O Dilema de Dona Eulália (ou de toda humanidade?
A Guerra Perdida:
O governo divulga a queda
da taxa de desmatamento da Amazônia; a oposição contesta os dados, dizendo
que são números parciais, e não absolutos. As organizações ambientais se
manifestam pelo fato de existir um taxa de desmatamento e (não de reflorestamento...). E o agricultor, que retirou
árvores na ignorância de ter aumento em seu sustento -
afinal, são tantas por aqueles lados que ninguém vai ligar se tirar algumas - vai preso pela Polícia Federal, enquanto que a madeira de lei da Amazônia atinge altos preços no mercado internacional.
Quem detém a verdade?
Não podemos nos perder em um simples jogo de mocinhos e bandidos, e
sim trabalhar para identificar e reverter um intenso e histórico processo de
desinformação (intencional ou não) responsável por tão diferentes visões - oriundas
de diferentes valores e formando diferentes pontos de vista.
Na cidade não é
diferente. Quem nunca reclamou daquele "mato" perto de casa,
fonte de vetores de doenças (animais), mal cheiro (decomposição ou lixo) e
até violência (seres humanos de piores intenções)? Claro que não podemos
chamar um terreno baldio de "ambiente natural", mas sabemos que esse
tipo de reclamação leva a um só tipo de atitude: a eliminação do
"mato", do "esgoto", daquela árvore que suja a calçada com
suas frutas.
No ambiente urbano, sabemos que
cada árvore faz uma diferença danada. Na Floresta Amazônica, podemos ampliar
essa escala em milhares de árvores, e não sairemos do mesmo conflito: pode a preservação ambiental e o desenvolvimento dos seres humanos coexistirem?
Em primeira análise, a
questão parece até simplista - até ridícula - mas é bastante
complexa.
Veja o caso de dona Eulália:
Dona Eulália foi uma antiga
vizinha, que não gostava de minhas árvores. Sempre que alguma atravessava em
parte o espaço aéreo de seu quintal, lá estava a tesoura para podá-la. Ela
tinha um quintal enorme, totalmente cimentado, ainda com troncos de antigas
jaqueiras servindo como apoio de vazinhos de plantas. Seu gosto por flores era
evidente; cuidava de uma infinidade de azaléias, jibóias, margaridas
e marias-sem-vergonhas. Era super-organizada, mantinha o quintal limpo, as
plantas podadas e regadas pelo menos três vezes por semana.
Mas quanto às
árvores, nenhuma sobrevivia: nem no quintal, nem na frente de
sua casa. Não era maldade; simplesmente não gostava da sujeira que a arvore
fazia.
Numa bela manhã, estava saindo
de casa e me deparei com Dona Eulália arrancando com as duas mãos a muda
de Pata-de-vaca (nativa do cerrado, bioma do qual a cidade de São Carlos,
interior de São Paulo - minha morada na época) que
nascia sem pedir autorização em sua calçada. Aliás, nascida de
uma semente originada da "minha" árvore.
Tive que intervir. Falei sobre
a importâncias das árvores, a diferença conceitual entre "mato"
e "vegetação", dentre outras coisas ambientalistas de praxe. A
resposta de Dona Eulália: "Olha aqui meu lilho, sei que você trabalha
nesse negócio de natureza, mas me desculpe. Morava com meu pai em uma fazenda
quando essa cidade era uma grande roça; e esse tipo de planta nascia em todos
os lugares. É uma praga. Nem fogo segura essa desgraça: parece que a árvore
morre, mas é só chover que nasce de novo. E essas plantas atraem insetos, que atraem
pássaros, que fazem cocô na minha janela! Sem cabimento. E os morcegos e ratos?
Ugh, não posso nem pensar!"
Tentei argumentar com ela, no
sentido de esclarecer alguns pontos de minha visão de mundo, com o intuito de
transformar essa visão equivocada em relação à natureza. Foi em vão. No final,
apenas pedi que me desse a muda arrancada para plantar em meu quintal.
A
Pata-de-vaca é uma árvore de crescimento rápido: dois anos depois já fazia
sombra em meu quintal (a muda já era grande...).
Então, em um belo e quente dia,
encontro novamente Dona Eulália na calçada, desesperada com o calor de sua
casa. "Está um inferno!" bradava ela, suando em bicas e abanando-se
ruidosamente. Sem hesitar, lembrei do caso da árvore e imediatamente a convidei
para um suco à sombra da árvore. Ela, de pronto, aceitou.
Havia uma mesa no quintal, e
nos alojamos nela. Dona Eulália comentou: "essa árvore é nova? Não havia
reparado nela antes."
"É agora", pensei -
já sentindo o sabor da vitória. A lembrei do ocorrido, identificando a
árvore para que ela pudesse perceber a falta que esta fazia em sua casa.
Admirada, ela reconheceu que havia sido um erro arrancá-la. Expliquei sobre o
aquecimento do planeta, as ilhas de calor nas cidades e da importância das ávores
na manutenção de um clima fresco. Neste momento, o inusitado aconteceu. Um
colorido tucano pousou em um galho acima dela. Não houve tempo de avisá-la.
Algo verde e cinzento caía em seu ombro, para sua perplexidade. Gritando, Dona
Eulália espantou o tucano evusivamente, e praguejando horrores deixou meu
quintal sem se despedir.
Dia seguinte, a ávore em frente
a minha
casa foi misteriosamente cortada.
Não tenho a intenção de
incentivar nehuma idéia pessimista com essa história - nem dizer sobre o certo
e errado.
