Dia Mundial dos Oceanos 2008: um guia para consumo ecoconsciente de peixes e frutos do mar

Hoje é o dia Mundial dos Oceanos, esse pedaço líquido do planeta pelo qual eu sou descaradamente apaixonada com todo o azul que uma paixão pode deixar transparecer. No ano passado, eu deixei em meu blog pessoal que os habitantes marinhos "gritassem" por ajuda. Tudo bem que meu blog representa uma nanomarola no verdadeiro mar virtual que é a internet, mas, lendo as notícias do último ano, a sensação que tive foi de ninguém escuta o desesperado pedido dos animais marinhos, seja em que formato for feito. O ambiente deles continua sendo a lata de lixo do mundo, as mudanças climáticas só vem piorando a situação da sobrevivência no mar para a maioria das espécies, e eles, animais marinhos, continuam morrendo em quantidades assustadoras

Então, para tentar ser mais eficiente, esse ano eu decidi fazer algo mais prático para comemorar o dia dos Oceanos, aproveitando a data e a deixa dos debates ambientais aqui do Faça. Vamos à idéia. 

Já há algum tempo que eu venho matutando que preciso pôr no papel uma lista prática sobre consumo de peixe. A princípio para mim apenas, para ter pregado na geladeira ou distribuir pra família. Mas, como tenho plena noção de que toda lista falha em algum ponto, principalmente por (in)adequação individual, essa idéia sempre era deixada de lado. 

Até que outro dia, conversando com o Inagaki sobre alimentos, ele me perguntou que tipo de peixe era mais adequado (ecologicamente falando) de se consumir. Eu respondi que na página do Aquário de Monterey estava a melhor lista disponível na web sobre consumo consciente de peixes e frutos do mar, inclusive com opções de acordo com a região dos EUA em que a pessoa mora, e que eu já indicara inúmeras vezes o link da lista aqui no blog. Entretanto, o Seafood Watch está em inglês, para o consumidor americano médio. Inagaki aí fez o contraponto que me levou a escrever esse post e publicá-lo na semana do Meio Ambiente: "Se não há nada em português, adaptado ao padrão de consumo brasileiro, escreva a sua própria lista. E compartilhe com as pessoas." 

Decidi então compilar aqui, sem a permissão oficial de todos os membros do Faça (portanto qualquer asneira que existir é responsabilidade minha), as minhas dicas pessoais sobre consumo de peixes e frutos do mar, baseadas em diferentes aspectos: como e quando é pescado, onde vive, se é importado, se está quase extinto ou não, se é nutricionalmente importante. Vale ressaltar que eu evito consumir peixes e frutos do mar sempre que possível porque sei da situação caótica que os mares do mundo estão e da enorme pressão que os peixes vêm sofrendo, principalmente aqueles utilizados para o "consumo humano" - que só aumenta. Também sei que peixe faz bem à saúde e que sua carne está entre as mais saudáveis fontes de proteína animal - e para certos nutrientes, nenhum vegetal suplanta em eficiência de absorção para o nosso organismo. Tenho plena consciência também de que para a maior parte das pessoas simplesmente parar de comer peixe não é uma opção prática - então querendo ser prática, acho melhor deixar algumas dicas que fazer nada e continuar saindo da peixaria com crise histérica por ver pessoas comprando cação. Na linha do "é melhor fazer algo que nada", se é que vocês me entendem. 

Então, vamos lá. 

Com vocês, o "Guia Malla para consumo ecoconsciente de peixes e frutos do mar":

