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jornalismo Archives

setembro 10, 2007

Banana, meu bem

O caderno Link, do Estadão, procurou a mim, Alex Primo e Ana Maria Brambilla, para falarmos a respeito deste embate entre o jornal e a blogosfera. Falei por mais de meia hora pelo telefone com o repórter Rodrigo Martins e, como era de se esperar, apenas uma frase assim, banal, foi publicada. Não sei se o mesmo ocorreu com os demais entrevistados. Estava receoso de que isso acontecesse, mas preferi pagar pra ver - vocês não imaginam o quanto ando crédulo. Mas já voltei à programação normal: entrevista só por email. Para que eu possa publicá-la aqui na íntegra, rendendo assim - ao menos - mais um post.

novembro 7, 2007

Agora vai

V SEMINÁRIO SOBRE CIBERCULTURA E CONVERGÊNCIA DIGITAL 12, 13 E 14 de novembro - 9:20 às 11h - Sala Multimeios - FCH-Universidade Fumec

Dia 12

Interfaces experimentais homem-máquina: novas possibilidades de comunicação
Marília Bergamo

Narrativas interativas em jogos digitais
Marcos André Kutova

Dia 13

Meta-autores e receptores-participantes na cibernarrativa
Paula Ribeiro

Considerações sobre o objeto tecnológico contemporâneo
Fernando Rabelo

Dia 14

Diversificação das mediações sociais no jornalismo colaborativo
Gabriela Jardim

Digga: a experiência de um site acadêmico sobre Jornalismo Colaborativo
Felipe Torres, Mariana Celle e Ana Paula Condessa

[no último dia, haverá o lançamento oficial de digga, site academico de produção e análise sobre jornalismo colaborativo, fruto de projeto de pesquisa sob minha coordenação]

novembro 15, 2007

Digga that groove

[site retirado do ar porque a pesquisa foi interrompida]

Agora vai ! Depois de um tanto de pesquisa, trabalho, reuniões de pauta e técnicas, finalmente foi lançado o primeiro site acadêmico sobre Jornalismo Colaborativo, chamado Digga. O lançamento oficial ocorreu ontem, dia 14 de novembro, no terceiro dia do V Seminário sobre Convergência Digital e Cibercultura, na Universidade Fumec - oficial porque a bagaça já estava no ar, em um período de testes; uma espécie de "o ensaio é aqui". Apresentar Digga ao distinto público ficou a cargo de Felipe Torres, Mariana Celle e Ana Paula Condessa - os dois primeiros, bolsistas do projeto de pesquisa que desembocou no site e a última, bolsista do projeto de extensão que realiza os seminários já cantados e decantados por aqui. Sim, tudo se liga, o universo é uno - não estamos a falar de conexões por aqui, ô ?

Mas, dirão os detratores - porque este sempre existirão e, ai ai, se reproduzem -, pra que outro site de Jornalismo Colaborativo, meu Deus ? E eu lhes respondo, distribuindo bofetadas aos borbotões: leiam aqui, relapsos, e entendam que tratamos, neste site, "a implementação do Jornalismo Colaborativo como prática e objeto de estudo". E, por entendermos que é preciso também mostrar aos alunos de Comunicação Social a importância das práticas jornalísticas colaborativas, a matéria especial que se encontra no ar fala justamente sobre Jornalismo Colaborativo - divididas aqui e acolá.

O que ganhamos com isso ? Primeiro: a pesquisa - que se encontra em seu segundo ano - evidenciou formas de o jornalista lidar com audiência em um processo colaborativo, portando-se como o que chamamos de "cartógrafo da informação". A seguir, elaborou categorias de análise para avaliar de forma os processos colaborativos ocorrem, de modo a orientar a função wejornalística voltada à colaboração. E foram este processos que definiram a formatação de Digga: um site de experiências webjornalísticas que procura provocar - em vários sentidos - o trabalho conjunto entre equipe de redação e audiência.

E estamos somente começando.

novembro 23, 2007

Remember the 5th December

No dia 5 de dezembro , irei participar do projeto Oi Cabeça, promovido pela Oi Futuro, aqui em BH. Falarei, é claro, sobre Jornalismo Colaborativo, em uma conversa informal, porém carregada de petardos e balas dum-dum – vocês me conhecem. O trelelê terá vez às 19 horas, no auditório do Museu das Telecomunicações - Av. Afonso Pena, 4001. Apareça e me pague uma dose de uísque na seqüência.


Título da "conversa":
Quem tem medo do Jornalismo Colaborativo ?

A "conversa" em si:
Cooperação. Comunicação Interpessoal. Valor qualitativo igualitário no processo comunicacional entre "quem produz" e "quem consome". Estes são pressupostos essenciais na prática do Jornalismo Colaborativo, modelo jornalístico que vêm sendo debatido com mais intensidade nos últimos meses. "Cooptada" pelos jornalões, tal prática não limita-se apenas à vã filosofia do senso comum "mande sua notícia que nós publicamos". O Jornalismo Colaborativo requer a compreensão de um papel diferenciado do jornalista - mais do que nunca essencial na prática comunicacional digital -, no sentido de estimular conversação com a audiência, fortalecendo assim o alcance e poderio em todos os aspectos da produção jornalística. A conversa abordará, nesse sentido, o jornalista como cartógrafo da informação e as potencialidades com as quais este modelo jornalístico pode nos surpreender.

janeiro 12, 2008

A hora e a vez do cabelo descer

Inconformado - "até o último fio de cabelo", diria algum oportunista metido a engraçadinho - com a falta de alguns nomes na lista dos 15 carecas mais fodões de todos os tempos, resolvi eu mesmo retificar esta injustiça histórica. Apresento-lhes minha própria lista de carequinhas brasileiros que se destacam na multidão:


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Marcelo Tas tem motivos de sobra pra ser o primeiro da lista. A começar pelo fato de que, encarnando o repórter Ernesto Varela - numa época em que ainda tinha cabelo - disparou para Paulo Maluf - desculpem o palavreado chulo -: "Muitas pessoas não gostam do senhor, dizem que o senhor é corrupto. É verdade isso, deputado?". Tal fato, por si só, deveria ser o suficiente para colocá-lo na lista acima desdenhada. E como esquecer do Professor Tibúrcio - conheço gente que vai querer redublar esse vídeo - e do irriquieto personagem do "Porque sim não é resposta", do Castelo Rá-Tim-Bum ? E de quando ele apresentava Vitrine, na TV Cultura ? E do Saca-Rolha, que comandava junto com Lobão e Mariana Weickert ? São motivos como estes que me fazem tirar o chapéu para ele.


Gabriel-Priolli.jpg

Nem mesmo fatos como ter trabalhado em campanha de gente como Roseana Sarney e ter "cuidado da imagem" de Fernando Henrique Cardoso puderam diminuir a admiração que tenho pela postura jornalística profissional de Gabriel Priolli. Conhecedor dos meandros televisivos tupiniquins como poucos, preside a Associação Brasileira de Televisão Universitária e dirige a TV PUC-SP - sujeito essencial para ser ouvido em todo esse blá blá blá a respeito da TV digital. Priolli foi um dos primeiros a escutar, em 2004, na única vez em que consegui conversar com ele, o fatídico mantra "o jornalismo morreu".


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Este aqui figura na lista dos sujeitos cujo trabalho admiro e que, por conta dessas terríveis simetrias da vida, acabo ficando amigo. Conheci o trabalho do quadrinista carioca/mineiro Guga Schultze muito antes de me mudar para BH, quando amigos inescrupulosos mostraram-me a revista Grafitti [76% quadrinhos], produzida nas alterosas e que contava com histórias deste grande sujeito. Arrendatário - dono não; propriedade é roubo - de traços por vezes nervosos, por vezes precisos até a medula, Guga ainda bate ponto no Digestivo Cultural, escrevendo e ilustrando. Como se não bastasse, ainda bebe uísque e ouve Johnny Cash.

exucarecacover.jpg

Para finalizar - por hoje, por hoje -, permito-me a cabotinagem. Olhem o semblante calvo deste nada simpático exucaveiracover que vos escreve. Percebam a expressão de quem está com as engrenagens cerebrais a todo vapor, triturando referências obscuras para escrever contos e bolar música, pesquisando Jornalismo Colaborativo e ainda encontra fôlego pra resmungar que o jornalismo morreu. Alguém ainda duvida de que se trata de um bad motherfucker bald guy ? Reparem a carade desdém e enfado: nenhum cabeludo consegue fazer igual.

janeiro 13, 2008

"Eu falo porque gastei minha alma da redação."

Você lê jornal?