Em pequena ou grande escala,
essa é a batalha que enfrentamos: Uma guerra de valores. Se milhões de hectares
ou apenas uma, a diferença está apenas no poder de quem tem a visão: abrir mão
de valores em favor do equilíbrio natural ou privilegiar valores humanos
em detrimento destes.
E sabe-se que, em uma guerra
entre nós e a natureza, definitivamente perderemos.

Ricardo, parabéns pela excelente estréia. Acho que todos nós conhecemos um exemplo assim, no meu caso quando comprei um apartamento em São Paulo as árvores que vinham de ser plantadas agradaram a todos. Depois que cresceram, diziam que elas bloqueavam a vista, invadiam as varandas, traziam formigas para os apartamentos, etc. Foi uma briga boa para mantê-las, se teve que caprichar nas podas para mantê-las longe das janelas e mesmo assim muitos ainda reclamam.
E sempre esta eterna briga entre o espaço do homem e o da natureza, que existe pois ainda não entenderam que fazemos parte dela.
Beijos.
Ricardo, parabéns pela estréia em grande estilo! Excelente texto para reflexão, e excelentes contribuições nos comentários.
Aqui em São José dos Campos, meus vizinhos também parecem não gostar muito de árvores. Exatamente como Dona Eulália, eles acham que sujam muito. Eu prefiro a "sujeira" das árvores do que cimento. Meu marido penou para encontrar uma casa com quintal não cimentado aqui, viu? (Viemos do Rio, de uma casa onde ele plantou muitas árvores e plantas.)
E minha tia, que mora em SP, e é um doce de pessoa, ficou bem aborrecida com a vizinha que resolveu cimentar o quintal todinho, um quintal todo gramado e com árvores. Ela desejou que, na próxima chuva, a vizinha ficasse presa no alagamento que ajudou a formar!
Mas essa é a questão: educação ambiental. Essas pessoas nem sabem que a natureza ajuda a manter o nosso entorno apto para a vida humana. Como diz o Afonso, esquecem que fazem parte da natureza.
Este é um problema sem solução aparente. Pelo menos, não enquanto não se conseguir equacionar as necessidades das "cidades" (e, portanto, da "civilização") com a natureza.
Para dar um exemplo de "Dona Eulália" em escala aumentada: Durante meus seis últimos anos de serviço ativo na Marinha, eu fui o "Chefe Geral dos Serviços" da Base da Ilha das Flores (em São Gonçalo, RJ).
Um dos problemas que eu enfrentei (e não consegui resolver) foi a Rede de Esgotos. A Ilha, que já tinha sido uma fazenda de plantação de cana, foi usada a partir do fim do século XIX como "Hospedaria de Estrangeiros" (para a acolhida de imigrantes que vinham em massa naquela época) e contava com uma Rede de Esgotos Sanitários completa, inclusive com um bio-digestor. Só que, depois dos aterros para a construção da rodovia Niterói-Manilha, a Ilha deixou de ser "ilha" e o esgoto vazava para o pequeno canal que foi mantido entre o aterro e a Base.
Quando fui realizar o levantamento do estado da Rede de Esgotos para fazê-la voltar a funcionar adequadamente, tive uma enorme surpresa: a maior parte das canalizações do esgoto tinham sido invadidas pelas raízes das jaqueiras e amendoeiras centenárias que havia por toda a Base... Inclusive e principalmente o bio-digestor que estava totalmente irrecuperável...
A "solução de fortuna" encontrada foi desviar o curso da canalização e, até que se encontrasse verbas para construir uma Estação de Tratamento, lançar o esgoto in natura na pobre Baía da Guanabara... A Estação de Tratamento está incluída no Programa Geral de Despoluição da Baía de Guanabara - o que significa que ainda nem deve ter ido para o papel...
E, enquanto as árvores da Ilha das Flores me atazanavam as idéias crescendo para onde não deviam, na vizinha Ilha do Carvalho (unificada pelo aterro à Ilha das Flores e integrante da Base) um enorme trabalho de reflorestamento (projetado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro) não conseguia sucesso porque o solo da Ilha do Carvalho estava totalmente exaurido pelas centenas de anos de plantio de cana-de-açúcar...
Chegou a passar pela minha cabeça construir uma estação de bombeamento do esgoto para o alto da Ilha do Carvalho, mas, quando eu apresentei os cálculos dos custos para o Almirante, o olhar dele me fez perceber que a idéia não tinha sido feliz...
Ah!... Sim... As jaqueiras e amendoeiras continuam lá, impávidas. A Marinha proíbe terminantemente a retirada de árvores em suas Bases. (Eu só quero ver como eles estão se saindo com as cento e tantas mudas de Palmeira Imperial que nós plantamos ao longo da rua de entrada...)
Mas bem que as árvores (como o tucano de seu artigo) poderiam cooperar um pouco... :)
Bela estréia! Também tenho uma 'dona Eulália':meu pai! Durante toda nossa infãncia e juventude, tivemos árvores em casa, frutíferas e frondosas. Há poucos anos, surpreendi-me, ao chegar em casa de meus pais e , 'cadê' as árvores? Ele alegou que suas raízes estavam prejudicando a estrutura da casa e da cisterna de água. Até hoje lamento este'crime' ambiental.
abraço, garoto
Fabuloso!
Essa sua história é exemplar, parabéns!
E muito longe de ser pessimista, me deu uma vontade danada de plantar uma árvore logo para poder tomar um suco na sombra no próximo verão. Mesmo que ela ainda esteja pequena, acho que dá para pegar uma sombra sentado no chão bem perto dela.
[]'s