadas imediatamente, não daqui a 10, 20 ou 50 anos.

- A ação local pode ajudar a reconstruir os recifes de corais e promover sua recuperação. É extremamente importante que evitemos os booms de algas nos recifes, reduzindo a descarga de sedimentos e protegendo os estoques de peixes herbívoros.


Leia o resto aqui. E faça a sua parte pelo mar, esse tesouro tão ameaçado por nós humanos.

Coral reef

(Via Blue Beyond.)
No início de agosto, vi essa foto no Real Climate que me deixou perturbada:

Artic ice cap
(Foto originalmente pertencente à Universidade do Illinois.)

Em rosa, vemos o chamado "valor mínimo de extensão do Ártico". Explico melhor. Todo ano, os polos derretem um pouco no verão e recongelam durante o inverno. Ou seja, há um equilíbrio de gelo nessas regiões, mas é um equilíbrio dinâmico, que gera gráficos em ziguezague, onde o importante são as tendências para onde os gráficos vão com o passar do tempo (pra cima, pra baixo ou estáveis). Em geral, a primeira quinzena de setembro é quando a quantidade de gelo no Ártico chega ao menor nível, todo ano. Isso acontece porque esse período marca o fim do verão no hemisfério norte, ou seja, o fim da época quente que favorece o derretimento das calotas. É claro, há séculos esse ciclo derrete-congela acontece, e o valor mínimo de extensão não varia abruptamente. Ou seja, o gráfico tem se mostrado estável, na maior parte do tempo histórico.

É quando a figura aí em cima se torna perturbadora. Ela mostra que no início de agosto desse ano, a área de derretimento já era de 1.2 milhões de km2, e pior, mostrava que comparado aos dados de setembro de 79, a área derretida aumentou muito mais que o normal. E ainda faltava chegar no mês de setembro, quando o verão efetivamente terminaria.

Eis que setembro chegou, e os dados foram ficando cada vez mais assustadores. Até que em outubro, finalmente se chegou à triste conclusão de que 2007 foi um ano histórico pro clima mundial: nunca o Ártico derretera tanto num verão, desde que se começou a medir tal valor. (O NYTimes fez uma reportagem clara sobre o fato, e acompanhou-a com uma animação em flash que mostra esse derretimento nos últimos 4 anos. A animação, assim como a foto acima, é também impressionante.)

Devido a esse derretimento todo, 2007 foi o ano em que pela primeira vez na história recente da humanidade, a passagem noroeste do pólo, um atalho que liga a Europa a Ásia e antes era impossível de ser ultrapassado devido ao gelo, ficou navegável. Essa mera abertura de navegação muito antes de se tornar motivo de preocupação ambiental, se tornou disputa político-econômica para Rússia, Dinamarca e Canadá, que agora trocam farpas sobre quem é o dono dos recursos minerais no subsolo da área, analisando cadeias montanhosas submarinas e afins. A Rússia chegou ao ponto de plantar uma bandeira a 4 km de profundidade, clamando que o Ártico é deles. O Canadá iniciou então uma operação de "soberania". Depois pensa-se o que fazer com flora, fauna e habitantes da região, é claro.

Mas não é só a extensão de gelo do Ártico que vem diminuindo. Nos últimos 6 anos, a taxa de diminuição da camada de gelo do solo na região foi de 50%, ou seja, a espessura do gelo também diminuiu muito. Nesse ritmo alucinado de derretimento, já há previsões científicas de que o Ártico desaparecerá por completo em 23 anos; ou seja, em tempo geológico, amanhã.
A geografia da região vem se alterando drasticamente, e ilhas na Groenlândia vêm surgindo onde antes apenas gelo predominava. Algumas espécies animais já vêm sofrendo as consequências desse derretimento acelerado. Morsas, por exemplo, foram se alimentar nas praias do Alaska, já que seu hábitat natural de verão desapareceu. De acordo com um artigo recente do famoso pesquisador de clima da NASA Jim Hansen (link em pdf), o aumento de temperatura global está chegando num "tipping point", ou seja naquele ponto "x" em que não adiantará fazer muito mais para reverter o quadro do paciente, e grandes mudanças acontecerão inevitavelmente. Ficaremos sem Ártico no verão.