Xico Sá - Eu leio pra enganar os próprios jornais, mas eu não aconselho pra nenhuma família (risos)... afaste o seu filho da faculdade de jornalismo porque é emburrecedor. É melhor ser Marcola do PCC do que ser um jornalista. O jornalista não vai ter uma grande narrativa, não vai ser um escritor. Também não vai poder contar uma grande história, não vai poder porque o dono não vai deixar. Ele vai ser merda.


janeiro 24, 2008

"Bloguear no te va a hacer rico y famoso"

Desde a realização do BlogCamp MG aqui em Belo Horizonte eu ando encafifado com “casos e descasos”, como diria um ex-aluno meu, relativos a uma preocupação que deveria ao menos cutucar a massa cinzenta da moçada conectada. Trata-se de ver que, no meio de tanta discussão sobre o futuro da comunicação digital - ou seja lá como você queira chamar isso que estamos fazendo por aqui -, o valor da informação está relegado a um plano muito abaixo daquele onde deveria centrar-se. Entretidos com discussões acirradas acerca de posts patrocinados, monetização (ainda isso !) e modelos de negócios – valei-me, Beth Saad ! - alguns probloggers (e outros nem tanto) parecem agir como se tudo não passasse de algo montado para Pequenas Empresas, Grandes Negócios. É esse tipo de pensamento que me apoquenta. Ouvi aqui, no BlogCamp MG, alguém dizendo algo como "os blogs monetizados são o próximo passo evolutivo da blogosfera". Nesse momento, algo nos meus intestinos revirou-se e soltou um grunhido.

Temi pelo meu futuro.

O que ocorrerá com aqueles que preferem manter suas atividades blogueiras sem um enquadramento empresarial ? Coloco nessa listagem jornalistas que pensam - pasmem ! - "apenas" em lidar com a informação, fazendo com que seu valor e credibilidade se mantenham firmes, sem perder escala, ao mesmo tempo que em que recombinam um modus operandi que atenda a um "ambiente" que privilegia a formação de redes - para dizer apenas o mínimo. Escaparemos, homens de neanderthal da era digital, dessa toada "x-men: generations" ? A coexistência não é uma opção plausível e salutar ?

Questões que são taxativas em suas formulações quanto à natureza e futuro da comunicação (e que, consequentemente, também podem ser aplicadas ao jornalismo online) me aborrecem sobremaneira. Podem gerar confusão, podem gerar desentendimentos em um meio comunicacional que deve(ria) estimular a interação e processos de colaboração, descambando até mesmo em uma improvável aproximação conceitual entre formação de redes e panelê desmesurado. Parece que se está construindo um consenso que mixa estes dois conceitos e isso está sendo levado adiante como uma dessas verdades absolutas que se vê de onda em onda. O que é bastante perigoso, devido a fúria com que isso se propaga, evitando até mesmo que se mantenha ou recupere, vá lá, a "arte perdida da divergência de idéias". E lá vai, mais uma vez, o valor da informação, tema que é caro e estimado para mim, ralo abaixo.

Confesso que isso me deixa abatido.

Mas daí acesso Urgente !, blog que reúne jornalistas de Campos (RJ) e do qual participei, e vejo Vitor Menezes convocando leitores e blogueiros do Norte Fluminense a participar do Dia do Abandono, para denunciar a quantas anda a terra natal de José Cândido de Carvalho - e minha também, ora bolas. Cerca de 20 blogs entraram na campanha, publicando textos e fotos contundentes, em um processo de interação inédito até então naquela cidade, em qualquer meio de comunicação. Pool de empresas, dirão vocês ? Quá. Vitor Menezes dá o tom, mostrando que se trata de algo um tantinho diferente: "Há quem menospreze o potencial de mobilização da comunicação democrática e descentralizada. Desde Gutenberg tem sido assim”. É assim que me animo novamente. E ainda renovo meu aprendizado nesse troço que vivo repetindo que morreu ao ler profissionais como Sérgio Leo, que dá – mesmo não sendo intencional – verdadeiras aulas de jornalismo em cada um de seus posts.

É com esse pessoal que eu sigo.


[Este post deveria participar da primeira rodada da Ciranda de Textos – versão brasileira do Blogs Carnival – convocada por André Deak. Mas – ó vida, ó azar – perdeu o timming, coitado, e só encontrou o caminho de casa agora. O que só foi possível após deparar-se com a frase que ostenta como título, dignamente chupinhada daqui - atenção para a página 4, faz favor]


janeiro 30, 2008

No seu devido lugar

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Não se deixe enganar pela cara de vilipendiador do rapaz da foto. Conheço-o há mais de 20 anos e sei do que estou falando. O sujeito, além de ser jornalista e escritor, tem o desplante de lançar um livro - e manter o ar blasé ao mesmo tempo, para desespero dos detratores [de plantão e em potencial]. A prova de tanta galhardia chama-se "Daqui desse lugar - 100 artigos sobre Jornalismo, Política e Pertencimento" e veio à luz agora, pela E-papers Editora. O livro é uma seleta [variedade de pêra suculenta e aromática ou variedade de laranja] de artigos publicados em jornais fluminenses e sites, sempre com o tom opinativo ponderado, porém incisivo e irônico que caracteriza os melhores textos de Vitor Menezes. E posso afirmar isso com irremovível conhecimento de causa: já trabalhamos no mesmo jornal, em editorias diferentes. Também contei com o privilégio de ler antes de todos suas colunas, no espaço que implantei no segundo caderno de outro jornal para o qual ele escrevia. Portanto, não é de hoje que esperava que um livro dele fosse publicado.

Os três eixos de "Daqui desse lugar" não poderiam ser outros - são temas preciosos para Vitor Menezes. Arrisco a dizer que talvez o último até se encontre em posição de certo destaque em relação aos outros. Conheço um tanto acerca dos sentimento deste meu amigo em relação a Campos (RJ), nossa cidade natal, pois compartilho alguns deles. E sei que há, nesse livro, uma visão apaixonada - tanto para o bem quanto para o mal - acerca do que se vê ao redor. Talvez seja possível encontrar a mesma inquietação que acomete um arqueiro no instante em que faz a mira perfeita e está pronto para disparar.

Quer tirar a prova ? Coloque uma maçã no topo de sua cabeça.

janeiro 31, 2008

Furando o olho do ciclope

O maior fenômeno de anti-jornalismo dos últimos anos foi o que ocorreu com a revista Veja. Gradativamente, o maior semanário brasileiro foi se transformando em um pasquim sem compromisso com o jornalismo, recorrendo a ataques desqualificadores contra quem atravessasse seu caminho, envolvendo-se em guerras comerciais e aceitando que suas páginas e sites abrigassem matérias e colunas do mais puro esgoto jornalístico.
Luiz Nassif, que figura na lista de jornalistas que eu respeito, abre fogo contra a Veja - de maneira merecida e lúcida, diga-se de passagem. No primeiro bloco, aborda o "estilo neocon" - a porrada pela porrada, a truculência e linguagem ofensiva que foram usadas como estratégia de funcionamento - e os mecanismos que faziam a revista girar em torno de um e outro lobby.

O segundo bloco - o meu predileto - é reservado para dar nomes aos bois e modus operandi que levou à queda de padrão da revista. A parte seguinte diz respeito às levantadas de bola realizadas na seção Radar durante a guerra das cervejas. E, até o momento, há um quarto bloco: o caso André Esteves.

A abordagem de Nassif, além dos méritos óbvios, vem ainda em um momento oportuno. Dia desses, durante uma dessas conversas acaloradas naturais à divergências de opiniões, me perguntaram como eu sabia distinguir, em termos jornalísticos, quando a História estava sendo construída. Preciso apontar ?

fevereiro 18, 2008

Campus Party: Exu talks



"a idéia de você informar de maneira multimidiaticamente ..."
[isso é o que acontece após gravar a quinta entrevista depois de uma mesa rechonchuda]


Discretamente, assim como quem não quer nada, chegando de mansinho como um bom exu, também estive na primeira edição do Campus Party em terras brasilis. Fui como "convidado" para participar da mesa Jornalismo e Nova Economia, que aconteceu no dia 14, reunindo jornalistas e blogueiros. As aspas, neste caso, ficam por conta de uma certa consternação acerca da forma como a mesa foi conduzida desde o início. Prevista para começar às 19:30, a mesa foi adiantada para 17h - fui comunicado dessa alteração de supetão, assim como vários blogueiros, assim que cheguei ao prédio da Bienal. Apressei-me a contactar Ana Maria Brambilla, a única que eu sabia ter confirmado participação na "ala dos blogueiros" - somente soube quem eram os demais quando fomos reunidos momentos antes da mesa iniciar -, para alertá-la sobre a troca. Infelizmente, tal mudança fez com que ela não participasse deste debate. O que lamento até agora.

O que sabia da mesa até então: jornalistas de renome no Brasil falariam sobre o tema e, logo após, aconteceria uma desconferência reunindo os blogueiros. Encasquetei: Roda Vida upgraded ? Depois dos 15 minutos extended mode de Suzana Apelbaum, que abriu os serviços, subiram à mesa Pedro Dória, Heródoto Barbeiro, Ethevaldo Siqueira e Fabiana Zanni. Os blogueiros convidados - além deste exucaveiracover, estavam Paulo Bicarato, Solon Brochado, Henrique Martin, Carlos Cardoso, Pollyana Ferrari e Carla Schwingel - ficaram ao lado da escadinha de acesso ao palco, confabulando e conspirando. Até que decidimos subir também.

