Condenados ou abençoados?

Faz tempo que o pessoal foi avisado. Quando o bom e velho Moisés (desculpe mas não conheço o sobrenome do gajo) se ajoelhou diante da sarça (Acacia nilotica) ardente e ouviu o chamado daquele que se apresentou como "O que será quando serei", algo já se iluminou em seu cérebro. Depois daquele encontro estranho com o famoso "Adonai", ele fez mil e uma. Entre uma praga aqui e um mar aberto em dois ali, escreveu sobre um pouco de tudo, com o objetivo de criar um código de ética para seu povo constituído de ignorantes escravos em busca de liberdade. Na verdade inaugurou um truque de marketing e atribuiu o que escreveu ao seu amigo da sarça, o tal "que será será". Foi um enorme sucesso de publico e de crítica. Virou até mais de um filme.

Mas como dizia, entre as coisas que foram escritas, uma delas fala da própria criação do mundo e dos humanos. Nos revela que uma dos nossos atributos principais, algo que nos distingue entre todos os animais, é nossa extrema e infinita boçalidade. Moisés nos contou e portanto já se sabe disso há milênios, que estamos condenados a acreditar que podemos buscar a verdade e o que é pior, acreditamos que podemos encontrá-la e o que é pior ainda, tudo isso comendo uma simples fruta. O pobre Adão, que não tinha estudado história pelo simples fato de que lhe era impossível, tinha sido porém avisado, pelo próprio "Será-será". Aquele brincalhão de todo poderoso que dizia em modo irônico à sua ignóbil criatura que comendo um fruto se abririam as portas do conhecimento, levou um enorme susto quando viu que o imbecil havia mordido a isca. Entre consternado e gargalhante, foi obrigado a expulsá-lo do paraíso, por uma questão de coerência. Até porque, e aqui está a chave de tudo, havia bem dito com todas as letras: a escolha é tua.

O livre arbítrio. Lhe deu a escolha. E ele escolheu destruir aquilo que lhe havia sido dado, em troca da incerteza daquilo que deveria ou poderia construir.

Faz tempo que sabemos. Faz tempo que repetimos o erro de nosso antepassado marido de Eva. Mas estranhamente, somos ainda mais boçais. Temos a história, a ciência, a informação, a tecnologia porém, também acreditamos que nos basta morder uma fruta para nos iluminar o caminho sobre como levarmos adiante a vida que se complica a cada dia. Acreditamos que os recursos são infinitos e a mágica é a chave para resolver tudo. Alguém escreveu isso em meu blog outro dia, que na internet o espaço é infinito. Além de não ser verdade, revela uma visão distorcida e idealizada das coisas. Como os pescadores de um tempo (não muito tempo) diziam dos peixes ou os muçulmanos reis do petróleo que dizem que Alah é que provê os poços. A mentalidade de quem acredita que o ambiente, qualquer que seja, existe para ser explorado e não como o suporte à vida. Não nos relacionamos com o mundo, o consumimos. E a grande contradição é que infinito e consumo tem enorme incompatibilidade. Um casamento tempestuoso. E dessa tempestade, fruto dessa mentalidade ambígua, o mundo está sofrendo as conseqüências.

Foi uma grande sacanagem desse gozador "Será-será" deixar nas nossas mãos o poder de decidir o que fazer com o mundo. Disse algo como: ei, bobão, te dou a capacidade de produzir belas coisas mas também a de estragar tudo, veja lá o que vai fazer. Fizemos o pior que pudemos. Estamos transformando o paraíso que nos foi dado em um esgoto que mal suportará a nossa chance de sobrevivência.

A única saída hoje, quando já estamos às portas de uma bela catástrofe é a mudança profunda de mentalidade. Deveremos reaprender a nos relacionar com a natureza em modo respeitoso. Ela, já perdeu o respeito por nós. Nos trata mal, reponde feio, mas merecemos isso pois fomos nós que começamos a briga.

E fazemos muito pouco ainda. Até quem faz a sua parte, faz pouco. Porque temos que mudar o que foi construído em milênios de história. Uma história de acumulação, de exploração e de valorização do simbólico em detrimento do concreto.

