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Entrevista: Guilherme Kujawski


kuja


Guilherme Kujawski é jornalista de tecnologia, autor de ficção científica e produtor cultural. Desde 1993, colabora em diversos veículos com artigos e ensaios sobre novas mídias e tecnologias. Entre 2000 e 2002, foi editor de tecnologia da revista Carta Capital. Atualmente, concebe e organiza eventos na área de arte tecnológica para o Instituto Itaú Cultural, onde também edita Cibercultura, revista sobre arte, ciência e tecnologia. Em 1994 publicou o romance Piritas Siderais (Editora Francisco Alves).


As hipergazetas que você criou em Piritas Siderais preconizaram, de certa maneira, uma forma de escrita que hoje é possível ser percebida no Twitter. Poderíamos então considerar que as hipergazetas e os contos-manchetes seriam os pais de uma narrativa adaptável/utilizável em microblogagem?

A antevisão dos escritores de FC sempre foi um mistério para mim. Vejo esse caras como uma mistura de áugures e analistas radicais de um presente perfeito. Com relação a essa última colocação, a antevisão é apenas uma justificativa de interpretação projetiva do presente. Tanto que não deveriam ser chamados de futuristas, e sim de presentistas. Com relação às hipergazetas, creio que não se tratou de um caso de antevisão, pois eu estava imbuído naquele momento pela tecnologia dos hipertextos (o livro foi concebido entre 1987 e 1993). Tanto que as hipergazetas eram frases distribuídas em disquetes (sic) que, quando carregadas no computador, poderiam ser recombinadas por meio de cliques sobre os ícones de um besouro, que intermediavam as frases. Portanto, hipergazetas e microblogging são um caso de coincidência total.


Muito se tem falado - e criticado - a respeito do "jornalismo twitter": uma cobertura concisa e em tempo real neste sistema de microblogagem. Você considera que a utilização de contos-manchetes - não por empresas jornalísticas - poderia ser um caminho "lúdico-filosófico-opinativo" viável para este tipo de cobertura?

Creio que sim. Ao menos traria uma dimensão "ficcional" aos fatos. Não foi o McLuhan quem disse que o texto jornalístico é o que gera os fatos, e não o contrário? Outra coisa proposta pelas hipergazetas é a concentração informacional oferecida por pílulas textuais. É como se tivéssemos que, atualmente, "compactar" o texto como compactamos as imagens estáticas e os vídeos. Esse tipo de recurso poderia oferecer um panorama mais denso em menor espaço-momento.


Até que ponto os sistemas de lifecasting e microblogagem estão explorando - ou podem explorar - uma narrativa de hipergazetas? Você enxerga possibilidades de uso destes sistemas nesse sentido?

Por enquanto, não vejo ainda algo nesse sentido. Mesmo por que eu não esperaria que as hipergazetas estivessem tão alastradas assim. Elas pertencem a um livro obscuro, escrito sob várias influências e certamente com laivos autotélicos! [Autotélico: Diz-se do que tem sentido apenas para si próprio, como no caso de um autor que supostamente escreve só para si mesmo, convencido de que a literatura é apenas entendível por quem a produziu]


Mocorongos mal-intencionados mixam microblogagem com microbrodagem, monetizando maledicências e mocozando milongas?

Cara, você é um GRANDE escritor de hipergazetas! Já disse isso e repito aqui agora em público!

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