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julho 26, 2007

Entrevista: Daniela Bertocchi

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No Intermezzo, você está fazendo um acompanhamento a respeito da cobertura midiática sobre o desastre com o airbus da TAM. E os portais agora enveredaram pelo o que seus produtores de conteúdo acreditam que seja Jornalismo Colaborativo. Em várias listas de discussão, a fotomontagem que UOL não notou e publicou, no esquema de conteúdo colaborativo, tem sido foco de críticas e acirrados embates. A pergunta é: a partir das análises desta cobertura, o que falta para os produtores de conteúdo realmente lidarem com o Jornalismo Colaborativo ?

Apontamento 1 - Pelos poderes de Grayskull, quem tem a força?

Bem, em primeiro lugar, até para as pessoas entenderem o que quero dizer, faço uma distinção bem clara entre o que seja o "jornalismo colaborativo" e o "jornalismo cívico". Baseio-me nas definições de 2003 do grupo norte-americano The Media Center.

Resumida e simplificadamente (e peço também desculpas pelo tom professoral), a distinção é essa: o colaborativo pressupõe uma interferência mínima ou nula por parte de jornalistas no conteúdo gerado pelos usuários; no cívico, ao contrário, é suposto um controle desta interação através da edição, da filtragem de informações e da moderação da participação dos usuários.

Assim, o “jornalismo participativo” (colaborativo) ocorre quando um cidadão, ou grupo de cidadãos, assume uma função ativa no processo de recolha, reportagem, análise e divulgação de notícias e informações. O objetivo desta participação é fornecer aquilo que um sistema democrático exige: informação independente, confiável, acurada e variada.

O “jornalismo cívico”, por outro lado, procura encorajar a participação, mas as organizações noticiosas mantêm um elevado nível de controle através da determinação da agenda temática, da seleção dos participantes e da moderação das conversas.

Note-se que o que direi a seguir só faz sentido partindo desta diferenciação, tal como enunciada acima. Sei que muita gente não vai por este caminho, mas os divergentes pontos de vista são sempre bem-vindos para melhorarmos o pensamento, além do que eu acho que falta criar um conceito novo pra um novo tipo de jornalismo intermédio entre o que se chama de colaborativo e cívico.

Apontamento 2 - Batata quente, quente, quente… queimou!

A partir do que eu digo acima, é completamente natural não encontrarmos a prática do jornalismo colaborativo nos grandes portais brasileiros, uma vez que sabemos que estes são projetos de tradição jornalística que claramente defendem o jornalista profissional como aquele capaz de editar, filtrar, checar etc. as informações com mais propriedade e melhor rigor do que qualquer um outro profissional ou cidadão.

Assim, o leitor não é percebido como jornalista profissional. Torna-se um colaborador importante, mas não essencial para o funcionamento da máquina jornalística.

É por isso que o UOL errou ao publicar uma foto de leitor sem antes passar um olhar atento sobre a imagem. E acertou em assumir o erro. Este processo revelou exatamente como as coisas são entendidas pelos portais: deve ser exercido o controle do jornalista através da edição, da filtragem de informações e da moderação da participação dos usuários. Fundamental é mesmo o corpo de jornalistas presentes da redação, profissionais com habilidades e competências para desempenhar as suas funções com qualidade. Ou seja, não existe jornalismo colaborativo nos portais brasileiros.

Se existisse, não haveria a lógica do “erro”. Em vez do “filtro, logo publico”, ficaríamos com o “publico, logo filtro” e tudo bem (processo de construção conjunto entre comunidades). Aí reside a diferença fundamental.

Apontamento 3 – O problema

Se a questão for entendida por uma perspectiva do controle, a intervenção dos usuários na produção noticiosa é realmente uma batata quente nas mãos dos media online. A beleza e o encanto democrático do jornalismo participativo parecem se apagar precisamente quando o assunto esbarra na questão da autonomia profissional (e da autoria). Até que ponto as empresas de comunicação e os jornalistas querem perder o controle e, portanto, o poder do discurso noticioso, e até que ponto podem resistir a um fenômeno emergente de participação, figura-se como uma encruzilhada que não se resolveu ao longo dos últimos anos.

Apontamento 4 - A palavra convence, o exemplo arrasta

Ocorre que o discurso em torno do jornalismo colaborativo está em voga. Existe todo um discurso pró-participação do usuário a ser repercutido por especialistas dos media, estudiosos do jornalismo e simpatizantes do assunto. E então os portais entram nesta onda. E pedem a colaboração de seus leitores. Sem entender o que isso significa. E depois não sabem o que fazer com essa colaboração.

Apontamento 5 - A liberdade aparente

Aqui vou evocar uma idéia que trabalhei em meu mestrado.

Do leitor online, esperamos uma cooperação em três níveis: 1) interpretativa (isso ocorre com qualquer tipo de leitor, seja de romance ou telenovela), 2) exploratória (clicar no mouse, navegar) e 3) intervencionista (interferir, participar, colaborador, ser co-autor).

Relativamente ao item 3, que mais importa aqui nesta discussão, sabemos que no ciberespaço jornalista e leitor poderiam trabalhar juntos para o bem comunicar uma história.

Perguntas delicadas: O jornalista precisa/quer abrir mão de suas estratégias autorais no ciberespaço? Se sim, como dividir entre autor e leitor, na prática, a responsabilidade do “bem narrar” uma notícia? Quando ambos querem narrar uma mesma história, num mesmo espaço, ou então quando o leitor, já na posição de autor, quer interferir na estratégia do autor, agora na posição de leitor? Se a retórica é toda ela uma negociação da distância entre sujeitos, como efetuar a aproximação?

O que sustento é que no ciberjornalismo existe, na verdade, uma “liberdade simulada” do leitor, e não propriamente uma “liberdade real”.

O jornalista do cibermeio - lembremos que estamos aqui a falar dos portais jornalísticos - continua a ter controle retórico da narrativa, e ao leitor é conferida a possibilidade de escolher caminhos para completar a sua leitura da narrativa (coisa que a literatura já faz há muito tempo) e, eventualmente, dada a ele a chance de participar de alguma forma (submeter sugestões, informações etc.), mas mais raro será permiti-lo intervir em nível estruturalmente profundo da narrativa. Quando isso acontece (participação), é sob o olhar atento de jornalistas.


Lidar com redes sociais, com termos como web 2.0, além de ferramentas como Google Maps, Twitter, Pownce, entre outras mais – a lista sempre cresce – é uma atividade que tem ocupado a cabeça de quem está “imerso” nas mídias digitais. Você acha que o webjornalista está preparado para absorver e lidar com tudo isso ?

Apontamento 6 - Perdidos no espaço

O que sustento aqui não deve ser percebido como um movimento de crítica ou louvor, como o julgamento em termos de “bom” ou “mau” procedimento ciberjornalístico, conservador ou não.

Isso é tão-somente um esforço pra entender a dificuldade em equacionar e amalgamar um modelo de práxis “antigo” com um “novo”, procurando um equilíbrio nesta corda bamba, tentando não abrir mão de técnicas, estratégias e premissas conhecidas há séculos e as novas técnicas, estratégias e premissas do meio digital.

Muitos ainda estão perdidos no meio deste bolo. Incluindo leitores.

