As placas sinalizam: estou no território de Íris Demência. Entocado, como memória, no banco do carona de um Chevette 77 marrom, entro na ossada sinuosa da traquéia que agora serve como túnel. O caminho mais suave. Para baixo, para baixo, para baixo, embala a chanson. Mutarelli de mim mesmo, tamborilo Código Morse no painel do carro: levai as almas todas para o céu. Enquanto os outros dormem, para mim, tudo é pussyble. Bem abaixado em seu banco - para escapar dos tirambaços -, o motorista ciborgue tem o tampo da cabeça cortado. Como proteção, confio em minha Cabeça de Transformer. O Chevette 77, assim como as câmeras panorâmicas instaladas em pontos seguros neste carro, é controlado por relés embutidos no cérebro do ciborgue condutor. Sei que ele conhece este caminho de cor. Eu não me lembrava, com a mesma exatidão, dos caminhos de minha terra. Eram, até agora, apenas tábuas rangendo de madrugada sob o Peso da Palavra. Eis aqui meus excessos: um labirinto de arrecadação de minotauros. Os energons do motorista ciborgue se esvaziam e o carro estanca. Sou cuspido para fora do carro, à frente e abaixo da encosta onde se sustenta uma igreja que se desbota no fundo azul. O antro de meus inimigos? Nenhuma das balas disparadas dentro do túnel me atingiram, mas sei que a trajetória de cada uma delas produziu fios. Paródia de diamastigose: um golpe de marreta afrouxa minhas costelas e me faz lembrar da primeira queda. Antes do golpe, consigo ver a inscrição sabbaoth entalhada na quase-maça. Penso na contrariedade da ocasião para os seguidores ideológicos-lingüísticos do Senhor de Voisin. Mas esqueço rápido. A Palavra. O Peso. Minha cabeça de Optimus Prime rola pelo chão. Tudo que consigo sentir agora é o lento som de uma saqueboute.
[início do livro - inacabado, é claro - Cabeça de Transformer, de autoria deste que vos digita.]


Comments (3)
algum texto literario meu fez sentido? onde foi q eu errei?
Posted by JR | julho 24, 2009 3:33 PM
Posted on julho 24, 2009 15:33
Jorge,
andei lendo Donna Haraway esses dias. E aí é que esse teu começo de livro, ou o conto de ano novo com o qual você nos brindou, fazem todo o sentido, mas todo o sentido mesmo.
Muito bom, espero pelo livro que vou fazer questão de ter autografado,ou melhor, ciborgrafado.
Abraço
Posted by Orlando G DaSilva | julho 19, 2009 1:15 AM
Posted on julho 19, 2009 01:15
"um labirinto de arrecadação de minotauros". Você deveria ser proíbido de falar sobre esse local, você sabe quantos morreram pra levantar aquelas paredes feupudas?
Posted by Kelson Douglas | julho 10, 2009 7:58 PM
Posted on julho 10, 2009 19:58