A começar de mim mesmo. Devo melhorar muito minha forma de participar. Há um ano atrás, pelo dia da terra, lançamos a idéia de um desafio onde cada um se poria metas a alcançar no que diz respeito à economia de recursos e/ou sustentabilidade. Consegui reduzir o consumo médio de gasolina como me propus, mas uma longa viagem praticamente me colocou na estaca zero. Se adiciono os 500 litros de querosene que consumi com uma viagem de avião, a vantagem inicial vira fumaça, na forma de uma longa nuvem bem lá no alto.

Não é fácil. Outro dia vi uma ilustração com muitos conselhos para ajudar a reduzir o aquecimento global. Tinha ali "faça exercícios", beleza, vou fazer mais. Depois li, "coma menos carne", "use mais a bicicleta", "lampadas fluorescentes" etc, todas coisas que estou me empenhando a fazer. Mas depois tinha ali "tenha apenas dois filhos". Um certo vazio me invadiu. Olhei para meu filho menor, o terceiro, e ficamos ali, nos entreolhando por minutos. Não é fácil.

Seria mais fácil se o grande chefe de Moisés viesse botar ordem na casa. Mas desde que ele disse "virem-se", não parece ser essa uma possibilidade plausível. Vamos ter que nos arranjar como sempre fizemos. Estou confiante. Muito.

5 Comments

Flavio Prada said:

Joao Carlos, tuas observações são mais que pertinentes. O espírito do post era esse mesmo e a tua correção da frase espelha melhor isso. Obrigado.
Quanto à vaga para o terceiro, outro obrigado. Fiquei um pouco mais tranquilo agora ;-)

João Carlos said:

Se lhe serve de consolo, eu sou filho único... Então, seu "terceirinho" já nasceu com vaga garantida. Mas eu fiquei cabreiro quando você disse: Vamos ter que nos arranjar como sempre fizemos. Eu já acredito que vamos ter que nos arranjar como nunca fizemos... Mamãe Natureza nunca vai à loucura: vai à forra... E quem estava contando com crises "armagedônicas" para a metade deste século, pode tirar o cavalinho da chuva: a crise já começou!...

Flavio Prada said:

Luz e Silvia. Obrigado pelos comentários. Fui ver a entrevista com o ecoeconomista. Ele está com as antenas ligadas no que é a nossa alternativa mais concreta e infelizmente a mais dificil e remota, que é uma mudança de modelo economico, o que penso seja o fulcro central da questão ambiental. Dificil porque, como ja disse em outras oportunidades somos como espécie, e portanto isso se reflete em nosso pensamento politico, um poço de conservadorismo. Vamos construindo caoticamente a historia com o que nos parece ser nosso destino a partir das possibilidades que temos, mas de forma completamente descolada da realidade. A tendemos a proteger esses nossos feitos, como algo mais importante que o proprio humano em si. Loucura total. Vamos fazendo nossa parte, mas que as vezes o desanimo se sobrepoe, isso é verdade.

Luz, Flávio, naquele vídeo da entrevista com o Hugo Penteado (ecoeconomista) no programa da Marília Gabriela, ele fala sobre essa questão do controle de natalidade. Ele disse que vivemos o dilema de equilibrar a questão do aumento da população baseados no espaço finito que temos à disposição.

E outra coisa que ele mencionou e me marcou muito é o fato de que é preciso de uma reforma no pensamento econômico para que as coisas passem a ser feitas de forma diferente, pois a teoria econômica tradicional baseia-se no pressuposto de que os recursos são infinitos.

Luz said:

Pois é, Flavio. Ainda ontem no evento que estava sobre meio ambiente um participante falou da relação do controle de natalidade e a crise climática. Como bem observou o rapaz, o termo que se usa é planejamento familiar, que acaba virando um eufemismo tão grande que não resulta em nada. Mas concordo que é uma questão que precisa ser discutida com seriedade.

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This page contains a single entry by Flávio Prada published on abril 27, 2008 4:05 PM.

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