Ânimos já um tanto exaltados por conta de "como fica ? pra onde vai ? qual é a dinâmica disso tudo ?", o que se viu foi mais uma vez a rixa jornalistas versus blogueiros sendo colocada novamente em debate. Tivemos então um bate-boca sobre uma discussão que já nasceu morta - e como não tenho vocação para re-animator, deixo isso de lado. Acredito que o vídeo ali em cima - cortesia de Carol Thomé, que teve a paciência de esperar passar a avalanche de câmeras e microfones que assolou os palestrantes ao final do debate, para falar comigo - sintetiza bem minhas impressões a respeito dessa pendenga.

Mas foi tão ruim assim, seu Rocha ?, perguntaria-me o grande Tadeu Sarmento. Não de todo, eu replicaria, soltando baforadas de charuto. Além de (re)encontrar amigos como Tadeu e sua esposa Patrícia Gondreck - maravilhosas conversas sobre filmes, Leonard Cohen e Zé do Caixão -, ainda pude gravar, a convite de Ian Black, uma conversa com Pedro Dória para o documentário que a Live Ad e Cazé Pecini estão realizando sobre o atual momento comunicacional dos blogs. Saldo final: muitas confabulações, prospecções, sondagens, propostas e otras cositas más encaminhadas. Afinal, de redes sociais é que estamos falando ! Não é mesmo, Tiagon e Gejfin ?

[Em tempo: Edney Souza está convocando blogueiros de todos os cantos deste Brasil varonil para o Dia da Blogagem Inédita, a se realizar no dia 17 de março. Bandeira levantada depois de encher o saco - assim como eu - com a questão "jornalistas versus blogueiros" sendo debatida - valha o termo - pela enésima vez. Ok, Edney, grande levantada de bola; mas penso que algo no modelo da Ciranda de Textos seria um tantinho mais funcional e prática. Porque, afinal, é sobre formação de redes e interação - sem punhetagem pseudo-intelectual - que estamos falando, não ?]

fevereiro 26, 2008

Apenas surubim

Discussões sobre a natureza da suruba, no meio do melelê, em pleno confessionário. Uma pesquisadora da importância de orgias turbinadas por psicotrópicos que se torna habitat para 12.625 demoniozinhos da high society dos infernos. Uma freira em processo de auto-contenção de neurose e que foi hostess dum clube de BDSM. Acabei de descrever a tua idéia de felicidade plena na Terra ? Então você está devidamente convocado - pela otoridade que me cabe nesta coluna - a intumescer sua visão com "Apenas surubim", filme dirigido e co-roteirizado por Carlos Aníbal Ossomani, um temerário cafajeste apreciador de infâmias, cerveja preta com ovo de codorna e imagens de garotas com metralhadoras. Não me perguntem qual é a relação, faz favor.

A bagaça, que está em fase final de filmagem, é uma livre versão de "O Exorcista" - se foi ou não autorizada a equipe de reportagem não sabe e, na verdade, está cagando e andando a respeito desta informação; top top procês. O que quer que essa refilmagem pretenda passar pode assim ser sintetizado: uma dúvida filosófica a respeito da quantidade de pessoas necessárias para começar uma suruba faz com que um padre, acometido de priapismo, convoque uma consultora sobre o assunto. À medida em que ela vai se envolvendo com os assuntos da Igreja, começa a chamar a atenção de um clube de espíritos demoníacos, cujos integrantes estão planejando onde irão passar as férias. Os mefistofelizildos - que não são bobos nem nada; bando de sacanetas babões - escolhem logo o corpinho da pesquisadora como estância de lazer. E vão chegando, se acomodando e gritando "peladinho, peladão, todo mundo nu". Até que o padreco, travado pelos efeitos adversos do priapismo, resolve acabar com todo aquele furdunço e convoca os exorcistas. Saravá !

- Capaz do Christopher Walken fazer uma ponta, como um dos demônios exorcizados, é claro. E eu tô querendo colocar o Pereio como um dos exorcistas. Ou o Mário Bortolotto. Ou até você mesmo, cabrón. - explica o diretor.

Mas whoddafucka is Carlos Aníbal Ossomani ? E por que ele quer meter o autor deste texto nessa estória ? Se o primeiro parágrafo te deixou sem sacar qual é a desse sujeito, então acompanhar as filmagens ou as idéias dele para "Apenas surubim" vai te deixar ainda mais de olhos esbugalhados. Osso - como a equipe de roteiristas o chama - é um destes diretores que grita "gravando !" e depois resmunga "essa merda !" ou "essa porra !". Em seguida, pode enfiar o dedo no ouvido de quem estiver mais perto, fazer barulhos inomináveis com a boca ou simplesmente jogar o que estiver à mão nos atores, caso não esteja gostando da interpretação. Também é capaz de sair abraçando e beijando todo o elenco, caso uma cena tenha saído exatamente como ele queria. Nesses casos, as cenas costumam ser as mais trash possíveis.

Foi exatamente esta demonstração de afeto descabido que a equipe de reportagem presenciou, no momento da gravação de uma "cena de metalinguagem" - termo usado insistentemente por Ossomani para convencer-nos a assistir esses takes. A tal cena parte de um dos pontos focais do filme: a suruba realizada no confessionário, onde três pessoas se enfiam - eita conotação ! - naquela casinhola para começar as safardanices. É possível ouvir, num crescendo, o coro dos belzebus taradões: "suruba ! suruba ! suruba !". Até que um deles, sempre em off, pergunta: "peraí, três pessoas já é suruba ?". A câmera se desloca para um casal em seu lar doce lar. Ela, uma das roteiristas do filme, está confabulando com a equipe em um destes programas de conversação. Sem tirar os olhos do computador, pergunta para o marido, que está arrumando discos numa prateleira: "tutti-frutti, três pessoas já é suruba ?". Sem tirar os olhos dos discos, o marido responde: "não inventa, pô !".

As cenas tiveram o tom desejado pelo diretor já no primeiro take. Assim que a parte do casal foi finalizada, Ossomani deu duas cambalhotas e saiu pulando em direção aos atores, gritando "suruba, surubão, surubim". Agarrado ao casal, anunciou que haveria uma pausa de dez minutos e em seguida, filmariam a cena onde mais pessoas entram no confessionário para participar da suruba. Os atores desta parte - um casal de corretores de seguro, uma ponygirl, dois bombeiros e quatro sósias da Aldine Muller quando jovem - repassavam suas falas (??!!) ali por perto. Era a deixa para que saíssemos dali, ainda sem seqüelas.

Depois de sair da nuvem atordoante do set de filmagem, uma constatação: faltava ainda algum ponto chave para compreender porque pessoas como Carlos Aníbal Ossomani cometem atos deste tipo. Nem careceu voltar para dirimir - eita, Rocha, você tá chato hoje, hein ! - a dúvida. A resposta, bem ao gosto da metalinguagem apreciada pelo diretor, veio de um grito de um dos atores participantes da cena da suruba no confessionário:

- É a putaquepariuzação da sociedade que faz isso ! Ahhhhhh !!!


[publicado originalmente aqui]

fevereiro 28, 2008

Hay hype? soy contra!

Desde siempre fui un espirito de puerco. E nunca deixei de me sentir bem com isso. Este salutar hábito é que me faz, por exemplo, torcer o nariz - de porco, é claro - quando sujeito enche a boca para falar em redes sociais, micropúblicos e interação, mas é afeito mesmo à contemplação do espelho de Narciso. Tal prática pra mim é hype e hype tem que ser tratado com admoestação pública, execração e vara de gurumbumba. Nessa ordem. Mas dá gosto quando vejo que há pessoas realmente interessadas em colocar em prática o que a rede tem de melhor: conexão e colaboração, só para ficar em dois termos. Exemplos disso eu tenho na rede de blogs que está se formando na região norte-fluminense a partir da campanha Dia do Abandono, catapultada pelo Urgente! e na segunda rodada da Ciranda de Textos, que teve como host blog o Meio Digital. É com pessoas assim que vivenciam conexões e que espicaçam a contenda necessária - redes sociais x sociedade do espetáculo - que eu prefiro interagir. Pleased to meet you. Hope you guess my name.

março 4, 2008

Entrevista: Rogério Christofoletti

rogerio christofoletti.jpg

"Rogério Christofoletti, 35 anos, é paulista do interior. Jornalista desde 1991, mestre em Lingüística (UFSC) e doutor em Ciências da Comunicação (USP). Professor e pesquisador do curso de Jornalismo e do Mestrado em Educação da Univali. Coordenador da Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi). Autor de dois livros e co-organizador de outros três, além de artigos científicos em periódicos nacionais e internacionais. Mantém o blog Monitorando desde maio de 2005."