Por vezes tenho essa impressão de que ainda não se alcançou a compreensão – valha o termo – a respeito do que um webjornalista, um profissional que pensa as especificidades da comunicação digital, pode fazer. Você acredita que, nesse caso, é cabível investir em uma discussão – seja na academia, seja no campo profissional – a respeito da deontologia do webjornalista ?

Apontamento 7 – O ciberjornalista

Não posso deixar de citar alguma coisa sobre o perfil do jornalista que trabalha com a web porque isso também tem ligações com a minha prática docente. Respondendo diretamente: a) não, o webjornalista (ou ciberjornalista, como prefiro) não está preparado para absorver e lidar com a web 2.0; b) os estudos acadêmicos são pouco considerados nas redações on-line; c) sim, naturalmente que é cabível investir em uma discussão – seja na academia, seja no campo profissional – a respeito da deontologia do webjornalista. Espero que esta nossa conversa renda frutos neste sentido.

São quatro anos de atividades do Intermezzo. Eu venho dizendo, há mais tempo, que o jornalismo morreu. Com o que você tem visto nestes quatro anos, como uma observadora privilegiada, é possível concordar com este meu mantra ?

Apontamento 8 – O jornalismo morreu?

Quando você pergunta o que falta para os produtores de conteúdo realmente lidarem com o Jornalismo Colaborativo? então a resposta está ai: transformar radicalmente o entendimento do que seja fazer jornalismo.

E entender que ele pode ser feito de várias formas não-excludentes, com e sem colaboração de cidadãos. Desta forma, uma palavra que não serve aqui é “dicotomia” e outra que vem bem a calhar é “co-existência”. Particularmente, penso que o jornalismo precisa de profissionais que se dediquem à prática de informar em tempo integral e não somente de cidadãos-repórter nas horas livres.

Penso que o jornalismo homogêneo e único (e unissonante) está morrendo. E começam a nascer jornalismos, no plural, heterogêneos e mais coloridos.


Apontamento 9 – Qual futuro?

Mas o que resta saber mesmo é como o jornalismo vai transcender o seu atual papel nas sociedades contemporâneas…

setembro 17, 2007

Entrevista: José Antonio Meira da Rocha


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Se eu visse minha vida passar na minha frente como um filme, seria isso (sem os momentos mais constrangedores): José Antonio Meira da Rocha é professor de jornalismo no IPA Metodista (Porto Alegre). Especialista em Informática na Educação, Mestre em Mídias, já foi editor de arte nos diários Zero Hora e Jornal do Comércio. Viciado em computadores desde 1988, mantém um site sobre mídias digitais.”

Lamentamos a carência e um "capenguismo" jornalístico - isso na mídia tradicional - em relação ao uso de ambientes digitais informacionais. E agora você vem com o uso jornalístico do Google Earth! Quer despirocar de vez a cabeça da rapaziada ?

Huahuahuahua! O melhor é que a coisa vicia. É meio voyerismo digital globalizado . Não é à toa que a empresa criadora do Earth se chamava Keyhole, buraco de fechadura. Como a raiz do jornalismo é a necessidade do ser humano por fofoca e picuinhas da vida dos outros, nada mais lógico que juntar as duas coisas. Embora o grande hype de ambientes tridimensionais hoje seja o Second Life (mais por marqueteiros que por jornalistas), vejo o Google Earth (GE) como tendo possibilidades jornalísticas muito mais consistentes. Costumo fazer uma comparação: Google Earth é o retrato retocado da realidade sócio-geográfica. Então é jornalismo. Second Life são personagens de mentira num ambiente tridimensional de mentira . Então é ficção, literatura. Vejamos um exemplo: se acontece um acidente de avião, é possível fazer um mashup (maquete) no GE com as rotas, com aerovias corretas consultadas no NASA World Wind. Pode-se inserir modelos de aviões convertidos do MS Fligh Simulator, colocar fotos, prédios, vídeos do You Tube, links para diversas fontes. Isso tudo enriquece tremendamente uma narrativa jornalística. Um site web com a notícia textual pode terminar com um link para um arquivo KML do GE com toda a maquete. Neste caso, como o Second Life (SL) poderia enriquecer a matéria? Por isso vejo essa onda toda em torno do Second Life como uma bolha imobiliária digital. Não que não tenha alguma utilidade. O professor da PUCRS, André Pase, por exemplo, usa o SL para simulações de entrevistas coletivas. É um uso criativo. Mas como simulador, não como mídia para difusão jornalística.

UOL toma barriga na cobertura na "área colaborativa" do acidente da TAM, Estadão achincalha blogosfera e Folha de São Paulo abre espaço para comentários – em algumas notícias. Isso aí é desespero ou você consegue dar outro nome?

A imprensa estabelecida sempre andou atrás da internet. Nos idos de 1995, quando a coisa começou no Brasil publicamente, eu ainda comprava avidamente revistas sobre internet. Aí comecei a ver que as revistas fazem matérias que levam até três meses para serem publicadas, da pauta ao produto impresso. E quando a pauta foi criada, o fato já estava rolando há seis meses ou mais, na rede. Então, a imprensa está sempre atrasadíssima em relação ao que acontece na internet. Os jornais são mais ágeis, mas também estão atrasados. O resultado é que deixei de comprar revistas e jornais. Se eu estou vivendo os fatos na hora, em listas de discussão, na Web, me informando por RSS, não preciso de versões desatualizadas sobre o fato. Como seria de se esperar, em geral os grandes veículos de imprensa têm uma estrutura burocrática que os impede de tomar decisões ágeis. Quando um repórter consegue convencer o editor, e o editor consegue convencer o editor-chefe, e o editor-chefe consegue convencer o diretor, o fato já envelheceu. Para se ter uma idéia, o primeiro jornal a ter um editor de colaboradores é do interior de São Paulo, não da capital. Nem valorizar o estagiário da seção de cartas a imprensa mofada conseguiu fazer...

Google Earth, Jornalismo Colaborativo, metaversos, mídias móveis ... Você nunca se perguntou se há mesmo quem produza tanto assim ? E se há realmente quem consuma tanta informação ?

É a pergunta que não deve se calar! :) Produzir, há sempre gente produzindo e copiando coisas. A medida disto é a quantidade de memória produzida anualmente pela indústria (HDs, memórias flash etc.). Cada vez se produz mais informações. Cada serviço do Google ocupa "fazendas digitais" com centenas de milhares de PCs. A capacidade supera dezenas de terabytes. Seja lá o que for um terabyte, é muito. Mas são informações vendáveis? Dificilmente. Só uma fração poderia ser transformada em material jornalístico. Meu ditado preferido, aplicável à vida em geral, é: noventa por cento de tudo é uma merda. Em matéria de matérias jornalísticas, os dez por cento que sobram têm a concorrência de milhões de pessoas, mas é um público consumidor fragmentado, interesses diversos. A grande questão é como capitalizar isso (ou monetizar, que é o termo blogueiro da moda). A gurizada que faz blogs "monetizados" consegue ganhar um ou dois mil reais por mês. E são poucos. Isso não sustenta uma empresa, embora possa sustentar um pós-adolescente solteiro. Ao fim e ao cabo, o que vai determinar o futuro do jornalismo é a capacidade de ganhar dinheiro (que afinal, foi o que incentivou Gutemberg a desenvolver a imprensa em seu empreendimento Fábrica de Livros, fazer dois empréstimos com um banqueiro, perder sua empresa para o banqueiro, e tal). E isto está em cheque. Principalmente por conta do novo modelo publicitário tipo Google Adsense. A grande imprensa, em papel ou eletrônica, gasta rios de dinheiro e repassa isso para os anunciantes, que repassam isso para os produtos. Embutido em qualquer produto, estão de 5% a 10% de publicidade. É um modelo espalha-chumbo, porque o dinheiro rola mesmo se o leitor não ler o anúncio. O leitor que leu o anúncio e comprou o produto está pagando pelos que não leram. O modelo AdSense mudou isso, porque só paga o anúncio se ele surtir efeito. Isso dá à publicidade uma eficiência maior, e pode efetivamente diminuir os investimentos em publicidade, diminuindo também o preço dos produtos. Todos sairiam ganhando, menos a imprensa tradicional, que se formou num modelo de desperdício de recursos.

