A semana que passou reservou-me uma variedade de momentos em que comprovei, de novo e de novo e de novo, a veracidade da frase que dá título a este post. No dia 12 de maio, fui convidado pelo projeto
RedeMuim a fazer uma palestra no Centro Cultural Vila Marçola, no Aglomerado da Serra, sobre processos criativos e tecnologias digitais. A idéia central era falar sobre apropriações criativas, hibridização e recombinações midiáticas como formas de expressão artística e cultural - esse foi o singelo briefing que me passaram. E deveria falar sobre isso em pouco mais de uma hora; tremendo risco de meter tudo num balaio de gatos e acabar parecendo (mais) pedante. Mas não contavam com minha astúcia ! Junto à moçadinha que se desenfronhou de casa e enfrentou a friaca que fazia naquela noite, dispensei o microfone e desfiz a "mesa de palestrante" que haviam armado para mim.
- Se alguém veio esperando uma palestra, sinto ter que decepcionar essa pessoa. Eu vim aqui para conversar com vocês.
Olhares incrédulos. O vigia do centro cultural, postado do lado de fora, solta uma tosse nervosa. Ao fundo, trilha sonora imaginária de filme de bang bang. Disparo o verbo:
- Eu quero conversar com vocês sobre como arte, tecnologia e cultura podem sempre se juntar para criar e recriar valores. Pra começo de conversa, vamos falar sobre re:combo, moçada do Recife, terra do manguebeat. Falar sobre BNegão e como é possível driblar a indústria. Falar de artistas como todos vocês que estão aqui.
O vigia não mais tossia lá fora. Do lado de dentro, atores de teatro, rappers, músicos de róqui pesado e pessoas ligadas à rádio comunitária do Aglomerado da Serra, além da equipe do RedeMuim, movimentavam a conversa. Na leva, falamos sobre direitos autorais, dribles no jabá, cultura livre, espaço cultural como espaço público - e formas de intervenções artísticas apoiadas nessa idéia -, sobrando ainda espaço para espinafrar o Jota Quest e congêneres.
O leitor mais espertinho desse blog pode se pegar pensando: "mas não há nenhuma grande novidade aí!!!". E quem está pensando fast food aqui ? De conversações e recombinações é que estamos falando! Tanto aqui como naquele momento. Processo de formação e implementação de redes: sobreposição informacional, camadas interpretativas, cartografia da informação. Eu voltei para casa naquela noite com algumas caraminholas na cachola, a reverberar sob o mantra "não espere nada do centro, se a periferia está morta". Andei debatendo algumas delas na semana que passou com pessoas que apreendi como amigas.
Mas isso é assunto pra outra conversa.