[entrevistador convidado: Gilberto Pavoni Jr]

Gilberto Pavoni Jr - Se a indústria jornalística é um produto da Revolução Industrial e de uma máquina (a prensa, aquele tear de letrinhas) e esse fenômeno social-econômico tem só dois séculos na história da humanidade, por que se deve acreditar que ela não está defendendo seus interesses do capital quando fala que a forma de comunicação que ela produz em economia de escala é a única útil para a sociedade?

Rogério Christofoletti - A indústria jornalística defende seus interesses sim quando advoga a utilidade do jornalismo para a sociedade. No entanto, não é só isso que está na mesa. O conhecimento é útil e necessário para o homem. A informação também. Informação e conhecimento não são a mesma coisa, mas ambos são altamente necessários não apenas para alguma sobrevivência dos humanos como também para sua própria reinvenção. É claro que o jornalismo não é a única fonte geradora e difusora de Conhecimento e Informação, mas não se pode negar que ele tenha - nesses poucos séculos - assumido relevância para a nossa vida em comunidade. Isto é, o jornalismo - de alguma forma - conseguiu criar um espaço para si na vida social, e hoje imaginar a vida contemporânea sem ele é muito complicado. O jornalismo não é um mal necessário. Há bom e há mau jornalismo. Assim como há boa e má medicina. O raciocínio da pergunta poderia ser estendido, por exemplo, à indústria de fármacos, às cooperativas de saúde, aos conglomerados médico-hospitalares...

Jorge Rocha - Você deve estar acompanhando o Luiz Nassif contra a Veja. Para nos atermos ao mínimo, o que Nassif está fazendo é duma puta relevância histórica, porque ninguém antes dava nome aos bois. Não acha que está faltando um tanto de repercussão por parte da - valha o termo - blogosfera? Conversando sobre isso com algumas pessoas durante o Campus Party, uma figura me disse: "se não tem 'espetáculo', então não faz eco". Usando linguagem de empreendedor, te pergunto: essa é a receita do sucesso ?*

RC - Tenho acompanhado sim o caso do Nassif. E gostado de ver ele dando o nome aos bois. É importante, é histórico, é necessário. Sinceramente, não monitorei a blogosfera nesse caso, e não saberia dizer se houve pouca repercussão. Na verdade, me ative a ler o Nassif e ver alguma coisa em sites e portais, como o Observatório da Imprensa, por exemplo. De qualquer forma, acho que um nicho bem delimitado da blogosfera - quem é do jornalismo ou quem muito discute isso - deve repercutir e não propriamente A blogosfera... Mas retornando à questão principal, penso que há alguma razão no comentário que você colheu na Campus Party. Alguma. Eu ainda acho que a blogosfera não é uma sopa homogênea, um creme. É heterogênea, e comporta muitíssimas coisas. Inclusive bobagens e espetaculices. Não sei se essa é a receita do sucesso. Mas posso dar um testemunho muito pessoal. Acompanho diariamente as estatísticas de meu blog e, volta e meia, percebo uma enxurrada de cliques num determinado post que deixei por lá há meses. O post se refere a imagens de acidentes na internet. (Aliás, ao dizer isso aqui, aposto que muita gente vai lá conferir... ). Observo mais atentamente às estatísticas e vejo que muita gente chegou ao blog porque buscava expressões como "fotos de tragédia", "acidentes e corpos", etc... Se o prezado leitor se mantém lendo estas linhas e ainda não foi ao meu blog conferir esse tal post, certamente não se frustrou. Afinal, no alardeado post, eu condeno essa prática nefasta, e chego a discutir com um leitor que se diz proprietário de um site que faz este tipo de serviço. "Para educar as pessoas que o trânsito mata". Ora, faça-me o favor! Bom, mas o que posso concluir com isso? Concluo que tem muita gente que busca na internet o que não vê por aí, mas cuja mente procura avidamente. Seja sensacionalismo, pornografia, excentricidades, bizarrices, etc... Isso tudo ainda chama muito a atenção. Não acho que seja a fórmula do sucesso, mas ainda tem um brilho cegante para muitos...

GPJ - Se 20% da população acessa a Internet e só em 2007 houve a entrada nesse mercado das classes C e D; se os telecentros costumam exigir que os usuários gastem 45% do tempo em afazeres "proveitosos" como aulas e envio de currículos (somente 15% no Messenger ou Orkut); estão certos os que acham que a tal (autoproclamada, diga-se de passagem) blogosfera ativa é apenas a elite social brasileira representada na rede? Se isso for um fenômeno verdadeiro, quais os erros de análise e medição de mercado que pode acarretar?

RC - Não sei responder a isso. Sabe por quê? Porque não tenho pesquisa na área. Não tenho números, e se tem uma coisa que a gente vê por aí é chute sobre números da internet. Eu não acho que haja apenas uma elite, mas isso é um achismo, e pouco importa essa minha opinião...

JR - Ana Maria Brambilla disse recentemente, no Libellus, que "o vazio de ser blogueiro é uma condenação a qualquer sujeito (às vezes, até jornalistas!) que pratica a metablogagem". Ou seja, deu no saco uma certa exarcebação egóica de umbigosfera, cartões de pessoas cool e nhenhenhéns sobre jornalistas versus blogueiros. E o que realmente me incomoda é a moçadinha conectada se comprazendo em louvar o inócuo. Demora ainda para cair a ficha que a contraposição é redes sociais x espetacularização ?

RC - Não sei se demora. Mas eu quero assistir a esse confronto sim... só intuo que ele não seja nada parecido com o que já assistimos...

GPJ - Por que as faculdades formam operários da comunicação e não CEOs de empresas de mídia?

RC - Pelo mesmo motivo que as escolas de medicina formam médicos e não gestores. Elas formam Gregory House e não Liza Cudy. Os cursos de comunicação, como outros, se concentram na formação de mão de obra para atender às demandas do mercado. Agora, acho que os novos tempos estão empurrando o carro para outra direção. Veja o caso dos blogs. Com eles, temos que não apenas abastecer com informação, mas gerenciar a coisa em si... Eu penso que as escolas deverão se render a oferecer uma formação que contemple noções que possam auxiliar na gestão de veículos de mídia...

GPJ - Se a mídia é o quarto poder e as manchetes diárias mostram corrupção e desmandos nos outros três tradicionais poderes, deve o consumidor de produtos de jornalismo acreditar que a quarta ponta desse quadrado é impoluta só porque é delatora desses desmandos?

RC - Não, não deve. Há alguns anos, Ignácio Ramonet publicou um texto em que clama por um Quinto Poder, um contrapoder que possa ocupar a lacuna deixada pela mídia. A tese é simples: se a mídia já não é mais confiável, ela também precisa ser observada. E quem deve fazê-lo é o público. Ora, essa é a filosofia que sustenta o ofício dos media watchers, como o Observatório da Imprensa ou do Monitor de Mídia. Há autores norte-americanos que têm livros sendo vendidos na Amazon que defendem que a blogosfera deva se colocar como esse quinto poder. Acho que ela - ao menos no Brasil - ainda não funciona assim. Mas quem garante que ela não venha ajudar a fazer esse acompanhamento, que não é apenas oferecer a crítica, mas sinalizar erros, denunciar desequilíbrios, cobrar balanceamento, etc.

GPJ - Se a notícia é o insumo básico dos produtos que a indústria jornalística põe no mercado, mas em sua forma bruta, o factual, ele pode ser coletado, distribuído e precificado por qualquer pessoa ou empresa sem que ele perca qualidade ou agilidade (considerando-se a popularização de novos meios de captura e transmissão de informações: celular, por exemplo), que outros tipos de valor agregado essa indústria pode acrescentar ao insumo para ganhar competitividade?

RC - Credibilidade. Quero fazer apenas um exercício de futurologia, que é meio besta porque é super óbvio: o que vai distinguir o joio do trigo no meio desse matagal informacional todos é credibilidade. Como chegar a isso? Como definir os parâmetros para isso? É uma das minhas reais preocupações e objeto de pesquisa ultimamente.


* Recentemente alguns blogs - poucos, bem poucos - incorporaram google bomb, linkando a palavra "Veja" ao site de Luiz Nassif.

[nota comportamental: por um motivo completamente bisonho que eu desconheço, não envei duas perguntas que havia preparado. estas ficam para a próxima. estou mesmo ficando velho.]

