Blog da Petrobrás: crítica à mídia ou manobra política tática?
Ainda bem.
O síndico deste condomínio, organizado que só, fez um belo apanhado hipertextual analítico sobre o caso - quero ser igual a ele quando ficar bem velhinho. Portanto, reservo-me o direito de não mais fazer rodeios. É preciso deixar bem claro que não há heróis nesta história. Não se trata de defender a Petrobrás - que realizou uma manobra política tática em tempos de CPI assobiando no ar - ou meramente culpar os jornalões - que estão batendo pezinho como crianças birrentas, quando deveriam procurar formas de "contra-ataque" mais efetivas. Trata-se aqui de compreender a natureza desta tática, entender porque a birra é a resposta da imprensa e as implicações diretas da publicização, feita pela fonte, da íntegra da entrevista - não importando se antes ou depois da matéria publicada, a bem dizer -, como pondera o jornalista Leandro Fortes.
Da minha parte, pontuo algumas questões debatidas com o advogado Túlio Vianna, em um rápido, porém elucidativo bate-papo. Vamos considerar que informação jornalística pode ser tratada como um bem de interesse público - alguém aí falou em utopia ? A Petrobrás, uma empresa pública, é acionada pela imprensa a prestar informações relativas à CPI. Até onde eu entendo, as informações que alimentam uma CPI, por serem de interesse dos cidadãos, possuem caráter público. Pergunto a Túlio Vianna quais são as implicações jurídicas no fato da Petrobrás estar publicizando as entrevistas que concede por email aos jornais, antes mesmo da publicação das matérias. De bate-pronto - e pensando em publicar as perguntas e respostas antes que eu escreva este texto -, ele responde: "Qualquer empresa pública só tem dois tipos de informações: as públicas e as sigilosas. A regra é simples: as sigilosas não podem divulgar pra ninguém; as públicas elas divulgam pra quem quiser, como quiser".
Então por que esse chororô todo da imprensa, seu Túlio ? Transparência no trato com a coisa pública não deveria ser um ato juridicamente louvável ? Deixo-o responder antes que leve a cabo a ideia de colocar a entrevista logo em seu blog: "Os jornais estão querendo monopólio de notícias de órgãos públicos, o que evidentemente seria ilegal, caso praticasse, pois a empresa estaria dando informações privilegiadas a um veículo em detrimento dos outros".
A chiadeira dos jornalões está centrada em um sigilo nunca acordado entre fonte e jornalista a respeito de informações em uma entrevista - e, nesse caso, voltam as distorções a respeito dos termos "ética" e "moral" que condenam o que está sendo feito no Blogobrás. Como jornalista e professor de Jornalismo, entendo que a fonte pode tranquilamente publicar uma entrevista a qual respondeu - afinal, também produziu aquela informação. Cabe ao jornalista, se for sagaz no xadrez político que é a profissão, traçar uma estratégia para desenrolar-se desse novelo, tirar proveito de um momento que o termo "transparência" está assim tão associado à "informação jornalística" e lidar com esta última realmente como um bem público. Em suma: pensar e agir como jornalista - que não deveria deixar-se pegar de calças curtas.
Hum, talvez esteja aí o aspecto psicológico da perda de tempo fazendo birra.
Este episódio parece revelar mais um ato da novela jornalística, no que diz respeito à necessidade de mudanças estruturais desta prática, especialmente no campo da comunicação digital. Retomo a conversa com Túlio Vianna, que ficou ali, alguns parágrafos acima, e pergunto se ele considera que entidades classistas deveriam prestar maior atenção em episódios como este e não apenas concentrar esforços em prol da obrigatoriedade do diploma em jornalismo. Postando-se neste parágrafo, ele não titubeia: "Entidades classistas de jornalistas, advogados ou qualquer outra, são criadas para proteger os interesses da classe, então é natural o protecionismo. O legislador, porém, deve legislar não no interesse de uma classe, mas no interesse público e me parece óbvio que não há qualquer interesse público no monopólio da divulgação da informação pela classe dos jornalistas detentores de um diploma universitário".
E voltamos a ideia de "monopólio da informação", termo que suscitou, no meio desse bafafá todo, discursos inflamados e ânimos exaltados - tanto do lado de quem defende quanto na ala dos que condenam o Blogobrás, é bom frisar. No meio deste destempero, quero destacar, além das notas que a Abraji e ANJ soltaram, a prática, em listas de discussão como a do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, de chamar de "petistas e governistas" todas as pessoas - especialmente blogueiros - que se manifestam favoráveis à estratégia adotada pela Petrobrás. Fico imaginando que, ao tratar desse assunto em sala de aula de turmas de Jornalismo e manifestar minha opinião a respeito do Blogobrás, eu talvez deva ter algum receio de soar "petista e governista" - posição esta que passo ao largo, do mesmo modo como friso que, nem de longe, sou tucano. Mas certos reducionismos eram esperados, o que é próprio do "ambiente democrático de discussão" que pauta os entreveros acerca de questões jornalísticas.
[update: como era esperado, o julgamento da obrigatoriedade do diploma em jornalismo para exercício da profissão foi adiado - sem data prevista para voltar à pauta do STF um novo julgamento está marcado para o próximo dia 17, outra data cheia de pautas a cumprir. E no xadrez político, o Blogobrás recua e passa a postar as entrevistas somente após a publicação da matéria nos meios de comunicação. Jogo de comadres reloaded ?]