O ambiente acadêmico está mesmo preparado e preparando os estudantes universitários para lidar com a comunicação digital ?

Algumas instituições, sim, como a sua (hehe). Mas isso depende quase que unicamente dos professores porque as Universidades também são paquidérmicas como as empresas e demoram a se adaptar às situações. O problema é que talvez falte proatividade (Falei! Falei! Pode me matar!) dos professores e maior compreensão da rede. Isso só se consegue freqüentando a rede, listas de discussão, lendo a Web, RSS. Pelo que eu leio dos estudantes, são poucos professores que têm essa desenvoltura. Até mesmo algumas instituições que tomam a dianteira o fazem de maneira equivocada. Só para dar uma idéia, tem uma aqui no Sul que montou um curso de Comunicação Digital e sequer alugou um servidor Web para os alunos praticarem. Algo que custa hoje apenas 80 reais por mês, imagine! E oitenta por cento dos professores não tinham capacitação em mídias digitais, estavam ali apenas para emprestar seu título de doutor.

Vamos brincar de Frankenstein: monte o webjornalista ideal para você.

A pessoa deveria saber:
1.Ler muito, inclusive em inglês.
2.Escrever bastante.
3.Pesquisar na internet e relacionar as informações encontradas.
4.Operar planilhas e editores de texto.
5.Operar programas de email e messengers.
6.Participar de diversos fóruns e listas de discussão.
7.Fotografar, manipular as fotos em programas específicos, distribuir as fotos em fotologs.
8.Fazer e editar vídeos em celular ou câmeras domésticas, publicar e embutir estes vídeos em páginas Web.
9.Gravar entrevistas com seu MP3 player ou celular.
10.Editar áudio digital e fazer podcast.
11.Contratar e instalar serviços em hospedagem internet (CMS, blogs, sistemas de workgroup, fóruns, galerias de fotos).
12.Gerenciar um sistema gerenciador de conteúdo (CMS), blog, fórum.
13.Conhecer HTML o suficiente para fazer links ou modificar templates e skins.
14.Usar sistemas de anúncios tipo AdSense.
15.Assinar e gerenciar uma enorme lista de feeds RSS sobre sua especialidade.
16.Trocar arquivos em sistemas peer-to-peer ou de troca de grandes arquivos.
17.Fazer mashups, mapas e modelos 3D com Google Maps, Google Earth e Google SketchUp.
18.Gerenciar, com diplomacia, comunidades de leitores.
19.Resolver pepinos e abacaxis em seu computador.
20.Estar sempre antenado com as tendências das mídias digitais.
Só isso. É pedir demais? :)

setembro 13, 2007

Entrevista: André Deak


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Mini-autobiografia: "André Deak se tivesse estudado teria sido outra coisa, mas é jornalista há quase dez anos e na maior parte desse tempo escreveu para mídias digitais. Participou do Coletivo EmCrise, experiência online de produção jornalística independente. Foi co-organizador do livro Vozes da Democracia, do Intervozes, organização civil que batalha pelo direito à comunicação. Anos depois de ter trabalhado no Último Segundo e ter jurado jamais voltar para o jornalismo de tempo real, foi trabalhar com jornalismo de tempo real na Agência Brasil, onde está desde 2004 e hoje é editor executivo multimídia. Trabalhou no projeto de deschapa-branquização da agência, que atualmente é reconhecida como veículo público de notícias apartidário. Tem coordenado, recentemente, os projetos multimídia do site, incluindo aí experiências com hipervídeo, documentários interativos e multilinguagens, seja lá o que isso signifique. Criou um blog esse ano sobre jornalismo online e tenta mantê-lo atualizado diariamente, o que é absolutamente impossível. Mas vale a visita"

Em um artigo publicado no Observatário da Imprensa, você fala sobre a utilização de um sentido informacional hipermidiático aplicado ao jornalismo e cita, como potencial exemplo, o Second Life. Mas, seguindo o senso comum, metaversos são vistos - com mais força recentemente - como modelos hype de negócios ou ambientes de exacerbação de futilidade on-line. Você acredita mesmo numa concatenação "convergência digital + espaço público midiatizado + pensamento prático jornalístico" ?

Supondo que ambientes de metaverso como o Second Life são "espaços 3D virtuais totalmente imersivos", como conceitua o José Murilo Junior, as possibilidades para o jornalismo são várias. A educaçãoo, há muito, tem testado a efetividade de jogos educativos interativos no computador (é verdade que na maioria chatos, pelo que me lembro do que vi nos anos 80 e início dos 90: ajude a escova a chegar no dente, essas coisas). A evolução mais recente dos jogos os torna experiências cada vez mais interessantes. Muitos já descobriram nos video-games ferramentas poderosas para contar histórias - veja o caso do Hezbollah, ue desenvolveu um jogo de guerra em primeira pessoa (ao estilo Counter Strike) para mostrar como foram as batalhas contra Israel, do ponto de vista deles. O jornalismo poderia, portanto, se apropriar da interatividade desenvolvida nas últimas duas décadas pelos video-games para contar histórias, especialmente aquelas que possam envolver algum tipo de imersão. Como funciona o lobby no Congresso? Você poderia entrar num ambiente virtual do Congresso e verificar o lobby sendo feito. Por que não entrar nos gabinetes virtuais e conversar com os avatares de deputados e senadores reais? E quem sabe ter a resposta dos próprios parlamentares, aliás. Mas não só isso: visitas a museus, a batalhas históricas, a cenários dos mais diversos. As possibilidades são infinitas. Claro, isso não será para hoje nem para amanhã - algumas experiências dessas no campo do jornalismo já existirem. Mas poderá ser desenvolvido à medida em que as ferramentas de criação de ambientes virtuais se tornem mais acessíveis.

O bom e velho jornalismo está morrendo. Você é muito gentil com carcaças nauseabundas. Na verdade, o jornalismo morreu. Forma, prática, credibilidade, trato com a informação ... a lista é grande. Ou você acha possível algo como um zombie journalism ?