ATUALIZAÇÃO NECESSÁRIA:Depois de uma conclamação deste escriba no Twitter, resultante deste comentário, Daniel Bender e Lúcia Freitas contabilizaram o resultado desta google bomb. O resultado ainda é parcial e pode aumentar, mas mostra que este exucaveiracover subestimou a ação. Que venham mais resultados assim.

março 10, 2008

Entrevista: Sergio Leo

sergioleo.jpg

"Sergio Leo formou-se em jornalismo pela Escola da Comunicação da UFRJ na oitava década do século passado, e, neste milênio, especializou-se na UnB em Relações Internacionais. Já deu aulas de jornalismo em um curso de extensão da UnB e no Ceub, Centro de Ensino Unificado de Brasília. Trabalhava no Segundo Caderno dO Globo quando foi convidado por Ricardo Noblat para a sucursal do JB em Brasília, no começo do governo Sarney; passou, desde então, pelas sucursais da Folha, Estadão, O Globo, Rede Globo, isto É e Isto É Dinheiro, até se aquietar no Valor, onde está desde 2001. Como repórter especial do Valor, cobre todos os assuntos de Economia e Política, mas prefere mesmo acompanhar a política externa, especialmente na América do Sul, as negociações comerciais e as discussões sobre política industrial. Em 2004 inaugurou o blogue Sítio do Sergio Leo que, desde 2007, desdobrou em outro, o Ralações Internacionais."

entrevistador convidado: andré deak.

Jorge Rocha - Pedro Dória bate numa tecla, não é de hoje, que não existem blogs sobre política no Brasil e tal afirmação sempre causa mal-estar nos incautos. O tom que ele usa aponta que isso é um contra-senso - sim, é minha interpretação, não me contrarie -, pois blogueiros poderiam muito bem usar o poder catalisador que esta ferramenta potencializa para iniciar, movimentar ou até mesmo inflamar uma discussão "com alguma relevância social". Por que será que tal predisposição aparentemente não existe entre nós, no Brasil ?

Sergio Leo - Acho que o Dória se refere a blogueiros não-jornalistas, porque há muitos e bons blogues de política no Brasil, que chegam a provocar governo e posição, motivar respostas, etc. O Blog dos Blogs do Tales Faria, o Blog do Alon, o Blog do Josias... Acho que também são fontes importantes de informação, e tendem a crescer de importãncia, os blogues de políticos, como o finado Blog do César Maia e o do José Dirceu. Um cara que faz um trabalho interessante, com viés partidário, claro, é o Luis Favre, numa militância crítica em cima das informações veiculadas por aí, claro que em defesa dos interesses do grupo político dele. Muitos blogues fazem um trabalho analítico interessante, destrinchando as notícias, como é o caso do Hermenauta. Faltam bons blogueiros de direita com domínio dos instrumentos da Internet (não valem os histriões hidrófobos da classe média desinformada, como o Reinaldo Azevedo) e ânimo investigativo. Curiosamente, há mais blogueiros falando de política externa, com conhecimento de causa, que de política interna. O Maurício Santoro, do TodososFogos, é um analista excelente da cena internacional (embora ele já tenha sido dessa raça jornalística, hoje é mais cientista político que outra coisa); o Idelber às vezes faz isso, como agora na eleição nos EUA. Eu acredito que o essencial, para um blogueiro, é ter informação, capacidade de análise e de exposição. Os blogues não competem com a imprensa comercial, pelo contrário, se alimentam dela, e muito. Trazem informação sob ponto de vista diferente, apontam fontes alternativas na rede. Falta, talvez, um blogueiro que tenha fontes alternativas próprias de informação (citar a Carta Capital não vale) e compita na apuração com o mainstream jornalístico. Mas isso é muito difícil, e caro, não vejo espaço, a não ser, talvez, no caso dos blogues partidários ou de organizações políticas. Esses ainda não aprenderam a fazer isso.

André Deak - A maior base militar dos Estados Unidos na América do Sul fica em Manta, no Equador, e o presidente Rafael Correa já disse não ter interesse em renovar o contrato com os EUA. Pouco antes do massacre dos guerrilheiros das Farc, oficiais do Comando Sul estiveram em Bogotá. Se os EUA estiverem tentando desestabilizar a região, a imprensa não pode estar contribuindo para piorar a situação? Onde estão os jornalistas que poderiam revelar os interesses ocultos nessas movimentações, tanto por parte dos EUA quanto da Colômbia, do Equador e da Venezuela?

SL - André, Manta é um tema recorrente na política equatoriana. A base tem uma parte sob controle dos EUA desde 1999, antes de Chávez, Morales ou qualquer governo esquerdista atual dar as caras no continente, e faz sentido a alegação de que seu principal objetivo é o controle do tráfico. Claro, já que há um forte transito de aeronaves de vigilância, não custa usar algumas para reprimir a imigração ilegal, em barquinhos que tentam chegar à costa estadunidense, não é mesmo? Num cenário de governos hostis aos EUA no continente, é claro que a rede de bases e contingentes mantidos por Washington na região (eles têm muita gente na Colômbia, alguma coisa no Peru e colaboração com os paraguaios) serve de instrumento dissuasório e de pontos de apoio no caso imrpovável de alguma intervenção por aqui. Um objetivo não-declarado mas óbvio dessa presença militar é assegurar os interesses americanos em relação ás reservas de petróleo abaixo do Rio Grande. A imprensa cobre mal, mas tem dado notícias dessa questão das bases e das movimentações de pessoal dos EUA, mas a precária estrutura de cobertura dos jornais e tvs brasileiros no continente impede um trabalho mais profundo. A demonstração mais escandalosa desa precariedade é a quantidade de matérias sobre Bolívia, Equador e Colômbia feitas para as TVs por repórteres plantados nas ruas de... Buenos Aires. Ora, para cobrir a América Andina desse jeito, o repórter da TV Amazonas ou da TV do Mato Grosso deve ter mais condições de fazer o trabalho. Mas há tentativas meritórias; o Estadão, apesar de seu viés anti-América Latina, enviou correspondentes, e há boas matérias feitas por esse pessoal, por exemplo. Faltam mais repórteres baseados nesses países, com condições de ter fontes de informação para fazer a investigação profunda que, como você bem nota, não vem sendo feita. Não creio em interesse dos EUA em estabilizar a região, pelo contrário; a Condoleeza vem esses dias ao Brasil exatamente para ver se o Lula ajuda a acalmar as coisas, para que eles possam se dedicar ao atoleiro em que se meteram no Oriente Médio e manter um olho aberto para as movimentações dos chineses mundo afora...

AD - Há alguns anos entrevistei os editores de política internacional da Folha de S. Paulo, de O Estado de S. Paulo e da Veja, sobre a cobertura que faziam (ou não faziam) sobre os zapatistas do México. Na época, chegaram a dizer que não era um movimento sério, "ficavam lá tocando violão, não são como as Farc". A que você atribui o total desconhecimento da realidade latino-americana desses editores?

SL - Existe um enorme comodismo nos grandes jornais, somado à avaliação equivocada de que o leitor brasileiro não se interessa por temas internacionais. Isso faz com que, como costumam se queixar os editores da área, as editorias dedicadas aos temas mundiais tenham poucos repórteres, os orçamentos para coberturas internacionais sejam limitados, dediquem-se poucas páginas a essas editorias e sejam poucos os correspondentes dos jornais no exterior; e a esmagadora maioria do material publicado nas editorias Internacional ou Mundo sejam de agências internacionais que, logicamente, refletem os interesses de seus centros geradores. Por isso ouvimos tanto falar do Oriente Médio e tão pouco dos países africanos de língua portuguesa, por exemplo. Temos mais detalhes sobre as eleições dos EUA do que tivemos sobre a da Argentina, ou teremos sobre as do Paraguai, que também nos interessam muito. Não há uma cultura de cobertura sistemática dos países latino-americanos, tanto que, até recentemente, só Buenos Aires tinha correspondentes brasileiros (mais recentemente, por motivos óbvios, a Folha instalou em Caracas o excelente Fabiano Masionnave). A formação dos editores de Internacional, na maioria das vezes, também reflete muito essa dependência das agências internacionais, o que provoca um viés avesso a assuntos regionais (a não ser em caso de conflitos flagrantes) na cobertura da grande imprensa. Há tímidos sinais de mudança, em parte provocados pela crescente integração dos países, com desdobramentos políticos, econômicos e sociais. Em parte levantada pela exuberância nada irracional do comandante Chávez. Já melhorou muito mas ainda é lamentável a falta de visão dos jornais para a rqiueza da América latina como fonte de notícias para os brasileiros.

JR - No teu blog, você escreve de maneira informativa, analítica e opinativa - fatores que, para mim, não deveriam faltar no jornalismo; sim, sou um cara ultrapassado - "também" sobre tópicos com os quais você convive em tua vida profissional. Há uma diferença de tratamento aí ? Algo como microblogagem poderia dar uma faceta nova ao que você já faz ?

