Debates do Faça: Biodiversidade e Agricultura

É com alegria suprema que escrevo aqui hoje, dia em que se inicia o grande Ciclo de Debates Ambientais do Faça a sua parte, iniciativa que decide estender as discussões do 5 de junho, dia mundial do meio ambiente, para além da data - por 3 semanas, mais especificamente. Nossos posts até 15 de junho têm o intuito de abordar diferentes tópicos do ambientalismo atual e de preferência trazer um debate saudável sobre esses tópicos - muitos deles polêmicos. Vai ter de aquecimento global a meio ambiente humano. Portanto se você quiser participar, discutir, comentar, compartilhar informações, medos, ações, idéias... a caixa de comentários do Faça está à disposição! 

A escolha da data de hoje para começar não foi aleatória. Dia 22 de maio comemora-se o dia mundial da Biodiversidade. O tema para a data desse ano é "Biodiversidade e Agricultura" - afinal, eu não sabia, mas estamos no Ano Internacional da Batata (?!?!). Acima de tudo, o tema é o reconhecimento de que tal atividade humana, que nos deu tanta vantagem adaptativa perante as outras espécies e se tornou imprescindível para a nossa sobrevivência, também oferece impactos ao ambiente e principalmente, à diversidade. 

Se pararmos para pensar, nada é mais "biologicamente monótono" que uma fazenda de plantação em escala, seja banana, batata ou tomate. É irônico, aliás, unir os dois termos, biodiversidade e agricultura, numa frase só - principalmente para mim, que estou acostumada com biodiversidade marinha, com dilemas de extinção da fauna selvagem e afins. Porque nada está mais longe da diversidade para mim que uma fazenda de qualquer coisa - eu estudei em universidade agrícola, tive aulas de melhoramento genético de plantas, e sempre a monotonia da agricultura me incomodava, mesmo quando o professor insistia em suas "benesses". Mesmo quando há um rodízio de culturas na fazenda (o que em geral acontece em fazendas de hortaliças), o impacto visual continuava sendo deprimente. Vocês se sentem assim, também, tomados por um desconforto intermitente perante a visão de uma cultura? Pois sabemos que uma boa nutrição humana requer variedade de alimentos, muito mais que qualidade. E é exatamente no quesito variedade que a agricultura peca, por razões econômicas, culturais ou até ambientais. Se você for no mercado ou na feira aqui no Brasil, por exemplo, o máximo que você encontra são 4 variedades de tomate: caqui, cereja, Santa Cruz e saladinha (ressalto que os nomes das variedades mudam de região para região; em São Paulo, na feira do Ceagesp, eu vejo italiano, débora, cereja e tomatão, mas não sei se correspondem com as variedades acima ou não). Quando existem na realidade 9 variedades plantadas no Brasil (tirando o longa-vida, que vai a maior parte pra indústria de ketchup) e mais de 50 sendo testadas. Onde estão essas variedades nas prateleiras dos mercados? Por que a qualidade do tomate ainda não é satisfatória, o gosto ainda deixa a desejar? Mais importante: onde estão as variedades selvagens, fundamentais para a manutenção do estoque gênico da espécie? E o tomate é apenas um exemplo, porque a ausência da variedade selvagem faz-se clara em qualquer outro vegetal utilizado para alimentação humana... 

Qualquer biólogo sabe (ou deveria saber...) que dentro de uma espécie, quanto maior variabilidade genética, maior capacidade de adaptação às intempéries, e maior probabilidade de que a espécie sobreviva em situações limites - como as que enfrentaremos em futuro próximo com o aquecimento global e quetais. Iniciativas como o recente Seed Vault na Noruega são importantes para a manutenção dos estoques da biodiversidade, mas funcionam meio que como um museu ou herbário, estaticamente. E a diversidade no ambiente natural, quando as espécies se entrelaçam e o sistema se torna altamente dinâmico, como fica? E a diversidade de culturas agrícolas? Estamos mantendo a biodiversidade agrícola e garantindo assim nossa passagem pelas intempéries que virão? Qual o papel dos transgênicos nesse cenário todo? E o velho melhoramento genético, em que difere em relação a impactos ao ambiente da introdução de transgênicos? 

Quando penso nessas questões, passa a fazer todo sentido terem escolhido o tema "Agricultura" para o dia da Biodiversidade esse ano, com ênfase especial na prática da biodiversidade nos agro-ecossistemas e na interface deles com ecossistemas selvagens. Porque há de manter a diversidade genética de cada espécie cultivada, para evitarmos impactos negativos no futuro, e garantindo de tabela potencialmente comida para todos. Há de se pensar no ambiente como um todo, humanos e animais selvagens, plantas cultivadas e peixes para consumo, e como todos eles interagem entre si. Não é pouco trabalho, admito, mas é essencial que entendamos essa rede de conexões para tomarmos medidas o menos impactantes possíveis, que deixem o menor nível de preocupações para as gerações futuras - os meus, os seus, os nossos netos e bisnetos. 

