Morei em São Paulo muitos anos e conheço bem os problemas que o trânsito causa. Lembro, sem nostalgia, dos meus olhos permanentemente vermelhos, da vida que corria sempre atrasada e da agressividade gratuita dos motoristas estressados. Convivi, por muitos anos, com buracos do metrô, construções de viadutos e alargamento de ruas e avenidas. São Paulo era – e ainda é – um eterno canteiro de obras.

O paradoxo de tentar reduzir o trânsito de veículos sem antes oferecer uma alternativa eficiente de transporte público sempre existiu, naquela que é uma das maiores cidades do mundo. Mesmo as ocasionais tentativas de mudar parte da cidade para outras regiões, transferindo empresas, universidades e criando infra-estrutura em cidades do interior, não diminuiu o problema. Os problemas de São Paulo – como de toda cidade grandesão proporcionais às suas dimensões. É mais fácil administrar cidades menores, e as soluções ali encontradas podem e devem ser adaptadas para as grandes metrópoles. Em Salvador, por exemplo, o trânsito de veículos de carga tem horário rígido no centro histórico.

Muitas cidades européias possuem as chamadas ZTL (Zonas de Tráfego Limitado), geralmente no centro da cidade. Nelas, a velocidade máxima é de 30 km/h, o trânsito é restrito a moradores, comerciantes locais e pequenos veículos de carga. As opções para quem precisa ir ao centro existem, mas funcionam se as pessoas se dispõem a mudar os próprios hábitos, mesmo quando essa mudança exige algum sacrifício. Em Piacenza, a cidade onde moro, no Centro-norte da Itália, existem estacionamentos nas periferias coligados ao centro através de micro-ônibus a cada dez minutos. Tudo grátis. Quem faz o percurso habitualmente, pode, ainda, usufruir de uma bicicleta exclusiva, fornecida pela prefeitura (como a da foto acima), pelo valor simbólico de cinco euros por ano, incluindo a manutenção. A única obrigação é repor a bicicleta, ao anoitecer, na mesma vaga de onde foi retirada, próximo ao ponto final do micro-ônibus, no centro. O cinturão viário que circunda a ZTL também possui estacionamentos com as bicicletas da prefeitura.

Outras cidades, como Florença, por exemplo, cobram pedágio dos veículos de quem não mora na cidade, assim como incentivam os habitantes à compra de bicicletas elétricas, pagando boa parte do custo de aquisição.

Paris acaba de aderir às bicicletas. A prefeitura local colocou à disposição milhares de bicicletas para aluguel diário, como fazem outras cidades européias, mas o valor cobrado pode tornar a empresa pouco atraente, se a necessidade da bicicleta for superior à primeira meia hora, que é grátis.

Durante o inverno, quando aumenta a concentração de partículas em suspensão e o ar fica irrespirável, começa o rodízio de placas. Nesses dias a vigilância é rigorosa e a multa, salgada. podem circular os automóveis cujas placas coincidam com a alternância dos dias, se par ou ímpar. Em algumas cidades é permitido transitar com veículos de última geração, com filtros que impedem qualquer resíduo poluente. Também é possível circular com qualquer automóvel, mesmo os mais velhos e mais poluentes, desde que transportem um mínimo de três pessoas.

Num esforço para melhorar ainda mais a qualidade do ar e conscientizar os moradores, quase todas as grandes e médias cidades italianas promovem os “domingos a ”, que é como iremos acabar no futuro que está logo ali na esquina, se não mudarmos o hábito de usar o carro para tudo.

1 Comments

Estimular o uso de bicicletas é bom para a saúde, em todos os sentidos!Estou de mudança para uma cidade menor, e ainda não tem ciclovia por lá. Andei pesquisando, e tem uma ONG ambiental que está cobrando isso da prefeitura, mas parece que a coisa não sai do papel. Vamos ver se é mais fácil mesmo em cidades menores.Eu queria ter conseguido juntar a fome com a vontade de comer, mas por enquanto não me vejo andando a pé ou de bicicleta por lá, pois não moramos perto do centro, nem mesmo da escola das minhas filhas. :-(

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