Taí. Eu chamaria muito do que existe hoje de zombie journalism. Noventa por cento dos que saem das faculdades de jornalismo são zumbis, que se encontram depois com os outros zumbis que infestam as redações. Fazem o que sempre fizeram, sem questionar o modelo, sem sequer entendê-lo. Mesmo o conceito mercadológico que move o jornalismo comercial não é compreendido pelos repórteres que entram lá e apertam parafusos todos os dias. Há um livro ótimo, O Jornalista e o Assassino, de Janet Malcom, que vale citar: "Todo jornalista que não é muito estúpido ou cheio de si para perceber o que acontece no mundo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável". O contexto não é bem esse que estamos falando - é um livro sobre ética -, mas a frase é boa. Com uma forma antiga, uma prática deteriorada (quando não desonesta mesmo), credibilidade próxima à dos políticos e dos advogados, vivemos de fato tempos de zombie journalism. Quando digo que o bom e velho jornalismo está morrendo, é uma provocação, especialmente aos praticantes do velho jornalismo. Por velho, entendo o jornalismo mono-mídia, que não dialoga com o leitor/telespectador/usuário, não-aberto às novas formas de comunicação. Mas podemos nos questionar: As novas tecnologias irão matar o jornalismo? Os velhos oligopólios já mataram? Esses sem dúvida são golpes que modificam a profissão e introduzem novos atores, mas, como já se disse, o jornalismo não se define por uma técnica, mas por uma ética. Sou otimista. Creio que veremos algo bom surgir. Trabalhamos para isso, aliás: terminar de matar o velho e fazer nascer logo o novo.

Entre 2002 e 2003, você fez parte do EmCrise, grupo que trabalhava produção jornalística coletiva, primando por uma tônica profissional incisiva nas reportagens. O que falta para um webjornalista hoje, agora, nesse exato momento, entender como aplicar as potencialidades do meio de comunicação digital na apuração, produção e publicação de reportagens ?

Além do que sempre faltou - conteúdo e crítica -, falta a pílula vermelha. Enxergar que é possível contar histórias não mais apenas a partir de uma narrativa linear, na plataforma que melhor servir aos interesses da história. Entender que, como bem disse Dan Gillmor, "meus leitores sabem mais do que eu". Perceber que os leitores não são adversários que só entram em contato para reclamar, mas colegas, que podem muito bem guiar e participar da pauta, da apuração, da produção e até da edição, pelo que estamos vendo por aí. Uma pesquisa recente do grupo colombiano El Tiempo, feita com 70 redações online da América Latina, perguntou aos editores o que mais faltava no treinamento dos jornalistas da web. O que 70% respondeu foi que falta entendimento de produção multimídia. As redações são organizadas em guetos, os próprios jornalistas se apresentam como "de texto", "de vídeo", "de rádio". Claro que sempre haverá quem é melhor em certa plataforma, mas ninguém mais poderá ignorar como se produz em todas elas. Como disse o argentino Julian Gallo num artigo finalista do prêmio FNPI de jornalismo multimídia: um adolescente hoje já sabe mais, em se tratando da utilização de diversas mídias para contar histórias, do que muitos jornalistas...

"Imprimir suas notícias em guardanapos. Os guardanapos nunca sairão de moda; Inventar novas e melhores promoções, como 'assine nosso jornal e ganhe automaticamente um porsche'; Contratar a Gisele Bundchen e o Rodrigo Santoro para vender assinaturas de porta em porta". Com essas sugestões você ganhou o livro "Os jornais podem desaparecer ?", do Philipe Meyer, numa promoção do Jornalistas da Web. Já pensou em se candidatar a um cargo de futurista ?

Creio que as sugestões que dei para evitar o desaparecimento dos jornais não será adotada, apesar de achar que funcionariam bem. De qualquer forma, não vejo muito futuro para futuristas - veja o caso da Mãe Dinah, relegada agora ao passado. O Michael Rogers, futurista do NYT, faz um trabalho interessante, de viajar o mundo para perceber as tendências tecnológicas, preparando a redação para entregar a informação "na hora, no lugar e no formato desejado pelos leitores". Várias empresas, especialmente as de moda, têm "cool hunters", o caçador de tendências, para lançar produtos antenados com o hype do momento - antes, aliás, de virar hype mesmo, ajudando a virar hype. William Gibson, o futurista que imaginou o universo ciberpunk, conta uma boa história sobre essa profissão no livro Pattern Recognition. O que o Rogers faz é basicamente descobrir quais as tendências de comunicação nos próximos cinco anos - imaginar o que substituirá o Iphone, por exemplo. Agora, se quisessem me contratar para viajar o mundo descobrindo tendências tecnológicas para o jornalismo eu não ia achar ruim não.

março 4, 2008

Entrevista: Rogério Christofoletti

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"Rogério Christofoletti, 35 anos, é paulista do interior. Jornalista desde 1991, mestre em Lingüística (UFSC) e doutor em Ciências da Comunicação (USP). Professor e pesquisador do curso de Jornalismo e do Mestrado em Educação da Univali. Coordenador da Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi). Autor de dois livros e co-organizador de outros três, além de artigos científicos em periódicos nacionais e internacionais. Mantém o blog Monitorando desde maio de 2005."

[entrevistador convidado: Gilberto Pavoni Jr]

Gilberto Pavoni Jr - Se a indústria jornalística é um produto da Revolução Industrial e de uma máquina (a prensa, aquele tear de letrinhas) e esse fenômeno social-econômico tem só dois séculos na história da humanidade, por que se deve acreditar que ela não está defendendo seus interesses do capital quando fala que a forma de comunicação que ela produz em economia de escala é a única útil para a sociedade?

Rogério Christofoletti - A indústria jornalística defende seus interesses sim quando advoga a utilidade do jornalismo para a sociedade. No entanto, não é só isso que está na mesa. O conhecimento é útil e necessário para o homem. A informação também. Informação e conhecimento não são a mesma coisa, mas ambos são altamente necessários não apenas para alguma sobrevivência dos humanos como também para sua própria reinvenção. É claro que o jornalismo não é a única fonte geradora e difusora de Conhecimento e Informação, mas não se pode negar que ele tenha - nesses poucos séculos - assumido relevância para a nossa vida em comunidade. Isto é, o jornalismo - de alguma forma - conseguiu criar um espaço para si na vida social, e hoje imaginar a vida contemporânea sem ele é muito complicado. O jornalismo não é um mal necessário. Há bom e há mau jornalismo. Assim como há boa e má medicina. O raciocínio da pergunta poderia ser estendido, por exemplo, à indústria de fármacos, às cooperativas de saúde, aos conglomerados médico-hospitalares...

Jorge Rocha - Você deve estar acompanhando o Luiz Nassif contra a Veja. Para nos atermos ao mínimo, o que Nassif está fazendo é duma puta relevância histórica, porque ninguém antes dava nome aos bois. Não acha que está faltando um tanto de repercussão por parte da - valha o termo - blogosfera? Conversando sobre isso com algumas pessoas durante o Campus Party, uma figura me disse: "se não tem 'espetáculo', então não faz eco". Usando linguagem de empreendedor, te pergunto: essa é a receita do sucesso ?*

