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O homem-animal nunca mais voará

As placas sinalizam: estou no território de Íris Demência. Entocado, como memória, no banco do carona de um Chevette 77 marrom, entro na ossada sinuosa da traquéia que agora serve como túnel. O caminho mais suave. Para baixo, para baixo, para baixo, embala a chanson. Mutarelli de mim mesmo, tamborilo Código Morse no painel do carro: levai as almas todas para o céu. Enquanto os outros dormem, para mim, tudo é pussyble. Bem abaixado em seu banco - para escapar dos tirambaços -, o motorista ciborgue tem o tampo da cabeça cortado. Como proteção, confio em minha Cabeça de Transformer. O Chevette 77, assim como as câmeras panorâmicas instaladas em pontos seguros neste carro, é controlado por relés embutidos no cérebro do ciborgue condutor. Sei que ele conhece este caminho de cor. Eu não me lembrava, com a mesma exatidão, dos caminhos de minha terra. Eram, até agora, apenas tábuas rangendo de madrugada sob o Peso da Palavra. Eis aqui meus excessos: um labirinto de arrecadação de minotauros. Os energons do motorista ciborgue se esvaziam e o carro estanca. Sou cuspido para fora do carro, à frente e abaixo da encosta onde se sustenta uma igreja que se desbota no fundo azul. O antro de meus inimigos? Nenhuma das balas disparadas dentro do túnel me atingiram, mas sei que a trajetória de cada uma delas produziu fios. Paródia de diamastigose: um golpe de marreta afrouxa minhas costelas e me faz lembrar da primeira queda. Antes do golpe, consigo ver a inscrição sabbaoth entalhada na quase-maça. Penso na contrariedade da ocasião para os seguidores ideológicos-lingüísticos do Senhor de Voisin. Mas esqueço rápido. A Palavra. O Peso. Minha cabeça de Optimus Prime rola pelo chão. Tudo que consigo sentir agora é o lento som de uma saqueboute.


[início do livro - inacabado, é claro - Cabeça de Transformer, de autoria deste que vos digita.]


Comments (3)

JR:

algum texto literario meu fez sentido? onde foi q eu errei?

Jorge,
andei lendo Donna Haraway esses dias. E aí é que esse teu começo de livro, ou o conto de ano novo com o qual você nos brindou, fazem todo o sentido, mas todo o sentido mesmo.
Muito bom, espero pelo livro que vou fazer questão de ter autografado,ou melhor, ciborgrafado.
Abraço

"um labirinto de arrecadação de minotauros". Você deveria ser proíbido de falar sobre esse local, você sabe quantos morreram pra levantar aquelas paredes feupudas?

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