A parte difícil de se fazer.
Depois de um ano de existência, estamos inaugurando essa nossa nova casa. Ainda que metaforicamente, na nossa casa nova aqui na Verbeat, posso garantir que foram usados somente materiais naturais recicláveis, tratados em modo não agressivo ao ambiente. Os móveis são feitos com madeira de reflorestamento e pigmentados com anilinas naturais e encerados como um tempo se fazia. Nessas novas instalações, estamos todos nós, gente sonhadora e realista ao mesmo tempo, muito esperançosos que o esforço empregado tenha um mínimo de resultado prático.
Faz muito tempo que o mundo conhece a presença humana e ao longo de toda essa história, nunca ninguém havia precisado pensar que aquilo que sempre foi uma das nossas maiores fontes de maravilha e emoção, o chão sobre o qual nos movemos, o suporte de todas as nossas ações, o nosso planeta, que freqüentemente recebe sinônimos os mais envolventes e aconchegantes como mãe, berço e outros, se transformasse em uma ameaça à nossa própria existência. O planeta é belo demais pra não se incomodar com nosso pouco caso. Ele é sábio demais pra permitir ser desrespeitado. Ele irá nos eliminar, sem derramar nem uma lágrima e dou razão a ele.
Por isso, fazer a nossa parte é também tentar retardar esse evento, se possível reverter. A grande chave está na política. A ecologia é uma questão política. Não aquela partidária eleitoreira, que é nojenta e está do lado de lá dos nossos sonhos. Falo da política feita com as ações do dia a dia. A política real, da qual muita gente nem se dá conta, ainda que a pratica mesmo sem saber.
A lógica do modelo econômico vigente é todo o contrário do que podemos desejar para uma humanidade que se preserva preservando o próprio ambiente. Dou um exemplo. Somente há poucos anos o índice de desenvolvimento de um país começou a ser medido com parâmetros diferentes da mera soma da produção de bens. Ainda assim, somente instituição e organismos como a ONU por exemplo estão preocupados com a questão. No imaginário coletivo e claro, em todo o mundo político e econômico, a idéia do PIB com fermento está ainda na ordem do dia. O que nos leva a uma situação como a seguinte.
Cena 1- Imagine que você se encontra no engarrafamento com teu carro. Você não pode desligar o motor porque a fila anda a 2 km por hora. Você leva duas horas para percorrer poucos quilômetros. No final, quase chegando, batem na traseira do teu carro. Você tem um ataque de raiva pelo stress e chuta o carro do infeliz que te amassou o veiculo, até porque você perdeu a hora e o banco fechou e a conta que você iria pagar, amanhã já tem multa.
Cena 2- Você pega tua bicicleta, volta do trabalho e quando chega em casa encontra tua vizinha que te trouxe umas roupas dos filhos que estão crescendo para que teus filhos possam talvez utilizar. Você em retribuição, lhe dá um pouco de abobrinhas e tomates que você vai colher no teu quintal. Depois disso, você dá uma mão ao teu primo a consertar um pequeno defeito em um aparelho e ele te presenteia com uma garrafa de vinho que ele mesmo produziu.
Em nosso louco e absurdo mundo do crescimento econômico baseado na produção de bens e no seu consumo a cena 1 é extremamente positiva e a 2 um verdadeiro desastre. No primeiro exemplo, você gastou gasolina no engarrafamento e isso gera PIB. Quando bateram em você, o PIB deu um salto avante. Foram acionados, policiais, companhia de seguros, carroceiros, carro-guincho, fábricas de auto peças, produtores de tintas, vendedores de aço, de plásticos vários, além do médico e toda a estrutura sanitária para o teu exaurimento nervoso e também dos advogados, juízes e toda uma máquina burocrática graças à tua agressão. Uma verdadeira maravilha para o progresso da sociedade. Até o atraso do pagamento da conta foi muito bom, você se comportou realmente como um cidadão exemplar.
No segundo caso, tudo o que foi feito é transparente ao PIB e não entra no computo dos bens de um país. Do ponto de vista econômico, o sistema de trocas e a autonomia na produção do que quer que seja, faz disparar alarmes, pois indica, segundo os parâmetros vigentes, que estamos estagnando. De um certo ponto de vista é verdade, até porque o modelo estabelecido depende de crescimento constante e infinito, o que na pratica leva às distorções monstruosas dos valores. Ficamos sem muito bem saber o que é bom ou ruim pra nós mesmos.
Diante da cena 1, sabemos que é extremamente desagradável e negativa, mas nos vem em mente a pergunta: mas como viver sem carro e tudo o mais? As coisas são assim como são e paga-se um preço por isso. Acredito que o grande desafio de quem trabalha com a divulgação da preservação do meio ambiente seja o de conseguir mudar essa mentalidade. Fazer enxergar que o mundo é assim porque foi feito assim e segue uma lógica que pode ser revertida, ainda que com boa dose de idealismo, pois a mudança é mais que urgente e o trabalho se pré-configura colossal. Porque o fulcro do problema é quase secreto, escondido sob camadas e camadas de fatalismo e propaganda. O Ponto central é a ideologia, algo mais transparente que a água e por isso mesmo, difícil de distinguir. Muito complicado de se intervir, pois é a própria expressão do senso comum, a resultante da cultura que se faz passar por natureza.
Mas vamos tentando, vamos fazendo nossa parte. Em breve volto ao assunto.
Parabéns pela casa nova e pelo texto!
A mudança de comportamentos e de valores é a base na qual todo o resto será sustentado. Todos que já estão conscientes disso precisam propagar essas idéias.
Abraços.
Flavio, você tocou no ponto crítico. Fomos condicionados para consumir, gastar para criar riquezas, empregos e aumentar o PIB. Agora, pára tudo e marcha à ré neste sistema. Temos que provar que existe uma outra forma de viver bem...vai ser difícil mas vamos tentando, né?
Abraço.
Sem dúvida, um belo post, meu caro. PEna que ainda temos que tornar nossas cidades mais civilizadas antes de sair por aí de bicicleta. Mas chegaremos lá. abs
Olá a todos!
Primeira vez por aqui, já tá entrando para o favoritos. Ainda preciso de tempo para destrinchar o blog na casa nova, mas não poderia deixar de comentar esse belo texto!
Que o mundo possa de alguma forma se assentar ao redor de mais situações como a 2!!!
Abraços,
Carla