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dezembro 17, 2007

Um conto de fim de ano

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ESPERANDO AMOR NO MATADOURO

Você dança com os pés para trás.

Sussurrando no ouvido. Perninhas bambeiam. Ela cospe na minha cara, pelo destrato. Orquestra finge desdém. Volto para a mesa. Três lugares sobrando. Eu embaixo da luz. Vontade de deixar cabeça espremida entre as pernas. Os bagos apertados.

[... livrai-nos do fogo do inferno ...]

No banheiro, coço o couro cabeludo. Por causa da seborréia. Duas ou três considerações. Outras tantas perguntas. Fisioterapia ajuda, mas ela ainda manca. Puxa de uma das pernas arqueadas. Como se pretendesse rastejar. Sem disfarce. Encarar a sociedade: como ? Máquina de moer carne.

Menos um lugar desocupado na mesa. Ela. Toda sestrosa. Batendo pezinho como se marcasse compasso. Barulhinho de cnemoscoliose. Perninhas que lembram quelíceras. Ficam assim: tarântulas na minha cabeça.

Lembrando outra tarde:

Lataria compactada abaixo do cóccix. Ela. Entrevada ? Descarte. Transubstanciação: passando de ferragens para ferrolhos. Como aquelas imagens de soldados gregos dos livros. Protegendo as pernas com metal. Encontrei o nome dado à essas plaquetas. No estupor de cachacinha com formaldeído que passei a beber. Cnêmide.

Chorei três dias e três noites. Fiquei seco depois.

Agora cantam um tango. Ela. Olhando para mim. Quase ganindo súplica. Disfarço virando um copo para dentro da garganta. Cachacinha misturada no guaraná. Buliçosa no estômago: são as pás de Deus trabalhando.

Sambinha. Marchinha. A pedidos, valsa. Ela. Tirando copo das minhas mãos. Benção ?

[... levai as almas todas para o céu ...]

Girando. Girando. Girando. Dois pra cá, fundo. Dois pra lá, raso.

Cantinho mais escuro do salão. Mãos seguram o rosto. Espera um beijo. Ela. Pescoço estala araminho. Torcido duas vezes. Para um lado e para o outro. Uma negativa. Não deixo cair. Na cadência permanecemos atados: segurando cinturinha. Eu. Parasita de invertebrado. Carinho morfina. Fazendo cafuné naqueles cabelos amarelos de boneca, descubro novidade de anjo. Seborréia.
Estremeço.

[... socorrei principalmente aqueles que mais precisarem ...]

A felicidade é um espasmo.


ilustração: Flávio.

dezembro 26, 2007

A moleskine song

[mais uma da série "canções de waad em andamento"]

Caught her moleskine and read
“Vengeance dresses crisp cotton
Blessed are the non-hearted girls
Wait till you´ve been anointed”
I know that´s not some cheap talk

Hail, hail
Absence of several sins

She´s a drumkicker housewife
She´s a pig-nosed Sister Hyde
She´s Alice with a carving knife
She´s a busy bee in an Artic ice
Hear her one-knuckled knock

Hail, hail
Absence of several sins

I´m her cathodic skin lizard
Chiselled with Morse code
You can call me Gasoline
Videodrome tough dope fiend
Together we´re a kind of scum

Hail, hail
Absence of several sins

abril 23, 2008

Siga o coelho branco

Em A arte da guerra, Sun Tzu escreveu: "Uma vez que não tens forma perceptível, não deixas pegadas que possam ser seguidas, os informadores não encontram nenhuma fresta por onde olhar e os que estão a cargo da planificação não podem estabelecer nenhum plano realizável". A poeta belo-horizontina Ana Elisa Ribeiro brinca com a idéia de deixar ou não pistas em seu novo livro, adequadamente batizado como Fresta por onde olhar. Terceira obra poética da autora - anteriormente publicou Perversa (Ciência do Acidente, 2002) e Poesinha (Coleção Poesia Orbital, 1997) -, Fresta por onde olhar reúne poemas que foram cuidadosamente burilados e amadurecidos, tanto em eventos literários quanto em conversas e vivências. O resultado é notado nos 40 poemas que compõem o livro: peças que denotam o vigor artístico de quem sabe esgrimar com as palavras, fazer as sentenças contorcerem-se ante uma compulsão de fina ironia e, finalmente, sucumbirem diante de nossos olhos incautos.

O poeta Fabrício Marques, que assina o prefácio de Fresta por onde olhar, faz uma cartografia do modo poético da autora. Em suas palavras, traça que "a respeito das ´obsessões´de Ana Elisa Ribeiro - as relações amorosas, a própria poesia, um eu lírico tentando definir-se -, pode-se dizer que a poeta as desdenha com muita ironia e humor, ora inclinando-se para o erotismo, ora para o lirismo, ora para uma coloquialidade sem-vergonha, ora para tudo isso ao mesmo tempo". E eis que temos algumas pistas a respeito de onde a poesia de Ana Elisa Ribeiro costuma andar.

Fresta por onde olhar é ainda uma obra plenamente autoral, imbuída de espírito self made, o que faz com seja alvo de maior apreço por parte da poeta. Para lançar este livro, a autora criou um selo próprio, chamado InterDitado, e controlou todas as etapas de produção, da elaboração conceitual até a impressão gráfica. Por tudo isso, as pistas que Fresta por onde olhar lança ao leitor podem conduzi-lo a inúmeras portas. O que pode e deve ser natural à poesia.

[anotem na agenda. o lançamento em BH acontecerá no próximo dia 26, no Café com Letras, a partir das 11h. em SP, no dia 6 de maio, na mercearia s. pedro, às 19h]

junho 1, 2008

Contos da Terra Plana

Antes de mudar de Campos para Belo Horizonte, organizei - juntamente com Vitor Menezes - a coletânea Contos da Terra Plana, reunindo escritos de autores campistas sobre a cidade que habita(va)m, tanto por amor quanto por ódio. O livro levou quatro anos para ser publicado e finalmente será lançado hoje, dia 1º de junho, na Bienal do Livro de Campos. A coletânea que reúne a "nova safra de autores campistas", que autodenominava-se Aglomerado Terra Plana - terra plana é a forma como chamamos Campos -, ambientou suas paranóias, singelezas, obsessões e safardanices nas quebradas de uma cidade que hoje vive momentos de polvorosa política. Eu estou ali com os contos "Kemosabe e o apanhador nos campos de cana-de-açúcar" e "Depois do centenário, até que chegue a primavera", uma homenagem esquizóide a Waldir de Carvalho - escritor já falecido e para o qual nunca mostrei o original desse conto, esperando que ele pudesse ler no livro. O grupo não existe mais faz algum tempo, assim como a Mutável Saralho Band, que era o braço lítero-musical do aglomerado, responsável pela leitura dramatizada de mini-contos em saraus. O que não significa que não haja mais produção literária nessa "nova safra". Continuo dizendo hoje o que já dizia quando saí da terra plana: o melhor escritor de Campos chama-se Jules Rimet. Basta ler "Esmeraldo", "Magrão" e "Filha do Diogo" para ter certeza.

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