Ao lixo o que é do lixo
O seculo vinte foi pródigo e pleno de inovações. Nunca houve um período de tamanha efervescência em temos de novidades e mudanças como no século passado. Energia a baixo custo e massificação de consumo, associadas, levaram a uma transformação radical do mundo, seu território e seus habitantes. Mas como nem tudo são rosas, entre milhares de boas invenções, outras tantas nem tao boas foram obrigatoriamente produzidas. Quando se inventou o consumo, inventou-se automaticamente o lixo. Uma das invenções que mais incomodam e preocupam, visto o seu poder de acumular desconforto e problemas.
Nos últimos anos ganhou corpo a idéia de que algo deve ser feito na base, no inicio do processo. Com isso, uma das ações mais divulgadas e incentivadas dos últimos tempos é a separação caseira do lixo. Muita gente se empenha em produzir pouco lixo e o pouco que produz, se reaproveitado, se transforma imediatamente em recurso. Mas a pressão do sistema consumo é sempre maior e a perspectiva é a de poder fazer a sua parte e tentar contaminar positivamente quem se conhece.
No meu local de trabalho tem uma maquina de café que é maravilhosa, faz uma bebida cafeínica deliciosa. Para isso, por estar sempre disponível com agua quente, está ligada 24 horas por dia, consumindo não pouca energia elétrica. Calculo que para os 10 ou 12 cafés que produz em um dia, consuma alguns megawatts ao ano em energia absolutamente jogada fora. Mas falávamos do lixo. Para que eu possa sorver com gosto os 20 mililitros de café, devo abrir uma grande caixa de papelão desgraçadamente plastificada, onde encontro dezenas de embalagens de plastico/alumínio com dentro as cápsulas de também plástico que contém o precioso pó. Enfio uma das cápsulas na máquina, meto ali em baixo um copo plástico, abro um outro envelope e tiro dali uma pazinha de plástico para mexer o líquido com o açúcar que tirei de um outro envelope de alumínio plastificado. Tudo isso, cápsula, copo, pazinha e envelopes vários, vão para o lixo em nome de dois goles de uma bebida quente. Difícil imaginar onde um sistema que produz esse tipo de consumo possa nos levar, mas nos abre a certeza que à coisa boa não será.
Aqui onde moro, Riva del Garda, Itália, existe um programa de reciclagem e coleta seletiva que aos poucos está conseguindo bons resultados. Como conceito base está a idéia de que tratar o lixo custa dinheiro e por conseqüência, nada mais justo que pague mais quem mais produz. Isso faz com que nosso café no escritório, que já é caro em si por tudo que agrega, se transforme em artigo de luxo o que nos está fazendo buscar alternativas menos cretinas.
A coleta aqui funciona assim:

Na rua, em pontos de fácil acesso, temos os latões para a coleta de resíduos recicláveis: metal, plástico, papel, vidro, pilhas e roupas usadas.

Para os objetos maiores e compostos,
existe um centro de coleta onde o cidadão deve levar aquilo
que não serve mais tipo madeiras, móveis,
eletrodomésticos, e etc.

Em cada condomínio ou grupo de casas temos estes dois latões. O menor é o dos resíduos úmidos, ou seja, material orgânico em geral, restos de comida etc. É pequeno porque é recolhido com freqüência, em geral duas vezes por dia. O maior é o de lixo "tradicional" e recolhe tudo aquilo que não pode ser reciclado. Aqui entra o critério de que falei mais acima. Cada morador recebe uma chave eletrônica identificada que permite abrir o latão. Inserido o saco de lixo, o latão pesa o que foi colocado e grava o valor em um chip interno, tudo movido a energia solar. No final do ano é feita a contabilidade de quantos quilos de lixo cada família produziu e isso determina o valor da taxa a ser paga.
Após alguns anos da implantação desse sistema, os resultados começam a se aproximar das metas traçadas. Na minha cidade, em torno de 50% do lixo produzido é reciclado. Pode-se fazer mais e o esforço é no convencer as pessoas da importância da separação. Além disso, a divulgação dos números obtidos fez surgir uma saudável competição entre as prefeituras locais. A natural rivalidade entre vizinhos, está ajudando muito no aumento da percentual de reciclagem.
Quando terminar de escrever esse post, penso que farei um café. O que me lembra que tem muito ainda a se fazer.

A pena que me dá é saber que, se num país dito de 1° mundo, as coisas demoram a acontecer, imagina por aqui. Aqui temos a lei de gerenciamento dos resíduos sólidos, que inclusive prevê punição aos cidadãos que jogarem lixo na rua, ou o colocar mal acondicionado nas calçadas, mas pra que, pergunto? Queres um exemplo? Na minha rua, o caminhão do lixo passa as sete horas da noite; quando saio, pela manhã, as oito horas, a calçada já está cheia de sacos de lixo. Pode uma coisa dessas?
Muito bom artigo, Flavio, são iniciativas assim que dão certo. Já que poucos são os que têm consciência e fazem simplesmente porque acham correto e sensato, a solução é fazer com que doa no bolso de quem não faz. Só assim para as pessoas compreenderem que existe um impacto. Mesmo que não entendam que o impacto é sobre o meio ambiente e a qualidade de vida delas mesmas, ao menos entendem quando se fala a língua das cifras.
E, veja, se mesmo nós, que procuramos fazer cada vez mais a nossa parte, ainda temos muitos hábitos pouco ecológicos, imagine quem não está nem aí pro assunto.