Água Mineral

Nos primeiros quinze dias de Itália pensei que enlouqueceria e cheguei a considerar o retorno imediato ao Brasil. Tudo por causa da água. Não conseguia encontrar uma água mineral que matasse a minha sede e a da torneira é intragável, além de riquíssima em calcário. Depois de experimentar dezenas de marcas, acabei encontrando uma que conseguia beber sem adicionar umas gotinhas de suco de limão, como fazia com as outras. Com o tempo fui me acostumando, mas ainda prefiro a minha marca salvadora.
À época, lembrei do lançamento da água mineral da Brahma, quando ainda trabalhava lá. Durante a apresentação, o diretor ressaltou o enorme mercado a ser conquistado, comparando o consumo de água mineral entre Brasil e Europa. Ele só esqueceu de dizer que a água da torneira de boa parte da Europa, apesar de tratada, é desaconselhada para o copo. Serve para cozinhar macarrão, lavar frutas e verduras e tomar banho. Café, chá ou limonada, só com água mineral, que deve ser de montanha e pouco profunda para evitar o contato com os resíduos fósseis dos antigos habitantes marinhos da região.
O uso cotidiano de água desmineralizada e de produtos químicos impedem o acumulo de calcário em ferros de passar roupa, máquinas de lavar roupa, máquinas de lavar louça, aquecedores de água e radiadores. Certa vez esqueci um copo-d’água – que usei para molhar uma planta – no balcão da cozinha. Após alguns dias a água havia evaporado e o copo perdeu a transparência. Tinha ficado opaco e branco. Branco calcário.
Água mineral é o produto mais consumido na Itália, o que me faz refletir sobre o destino das garrafas plásticas, cuja reciclagem efetiva é drasticamente inferior do que gostariam os órgãos públicos e as organizações ambientais. Mesmo depois de acostumado a água mineral italiana, cheguei a pensar em importar do Brasil um filtro de barro (talha), mas quem o fez me garantiu que as velas se entopem completamente em cinco ou seis dias, e que o calcário que nelas penetra, endurece e impede a passagem da água, inutilizando-as completamente, destruindo o sonho da água com gosto de barro. É claro que existem processos eficazes de filtragem para uso doméstico, mas o custo dos equipamentos e a constante manutenção desanima qualquer ecologista que não pertença a uma classe economicamente privilegiada.
E, assim, vamos tocando a vida, tomando água mineral em nome da preservação dos nossos rins e fígados; torcendo pela reciclagem das embalagens que usamos; esperando que, no Brasil, as pessoas não caiam no engodo do uso da água mineral em casa e que continuem preferindo o filtro doméstico ou a boa e velha talha de barro. É só usar um pouco de açúcar para limpar as velas e a reciclagem estará feita. Sem o risco de sentir-se uma ostra.
Faça a sua parte.
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Allan,aqui na França muitos tomam a água da torneira, mas a maioria compra mesmo é a água mineral em garrafas de plástico. Como nos outros lugares, a reciclagem destas fica aquém do recomendado, mas por enquanto ninguém renuncia à sua água mineral : dizem que algumas ajudam a emagrecer, outras contem certos minerais necessários à saúde, enfim cada uma apresenta suas virtudes, é um grande setor do comércio.Belo post, parabéns!Um abraço.
Muitas informações que poderiam virar post. que acha, Alan?abraço, garoto
Na França há um forte debate entre as água. Engarrafadores de água minerla estão tentando desqualificar a água tratada e servida.As fontes de água superficila (rios) que algumas empresas usam como fonte água (a ser tratada) são tão poluídas que elas tem que usar excessod e cloro. Algumas vezes o esbranquiçado da água é excesso de hipoclorito.Barcelona, por exemplo, entre dois dos rios mais poluidos da europa (Llobregat e Besos) tem que usar excesso de cloro para descontaminar, depois esta água toda é filtrada em carvão ativo para remover este excesso de cloro.Quando morei lá, era comum doenças dermais no pessoal sulamericano recem chegado. Perdas de cabelo eram comuns, o que levava a muitas mulheres a lavarem seus cabelos com água mineral. Com tempo o "couro" vai se acostumando.Já visitei muitas engarrafadoras de água mineral. Enquanto na europa o sistema é reduzido, a captação (poço), a injetora da garrafa e a envasadora ficam numa sala, esterilizada, no Brasil se minera a água aqui, se assopra o plástico ali e se envasa acolá.Eu não teria surpresa se acharem insetos, objetos estranhso em certas marcas de água, pois as garrafas vazias ficam atiradas antes de serem enchidas.Nós somos água mineral, afinal nosso corpo são 70% de água confinada. Muitos de nós somos água mineral por só consumir desta fonte (bebidas e comidas).Quanto a tratamentos caseiros, ozonização e filtro de carvão ativo são um bom conjunto de medidas.Quanto a armazenar água, mesmo na geladeira não é recomendável deixar mais que 3 dias em recipiente aberto o mal vedado, pode haver desenvolvimento de microorganismos (da poeira, sujeira,...).
Allan, mas conta aí para mim: você conhece a composição e os métodos de tratamento usados aqui no Brasil? Porque, confesso, não acho a água filtrada o caminho mais saudável, não. Depois da mudança, estou sem filtro, e quebrando a cabeça para descobrir o melhor método para fugir da água mineral em garrafas descartáveis. Eu ponho no lixo reciclável, mas, como você, duvido da eficiência dos programas de reciclagem desta terrinha.O filtro de barro só filtra as impurezas maiores, não é? E não filtra todos os aditivos usados no tratamento da água, como cloro e flúor, por exemplo, que, em excesso (e eles estão em todo o lugar, então a gente acaba consumindo mais do que seria recomendável), fazem mal para a saúde.Andei pesquisando algumas águas mineirais locais (pra fugir do impacto do transporte), e estou procurando algum canto onde eu possa levar galões retornáveis para encher semanalmente, evitando gerar esse lixo todo.Enfim, se souber, me diga, per piaccere (ui, escrevi certo?): o que a vela do filtro de barro filtra de fato?Adorei o assunto que você levantou!