RC - Tenho acompanhado sim o caso do Nassif. E gostado de ver ele dando o nome aos bois. É importante, é histórico, é necessário. Sinceramente, não monitorei a blogosfera nesse caso, e não saberia dizer se houve pouca repercussão. Na verdade, me ative a ler o Nassif e ver alguma coisa em sites e portais, como o Observatório da Imprensa, por exemplo. De qualquer forma, acho que um nicho bem delimitado da blogosfera - quem é do jornalismo ou quem muito discute isso - deve repercutir e não propriamente A blogosfera... Mas retornando à questão principal, penso que há alguma razão no comentário que você colheu na Campus Party. Alguma. Eu ainda acho que a blogosfera não é uma sopa homogênea, um creme. É heterogênea, e comporta muitíssimas coisas. Inclusive bobagens e espetaculices. Não sei se essa é a receita do sucesso. Mas posso dar um testemunho muito pessoal. Acompanho diariamente as estatísticas de meu blog e, volta e meia, percebo uma enxurrada de cliques num determinado post que deixei por lá há meses. O post se refere a imagens de acidentes na internet. (Aliás, ao dizer isso aqui, aposto que muita gente vai lá conferir... ). Observo mais atentamente às estatísticas e vejo que muita gente chegou ao blog porque buscava expressões como "fotos de tragédia", "acidentes e corpos", etc... Se o prezado leitor se mantém lendo estas linhas e ainda não foi ao meu blog conferir esse tal post, certamente não se frustrou. Afinal, no alardeado post, eu condeno essa prática nefasta, e chego a discutir com um leitor que se diz proprietário de um site que faz este tipo de serviço. "Para educar as pessoas que o trânsito mata". Ora, faça-me o favor! Bom, mas o que posso concluir com isso? Concluo que tem muita gente que busca na internet o que não vê por aí, mas cuja mente procura avidamente. Seja sensacionalismo, pornografia, excentricidades, bizarrices, etc... Isso tudo ainda chama muito a atenção. Não acho que seja a fórmula do sucesso, mas ainda tem um brilho cegante para muitos...

GPJ - Se 20% da população acessa a Internet e só em 2007 houve a entrada nesse mercado das classes C e D; se os telecentros costumam exigir que os usuários gastem 45% do tempo em afazeres "proveitosos" como aulas e envio de currículos (somente 15% no Messenger ou Orkut); estão certos os que acham que a tal (autoproclamada, diga-se de passagem) blogosfera ativa é apenas a elite social brasileira representada na rede? Se isso for um fenômeno verdadeiro, quais os erros de análise e medição de mercado que pode acarretar?

RC - Não sei responder a isso. Sabe por quê? Porque não tenho pesquisa na área. Não tenho números, e se tem uma coisa que a gente vê por aí é chute sobre números da internet. Eu não acho que haja apenas uma elite, mas isso é um achismo, e pouco importa essa minha opinião...

JR - Ana Maria Brambilla disse recentemente, no Libellus, que "o vazio de ser blogueiro é uma condenação a qualquer sujeito (às vezes, até jornalistas!) que pratica a metablogagem". Ou seja, deu no saco uma certa exarcebação egóica de umbigosfera, cartões de pessoas cool e nhenhenhéns sobre jornalistas versus blogueiros. E o que realmente me incomoda é a moçadinha conectada se comprazendo em louvar o inócuo. Demora ainda para cair a ficha que a contraposição é redes sociais x espetacularização ?

RC - Não sei se demora. Mas eu quero assistir a esse confronto sim... só intuo que ele não seja nada parecido com o que já assistimos...

GPJ - Por que as faculdades formam operários da comunicação e não CEOs de empresas de mídia?

RC - Pelo mesmo motivo que as escolas de medicina formam médicos e não gestores. Elas formam Gregory House e não Liza Cudy. Os cursos de comunicação, como outros, se concentram na formação de mão de obra para atender às demandas do mercado. Agora, acho que os novos tempos estão empurrando o carro para outra direção. Veja o caso dos blogs. Com eles, temos que não apenas abastecer com informação, mas gerenciar a coisa em si... Eu penso que as escolas deverão se render a oferecer uma formação que contemple noções que possam auxiliar na gestão de veículos de mídia...

GPJ - Se a mídia é o quarto poder e as manchetes diárias mostram corrupção e desmandos nos outros três tradicionais poderes, deve o consumidor de produtos de jornalismo acreditar que a quarta ponta desse quadrado é impoluta só porque é delatora desses desmandos?

RC - Não, não deve. Há alguns anos, Ignácio Ramonet publicou um texto em que clama por um Quinto Poder, um contrapoder que possa ocupar a lacuna deixada pela mídia. A tese é simples: se a mídia já não é mais confiável, ela também precisa ser observada. E quem deve fazê-lo é o público. Ora, essa é a filosofia que sustenta o ofício dos media watchers, como o Observatório da Imprensa ou do Monitor de Mídia. Há autores norte-americanos que têm livros sendo vendidos na Amazon que defendem que a blogosfera deva se colocar como esse quinto poder. Acho que ela - ao menos no Brasil - ainda não funciona assim. Mas quem garante que ela não venha ajudar a fazer esse acompanhamento, que não é apenas oferecer a crítica, mas sinalizar erros, denunciar desequilíbrios, cobrar balanceamento, etc.

GPJ - Se a notícia é o insumo básico dos produtos que a indústria jornalística põe no mercado, mas em sua forma bruta, o factual, ele pode ser coletado, distribuído e precificado por qualquer pessoa ou empresa sem que ele perca qualidade ou agilidade (considerando-se a popularização de novos meios de captura e transmissão de informações: celular, por exemplo), que outros tipos de valor agregado essa indústria pode acrescentar ao insumo para ganhar competitividade?

RC - Credibilidade. Quero fazer apenas um exercício de futurologia, que é meio besta porque é super óbvio: o que vai distinguir o joio do trigo no meio desse matagal informacional todos é credibilidade. Como chegar a isso? Como definir os parâmetros para isso? É uma das minhas reais preocupações e objeto de pesquisa ultimamente.


* Recentemente alguns blogs - poucos, bem poucos - incorporaram google bomb, linkando a palavra "Veja" ao site de Luiz Nassif.

[nota comportamental: por um motivo completamente bisonho que eu desconheço, não envei duas perguntas que havia preparado. estas ficam para a próxima. estou mesmo ficando velho.]

ATUALIZAÇÃO NECESSÁRIA:Depois de uma conclamação deste escriba no Twitter, resultante deste comentário, Daniel Bender e Lúcia Freitas contabilizaram o resultado desta google bomb. O resultado ainda é parcial e pode aumentar, mas mostra que este exucaveiracover subestimou a ação. Que venham mais resultados assim.

março 10, 2008

Entrevista: Sergio Leo

sergioleo.jpg

"Sergio Leo formou-se em jornalismo pela Escola da Comunicação da UFRJ na oitava década do século passado, e, neste milênio, especializou-se na UnB em Relações Internacionais. Já deu aulas de jornalismo em um curso de extensão da UnB e no Ceub, Centro de Ensino Unificado de Brasília. Trabalhava no Segundo Caderno dO Globo quando foi convidado por Ricardo Noblat para a sucursal do JB em Brasília, no começo do governo Sarney; passou, desde então, pelas sucursais da Folha, Estadão, O Globo, Rede Globo, isto É e Isto É Dinheiro, até se aquietar no Valor, onde está desde 2001. Como repórter especial do Valor, cobre todos os assuntos de Economia e Política, mas prefere mesmo acompanhar a política externa, especialmente na América do Sul, as negociações comerciais e as discussões sobre política industrial. Em 2004 inaugurou o blogue Sítio do Sergio Leo que, desde 2007, desdobrou em outro, o Ralações Internacionais."

entrevistador convidado: andré deak.

Jorge Rocha - Pedro Dória bate numa tecla, não é de hoje, que não existem blogs sobre política no Brasil e tal afirmação sempre causa mal-estar nos incautos. O tom que ele usa aponta que isso é um contra-senso - sim, é minha interpretação, não me contrarie -, pois blogueiros poderiam muito bem usar o poder catalisador que esta ferramenta potencializa para iniciar, movimentar ou até mesmo inflamar uma discussão "com alguma relevância social". Por que será que tal predisposição aparentemente não existe entre nós, no Brasil ?