E o que isso implicará? A resposta mais honesta é: não se sabe. Já há registros de aumento de terremotos na Groenlândia, mas seriam eles apenas reflexos do processo de derretimento? Há previsões sobre o aumento do nível dos mares globais que deixariam países-atóis do Pacífico debaixo d'água - e a maioria deles vem tentando fazer acordos de realocação com países próximos, como Austrália e Nova Zelândia, a fim de se preparar para quando o mar invadir. Existem outras hipóteses do que pode acontecer ao planeta, mas o nível de incerteza ainda é elevado para se afirmar qualquer coisa.

O único fato é: o planeta vai mudar. Ou talvez antropocentricamente pensando, tentar se defender à forma dele, das agressões que vem sofrendo. E nossa atitude vai ter que mudar também nesse mundo novo, sem gelo no pólo norte e mais propenso a catástrofes climáticas gerais. É preciso antes de tudo investir em tecnologias que possam amenizar a mudança drástica, principalmente aquelas relacionadas a alternativas energéticas pro processo de existência humano. Diminuir gases que colaboram com o aumento da temperatura atmosférica. Reformular todo o sistema de pensar das pessoas, como bem disse o mais recente prêmio Nobel da Paz Al Gore, em entrevista na Rolling Stone (link via Pedro Doria).

Só assim o derretimento do Ártico não se tornará um horizonte negro para nossa existência na Terra.

Horizonte-negro


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*Esse post faz parte da comemoração do Blog Action Day 2007, cujo tema escolhido é Meio Ambiente. Blogs do mundo inteiro estão falando sobre o tema no dia de hoje, na tentativa de fazer com que as pessoas discutam meio ambiente para um melhor futuro. Visite, comente, participe. Assim o dia terá feito (um pouquinho que seja...) a diferença merecida. :)

Bloggers Unite - Blog Action Day

Thalspi caerulescens - fonte da foto

É primavera! Observem estas lindas florzinhas que parecem que foram colocadas lá para o prazer de nosso olhos. Mas elas não são apenas agradáveis ao olhar, elas também podem cumprir uma outra tarefa na natureza : limpar os solos e as águas da poluição por metais pesados, provenientes das indústrias. Seu nome é Thalaspi caerulescens , da família Brassicaceae, e ela é um dos principais focos das pesquisas sobre a fitoremediação, que tem como objetivo o uso das plantas para degradar, remover ou estabilizar substâncias tóxicas do solo ou das águas contaminadas.

E ela não é a única, existem várias plantas chamadas hiperacumuladoras, i.e, que podem estocar metais dos quais elas não necessitam para seu desenvolvimento (ou que os metabolizam para espécies menos nocivas) que podem realizar esta faxina na natureza. Pois, se estes metais pesados poluidores não forem retirados ou impedidos de migrar, eles vão se acumular nos vegetais comestíveis ou contaminar o lençol freático, acarretando problemas como dermatite alérgica, perfurações do septo nasal, câncers, cefaléia, náuseas e desmaios nos seres humanos. E não é apenas a contaminação por os metais pesados que podem ser tratada por esta técnica, os solos e águas contaminados por herbicidas ou derivados do petróleo também.



Em seguida, os metais contidos nas plantas podem ser extraídos da biomassa, os metais armazenados podem ser recuperados por empresas de fitomineração e o ciclo estará fechado. Este processo é mais barato que os métodos convencionais, que necessitam retirar a terra poluída e transportá-la para um local de tratamento ou depósito.

O problema é que estas plantas só podem recuperar uma baixa concentração destes poluentes. E é aí que entra o estudo efetuado na Universidade de Liège, por exemplo, no qual se estuda o genoma destas plantas para descobrir quais são os genes responsáveis por estas propriedades. Uma vez conhecidos, estes serão então inoculados em plantas como o fumo ou o álamo, que apresentam um crescimento mais rápido ou uma capacidade mais elevada de captação destes poluentes. O "hic" em relação ao meio ambiente é a utilização de transgênicos...mas os cientistas que desenvolvem estas pesquisas tranqüilizam o público afirmando que estes podem ser esterilizados, eliminando assim o risco de propagação.

A fitoremediação já é uma realidade. Nos EUA, a mostarda indiana transgênica, por exemplo, foi usada para tratar solos contendo arsênico na Califórnia. No Canadá, o chumbo, o cobre e o zinco foram retirados do solo graças a 3 espécies : o salgueiro, a mostarda indiana e a festuca (gramínea para pastagens). A Universidade da Georgia desenvolve algodoeiros transgênicos para limpar solos contaminados com mercúrio. As plantas já estão sendo testadas em um terreno da cidade de Danbury, no Estado norte-americano de Connecticut, de onde 60 algodoeiros irão retirar o mercúrio depositado por uma antiga fábrica de chapéus.


