Notícias de Nápoles

Escrevi sobre a emergência do lixo em Nápoles aqui e ali. Após algumas medidas e muita polêmica, achei que era hora de atualizar a informação.

A verdade é que o problema é antigo, com mais de 14 anos, que virou uma emergência há cinco. Sempre foi objeto das campanhas políticas locais. Sob os holofotes de Bruxelas, virou promessa da campanha deste ano, que elegeu Silvio Berlusconi como primeiro-ministro. O problema realmente ficou sério, com escolas fechadas e um delegado que temia uma revolta popular. E tudo indicava que a história acabaria mal.

A primeira reunião ministerial do novo governo, aconteceu em Nápoles, onde Berlusconi reafirmou o compromisso e garantiu que a cidade estaria limpa para a chegada dos turistas, no verão. Tomou medidas impopulares, como reabrir aterros sanitários fechados; mandar o exército às ruas para patrulhar esses mesmos aterros, bloqueados por moradores por estarem saturados (os aterros e os moradores); pressionar os governadores de outras regiões para que aceitassem receber parte do lixo da região Campania. Além disso, acertou com o governo alemão a utilização dos icineradores desativados próximos à fronteira com a Itália. Depois, voltou à cidade anunciando o sucesso da empreitada. Mas há quem afirme que a verdade não é bem assim. Como não poderia deixar de ser, há quem aprove e quem discorde, gerando uma enorme polêmica, com direito a vídeos de ambas as partes:



Mas onde está a verdade?
Partidarismo à parte, a verdade é que Nápoles está muito mais limpa, com focos resistentes do problema na periferia. A emergência está sendo resolvida, mas o verdadeiro problema, não. A região foi abandonada por anos e não é auto-suficiente para coletar e tratar os dejetos que produz. Muitas propostas foram apresentadas e devidamente esquecidas. Os napolitanos não estão habituados à coleta diferenciada pelo simples motivo que descobriram, há muito, que todo o lixo acabava indo parar no mesmo lugar. Os incineradores alemães usados no combate a emergência estavam desativados por falta de lixo: a Alemanha recicla, em média, 67% do lixo produzido, contra 5% de toda a região Campania. A diferença é que na Alemanha a coleta diferenciada serve para alimentar as indústrias de reciclagem. Ou seja: de nada adianta ensinar a população a separar o lixo se no final não existe uma estrutura que utilize tais resultados.

No momento, a única coisa a fazer é esperar - e vigiar - que o governo cumpra uma outra promessa de campanha: criar as estruturas necessárias para que o problema não tenha apenas sido varrido para baixo do tapete eleitoral.

6 Comments

Allan

Tu escreveste "Os napolitanos não estão habituados à coleta diferenciada pelo simples motivo que descobriram, há muito, que todo o lixo acabava indo parar no mesmo lugar."
Quando comentei sobre a "população" me referia aos napolitanos.
Em 93 circulei pela Itália, parei em Roma porque uma napolitana, colega minha de departamento, me sugeriu não visitar a cidade pela sujeira.

Silvia

Nestes dias, prévios a umas férias muito caseiras, estou discutindo com alguns candidatos sobre IPTU Verde (Imposto Predial e Territorial e Urbano). O inicio de conversa veio do local onde resido durante os dias úteis: um antigo sanatório numa área de 29 hectares com mata nativa, fontes e apenas 2 ha com circulação.
Até o ano passado era área rural, baixos impostos, mas agora como área urbana o IPTU disparou. Minha idéia seria classificar como área verde e dar desconto, afinal menos de 10% da uma grande área é usada, o demais está lindo.
Na onda disto, puxei outras ações que pdoeriam dar desconto "verde", cisternas, baixa impermeabilização de terrenos,... copiando modelos legais de outros.
Sendo campanha todos candidatos "absorvem" a idéia. Nestas horas não sou partidário, quem comprar a idéia e vende-la, recebe meu agradecimento. O voto é outro departamento. Depois de eleito seguirei cobrando.
Boas idéias devem ser copiadas, nestas horas sou um "copião".