Sergio Leo - Acho que o Dória se refere a blogueiros não-jornalistas, porque há muitos e bons blogues de política no Brasil, que chegam a provocar governo e posição, motivar respostas, etc. O Blog dos Blogs do Tales Faria, o Blog do Alon, o Blog do Josias... Acho que também são fontes importantes de informação, e tendem a crescer de importãncia, os blogues de políticos, como o finado Blog do César Maia e o do José Dirceu. Um cara que faz um trabalho interessante, com viés partidário, claro, é o Luis Favre, numa militância crítica em cima das informações veiculadas por aí, claro que em defesa dos interesses do grupo político dele. Muitos blogues fazem um trabalho analítico interessante, destrinchando as notícias, como é o caso do Hermenauta. Faltam bons blogueiros de direita com domínio dos instrumentos da Internet (não valem os histriões hidrófobos da classe média desinformada, como o Reinaldo Azevedo) e ânimo investigativo. Curiosamente, há mais blogueiros falando de política externa, com conhecimento de causa, que de política interna. O Maurício Santoro, do TodososFogos, é um analista excelente da cena internacional (embora ele já tenha sido dessa raça jornalística, hoje é mais cientista político que outra coisa); o Idelber às vezes faz isso, como agora na eleição nos EUA. Eu acredito que o essencial, para um blogueiro, é ter informação, capacidade de análise e de exposição. Os blogues não competem com a imprensa comercial, pelo contrário, se alimentam dela, e muito. Trazem informação sob ponto de vista diferente, apontam fontes alternativas na rede. Falta, talvez, um blogueiro que tenha fontes alternativas próprias de informação (citar a Carta Capital não vale) e compita na apuração com o mainstream jornalístico. Mas isso é muito difícil, e caro, não vejo espaço, a não ser, talvez, no caso dos blogues partidários ou de organizações políticas. Esses ainda não aprenderam a fazer isso.

André Deak - A maior base militar dos Estados Unidos na América do Sul fica em Manta, no Equador, e o presidente Rafael Correa já disse não ter interesse em renovar o contrato com os EUA. Pouco antes do massacre dos guerrilheiros das Farc, oficiais do Comando Sul estiveram em Bogotá. Se os EUA estiverem tentando desestabilizar a região, a imprensa não pode estar contribuindo para piorar a situação? Onde estão os jornalistas que poderiam revelar os interesses ocultos nessas movimentações, tanto por parte dos EUA quanto da Colômbia, do Equador e da Venezuela?

SL - André, Manta é um tema recorrente na política equatoriana. A base tem uma parte sob controle dos EUA desde 1999, antes de Chávez, Morales ou qualquer governo esquerdista atual dar as caras no continente, e faz sentido a alegação de que seu principal objetivo é o controle do tráfico. Claro, já que há um forte transito de aeronaves de vigilância, não custa usar algumas para reprimir a imigração ilegal, em barquinhos que tentam chegar à costa estadunidense, não é mesmo? Num cenário de governos hostis aos EUA no continente, é claro que a rede de bases e contingentes mantidos por Washington na região (eles têm muita gente na Colômbia, alguma coisa no Peru e colaboração com os paraguaios) serve de instrumento dissuasório e de pontos de apoio no caso imrpovável de alguma intervenção por aqui. Um objetivo não-declarado mas óbvio dessa presença militar é assegurar os interesses americanos em relação ás reservas de petróleo abaixo do Rio Grande. A imprensa cobre mal, mas tem dado notícias dessa questão das bases e das movimentações de pessoal dos EUA, mas a precária estrutura de cobertura dos jornais e tvs brasileiros no continente impede um trabalho mais profundo. A demonstração mais escandalosa desa precariedade é a quantidade de matérias sobre Bolívia, Equador e Colômbia feitas para as TVs por repórteres plantados nas ruas de... Buenos Aires. Ora, para cobrir a América Andina desse jeito, o repórter da TV Amazonas ou da TV do Mato Grosso deve ter mais condições de fazer o trabalho. Mas há tentativas meritórias; o Estadão, apesar de seu viés anti-América Latina, enviou correspondentes, e há boas matérias feitas por esse pessoal, por exemplo. Faltam mais repórteres baseados nesses países, com condições de ter fontes de informação para fazer a investigação profunda que, como você bem nota, não vem sendo feita. Não creio em interesse dos EUA em estabilizar a região, pelo contrário; a Condoleeza vem esses dias ao Brasil exatamente para ver se o Lula ajuda a acalmar as coisas, para que eles possam se dedicar ao atoleiro em que se meteram no Oriente Médio e manter um olho aberto para as movimentações dos chineses mundo afora...

AD - Há alguns anos entrevistei os editores de política internacional da Folha de S. Paulo, de O Estado de S. Paulo e da Veja, sobre a cobertura que faziam (ou não faziam) sobre os zapatistas do México. Na época, chegaram a dizer que não era um movimento sério, "ficavam lá tocando violão, não são como as Farc". A que você atribui o total desconhecimento da realidade latino-americana desses editores?

SL - Existe um enorme comodismo nos grandes jornais, somado à avaliação equivocada de que o leitor brasileiro não se interessa por temas internacionais. Isso faz com que, como costumam se queixar os editores da área, as editorias dedicadas aos temas mundiais tenham poucos repórteres, os orçamentos para coberturas internacionais sejam limitados, dediquem-se poucas páginas a essas editorias e sejam poucos os correspondentes dos jornais no exterior; e a esmagadora maioria do material publicado nas editorias Internacional ou Mundo sejam de agências internacionais que, logicamente, refletem os interesses de seus centros geradores. Por isso ouvimos tanto falar do Oriente Médio e tão pouco dos países africanos de língua portuguesa, por exemplo. Temos mais detalhes sobre as eleições dos EUA do que tivemos sobre a da Argentina, ou teremos sobre as do Paraguai, que também nos interessam muito. Não há uma cultura de cobertura sistemática dos países latino-americanos, tanto que, até recentemente, só Buenos Aires tinha correspondentes brasileiros (mais recentemente, por motivos óbvios, a Folha instalou em Caracas o excelente Fabiano Masionnave). A formação dos editores de Internacional, na maioria das vezes, também reflete muito essa dependência das agências internacionais, o que provoca um viés avesso a assuntos regionais (a não ser em caso de conflitos flagrantes) na cobertura da grande imprensa. Há tímidos sinais de mudança, em parte provocados pela crescente integração dos países, com desdobramentos políticos, econômicos e sociais. Em parte levantada pela exuberância nada irracional do comandante Chávez. Já melhorou muito mas ainda é lamentável a falta de visão dos jornais para a rqiueza da América latina como fonte de notícias para os brasileiros.

JR - No teu blog, você escreve de maneira informativa, analítica e opinativa - fatores que, para mim, não deveriam faltar no jornalismo; sim, sou um cara ultrapassado - "também" sobre tópicos com os quais você convive em tua vida profissional. Há uma diferença de tratamento aí ? Algo como microblogagem poderia dar uma faceta nova ao que você já faz ?