SL - O jornalismo brasileiro é muito avesso às coberturas na primeira pessoa, ou a matérias impressionísticas, talvez por haver pouca gente que saiba fazer isso bem. O Clóvis Rossi é um dos poucos; a Míriam Leitão, que é muito criticada por isso, às vezes faz muito bem esse trabalho (às vezes essa abordagem mais pessoal escorrega para a opinião pura e simples, o que não é bom; mas leiam as matérias dela sobre meio ambiente e entenderão o que digo). Acho que a principal diferença entre o que escrevo no blogue e no jornal é que, na imprensa tradicional, tenho um compromisso de maior impessoalidade, limites para avançar em minha opinião particular e para tratar dos assuntos num tom mais escrachado. No blogue, me sinto mais à vontade para fazer crônica, provocar polêmica, divulgar impressões e contar com os comentários dos leitores para complementar o que digo (ou até refutar; gosto muito quando me corrigem com embasamento, coisa que odiaria se acontecesse no jornal, onde se espera um produto mais acabado). No blogue, imagino uma situação mais próxima do convívio social normal, em que manifestamos nossas opiniões e impressões, com base no nosso conhecimento, e pelo menos no meu caso, nos dispomos a ouvir o que os outros têm a dizer sobre isso, para refinarmos nossas posições em relação ao mundo. Fiz o que odeio ver nos entrevistados, falei demais. Mas essa é outra vantagem dos blogues, o espaço é mais elástico, e sempre se pode camuflar um texto longo num link a ser clicado pelos mais interessados... Maleme Exu!

AD - Você acompanhou viagens dos presidentes Sarney, Collor, FHC e Lula. Nessas viagens é comum formar-se uma panelinha de jornalistas, um perguntando para o outro qual é a notícia, qual é a fala mais importante, para todos darem igual. Isso porque se um deles dá outro enfoque, existe a chance do editor dar um esporro: "Você tá aí e não viu isso?!". Além da falta de preparo, quais são outros problemas de quem cobre política internacional?

SL - O risco de andar com passo diferente no batalhão é total, e muita gente, por isso, adota o comportamento de manada. Isso é particularmente comum nas salas de imprensa, entre setoristas. A cobertura de presidentes, seja no Brasil ou no exterior, é pior, porque os jornais se aferraram a um tipo de noticiário superficial, de frases de efeito, que, muitas vezes descontextualiza a informação, ou passa ao largo da verdadeira notícia. Felizmente, na minha experiência nos jornais em que trabalhei, e, especialmente, no Valor, raras vezes me senti cobrado por noticiar algo diferente dos outros jornais, e, quando isso aconteceu, pude ter uma conversa com o editor mostrando o porquê da minha opção por outros assuntos. Aprendi nessas coberturas que o importante não é saber o que os outros vão noticiar no dia seguinte para dar igual. O interessante é sacar o que os outros jornalistas consideram a principal notícia para, se for o caso, mencionar isso na matéria, e mostrar ao leitor por que seu jornal não considerou isso o principal fato a ser noticiado. Afinal, se algum aspecto da viagem chamou a atenção de muitos jornalistas é porque tem alguma importãncia; nem que seja importante porque os jornalistas estão interpretando erradamente o fato. Mas, se numa cobertura, você ficar muito preocupado com o que os outros vão fazer, é melhor desistir de viajar, para evitar uma úlcera.

JR - Nessa entrevista, Deak é o entrevistador equilibrado e eu sou o irreprimível. Assim, posso fazer uma afirmação peremptória: todo e qualquer jornalista que lida com cobertura política, não importando o porte ou localização do veículo de comunicação onde trabalha, está terminalmente próximo demais de antros de tentações. Você está nesse inferno de Dante desde 1983. Como consegue se desvencilhar e escapar incólume ?

SL - Já fui convidado para ser assessor de imprensa de petistas e tucanos, já me ofereceram comprar carros com belos descontos, já me sugeriram free-lancers com trabalho ridículo e remuneração de encher os olhos. Não topei; o principal é manter um código de ética rígido, e coerente. Pode-se ganhar bom salário como jornalista, especialmente em Brasília, sem entrar em conchavos ou abrir mão dos escrúpulos. Mais delicada é a questão da relação pessoal, na busca da notícia. As fontes adoram o jornalista doméstico, aquele que reproduz tudo sem questionar ou, melhor, compartilha de intimidades. Mas também respeitam muito o profissional que consegue construir uma reputação de imparcial, de jornalista que transmite todos os lados de uma questão, sem distorcer. Meu melhor exemplo disso é a Marta Salomon, da Folha, que fez matérias muito críticas no governo Fernando Henrique Cardoso e no governo Lula, e, no entanto, é solicitadíssima e respeitadíssima pelas fontes do governo. Como sou casado com ela, embora em regime de separação de notícias, às vezes vejo o cuidado que ela tem em checar dados, números, declarações. Raramente aceitamos convites para almoço ou jantar, embora eu considere válida essa maneira de obter informações (faço uma avaliação de custo-benefício mesmo, prefiro almoçar com meus filhos). Claro que a intimidade é uma boa maneira de obter informações exclusivas, mas descobri, em Brasília, que é preciso manter limites nessa proximidade com as fontes, até porque, se você fica muito íntimo do poder, corre o risco de ter um monte de informações que não pode publicar para não trair o amigo. Para quem não deseja cargo público nem participar de esquemas do Poder, é o pior dos mundos.

abril 7, 2008

Atenção: percepção requer envolvimento

A vida é cheia de som é fúria. Pffdfff, tremenda falácia. A vida é feita de terríveis simetrias. Inflamado pelos posts de Gabriela Zago, Gilberto Pavoni Jr e Ana Maria Brambilla, eu andava batucando um esboço de apontamentos sobre Jornalismo Colaborativo, quando Cristine Delphino pediu que respondesse uma entrevista para sua monografia. Sobre ... Jornalismo Colaborativo, oras. Pensaram o que, filisteus ? Que eu iria dedurar (mais) blogueiros ? Da entrevista, destaco três perguntas, diretamente associadas com algumas de minhas inquietações:

Você acredita que conteúdos colaborativos podem substituir o jornalismo tradicional?

O que você chama de jornalismo tradicional ? Os jornais impressos buscaram um verniz diferente em sua produção textual quando "ameaçados" pela fetiche da velocidade informacional propalada pelos idiotas tecnológicos, estes crentes discípulos de Lévy. A televisão estratificou-se em regurgitações insossas em sua programação aberta e prostrações ao hollywood way of life na "tv paga". Rádio ? Mais do mesmo. A Internet suplantou as velhas mídias ou estas iriam acabar mesmo em um "processo de estupidificação", independente da entrada da tecnologia de comunicação não-massiva no cenário midiático ? Trabalho com a idéia fixa de recombinação, nunca suplantação ou substituição. Se você preferir, posso dizer que os conteúdos colaborativos podem suplementar as práticas do jornalismo tradicional. Isso significa que as práticas colaborativas não precisam estar atreladas às corporações jornalísticas - portais, por exemplo - para terem relevância. E é preciso sempre bater nesta tecla aqui no Brasil. Penso que o Jornalismo Colaborativo - assim como toda e qualquer social media - pode incrementar qualitativamente a comunicação, a forma de pensar e relacionar-se com a informação. Acredito também que o pensamento webjornalístico, compreendendo sua função ligada à cartografia de informação e modos de interação, necessita ainda contemplar questões referentes às novas configurações do espaço público observadas com o advento das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação para um desempenho adequado de sua função.

Quais são as maiores dificuldades encontradas no jornalismo colaborativo?

Primeiro problema: fugir da afirmação falaciosa de que o Jornalismo Colaborativo vai acabar com o papel do jornalista diplomado. Torna-se quase impossível não ouvir esta afirmação - ou variações desta, mas com o mesmo teor - quando se fala em Jornalismo Colaborativo. Particularmente encontro-me enfadado em repetir que tal prática jornalística não prescinde dos jornalistas diplomados - eu sou um deles, ora bolas -, mas sim pensa em integrá-los a um processo interacional, que pode enriquecer as rotinas produtivas jornalísticas. Desde que estes jornalistas - ou as empresas para qual trabalham - estejam dispostos a realizar alterações/adaptações em seu modus operandi. E é nesse exato ponto que tudo começa a degringolar. Segundo problema: os portais brasileiros apenas dizem abrir espaço para Jornalismo Colaborativo quando não o praticam de fato. Adaptam práticas colaborativas neste ou naquele espaço, moldando-o como mais um fator agregador ao seu modelo de negócios. Complementando este cenário, não temos hoje, no Brasil, uma audiência "acostumada" a lidar com práticas colaborativas - embora minhas análises me façam pensar que ainda estamos "construindo" essa audiência. Junte estes dois pontos - e estou referindo-me "apenas" ao Brasil - e temos um certo campo de batalha em que o Jornalismo Colaborativo prefere combater com as armas da conversação e investidas hiperlocais.

Como você vê o jornalismo colaborativo daqui a cinco anos?