No Brasil, várias equipes de pesquisas já se debruçam sobre este processo, em escala de laboratório. Por exemplo, um tipo de samambaia é estudado para a fitoextração de arsênio e o feijão de corda é usado para a recuperação de solos contendo herbicidas. O chorão para a recuperação de águas contendo derivados de petroleo; mamona, girassol, pimenta da Amazônia e tabaco para o tratamento de solos contendo cádmio, chumbo, cobre, zinco e níquel.

Embora esta técnica apresenta limitações tais como um tempo de descontaminação longo, ela é economicamente viável e uma excelente utilização de recursos naturais. Resta esperar que seja levada a sério, ultrapasse a escala de laboratório e chegue aos nossos campos.


Alguns Estudos no Brasil :
Na edição online da revista FAPESP deste mês de julho, um pesquisador da UNICAMP comenta sobre seu trabalho de pesquisa com substitutos reprocessáveis para a borracha, principalmente de pneus. O pesquisador vem analisando diferentes arranjos moleculares para que a borracha ecológica seja tão eficiente quanto a borracha vulcanizada que hoje reina no mercado.

E a cifra mais assustadora do artigo para mim foi essa: todo ano, cerca de 1 bilhão de pneus são descartados (vai pra onde esse lixo?) no mundo. Perante um caos desse, qualquer ajuda científica que minimize essa cifra já é de grande ajuda.
Uma reportagem escrita por essa que vos fala sobre a vida e os problemas que o peixe-boi da Flórida vem passando para manter sua sobrevivência (e não ser consequentemente extinto) saiu na edição deste mês da revista Mergulho (n. 132). O início da reportagem está online aqui, mas se quiser ler tudo, é preciso correr às bancas.
O mais esperançosos creditam à ciência e à tecnologia a salvação do meio ambiente. Dizem eles que a humanidade sempre soube descobrir maneiras de resolver seus problemas e que, assim, não haverá fim para a espécie humana, sendo a criatividade o fator mais importante a contribuir para isso. Criatividade, diga-se de passagem, inesgotável. Pensam eles, os esperançosos!

Se olharmos para os momentos decisivos, na linha de evolução da espécie, é até possível dar razão aos mais esperançosos. A dupla Arthur C Clarke e Stanley Kubrick tornou paradigmática a cena onde um macaco, após "descobrir" a utilidade de um osso como arma, lança-o ao alto para transformar-se na nave de "2001: Uma Odisséia no Espaço" (1968).




A linha que une esses dois pontos - sempre acompanhada pelo monolito, ao longo dos milhões de anos ali sintetizados - começa na criatividade e termina na tecnologia.

Os egípcios resolveram seus anseios por uma vida eterna com criatividade e tecnologia: construiram as pirâmides. A essa mesma forma, a criatividade das civilizações centro-americanas deram outro destino: o domínio da astronomia e do tempo. A criatividade e a tecnologia se encarregaram, também, de colocar um fim a essas e a tantas outras civilizações.

A humanidade vê-se, mais uma vez, diante de um desafio. Não saberia dizer, agora, se o maior de todos ou se apenas mais um. O fato é que não podemos deixar de dar créditos à criatividade e para sua capacidade de desenvolver a tecnologia necessária para a sobrevivênca da nossa espécie. Ah! Os mais esperançosos que o digam.


Pois então! Recebi, hoje, um mail com o seguinte título:

Primeira usina flutuante gera energia a partir do movimento das ondas


Desconhecia por completo a existência desse projeto. O título é atraente por si só. O mar balança suas ondas desde que o mar é mar, há zilhões de anos. E de graça!

Abro o link e leio. Vejo as fotos, o filme, a animação. Putz, a minha talvez pouca fé na criatividade e na tecnologia balança. Não estarão erradas as Sagradas Escrituras, quando dizem que "do pó viestes, ao pó voltarás!"? Não seria mais correto dizer "do pó viestes, ao mar te voltarás!"?

Criatividade e tecnologia serão a salvação?

