Já há algum tempo se fala em sociedade liquida. Definição cunhada pelo sociólogo Zigmunt Bauman para caracterizar a sociedade atual, onde as transformações são tão velozes que não permitem mais o estabelecimento de modelos ou tradições. O conceito de liquido vem ilustrar esse nosso modo fluido de comportar-se socialmente, ou seja, vivemos em constante expectativa e transformação. Nos "moldamos" continuamente àquele que é nosso habitat em comunidade. Claro que isso tem uma origem e também suas consequências.
No inicio do século passado Freud (alguém se lembra dele? aquele austríaco barbudinho) fazia uma analise do homem de seu tempo, aquele do inicio do século XX. Dizia que em nome da segurança, as pessoas eram até dispostas a abrir mão de um pouco da liberdade. Ordem e modelos preestabelecidos, orientavam o agir e o estar. A distancia de cem anos, a situação se inverte.Bauman sublinha a importância que a liberdade, traduzida e transformada em individualismo, assume nos dias de hoje. A segurança, as certezas, osrefererenciais, as verdades perenes desaparecem.
Isso cria um paradoxo. Somos tão viciados em garantir a liberdade pessoal e nossa individualidade que nos transformamos em todos iguais uns aos outros, o exato contrario do que se pretende. E dentre os aspectos não muito positivos desse modo de ser,encontra-se o fato que somos igualmente individualistas mas por isso mesmo, muito desunidos como sociedade.
Nos fizeram crer que pensamos com nossa própria cabeça, mas sempre mais e mais reproduzimos modelos. Como antes os modelos eram claros e desejados, paradoxalmentetinha-se maior liberdade em segui-los ou não. Hoje os modelos são ocultos, quase nunca tem nome ou um rosto. Mas praticamente todos se aninham em um enorme coiso liquido que chamamos de mercado de consumo.
O consumo serve como referencial hoje. Outro dia levei meu computador de dois anos de idade pra um conserto e o técnico me disse: sabe, tem que esperar um pouco até chegar as peças, pois é um computador velho...Càspita, dois anos é velho.
Vivemos plenamente nossa liberdade de escolha, mas desde que seja dentre o que o mercado nos oferece. Se você me lê aqui é porque tem diante de si um desse computadores de que falei. Tivemos que nos adequar a eles. Vivemos dentro do esforço de acompanhar tudo o que vem por ai. O celular com duzentas funções já não é legal, temos agora o de trezentas. A geladeira que não fala é ultrapassada, o tostador de pão semdisplay me deixa angustiado.
O resultado de nossa sociedade individualista, livre e consumista é esse: muita angustia e medo. Na verdade esses são os verdadeiros motores de nossas ações. A angustia nos move na busca de inserimento, visto que no fundo nos sentimos solitários e isso se dá a partir dos objetos e do consumo. Comprar nos alivia essa dor.
Claro que em um contexto assim nosso foco é sempre sobre aquilo que as coisas nos dão, sem demasiada preocupação para as consequências que isso acarreta. No mundo onde tudo é mercadoria destinada ao nosso "bem estar", o meio ambiente é algo marginal. Meio ambiente não é mercadoria. Ou ainda não é.
Olha mais um paradoxo. Não sendo mercadoria, está fora daquelas que são nossas preocupações fundamentais. Um passeio pelo bosque é um momento necessário para alivio do stress pelo trabalho que tenho que fazer pra poder comprar todos osgadgets que me oferecem, nunca algo fundamental e preponderante. Entre plantar uma árvore e comprar um tênis novo no shopping, a enorme maioria de nós escolhe o segundo. O paradoxo é esse: quando o meio ambiente se transforma em mercadoria, entra no rol de produtos. Entra no clube dos objetos destinados à "liquidação", essa entendida literalmente.
Compramos coisas para serem liquidadas. Nossa ânsia tem necessidade de coisas sempre novas e modas e últimos lançamentos. Jogamos fora aquilo que não nos serve mais. Pra onde vão essas coisa já não nos compete mais. Elas já satisfizeram meus desejos e agora que não me serve mais não me interessam minimamente.
A agua está se transformando em mercadoria também. Produto vital e insubstituível, até algum tempo era bem comum e patrimônio de todos. Está mudando, mais ou menos lentamente, mas está mudando. A cada dia que passa se privatiza cada vez mais, até o fornecimento da agua que chega às torneiras, com pioramento da qualidade e irônico aumento de preços.
Além disso, como visto acima, tudo que é mercadoria me serve nos meus caprichos e desejos. Isso automaticamente me leva a pensar que quem pode comprar mais pode ter mais caprichos e de consequência, pode "liquidar" mais que aqueles que não tem esse poder.
O problema da agua, passa a ser um problema econômico e social, além de ecológico e de recursos. Temos já uma divisão entre aqueles que bebem agua mineral, tomam seus banhos diários, sauna, piscina, carro lavado e aqueles que viajam quilômetros para ter o que beber. Além disso temos o consumo de agua para a produção de produtos. Do papel à carne, do tecido de algodão à cachaça, a quantidade de agua empregada na industria é inacreditavelmente grande. Tudo em função do consumo.
Uma vez usada, a agua mercadoria não serve mais. Conflui naquilo que uma vez era fonte de vida e subsistência e que hoje se transforma em sinonimo de cloaca: os rios. E dali ao mar. O grande lixo da humanidade. Muitos de nos nasceram no planeta agua e vão morrer no planeta lixo.
Soluções? Mudança radical ao consumo consciente com particular atenção ao greenwash que aumenta explosivamente, transformando até o tema ecologia em mercadoria.
Redistribuição de renda também ajuda, mas na sociedade liquida da liberdade e do liberalismo é bem difícil até de se sugerir sem parecer comedor de bebês.
Vivemos tempos difíceis, mas com grandes esperanças. Vamos acompanhar com a atenção o fórum de Istambul pra ver o que sai disso tudo.
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