Não sou um futurist-in-residence como Michael Rogers, mas daqui do meu terreiro hipermidiático esboço dois cenários possíveis, ao menos para o Brasil. Se o Jornalismo Colaborativo continuar sendo tratado como mero fator agregador em uma cadeia de modelo de negócios, prática comum em portais, que distorcem e subjugam sua rotina produtiva - de caráter relacional e interpessoal -, então possivelmente os prognósticos que se podem captar a partir do relatório The State of News Media 2008 serão confirmados. Ou seja, teremos um decréscimo na produção colaborativa - mas um decréscimo no "campo de atuação" dos jornalões, é bom ressaltar. Poderia-se perguntar nesse caso: "o Jornalismo Colaborativo não ´é atraente´ ou ´possível de realmente ser implementado ?´". Uma resposta plausível para agora mesmo: portais não implementam Jornalismo Colaborativo. Ponto. Caminhando para outra direção, podemos conjecturar: e se a idéia de que o Jornalismo Colaborativo não pode ou deve ser atrelado à corporações para - aham - ganhar notoriedade encontrar terreno fértil no imaginário comunicacional interacional brasileiro ? A resposta não é tão óbvia assim quanto possa soar. Para realizar-se, é claro, este cenário depende também - não vou aqui e nesse momento quantificar isso - da atuação dos players envolvidos com o Jornalismo Colaborativo para constituir redes e explicitar - preferencialmente de maneira prática - de que a estratégia hiperlocal constitui-se algo de valor exeqüível e imprescindível. E com isso me dou conta que estou bancando Morpheus, oferecendo a Neo a escolha entre a pílula vermelha e a azul. Gosto disso.

Réquiem para um ombudsman

Confesso que, desde sempre, olhei de soslaio para o cargo de ombudsman. Fico cismado com reclamação ou oposição consentida, pois não me sinto confortável com "espaço permitido, demarcado e controlado" para críticas, apontamento de falhas e - por que não ? - vitupérios públicos. Mas não deixo de considerar e admirar quem tem culhão para aceitar esta função. Do mesmo modo, fico aborrecido - para dizer o mínimo - quando um profissional é demitido desta função por resolver esgarçar um tantinho a mais as pregas dos limites impostos para o exercício da crítica ponderada e argumentativa - esta sim, valorizada por este exucaveiracover. A demissão do ombudsman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães - que ocupava o cargo desde abril do ano passado, no lugar de Marcelo Beraba -, causou-me esgares pelo simples fato de que a liberdade consentida transfigurou-se em armadilha para ursos. Conforme aponta Eduardo Guimarães, em Cidadania.com - leiam o post "A gota d´água", publicado no último dia 5 -, o jornal parecia não querer que o jornalista publicasse suas opiniões em outro espaço que não fosse em sua coluna dominical, fazendo culminar um processo de críticas mais apimentadas que Mário Magalhães vinha escrevendo. Adotando tal prática, a Folha de São Paulo atiça minhas cismas a respeito deste cargo e reforça minha convicção valorativa de que é melhor recusar-se a ficar quieto e arcar com os custos do que, para ser premiado, ter que fingir-se de morto.

Não tardou para que a solidariedade de outros jornalistas - há quem fale em espírito corporativo em um momento desses - ganhasse corpo, expondo idéias semelhantes as que defendo. No site do Luiz Carlos Azenha, tomei conhecimento do texto escrito por Hélio Sassen Paz sobre esta demissão - cujo teor endosso. Trechos inteiros deste texto soam familiares para mim; venho escarafunchando idéias similares desde que cunhei o bordão que dá nome a este blog. Por conta disso, fico pensando, metido a fazer análises que sou, quais serão os próximos passos que Mário Magalhães irá tomar agora. Defenderá impiedosamente a bandeira de que a Internet é o único território realmente isento que temos quando os tópicos são crítica e pluralidade de opiniões ? Investirá em termos próprios, como fez Paulo Henrique Amorim após sua "saída" do IG, ou outros antes dele que não quero listar aqui e agora ? E a blogosfera tupiniquim, tão envolvida em debates midiáticos - cof cof cof -, repercutirá o caso assaz prontamente ? Sei não, Tiagón e Gejfin, mas vocês deveriam convidar o Mário Magalhães para a Verbeat.

maio 2, 2008

Entrevista: José Eduardo Gonçalves

"José Eduardo Gonçalves, jornalista, editor e escritor, atualmente é presidente da Rádio Inconfidência, vinculada à Secretaria Estadual de Cultura de Minas Gerais. Edita e apresenta, desde novembro de 2005, o programa Rede Mídia, na Rede Minas de Televisão, espaço de debate sobre comunicação, culturas e tecnologias midiáticas. Tem três livros publicados - Cartas do Paraíso, Vertigem e A Cidade das Memórias Flutuantes. Desenvolve projetos editoriais, como a coleção "BH. A Cidade de Cada Um", com 10 livros já publicados. Foi professor na Faculdade de Comunicação da PUC-Minas e editor da revista de cultura Palavra. É curador do projeto literário Ofício da Palavra".

entrevistadora convidada: gabriela jardim

Jorge Rocha - O recente episódio da saída do ex-ombusdman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães, aponta uma certa precariedade no exercício prático da crítica embasada que, para dar real valor à esta função, não deveria ser cerceada. Sim, este é um juízo de valor. Até que ponto você considera que a credibilidade da Folha de São Paulo - e, conseqüentemente, do cargo de ombudsman - pode ser arranhada com este episódio ?

José Eduardo Gonçalves - Não acho que a credibilidade do jornal foi ou será arranhada por conta do episódio. Nos primeiros dias houve um evidente incômodo por parte da comunidade de leitores, especialmente pelo vácuo de uma posição editorial, ou seja, a Folha não se manifestou. Mas vamos lembrar que o ombudsman se despediu como quis, expôs suas razões, pegou o boné e byebye. Esse vácuo durou ainda alguns dias até o anúncio do novo ocupante do cargo. Mesmo levando-se em conta que o Mário Magalhães abdicou do cargo por não concordar com as mudanças propostas pela direção do jornal em regras vigentes no seu trabalho, vale a pena registrar que: 1) a Folha continua sendo o único jornalão a manter a figura do ombudsman; 2) as críticas internas continuam sendo feitas e é válido (concordemos ou não com) o argumento de que este material vinda sendo monitorado por concorrentes; 3) a coluna dominical continua valendo e: 4) já temos um novo profissional no cargo, o que é uma reafirmação na crença do trabalho do ombudsman. Para finalizar: embates internos são corriqueiros e cotidianos na vida de um jornal, ainda mais num veículo como a Folha, prensado na ambigüidade que o faz tentar ser mais audacioso que outros (reformas gráficas, em especial) e a realidade que o obriga a se pautar, na maioria das vezes, como seus colegas de classe.

JR - A idéia de mediawatching sempre me fascinou porque, além de esmiuçar brigas de cachorro grande, ajuda a desmistificar a falácia da tal da imparcialidade. E eu engrosso as fileiras daqueles que têm birra com esse conceito. Por isso, repasso duas perguntas da vizinha de condomínio, Larissa Bueno, registradas na caixa de comentários deste blog-blefe: "de onde vem essa idéia de imparcialidade da imprensa, no Brasil?" e "por que o posicionamento é ou passou a ser mal visto?"

JEG - Não sei de onde vem essa idéia, esse puritanismo ideológico, essa coisa asséptica da imparcialidade da imprensa, que é simplesmente impossível. De modo geral, as regras de jornalismo pregam maior isenção, distanciamento, objetividade, de forma a que o público faça suas próprias deduções. Na prática isso é uma balela, em tudo há opinião, posicionamento. O que não quer dizer que não deva ser tentado, diariamente. Veja só, todo mundo critica a VEJA (eu, inclusive) quando a revista publica uma capa dizendo, sobre a renúncia de Fidel: "Já vai tarde". Isso é jornalismo? Não, isso é opinião. Mas é opinião de direita, reacionária, por isso tanta rejeição. Mas se fosse opinião de esquerda podia? Pois em casos como este prefiro que se faça muita reportagem, muita análise (de gente de todas as tendências), que se abra para muitas fontes, e que o público decida, afinal, sua opinião.

Gabriela Jardim - Você apresenta um programa de entrevista e análise de temas ligados à mídia, na tv pública. O quanto há de "público" empregado no jornalismo que é praticado nesta emissora ?

JEG - Sinceramente, não sou a melhor pessoa para analisar o jornalismo da Rede Minas por uma questão muito simples: quase não assisto telejornais. Nem dela nem de outros. Prefiro me informar por internet, jornal, revista, rádio, eventualmente tv. Na tv gosto de esporte (especialmente futebol) e algumas séries ou programas. Mas acho que a Rede Minas faz bons programas, tem um leque de opções de qualidade muito maior que as tevês abertas. O próprio programa que eu edito e apresento é um bom exemplo. Pode ter muitos defeitos, mas é um espaço raro na tv brasileira. Tenho total liberdade para levantar as pautas (mesmo porque, se não tivesse, lá eu não estaria), nunca recebi qualquer recomendação sobre o que tratar ou não tratar. E tenho tratado de muita coisa, dado voz a muita gente. Acho que este espaço é uma verdadeira trincheira de resistência no terreno inóspito da tv brasileira, tratando com seriedade e em horário nobre de questões que considero relevantes para o público. O conceito de público é muito amplo, mas deve necessariamente respeitar a diversidade (étnica, religiosa, sexual, cultural, regional etc) da sociedade brasileira. Não sei se a Rede Minas oferece o tempo todo esse cardápio, mas ela me parece, sem dúvida, muito mais saborosa e inteligente que outras, focadas unicamente na questão da audiência. Por exemplo: por que apenas uma TV Cultura, em São Paulo, e uma Rede Minas, aqui, são capazes de investir em programas infantis menos imbecis? Por que outras com mais capital, muito mais, não o fazem? E o engraçado é que todas são concessões públicas...