Ainda me faço outras questões: qual é o impacto direto real que as agriculturas geram no ambiente selvagem ao redor? Será que os grandes plantadores se perguntam isso antes de tomarem a decisão sobre o quê plantar em suas fazendas? E a biodiversidade que está ao redor, é analisada? Será que se tivéssemos maior diversidade de escolhas de frutas, hortaliças e afins para plantar e comer, estaríamos melhor ou pior economicamente? O ambiente geral, selvagem e humano, estaria menos impactado? A biodiversidade agrícola é enfim praticada? Há esforços nessa direção?

São questões, que eu deixo em aberto para discussão na 1ª caixa de comentários do nosso ciclo de debates. Sintam-se à vontade para opinar. 

(E não se esqueçam da blogagem coletiva no dia 05 de junho, dia mundial do meio ambiente, aqui no Faça, em meio aos debates!)

6 Comments

Lucia, você levantou um ponto importante : o que se faz para garantir uma biodiversidade agrícola? Acho que nada, francamente é a primeira vez que ouço falar sobre este tema.
Quanto a diferença entre os transgênicos e a velha manipulaçao genética das plantas e dos animais, ela é só uma questão de método, pois o objetivo é o mesmo, transformar as características naturais...
Acho que tudo que se relaciona com nossa interação com o planeta e os outros seres vivos deve ser analisado e corrigido, o que não é nada fácil.
Belo pontapé inicial para os debates!

Mas veja que tudo remete à questão da escala e da concentração. Em um modelo econömico baseado em pequenos produtores autônomos e tecnologicamente aparelhados, tendencialmente se vai em direção a uma maior variedade, ainda que falemos de agricultura. O modelo econômico determina a característica da ocupaçao teritorial e da demanda de insumos. Além disso, paradoxalmente é mais fàcil propagar idéias ecologicamente corretas em um contexto de variedade de propriedades, que a um unico latifundiário. Pelo fato de que ninguém estaria disposto a transformar o próprio quintal em um "horror verde" enquanto o explorador se lixa olimpicamente se sua propriedade é tal. A saida é dividir melhor para poder garantir o assortmento. Existe inclusive uma filosofia agricola de se plantar e cultivar em modo selvagem e misto e os resultados sao surpreendentes, seja na produtividade que no controle de pragas. Mas isso é anti-logica de mercado. O problema, de novo, é a logica do mercado.

"eu não incluiria todos no mesmo saco". Saco plástico ou ecológico? heheheheh Os escandinavos são a exceção a confirmar a regra. Existe uma incompatibilidade entre o paradigma do modelo de economia em voga e a biodiversidade. Ou mudamos o modelo econômico, ou adeus à biodiversidade. Por sorte, a humanidade, de tempos em tempos, muda suas "épocas". Até a Idade Média, que parecia infindável, acabou (em termos, claro). Por que não a "Modernidade" e seu sistema econômico?

Denise, entendeu direitinho. :)
Com o agravante que a biodiversidade intrínseca das espécies cultivadas também está indo pro beleléu, de forma artificial. Há mais questões além dessa, pois é todo o sistema agrícola q precisa ser repensado. Veja, a agricultura foi o advento que permitiu que chegássemos a esse tamanho populacional, e hj dependemos dele para a sobrevivência como espécie, apesar dos pesares. O q fazer perante esse dilema?

Afonso, eu não incluiria todos no mesmo saco... Claro, o mercado dita as regras. Mas acredito que deva haver fazendeiros e/ou governos (vide Suécia e países escandinavos) mais preocupados hj em dia com a questão da biodiversidade. por uma razão simples: no forecast futuro, eles é q terão seus negócios prejudicados por uma crise ambiental severa.

Lucia, pelo que eu entendi, a perda de biodiversidade é um dos mais graves problemas ambientais, com graves prejuízos nas áreas agrícolas, que dependem de ecossistemas saudáveis. Isto requer trabalho, como você mesmo diz, que incluem nutrientes e reciclagem de resíduos, polinização de insetos, água limpa. A limpeza da vegetação nativa e outras práticas inadequadas como o uso de adubos têm contribuído para uma diminuição da qualidade da água, e conseqüentemente, prejudicando o desenvolvimento saudável da vegetação. É isso?
Parabéns pela estréia nos Debates!
beijo, menina

"Será que os grandes plantadores se perguntam isso antes de tomarem a decisão sobre o quê plantar em suas fazendas?"

Evidente que não. Não existem "bonzinhos" na agricultura de escala. O que existe é um negócio, um mercado. Soja, cana-de-açucar e outros grandes cultivos existem porque dão lucro e não porque podem alimentar a humanidade ou reduzir as emissões de carbono, no caso dos agrocombustíveis. A "atual" e tão propalada "crise de alimentos", nada mais é do que um reflexo disso. Dá mais dinheiro plantar para outras finalidades que não a alimentação humana. Biodiversidade? Estão se lixando pra isso! Gente passando fome? Estão se lixando pra isso!

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Esta página contém um post de Lucia Malla publicado em maio 22, 2008 12:12 AM.

Minha mini horta I é a postagem anterior.

Biodiversidade: sem flora? é a próxima postagem.

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