Entrevista: Daniela Bertocchi

No Intermezzo, você está fazendo um acompanhamento a respeito da cobertura midiática sobre o desastre com o airbus da TAM. E os portais agora enveredaram pelo o que seus produtores de conteúdo acreditam que seja Jornalismo Colaborativo. Em várias listas de discussão, a fotomontagem que UOL não notou e publicou, no esquema de conteúdo colaborativo, tem sido foco de críticas e acirrados embates. A pergunta é: a partir das análises desta cobertura, o que falta para os produtores de conteúdo realmente lidarem com o Jornalismo Colaborativo ?
Apontamento 1 - Pelos poderes de Grayskull, quem tem a força?
Bem, em primeiro lugar, até para as pessoas entenderem o que quero dizer, faço uma distinção bem clara entre o que seja o "jornalismo colaborativo" e o "jornalismo cívico". Baseio-me nas definições de 2003 do grupo norte-americano The Media Center.
Resumida e simplificadamente (e peço também desculpas pelo tom professoral), a distinção é essa: o colaborativo pressupõe uma interferência mínima ou nula por parte de jornalistas no conteúdo gerado pelos usuários; no cívico, ao contrário, é suposto um controle desta interação através da edição, da filtragem de informações e da moderação da participação dos usuários.
Assim, o “jornalismo participativo” (colaborativo) ocorre quando um cidadão, ou grupo de cidadãos, assume uma função ativa no processo de recolha, reportagem, análise e divulgação de notícias e informações. O objetivo desta participação é fornecer aquilo que um sistema democrático exige: informação independente, confiável, acurada e variada.
O “jornalismo cívico”, por outro lado, procura encorajar a participação, mas as organizações noticiosas mantêm um elevado nível de controle através da determinação da agenda temática, da seleção dos participantes e da moderação das conversas.
Note-se que o que direi a seguir só faz sentido partindo desta diferenciação, tal como enunciada acima. Sei que muita gente não vai por este caminho, mas os divergentes pontos de vista são sempre bem-vindos para melhorarmos o pensamento, além do que eu acho que falta criar um conceito novo pra um novo tipo de jornalismo intermédio entre o que se chama de colaborativo e cívico.
Apontamento 2 - Batata quente, quente, quente… queimou!
A partir do que eu digo acima, é completamente natural não encontrarmos a prática do jornalismo colaborativo nos grandes portais brasileiros, uma vez que sabemos que estes são projetos de tradição jornalística que claramente defendem o jornalista profissional como aquele capaz de editar, filtrar, checar etc. as informações com mais propriedade e melhor rigor do que qualquer um outro profissional ou cidadão.
Assim, o leitor não é percebido como jornalista profissional. Torna-se um colaborador importante, mas não essencial para o funcionamento da máquina jornalística.
É por isso que o UOL errou ao publicar uma foto de leitor sem antes passar um olhar atento sobre a imagem. E acertou em assumir o erro. Este processo revelou exatamente como as coisas são entendidas pelos portais: deve ser exercido o controle do jornalista através da edição, da filtragem de informações e da moderação da participação dos usuários. Fundamental é mesmo o corpo de jornalistas presentes da redação, profissionais com habilidades e competências para desempenhar as suas funções com qualidade. Ou seja, não existe jornalismo colaborativo nos portais brasileiros.
Se existisse, não haveria a lógica do “erro”. Em vez do “filtro, logo publico”, ficaríamos com o “publico, logo filtro” e tudo bem (processo de construção conjunto entre comunidades). Aí reside a diferença fundamental.
Apontamento 3 – O problema
Se a questão for entendida por uma perspectiva do controle, a intervenção dos usuários na produção noticiosa é realmente uma batata quente nas mãos dos media online. A beleza e o encanto democrático do jornalismo participativo parecem se apagar precisamente quando o assunto esbarra na questão da autonomia profissional (e da autoria). Até que ponto as empresas de comunicação e os jornalistas querem perder o controle e, portanto, o poder do discurso noticioso, e até que ponto podem resistir a um fenômeno emergente de participação, figura-se como uma encruzilhada que não se resolveu ao longo dos últimos anos.
Apontamento 4 - A palavra convence, o exemplo arrasta
Ocorre que o discurso em torno do jornalismo colaborativo está em voga. Existe todo um discurso pró-participação do usuário a ser repercutido por especialistas dos media, estudiosos do jornalismo e simpatizantes do assunto. E então os portais entram nesta onda. E pedem a colaboração de seus leitores. Sem entender o que isso significa. E depois não sabem o que fazer com essa colaboração.
Apontamento 5 - A liberdade aparente
Aqui vou evocar uma idéia que trabalhei em meu mestrado.