Fotos: Cidade Internet - http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/2001/2001.htm
Notícia: IDG NOW - http://idgnow.uol.com.br/mercado/2007/03/23/idgnoticia.2007-03-22.2729895286
O tema deste mês (e de início de abril) do blog Roda de Ciência é o aquecimento global. Como participante daqui e de lá, aproveito para um jabá básico: vale a pena dar uma passada por lá para ouvir um pouco o que meus amigos cientistas supimpas têm a dizer sobre o tema. A discussão em geral é de alto nível. Confira.
Fonte: Estadão/ciencia


O Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática traz uma visão sombria do estado atual do mundo e faz previsões dramáticas para o meio ambiente
Seth Borenstein, AP
AP

PARIS - O alerta sobre aquecimento global, emitido pelo principal comitê científico internacional encarregado de analisar o problema, é direto e brutal: "o aquecimento do sistema climático é inequívoco", a causa é "muito provavelmente" humana e o efeito "continuará pelos próximos séculos".
Na divulgação oficial de um relatório de 21 páginas sobre o que é o aquecimento global, e como ele ocorre - mas sem dizer ao mundo o que fazer a respeito - o Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC) oferece uma visão sombria do estado atual do meio ambiente e faz previsões ainda mais preocupantes a respeito do futuro.

"O aquecimento do sistema climático é inequívoco, como agora é evidente, graças a obervações de elevações na temperatura global média do ar e dos oceanos, vasto derretimento do gelo e das neves, e elevação do nível médio do mar em escala global", diz o texto.
O presidente do painel, o cientista indiano Rajendra Pachauri, referiu-se ao relatório como "um documento muito impressionante, que avança vários passos em relação à pesquisa prévia". Uma importante cientista do governo dos Estados Unidos, Susan Solomon, declarou, durante o lançamento, que "não pode mais haver questão de que o aumento nos gases do efeito estufa é dominado pelas atividades humanas".

O relatório afirma que já se pode atribuir às emissões provocadas pelo homem os seguintes problemas: menor número de dias frios; noites mais quentes; ondas de calor letais; enchentes e chuvas pesadas, secas devastadoras e um aumento na força de tempestades e furacões, principalmente no Oceano Atlântico.
E se você acha que a situação já é ruim, os efeitos durante o século 21 "serão, muito provavelmente, maiores que os observados durante o século 20".
Previsões

O comitê prevê uma elevação de temperatura de 1,1º C a 6,4º C até 2100. Esta é uma faixa de variação maior que a que constava do relatório anterior, de 2001, mas o comitê também diz que a melhor estimativa fixa a mudança entre 1,8º C e 4º C.
No que diz respeito ao nível do mar, o relatório projeta elevações de 18 a 58 centímetros. Mas essa faixa pode ser ampliada em outros 10 a 20 centímetros se do derretimento das capas de gelo sobre as regiões polares continuar.

Além disso, diz o texto, não importa quanto a civilização corte suas emissões de gases-estufa, o aquecimento global e a elevação dos mares prosseguirão pelos próximos séculos.
"Não é uma coisa que dê para parar. Simplesmente teremos de viver com isso", disse um dos co-autores do trabalho, Kevin Trenberth, do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas de Boulder (EUA). "Estamos criando um planeta diferente. Se você voltar daqui a 100 anos, teremos um clima diferente".

Cientistas temem que os políticos interpretem mal a mensagem e simplesmente desistam de fazer algo a respeito. Isso seria errado, declarou Trenberth. O que é necessário é reduzir as emissões e, ao mesmo tempo, adaptar as populações a um mundo mais quente, e com um clima mais maluco.

"A questão aqui é destacar o que acontecerá se não fizer mos nada e o que acontecerá se fizermos algo", disse outro co-autor, Jonathan Overpeck. "Posso dizer que, se decidirmos não fazer nada, os impactos serão muito maiores do que se fizermos alguma coisa".
Lembram do Kerry Emanuel? Pois ele escreveu no Boston Review um artigo para leigos, onde explica meticulosa e claramente sobre a ciência por trás do problema do aquecimento global. O artigo é longo, mas vale a pena ser lido, principalmente as 2 partes finais, onde ele disserta sobre como a política se meteu nessa história - e critica tanto a atitude da direita quanto a da esquerda. Imprescindível.