GJ - Focando na questão das fases cíclicas da mídia, vivemos hoje em uma fase de convergência midiática, na qual, a tendência é sempre uma aproximação e complementação dos veículos. É a partir deste pressuposto que você lançou a parte inédita do programa no site?

JEG - Em parte, sim. Não dá pra ficar imune a isso. O fato é que estamos enquadrados em um formato padrão, temos ali preciosos 25 minutos semanais, então é pegar ou largar, e eu peguei certo de que valeria a pena, acho que estava certo, mas é muito frustrante a coisa só funcionar naquele curto período de tempo. Por isso arrisquei: que tal levar um pouco do conteúdo para a internet, quem sabe isso atrai um novo público? Acho que hoje nada mais existe sozinho, veículo nenhum é uma ilha. Tem de dialogar com outros meios.

GJ - Ainda visando a fase convergente da mídia, você, como apresentador de um programa cujo objetivo é ser "um fórum de debates sobre todas as nuances e formatos da comunicação", não acredita que seria interessante estender este fórum para além da tv?

JEG - Sim, seria bem interessante. E natural, até.Só não o faço porque isso exigiria de mim, hoje, um tempo que não posso dar. Fazer o programa já é uma baita empreitada, tendo em vista as inúmeras outras atividades que exerço. Abrir mais uma frente seria inviável. Não vejo como ampliar este fórum sem que eu pudesse participar diretamente, e isso hoje não dá.

JR - Bill Kovach e Tom Rosenstiel, no excelente "Os elementos do Jornalismo", dão a medida exata acerca da construção da credibilidade jornalística. Para eles, a audiência pode dar mais crédito à determinada publicação se esta explicitar seu perfil ideológico-editorial - "ideológico-editorial" é redundância, eu sei. Por que esse não parece ser um caminho viável no modelo de negócios das empresas jornalísticas brasileiras ?

JEG - As publicações podem explicitar seu perfil ideológico-editorial em editoriais, é a forma mais "limpa" e transparente de se fazer isso. Em período eleitoral, me parece louvável que qualquer jornal explicite, em editorial, a sua preferência. Mas contaminar o noticiário com isso me parece uma sacanagem, o público quer informação de qualidade, e não apenas opinião. Aliás, tenho a impressão que hoje temos opinião de mais e informação de menos...

GJ - Durante todos estes anos de mídia, iniciando lá na impressa e chegando hoje na internet, a relação entre jornalista e público foi sendo fortemente alterada. Diante disso, como você vê o processo ainda fechado, do ponto de vista de participação do público, do "fazer tv" de hoje? Uma saída para isso seria o que eu chamei anteriormente de convergência? Ou você acha que o "fazer tv" será sempre assim?

JEG - Não sei como será o "fazer tv" no futuro, mas sei que vai mudar. Tudo muda. A relação entre jornalista e público mudou muito desde Gutenberg, você mesmo disse isso. Não existe mais o jornalista encastelado, dono da verdade, capaz de todos os desatinos. A opinião pública é muito mais vigilante e a internet derrubou as fronteiras antes invisíveis das redações. Hoje, se leu e não gostou, o pau comeu. A tv também é sensível a isso, apesar dos rígidos padrões de produção. As grandes redes ainda mandam no terreiro, mas o poder delas vem decaindo ano a ano. Muita coisa ainda vai mudar - a tecnologia digital, a convergência com outras mídias (em especial o celular), a internet banda larga se popularizando, as disputas entre grupos de telefonia -, tem água demais passando embaixo dessa ponte. Ainda acredito que teremos uma tv mais inteligente no futuro. Ou, pelo menos, muito mais opção de inteligência na tv. E acredito que o público será cada vez mais influente nesse processo.

maio 20, 2008

Redes são conversações


palestra aglomerado da serra
"seguinte: a apropriação criativa tem que ser constante no cotidiano de vocês, pô !"


A semana que passou reservou-me uma variedade de momentos em que comprovei, de novo e de novo e de novo, a veracidade da frase que dá título a este post. No dia 12 de maio, fui convidado pelo projeto RedeMuim a fazer uma palestra no Centro Cultural Vila Marçola, no Aglomerado da Serra, sobre processos criativos e tecnologias digitais. A idéia central era falar sobre apropriações criativas, hibridização e recombinações midiáticas como formas de expressão artística e cultural - esse foi o singelo briefing que me passaram. E deveria falar sobre isso em pouco mais de uma hora; tremendo risco de meter tudo num balaio de gatos e acabar parecendo (mais) pedante. Mas não contavam com minha astúcia ! Junto à moçadinha que se desenfronhou de casa e enfrentou a friaca que fazia naquela noite, dispensei o microfone e desfiz a "mesa de palestrante" que haviam armado para mim.

- Se alguém veio esperando uma palestra, sinto ter que decepcionar essa pessoa. Eu vim aqui para conversar com vocês.

Olhares incrédulos. O vigia do centro cultural, postado do lado de fora, solta uma tosse nervosa. Ao fundo, trilha sonora imaginária de filme de bang bang. Disparo o verbo:

- Eu quero conversar com vocês sobre como arte, tecnologia e cultura podem sempre se juntar para criar e recriar valores. Pra começo de conversa, vamos falar sobre re:combo, moçada do Recife, terra do manguebeat. Falar sobre BNegão e como é possível driblar a indústria. Falar de artistas como todos vocês que estão aqui.

O vigia não mais tossia lá fora. Do lado de dentro, atores de teatro, rappers, músicos de róqui pesado e pessoas ligadas à rádio comunitária do Aglomerado da Serra, além da equipe do RedeMuim, movimentavam a conversa. Na leva, falamos sobre direitos autorais, dribles no jabá, cultura livre, espaço cultural como espaço público - e formas de intervenções artísticas apoiadas nessa idéia -, sobrando ainda espaço para espinafrar o Jota Quest e congêneres.

O leitor mais espertinho desse blog pode se pegar pensando: "mas não há nenhuma grande novidade aí!!!". E quem está pensando fast food aqui ? De conversações e recombinações é que estamos falando! Tanto aqui como naquele momento. Processo de formação e implementação de redes: sobreposição informacional, camadas interpretativas, cartografia da informação. Eu voltei para casa naquela noite com algumas caraminholas na cachola, a reverberar sob o mantra "não espere nada do centro, se a periferia está morta". Andei debatendo algumas delas na semana que passou com pessoas que apreendi como amigas.

Mas isso é assunto pra outra conversa.


junho 12, 2008

Decálogo da Audiência Precavida

No último dia 21 completou-se o primeiro ano que este blog está hospedado no condomínio Verbeat, por obra e graça de Tiagón e Gejfin. Por estar envolvido até agora nas comemorações, entretido com uísque, charutos e bandalheiras que me eram ofertadas - o que é natural à prática do jornalismo -, não pude escrever um post comemorativo. Mas agora que abrandaram as safardanices, calhordagens e sardonices - porque estas não findam, como sabem os caros leitores -, resumo em um decálogo preceitos norteadores de uma boa conduta para a audiência que insiste em engalfinhar-se com o tal do jornalismo. O motivo disso ? Durante estas comemorações, entre uma baforada e outra de um charuto oferecido por André Deak, ouvi diversas vezes a seguinte assertiva, com pequenas variações: "se o jornalismo morreu, a audiência celebra a missa de sétimo dia". Vai depender do vinho, digo, do que esta audiência se propõe a fazer. Ou vocês acham que estamos falando aqui de coroinhas e beatas ? Sigam a bolinha:

1) Toda vez em que falarem "e agora as notícias do dia" leve sua mão ao coldre.

2) Esmurre os próprios olhos antes de assistir telejornais. Dificilmente o que vier depois lhe será mais doloroso.

3) Entre um e outro vício reserve tempo para a caridade. Desconfie.

4) A revolução não será televisionada, downloadeada, printscreenizada ou efecincozada.

5) Colecione chatos (Pthirus pubis, bem entendido). Indique-os como referência quando lhe perguntarem sobre credibilidade.

6) Na dúvida se jornalismo pode ou não ser entretenimento, responda sempre: achei tendência.

7) Borrife spray de pimenta ao redor ao ouvir o termo "quarto poder". Atrai bons fluidos.

8) Nunca pergunte a um jornalista para qual lado o vento sopra.

9) "Somos os cavaleiros que dizem Wii" não associa-se às Novas Tecnologias de Informação e Comunicação.

10) O jornalismo morreu ? Apele para o Cabôco Mamadô.

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