SL - O jornalismo brasileiro é muito avesso às coberturas na primeira pessoa, ou a matérias impressionísticas, talvez por haver pouca gente que saiba fazer isso bem. O Clóvis Rossi é um dos poucos; a Míriam Leitão, que é muito criticada por isso, às vezes faz muito bem esse trabalho (às vezes essa abordagem mais pessoal escorrega para a opinião pura e simples, o que não é bom; mas leiam as matérias dela sobre meio ambiente e entenderão o que digo). Acho que a principal diferença entre o que escrevo no blogue e no jornal é que, na imprensa tradicional, tenho um compromisso de maior impessoalidade, limites para avançar em minha opinião particular e para tratar dos assuntos num tom mais escrachado. No blogue, me sinto mais à vontade para fazer crônica, provocar polêmica, divulgar impressões e contar com os comentários dos leitores para complementar o que digo (ou até refutar; gosto muito quando me corrigem com embasamento, coisa que odiaria se acontecesse no jornal, onde se espera um produto mais acabado). No blogue, imagino uma situação mais próxima do convívio social normal, em que manifestamos nossas opiniões e impressões, com base no nosso conhecimento, e pelo menos no meu caso, nos dispomos a ouvir o que os outros têm a dizer sobre isso, para refinarmos nossas posições em relação ao mundo. Fiz o que odeio ver nos entrevistados, falei demais. Mas essa é outra vantagem dos blogues, o espaço é mais elástico, e sempre se pode camuflar um texto longo num link a ser clicado pelos mais interessados... Maleme Exu!

AD - Você acompanhou viagens dos presidentes Sarney, Collor, FHC e Lula. Nessas viagens é comum formar-se uma panelinha de jornalistas, um perguntando para o outro qual é a notícia, qual é a fala mais importante, para todos darem igual. Isso porque se um deles dá outro enfoque, existe a chance do editor dar um esporro: "Você tá aí e não viu isso?!". Além da falta de preparo, quais são outros problemas de quem cobre política internacional?

SL - O risco de andar com passo diferente no batalhão é total, e muita gente, por isso, adota o comportamento de manada. Isso é particularmente comum nas salas de imprensa, entre setoristas. A cobertura de presidentes, seja no Brasil ou no exterior, é pior, porque os jornais se aferraram a um tipo de noticiário superficial, de frases de efeito, que, muitas vezes descontextualiza a informação, ou passa ao largo da verdadeira notícia. Felizmente, na minha experiência nos jornais em que trabalhei, e, especialmente, no Valor, raras vezes me senti cobrado por noticiar algo diferente dos outros jornais, e, quando isso aconteceu, pude ter uma conversa com o editor mostrando o porquê da minha opção por outros assuntos. Aprendi nessas coberturas que o importante não é saber o que os outros vão noticiar no dia seguinte para dar igual. O interessante é sacar o que os outros jornalistas consideram a principal notícia para, se for o caso, mencionar isso na matéria, e mostrar ao leitor por que seu jornal não considerou isso o principal fato a ser noticiado. Afinal, se algum aspecto da viagem chamou a atenção de muitos jornalistas é porque tem alguma importãncia; nem que seja importante porque os jornalistas estão interpretando erradamente o fato. Mas, se numa cobertura, você ficar muito preocupado com o que os outros vão fazer, é melhor desistir de viajar, para evitar uma úlcera.

JR - Nessa entrevista, Deak é o entrevistador equilibrado e eu sou o irreprimível. Assim, posso fazer uma afirmação peremptória: todo e qualquer jornalista que lida com cobertura política, não importando o porte ou localização do veículo de comunicação onde trabalha, está terminalmente próximo demais de antros de tentações. Você está nesse inferno de Dante desde 1983. Como consegue se desvencilhar e escapar incólume ?

SL - Já fui convidado para ser assessor de imprensa de petistas e tucanos, já me ofereceram comprar carros com belos descontos, já me sugeriram free-lancers com trabalho ridículo e remuneração de encher os olhos. Não topei; o principal é manter um código de ética rígido, e coerente. Pode-se ganhar bom salário como jornalista, especialmente em Brasília, sem entrar em conchavos ou abrir mão dos escrúpulos. Mais delicada é a questão da relação pessoal, na busca da notícia. As fontes adoram o jornalista doméstico, aquele que reproduz tudo sem questionar ou, melhor, compartilha de intimidades. Mas também respeitam muito o profissional que consegue construir uma reputação de imparcial, de jornalista que transmite todos os lados de uma questão, sem distorcer. Meu melhor exemplo disso é a Marta Salomon, da Folha, que fez matérias muito críticas no governo Fernando Henrique Cardoso e no governo Lula, e, no entanto, é solicitadíssima e respeitadíssima pelas fontes do governo. Como sou casado com ela, embora em regime de separação de notícias, às vezes vejo o cuidado que ela tem em checar dados, números, declarações. Raramente aceitamos convites para almoço ou jantar, embora eu considere válida essa maneira de obter informações (faço uma avaliação de custo-benefício mesmo, prefiro almoçar com meus filhos). Claro que a intimidade é uma boa maneira de obter informações exclusivas, mas descobri, em Brasília, que é preciso manter limites nessa proximidade com as fontes, até porque, se você fica muito íntimo do poder, corre o risco de ter um monte de informações que não pode publicar para não trair o amigo. Para quem não deseja cargo público nem participar de esquemas do Poder, é o pior dos mundos.

maio 2, 2008

Entrevista: José Eduardo Gonçalves

"José Eduardo Gonçalves, jornalista, editor e escritor, atualmente é presidente da Rádio Inconfidência, vinculada à Secretaria Estadual de Cultura de Minas Gerais. Edita e apresenta, desde novembro de 2005, o programa Rede Mídia, na Rede Minas de Televisão, espaço de debate sobre comunicação, culturas e tecnologias midiáticas. Tem três livros publicados - Cartas do Paraíso, Vertigem e A Cidade das Memórias Flutuantes. Desenvolve projetos editoriais, como a coleção "BH. A Cidade de Cada Um", com 10 livros já publicados. Foi professor na Faculdade de Comunicação da PUC-Minas e editor da revista de cultura Palavra. É curador do projeto literário Ofício da Palavra".

entrevistadora convidada: gabriela jardim

Jorge Rocha - O recente episódio da saída do ex-ombusdman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães, aponta uma certa precariedade no exercício prático da crítica embasada que, para dar real valor à esta função, não deveria ser cerceada. Sim, este é um juízo de valor. Até que ponto você considera que a credibilidade da Folha de São Paulo - e, conseqüentemente, do cargo de ombudsman - pode ser arranhada com este episódio ?

José Eduardo Gonçalves - Não acho que a credibilidade do jornal foi ou será arranhada por conta do episódio. Nos primeiros dias houve um evidente incômodo por parte da comunidade de leitores, especialmente pelo vácuo de uma posição editorial, ou seja, a Folha não se manifestou. Mas vamos lembrar que o ombudsman se despediu como quis, expôs suas razões, pegou o boné e byebye. Esse vácuo durou ainda alguns dias até o anúncio do novo ocupante do cargo. Mesmo levando-se em conta que o Mário Magalhães abdicou do cargo por não concordar com as mudanças propostas pela direção do jornal em regras vigentes no seu trabalho, vale a pena registrar que: 1) a Folha continua sendo o único jornalão a manter a figura do ombudsman; 2) as críticas internas continuam sendo feitas e é válido (concordemos ou não com) o argumento de que este material vinda sendo monitorado por concorrentes; 3) a coluna dominical continua valendo e: 4) já temos um novo profissional no cargo, o que é uma reafirmação na crença do trabalho do ombudsman. Para finalizar: embates internos são corriqueiros e cotidianos na vida de um jornal, ainda mais num veículo como a Folha, prensado na ambigüidade que o faz tentar ser mais audacioso que outros (reformas gráficas, em especial) e a realidade que o obriga a se pautar, na maioria das vezes, como seus colegas de classe.