(Via Real Climate)
Para quem não sabe, uma das 100 pessoas mais influentes de 2006 pela eleição da revista Time foi um meteorologista: Kerry Emanuel, professor do MIT, em Boston. E por que ele está lá? Porque seus estudos tentam entender o motivo pelo qual os furacões têm se intensificado no mundo, principalmente no Atlântico. O artigo que Kerry Emanuel publicou na Nature (link em pdf) meses antes do Katrina destroçar New Orleans tornou-se literatura básica para qualquer discussão científica decente sobre aquecimento global e furacões que se queira ter. Ele calculou, teorizou e hoje é citado pelos 5 cantos do planeta como o grande idealizador do modelo que dita que a atividade humana é, em parte, responsável pela intensidade dos furacões.

Ano passado, eu assisti a um programa no Discovery Channel que hipotetizava sobre um super-tufão em Hong Kong - e lá estava Emanuel explicando tintim por tintim como essa tragédia se desenvolveria na atmosfera e o que causaria nos arranha-céus da cidade.

Essa semana, Chris Mooney está blogando diretamente da Reunião Anual da Associação Americana de Meteorologia, e relatou em seu blog a palestra de Kerry Emanuel. Um pedaço me saltou aos olhos:

"Emanuel was a party to that consensus statement, but of course he has his own views. And it's clear that although at present he hasn't won over all of his fellow scientists, he still thinks global warming is playing a significant role in increasing the power dissipation of hurricanes, especially in the Atlantic. (Emanuel showed yesterday that the data are much more contested for the Northwest Pacific.)"


Embora todos os pesquisadores sejam relutantes em dizer preto no branco que a o aquecimento global é o responsável (direto ou indireto) pelo aumento da intensidade dos furacões, percebe-se que Emanuel está claramente decidido em sua resposta. Vale notar também no post de hoje do Mooney outra constatação:

"More recently, though, Holland and his co-author Peter Webster of Georgia Tech have gone further and, in a new paper (PDF), asserted that in the Atlantic, an increase in tropical cyclone numbers over the past 100 years is indeed being caused by global warming's heating of the tropical ocean. As the paper puts it: "It is concluded that the overall trend in SSTs and tropical cyclone and hurricane numbers is substantially influenced by greenhouse warming." The paper further argues that although the proportion of major to minor hurricanes has not changed in the Atlantic, there are more of the strongest storms just because there are more storms in total."

Ou seja, não só a intensidade, mas o número de furacões que se formam no Atlântico aumentou em função do aquecimento global.

É claro, ainda há discussões no meio científico sobre a parcela exata de culpa das emissões de CO2 nesse fenômeno, mas é quase certo que há uma parcela - existem outros fatores que influenciam a formação dos furacões, como temperatura da água do mar, o El Niño, correntes atmosféricas, etc.

Resta a nós ficarmos atentos ao que os próximos artigos de Emanuel e de outros grupos importantes da meteorologia podem acrescentar à discussão, que já está pra lá de quente.

(Também postado aqui.)
" 'Aquecimento global' é uma frase que se refere ao efeito sobre o clima das atividades humanas, em particular a queima de combustíveis fósseis (carvão, óleo e gasolina) e a queima em larga escala das florestas, que causam emissões à atmosfera de grandes quantidades dos "gases do efeito estufa", dos quais o mais importante é o dióxido de carbono. Esses gases absorvem a radiação infravermelha emitida pela superfície da Terra e agem como um cobertor sobre a superfície, mantendo-a mais aquecida do que deveria ser. Associadas a esse aquecimento estão as mudanças climáticas. A ciência básica do "efeito estufa" que gera o aquecimento é bem compreendida. Um entendimento mais detalhado requer modelos numéricos do clima, que integram as equações básicas dinâmicas e físicas que descrevem o sistema climático completo. Muitas das características esperadas das mudanças resultantes do clima podem ser identificadas (como ondas de calor mais frequentes, aumento de chuvas tropicais, aumento na frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos). Incertezas substanciais ainda existem sobre o conhecimento dos feedbacks dentro do sistema climático (que afetam a magnitude de mudança total) e em muitos dos detalhes regionais da mudança. Devido aos impactos negativos nas comunidades humanas (incluindo aumento substancial do nível dos oceanos) e nos ecossistemas, o aquecimento global é o problema ambiental mais importante que o mundo passa no momento. Adaptação aos impactos inevitáveis e motivação para reduzir sua magnitude são necessárias. Uma ação internacional tem sido alavancada pela comunidade científica e política mundial. Devido à necessidade por ação urgente, o maior desafio atual é mudar rapidamente para uma condição de maior eficiência energética e para a geração de energia por combustíveis não-fósseis."

