Existem animais que vivem em sociedades, como os lobos, por exemplo, assim como existem animais independentes, como os ursos, que se encontram somente para o acasalamento. O ser humano dos tempos atuais encontra-se entre essas duas espécies, mas cada vez mais próximo dos ursos, traindo as próprias raízes antropológicas e se acasalando muito mais do que ursos e lobos juntos, procriando, educando e inserindo os próprios filhos nesse caminho irreversível rumo à individualidade que estamos construindo. Sentimo-nos seguros, protegidos e confiantes nas nossas - cada vez menores - gaiolas móveis ou imóveis. Vamos, aos poucos, reduzindo voluntariamente o contato com outros seres da nossa espécie. A mudança de experiências coletivas por atividades solitárias ou restritas ao grupo familiar, como no caso da substituição do cinema e do teatro pela televisão, somadas ao advento da Internet, vai nos transformando em membros de guetos e tribos cada vez menores e mais seletivas, quando não em isolados habitantes metropolitanos. Uma multidão de solitários ursos urbanos distribuindo e-mails invés de abraços.
Não, não acredito que o problema da superpopulação ou do incentivo ao individualismo em detrimento da sociabilidade seja culpa do petróleo, mas do sistema criado e incentivado pelo imenso volume de dinheiro proporcionado por toda essa engrenagem. A cada duas semanas é lançado um novo modelo de computador, automóvel, celular, máquina de café expresso ou qualquer outro objeto de uso individual, convidando, seduzindo, incentivando, constringindo o consumidor a fazer o que ele sabe fazer melhor: consumir o produto de uso pessoal, dando uma importância à privacidade muito superior que ao convívio social. Depois de termos perdidos a harmonia e o contato com a natureza, estamos abrindo mão de uma característica fundamental da nossa espécie, o hábito da convivência em grupo. A segurança, o conforto, o stress do dia a dia, a necessidade de trabalhar cada vez mais... Qualquer argumento serve para justificar esse comportamento anormal à espécie humana, apesar de coletivo.
Tampouco penso que a modificação do transporte urbano seja prioridade de algum governo, nem mesmo que o desenvolvimento de um sistema eficiente possa reverter o processo de individualização da sociedade, mas a expansão e a adequação de um sistema de transporte com foco na coletividade ajudaria muito as classes mais baixas, que atualmente dispõem de meios de locomoção de massa que só contribuem para o aniquilamento da dignidade dos usuários, diminuindo cada vez mais a autoestima. Uma revolução no transporte público eliminaria esse aviltamento social e a consequência poderia ser a redução do uso de automóveis privados. Mas melhorar o sistema de transporte de massa pode não bastar. Seria necessário uma forte pressão (uma assustadora carga tributária?) contra automóveis e combustíveis forçando a migração para o transporte público, gerando a necessidade de adequá-lo velozmente. Uma honesta mudança na ótica no transporte de pessoas poderia contribuir, isso sim, na formação de uma consciência do indivíduo como parte da coletividade. O transporte público ideal deveria ser como a praia, onde classes sociais diferentes dividem o mesmo espaço e recebem o mesmo tratamento. E Se divertem e relaxam.
Em resumo, infelizmente o fim do petróleo como combustível não deverá causar nenhum impacto sobre o nosso cotidiano. Haverá apenas a troca de um combustível por outro, menos poluente e sustentável, o que não deixa de ser um passo monstruoso de enorme. Mas essa inversão de valores, com a coletividade que deixa de ser prioridade e um insistente estímulo à individualidade, é algo que acabará por definir a sobrevivência da nossa espécie. Nada substituirá a nossa necessidade de viver "em sociedade". Sei que o grande entrave no sistema de transportes é o inchamento das cidades, que, sem planejamento, crescem desorganizadamente e se tornam cada vez mais impessoais; assim como tenho consciência de que o problema da superpopulação há muito deixou de ser mera estatística para transformar-se no maior desafio deste milênio que está iniciando. Tudo isso só confirma a necessidade de uma mudança radical - e oposta à atual - na filosofia do transporte de pessoas.
Quanto a você, caro leitor, que ri, que dá de ombros ou que desperta para uma nova preocupação; a você, caro leitor, que sacode o teclado recém-comprado para liberá-lo das migalhas, que sonha ou que possui um carrão na garagem com medo de ser roubado; a você, que sacode a cabeça com superioridade ou que sacode todas as manhãs dentro de um ônibus ou vagão lotado; a você, leitor que discorda das minhas opiniões ou que se solidariza com as minhas preocupações, faço-lhes um pedido: comecem a buscar e propor soluções. Eu não as tenho, sou apenas aquele que faz as perguntas. Sou como o lobo que vê crescer o número de ursos e me sinto ameaçado. Para evitar que me questionem se eu já imaginei um mundo sem computador, automóvel, celular ou máquina de café expresso, adianto: sim, já imaginei. E você?







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