Do leitor online, esperamos uma cooperação em três níveis: 1) interpretativa (isso ocorre com qualquer tipo de leitor, seja de romance ou telenovela), 2) exploratória (clicar no mouse, navegar) e 3) intervencionista (interferir, participar, colaborador, ser co-autor).
Relativamente ao item 3, que mais importa aqui nesta discussão, sabemos que no ciberespaço jornalista e leitor poderiam trabalhar juntos para o bem comunicar uma história.
Perguntas delicadas: O jornalista precisa/quer abrir mão de suas estratégias autorais no ciberespaço? Se sim, como dividir entre autor e leitor, na prática, a responsabilidade do “bem narrar” uma notícia? Quando ambos querem narrar uma mesma história, num mesmo espaço, ou então quando o leitor, já na posição de autor, quer interferir na estratégia do autor, agora na posição de leitor? Se a retórica é toda ela uma negociação da distância entre sujeitos, como efetuar a aproximação?
O que sustento é que no ciberjornalismo existe, na verdade, uma “liberdade simulada” do leitor, e não propriamente uma “liberdade real”.
O jornalista do cibermeio - lembremos que estamos aqui a falar dos portais jornalísticos - continua a ter controle retórico da narrativa, e ao leitor é conferida a possibilidade de escolher caminhos para completar a sua leitura da narrativa (coisa que a literatura já faz há muito tempo) e, eventualmente, dada a ele a chance de participar de alguma forma (submeter sugestões, informações etc.), mas mais raro será permiti-lo intervir em nível estruturalmente profundo da narrativa. Quando isso acontece (participação), é sob o olhar atento de jornalistas.
Lidar com redes sociais, com termos como web 2.0, além de ferramentas como Google Maps, Twitter, Pownce, entre outras mais – a lista sempre cresce – é uma atividade que tem ocupado a cabeça de quem está “imerso” nas mídias digitais. Você acha que o webjornalista está preparado para absorver e lidar com tudo isso ?
Apontamento 6 - Perdidos no espaço
O que sustento aqui não deve ser percebido como um movimento de crítica ou louvor, como o julgamento em termos de “bom” ou “mau” procedimento ciberjornalístico, conservador ou não.
Isso é tão-somente um esforço pra entender a dificuldade em equacionar e amalgamar um modelo de práxis “antigo” com um “novo”, procurando um equilíbrio nesta corda bamba, tentando não abrir mão de técnicas, estratégias e premissas conhecidas há séculos e as novas técnicas, estratégias e premissas do meio digital.
Muitos ainda estão perdidos no meio deste bolo. Incluindo leitores.
Por vezes tenho essa impressão de que ainda não se alcançou a compreensão – valha o termo – a respeito do que um webjornalista, um profissional que pensa as especificidades da comunicação digital, pode fazer. Você acredita que, nesse caso, é cabível investir em uma discussão – seja na academia, seja no campo profissional – a respeito da deontologia do webjornalista ?
Apontamento 7 – O ciberjornalista
Não posso deixar de citar alguma coisa sobre o perfil do jornalista que trabalha com a web porque isso também tem ligações com a minha prática docente. Respondendo diretamente: a) não, o webjornalista (ou ciberjornalista, como prefiro) não está preparado para absorver e lidar com a web 2.0; b) os estudos acadêmicos são pouco considerados nas redações on-line; c) sim, naturalmente que é cabível investir em uma discussão – seja na academia, seja no campo profissional – a respeito da deontologia do webjornalista. Espero que esta nossa conversa renda frutos neste sentido.
São quatro anos de atividades do Intermezzo. Eu venho dizendo, há mais tempo, que o jornalismo morreu. Com o que você tem visto nestes quatro anos, como uma observadora privilegiada, é possível concordar com este meu mantra ?
Apontamento 8 – O jornalismo morreu?
Quando você pergunta o que falta para os produtores de conteúdo realmente lidarem com o Jornalismo Colaborativo? então a resposta está ai: transformar radicalmente o entendimento do que seja fazer jornalismo.
E entender que ele pode ser feito de várias formas não-excludentes, com e sem colaboração de cidadãos. Desta forma, uma palavra que não serve aqui é “dicotomia” e outra que vem bem a calhar é “co-existência”. Particularmente, penso que o jornalismo precisa de profissionais que se dediquem à prática de informar em tempo integral e não somente de cidadãos-repórter nas horas livres.
Penso que o jornalismo homogêneo e único (e unissonante) está morrendo. E começam a nascer jornalismos, no plural, heterogêneos e mais coloridos.
Apontamento 9 – Qual futuro?
Mas o que resta saber mesmo é como o jornalismo vai transcender o seu atual papel nas sociedades contemporâneas…