- Tradução minha desse resumo aqui. Referência:

Houghton, J. 2005 Global Warming. Rep. Prog. Phys. 68: 1343-1403.


(Thanks for the excellent link, S. Wayne!)

- Também postado aqui.
Estava lendo o último post do Real Climate, onde os climatologistas discutem o último inverno americano, extremamente atípico, e com pouca neve em regiões onde sempre neva muito, como a costa leste.

Um pedaço me chamou a atenção:

"(...) one cannot attribute a specific meteorological event, an anomalous season, or even (as seems may be the case here, depending on the next 2 months) two anomalous seasons in a row, to climate change. Moreover, not even the most extreme scenario for the next century predicts temperature changes over North America as large as the anomalies witnessed this past month. But one can argue that the pattern of anomalous winter warmth seen last year, and so far this year, is in the direction of what the models predict." (grifo meu)

Temos que tomar cuidado na atribuição de todos os problemas ecológicos do mundo ao aquecimento global. O modelo científico aceito pelos mais renomados especialistas realmente diz que o mundo tende a um aquecimento - e que outros cientistas de áreas diversas afirmam poder trazer consequências catastróficas para os humanos.

Mas ponderação é sempre algo importante em qualquer caso. Se por um lado, a existência dessa estação anômala trouxe com toda a força para a mídia o problema do aquecimento global - principalmente aquele antropogênico, ou seja, causado pelo ser humano -, pode trazer também a oportunidade de entendermos melhor os modelos que estão por trás de tais afirmações da mídia.

Os modelos são calculados baseados em temperaturas medidas por muitos anos, décadas, séculos, e até milênios. Há como identificarmos a temperatura de alguns milhares de anos analisando-se a composição da atmosfera que ficou aprisionada em blocos de gelo em locais remotos, como na Antárctica, por exemplo. Quando olhamos para esses números, vemos que houve momentos de aquecimento e resfriamento, como se fosse um ciclo que acontece de vez em quando com o planeta. Sobe e desce. Entretanto, alguns estudos usando diferentes tecnologias apontaram há algum tempo que o século 20 foi anomalamente quente, e que a tendência de variação climática está só subindo - o que plotado num gráfico gera a forma de um bastão de hóckey voltado para cima, a que os climatologistas chamam de curva de "hockey stick", como vemos abaixo nesse gráfico com a temperatura média do último milênio:

Temperatura dos ultimos 1000 anos

(Repare que o ano de 2006, o sexto mais quente da história, ainda não havia sido registrado nesse gráfico na época de sua feitura... e que se prevê que 2007 será o mais quente da história, o que significa que pode passar dessa linha preta de 2004. Gráfico tirado daqui.)

O modelo de clima global caminha para esse ápice à direita, ou seja, terá variação de temperaturas médias maiores. O que os dados coletados pelos cientistas hoje em dia fazem é apenas confirmar esse modelo por diferentes caminhos científicos - e pasmem, na maioria quase absoluta, os dados confirmam a existência dessa curva crescente teorizada anos atrás. Então, quando alguém refuta o aquecimento global dizendo que "a Terra sempre teve um ciclo de quente-frio", vale ressaltar a essa pessoa que nunca os dados (que são estatisticamente significativos e controlados, publicados em jornais científicos, revisados, repetidos, etc.) mostraram variações de temperaturas tão altas - e subindo mais a cada ano. O conceito de "quente" do passado não é o mesmo que estamos presenciando hoje. Ok, há o efeito do El Niño (que esse ano inclusive prevê-se que será "moderado", não tão forte quanto no passado), há o problema das erupções vulcânicas, mas nesse último século há principalmente a ação humana gerando CO2 em quantidades gigantescas. Portanto, podemos até (fugir e) culpar o El Niño, podemos (fugir e) culpar os vulcões em erupção e o que mais de irracional aparecer pela frente, mas o grande diferencial dessa equação - o homem - precisa também ser incluído no cálculo e repensar suas atitudes geradoras de CO2. Repensar o que vem fazendo pelo planeta.

Mesmo que isso não afete a sua existência direta agora - afinal, os modelos climáticos são, como tudo na ciência e na vida, baseados em estatísticas -, é um problema cuja probabilidade de afetar as gerações futuras é muito elevada. E que planeta você quer deixar para seus filhos?

Olhe pro modelo do gráfico, pondere e responda.



(Postado também no Uma Malla pelo mundo.)

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