JR - A idéia de mediawatching sempre me fascinou porque, além de esmiuçar brigas de cachorro grande, ajuda a desmistificar a falácia da tal da imparcialidade. E eu engrosso as fileiras daqueles que têm birra com esse conceito. Por isso, repasso duas perguntas da vizinha de condomínio, Larissa Bueno, registradas na caixa de comentários deste blog-blefe: "de onde vem essa idéia de imparcialidade da imprensa, no Brasil?" e "por que o posicionamento é ou passou a ser mal visto?"

JEG - Não sei de onde vem essa idéia, esse puritanismo ideológico, essa coisa asséptica da imparcialidade da imprensa, que é simplesmente impossível. De modo geral, as regras de jornalismo pregam maior isenção, distanciamento, objetividade, de forma a que o público faça suas próprias deduções. Na prática isso é uma balela, em tudo há opinião, posicionamento. O que não quer dizer que não deva ser tentado, diariamente. Veja só, todo mundo critica a VEJA (eu, inclusive) quando a revista publica uma capa dizendo, sobre a renúncia de Fidel: "Já vai tarde". Isso é jornalismo? Não, isso é opinião. Mas é opinião de direita, reacionária, por isso tanta rejeição. Mas se fosse opinião de esquerda podia? Pois em casos como este prefiro que se faça muita reportagem, muita análise (de gente de todas as tendências), que se abra para muitas fontes, e que o público decida, afinal, sua opinião.

Gabriela Jardim - Você apresenta um programa de entrevista e análise de temas ligados à mídia, na tv pública. O quanto há de "público" empregado no jornalismo que é praticado nesta emissora ?

JEG - Sinceramente, não sou a melhor pessoa para analisar o jornalismo da Rede Minas por uma questão muito simples: quase não assisto telejornais. Nem dela nem de outros. Prefiro me informar por internet, jornal, revista, rádio, eventualmente tv. Na tv gosto de esporte (especialmente futebol) e algumas séries ou programas. Mas acho que a Rede Minas faz bons programas, tem um leque de opções de qualidade muito maior que as tevês abertas. O próprio programa que eu edito e apresento é um bom exemplo. Pode ter muitos defeitos, mas é um espaço raro na tv brasileira. Tenho total liberdade para levantar as pautas (mesmo porque, se não tivesse, lá eu não estaria), nunca recebi qualquer recomendação sobre o que tratar ou não tratar. E tenho tratado de muita coisa, dado voz a muita gente. Acho que este espaço é uma verdadeira trincheira de resistência no terreno inóspito da tv brasileira, tratando com seriedade e em horário nobre de questões que considero relevantes para o público. O conceito de público é muito amplo, mas deve necessariamente respeitar a diversidade (étnica, religiosa, sexual, cultural, regional etc) da sociedade brasileira. Não sei se a Rede Minas oferece o tempo todo esse cardápio, mas ela me parece, sem dúvida, muito mais saborosa e inteligente que outras, focadas unicamente na questão da audiência. Por exemplo: por que apenas uma TV Cultura, em São Paulo, e uma Rede Minas, aqui, são capazes de investir em programas infantis menos imbecis? Por que outras com mais capital, muito mais, não o fazem? E o engraçado é que todas são concessões públicas...

GJ - Focando na questão das fases cíclicas da mídia, vivemos hoje em uma fase de convergência midiática, na qual, a tendência é sempre uma aproximação e complementação dos veículos. É a partir deste pressuposto que você lançou a parte inédita do programa no site?

JEG - Em parte, sim. Não dá pra ficar imune a isso. O fato é que estamos enquadrados em um formato padrão, temos ali preciosos 25 minutos semanais, então é pegar ou largar, e eu peguei certo de que valeria a pena, acho que estava certo, mas é muito frustrante a coisa só funcionar naquele curto período de tempo. Por isso arrisquei: que tal levar um pouco do conteúdo para a internet, quem sabe isso atrai um novo público? Acho que hoje nada mais existe sozinho, veículo nenhum é uma ilha. Tem de dialogar com outros meios.

GJ - Ainda visando a fase convergente da mídia, você, como apresentador de um programa cujo objetivo é ser "um fórum de debates sobre todas as nuances e formatos da comunicação", não acredita que seria interessante estender este fórum para além da tv?

JEG - Sim, seria bem interessante. E natural, até.Só não o faço porque isso exigiria de mim, hoje, um tempo que não posso dar. Fazer o programa já é uma baita empreitada, tendo em vista as inúmeras outras atividades que exerço. Abrir mais uma frente seria inviável. Não vejo como ampliar este fórum sem que eu pudesse participar diretamente, e isso hoje não dá.

JR - Bill Kovach e Tom Rosenstiel, no excelente "Os elementos do Jornalismo", dão a medida exata acerca da construção da credibilidade jornalística. Para eles, a audiência pode dar mais crédito à determinada publicação se esta explicitar seu perfil ideológico-editorial - "ideológico-editorial" é redundância, eu sei. Por que esse não parece ser um caminho viável no modelo de negócios das empresas jornalísticas brasileiras ?

JEG - As publicações podem explicitar seu perfil ideológico-editorial em editoriais, é a forma mais "limpa" e transparente de se fazer isso. Em período eleitoral, me parece louvável que qualquer jornal explicite, em editorial, a sua preferência. Mas contaminar o noticiário com isso me parece uma sacanagem, o público quer informação de qualidade, e não apenas opinião. Aliás, tenho a impressão que hoje temos opinião de mais e informação de menos...

GJ - Durante todos estes anos de mídia, iniciando lá na impressa e chegando hoje na internet, a relação entre jornalista e público foi sendo fortemente alterada. Diante disso, como você vê o processo ainda fechado, do ponto de vista de participação do público, do "fazer tv" de hoje? Uma saída para isso seria o que eu chamei anteriormente de convergência? Ou você acha que o "fazer tv" será sempre assim?

JEG - Não sei como será o "fazer tv" no futuro, mas sei que vai mudar. Tudo muda. A relação entre jornalista e público mudou muito desde Gutenberg, você mesmo disse isso. Não existe mais o jornalista encastelado, dono da verdade, capaz de todos os desatinos. A opinião pública é muito mais vigilante e a internet derrubou as fronteiras antes invisíveis das redações. Hoje, se leu e não gostou, o pau comeu. A tv também é sensível a isso, apesar dos rígidos padrões de produção. As grandes redes ainda mandam no terreiro, mas o poder delas vem decaindo ano a ano. Muita coisa ainda vai mudar - a tecnologia digital, a convergência com outras mídias (em especial o celular), a internet banda larga se popularizando, as disputas entre grupos de telefonia -, tem água demais passando embaixo dessa ponte. Ainda acredito que teremos uma tv mais inteligente no futuro. Ou, pelo menos, muito mais opção de inteligência na tv. E acredito que o público será cada vez mais influente nesse processo.

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