1) NUNCA compre cação. NUNCA coma cação, independente de onde você more. Tubarões ou cações são peixes ameaçadíssimos de extinção no mundo inteiro e ao comê-los, você incentiva o tenebroso comércio de barbatanas pra China. Além do mais, tubarão/cação, como animal do topo da cadeia ecológica, é um dos peixes que mais acumula mercúrio na sua carne, o que é péssimo para a saúde humana. Tubarão não é saudável. 
2) Abuse das tilápias no seu cardápio. Tilápias são mais sustentáveis e fáceis de serem criadas para consumo, e geram menos problemas para o ambiente. Como tilápia é uma "marca" de peixe que as pessoas acham "inferior" por sua carne ter naturalmente um gosto de terra, criaram o "St. Peter", que nada mais é que uma variedade de tilápia melhorada criada em cativeiro com carne mais branca e alimentada com ração, o que não deixa que a carne fique com o gosto da terra. 
3) Evite bacalhau sempre que possível. O bacalhau consumido no país é todo importado de longe. Além disso, seus estoques nos locais onde pode ser encontrado estão à míngua. O preço do bacalhau é assustadoramente caro, e isso é um indicativo da sua raridade cada vez maior - o bacalhau já está extinto em diversas áreas. 
4) Só compre lagostas entre maio e dezembro. De janeiro a abril é a época de reprodução desses animais, e se alguém está vendendo lagosta recém-pescada nesse período, está burlando a lei, que proíbe em todo o território brasileiro a pesca da lagosta no período reprodutivo. 
5) Evite camarões e consuma-os apenas no período não-reprodutivo. No geral, a pesca do camarão ainda é feita com arrasto, atividade destruidora que joga fora muitos quilos de peixe não-consumível para cada pratinho de camarão coletado. Portanto, é um "desserviço" ao ambiente. Sendo o maior exportador de camarão o nordeste brasileiro, consumi-los por lá é ecologicamente mais adequado que em outras regiões do país. E, apesar de todos os pesares ecológicos, camarão é cultivável, o que facilita seu consumo (o desgaste ecológico da região onde são feitos esses tanques é outro papo mais complicado...) No mar selvagem, há diferentes espécies de camarão que são pescados para consumo e cada uma delas possui um período reprodutivo específico nas diferentes regiões do país. Nesse período a sua pesca é proibida pelo IBAMA. Para o camarão-rosa no extremo nordeste, o período reprodutivo é de março a maio, enquanto na Bahia e Espírito Santo é de setembro a novembro. Os pescadores que dependem dessa atividade para viver são autorizados pelo governo a pedir seguro-desemprego no período reprodutivo, que cobre as perdas por não pescar. Já o camarão-sete-barbas se reproduz entre novembro e meados de dezembro no sudeste do país, sendo essa portanto a época para se evitá-lo. Não achei na internet uma lista clara do período reprodutivo de cada espécie consumida, portanto se alguém souber de tal informação, fico deveras agradecida. 
6) Evite salmão cultivado. E se possível, evite salmão em geral, já que ele já se extinguiu em muitas áreas do mundo. Sendo o salmão um peixe de águas gélidas, o salmão selvagem que se consome no Brasil é em sua maioria importado do Chile, o que requer transporte refrigerado em longas distâncias, o que aumenta a emissão de CO2 via queima de combustível fóssil, etc. O preço reflete a dificuldade logística da sua pesca, e por isso, as fazendas de salmão parecem tentadoras. Mas não se engane: o dano que uma fazenda de salmão causa ao ambiente é insano
7) Consuma preferencialmente os peixes e frutos do mar da sua região. Se você mora perto de rio, consuma peixes de água doce. Se mora perto do mar, consuma peixes de água salgada, de preferência comuns no seu litoral e pescados de forma artesanal, por pescadores de comunidades não envolvidos com pesca em escala industrial. Procure essa informação no órgão do governo estadual ou municipal da sua área que lida com questões de pesca, e vá à peixaria munido da lista adequada de peixes e frutos do mar da sua região. 
8) Verifique a espécie de atum ao comprá-lo. Nem todas as espécies de atum estão igualmente ameaçadas de extinção. Infelizmente, o atum azul (blue fin tuna, em inglês), espécie migratória presente apenas em alto-mar e preferido pelos grandes chefs de sushi do mundo, é uma das mais ameaçadas, exatamente pelo alto consumo de sushi no Japão. O Brasil, entretanto, parece ter atum em abundância suficiente para garantir o mercado interno - embora a reportagem linkada não diga que espécies exatamente. E eu, na dúvida da procedência real, prefiro evitar atum. 
9) Preste atenção especial aos congelados. Principalmente animais sazonais, que congelados se tornam difíceis de identificar sua data de pesca - ou seja, em tese, você não sabe se o fulano da indústria pescou aquele camarão no período reprodutivo ou não. Dê preferência ao produto fresco e congele em casa, para consumo posterior. Assim você pelo menos sabe de quando o peixe realmente é.
Mas o guia carece da interatividade. Porque é baseado nas minhas visitas a peixarias espalhadas pelo Brasil (nem que seja só pra fotografar...) Como eu tenho certeza absoluta que deixei alguma informação valiosa de fora, gostaria de ouvir as dicas de vocês, principalmente de outras partes do país, sobre consumo de peixe e frutos do mar. À medida que dicas relevantes forem surgindo, vou fazendo updates no post. Combinado? 