Marcia, mas se o governo alemão, além de educar, dá incentivos, estimula a reciclagem e a redução do lixo. Se começassem, aqui no Brasil, a cobrar uma sobretaxa por excesso de lixo, uma multa para quem não separa o lixo reciclável e oferecessem descontos nos impostos para quem coletasse água da chuva e fizesse compostagem, por exemplo, muita gente acabaria aderindo à "moda"!

Eu acho muito legais essas iniciativas, e, como digo sempre, acho que devem ser copiadas.

Errata: os incineradores da Alemanha que estao queimando o lixo italiano nao se encontram somente na fronteira! Eu moro bem longe da fronteira e tem lixo italiano sendo queimado aqui. A primeira remessa italiana veio contaminada com lixo radioativo e causou problemas.

Na cidade onde eu moro, recebemos subsidios para coletar água da chuva e compostar lixo orgânico. Três cidades da minha regiao se reuniram e fundaram uma fábrica de reciclagem, onde embalagens, plásticos e metais sao reaproveitados. Hoje eu posso escolher o intervalo de coleta do "lixo restante" (semanal, quinzenal ou mensal), pagando de acordo com o que é coletado. Ou seja, além de reduzir o lixo, eles reduziram as alíquotas.

Acho que o problema maior é ensinar a todos a evitar lixo!

Silvia e Mahai,

O italiano é capaz de separar adequadamente o lixo para a coleta diferenciada, como deixei claro - espero - no post. O que não funciona é o sistema. Para entender como as coisas funcionam no sul da Itália, sugiro a leitura do livro "Gomorra" de Roberto Saviano, ou, na impossibilidade, que assistam o filme homônimo. Trata-se de uma denúncia e retrata fielmente o que acontece em Nápoles, com a Camorra (a máfia napolitana) comandando tudo e muita mutreta correndo solta - a cena dos caminhões carregados com material radioativo sendo soterrados na área urbana é um fato real.
[Alguns atores do filme, escolhidos entre a população local, foram presos por atividades criminosas. Não estavam recitando...]

Já em regiões autônomas, como o Trentino-Alto Adige, onde mora o Flávio, a população tem voz ativa e pode fiscalizar tudo.

Talvez fosse necessário importar os políticos de lá...

Silvia

O problema, que o texto reforça, é que nao basta ter os aterros e destinos (incineraçao), teriam que importar os alemaes! A populaçao está mal acostumada.
A coleta seletiva inserida no dia-a-dia de uma comunidade é um processo leto.
Já contei aqui que testemunhei a mistura de residuos que estavam separados. Na mesma época, na Alemanha, uma colega viu o mesmo, a mistura de tres "tipos" (cores) de vidro. A tarde a populaçao separava, na coleta o caminhao misturava. Na época nao entendi, mas depois me explicaram. O governo facilitava a segregaçao, mas ainda nao tinha estrutura de reciclagem. Claro que alguem testemunhar pode por por terra todo programa.
Primeiro se facilita e promove a separaçao, com tempo se cria a recuperaçao.

Allan, e não dá para pedir ajuda aos alemães, que têm estrutura e know-how?

E problemas assim nos ajudam a entender a tal afirmação de que não existe "jogar fora", afinal o mundo é um só e é dentro dele que jogamos tudo...

Há pouco tempo, acho que no Canadá, se não me falha a memória, houve uma greve do serviço de coleta de lixo. Li que muita gente aproveitou para iniciar a compostagem, reduzindo o lixo produzido.

O Flavio fez um post sobre o esquema de coleta de lixo na cidade dele, onde há um máximo de lixo que cada família pode produzir, não é mesmo? Eu acho medidas assim importantes, porque obrigam as pessoas a mudarem seus hábitos.

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Esta página contém um post de Allan Robert P. J. publicado em agosto 24, 2008 7:39 PM.

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