5 Comments

Oi gente.
Ja existe um Guia de Consumo de Pescados BRASIL...inspirado pelo de Monterey Bay, feito por uma universidade de Santos. Google: guia de consumo responsavel de pescados UNIMONTE.
Abraco,

muito bom o post!
dicas ótimas e super úteis, que todos podemos trazer para o nosso dia-a-dia!
valeu pela informação, pessoal!

Muitas informações sobre a pesca predatória de lagostas:

http://arruda.rits.org.br/oeco/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=6&pageCode=104&textCode=27880

Nessas horas, só consigo pensar: PQP! É muito descaso mesmo. É tudo assim: o governo faz um fuzuê, investe pesado, depois larga tudo de lado. E vejam na matéria onde vai parar o investimento para combater a pesca predatória de lagosta: em mais equipamentos para a tal pesca predatória! É um absurdo sem tamanho.

O mundo tá perdido. Mas é o tipo de coisa que precisa ser divulgado, inclusive por ongs internacionais, tentando entrar na onda de consumo consciente: lagosta, não! Será que funciona?

Afonso, muita gente ainda come peixe em casa tbm. Mas sem dúvida, o consumo em restaurantes (principalmente de comida japonesa...) é maior.
O problema é q a indústria pesqueira não é muito bem regulamentada, e uma vez em alto-mar, ninguém efetivamente "sabe" o que se passa num barco, entende? Há denúncias de barcos chineses no Brasil caçando tubarões, mas "disfarçados" com a bandeira brasileira e um membro da equipe brasileiro, só. Não há lei q impeça q um barco assim "invada" nossas águas e faça a limpa no mar.

Os barcos regularizados, por sua vez, em geral usam técnicas de pesca predatórias: arrasto e espinhel, por exemplo, matam inúmeros peixes desnecessariamente. No arrasto, destrói-se tbm muitos invertebrados de base (corais, esponjas, etc.) q não precisariam.

Outro dia eu estava no Carrefour e eles passaram na televisãozinha deles dentro da loja q todo o peixe q eles compram para o abastecimento da rede é "de viveiro" ou "sustentável". Uma balela clara, basta ir na peixaria deles e verificar que eles vendem cação - ou seja, já violam a regra número 1 da sustentabilidade, q é deixar os tubarões em paz para manter-se o ecossistema funcionante.

Educar os grandes compradores? Talvez seja uma solução. Outra seria ter leis mais rigorosas sobre venda e consumo, ou talvez mais sobretaxadas. O problema é q medidas assim terminam afetando, direta ou indiretamente, o bolso do consumidor final, infelizmente.

Lucia,,

Uma questão: e o consumo coletivo, de quem trabalha? Dos restaurantes do dia-a-dia que oferecem peixe? E que estão sujeitos à fiscalização das secretarias da saúde, que exigem que os peixes servidos sejam de indústrias? Pergunto isso porque (posso estar errado) a maioria das pessoas come peixe fora de casa, em restaurantes, que são os verdadeiros maiores compradores...

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Esta página contém um post de Lucia Malla publicado em junho 8, 2008 12:55 AM.

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