Diploma em tempos de crise do jornalismo ?
Daí que deste meu bunker, vejo que um ataque a esta crise aborda vários pontos: uma revisão das diretrizes curriculares dos cursos de Jornalismo - que está em andamento -, análise e execução de modelos de negócios envolvendo conteúdo web e fiscalização das relações de trabalho em redações. Um amigo sindicalista, sintetizando o cenário de batalha, uma vez me disse: "é um jogo de política e business". Se é realmente assim, então coço meu cavanhaque - imaginário há um tempinho -, alertando metaforicamente a audiência sobre a inexistência de um pensamento estratégico menos tacanho que não coloque a obrigatoriedade do diploma em Jornalismo como um ponto nevrálgico no cenário de crise midiática. Ainda aproveito a deixa e olho para a câmera, comentando em cumplicidade, que já fui menos sutil sobre o tema em outras ocasiões.
Defender cegamente o diploma de Jornalismo como condição sine qua non para a qualidade do fazer jornalístico em tempos de revisão de diretrizes para o curso e imputar uma provável culpa qualitativa à "produção da audiência", produção que é estimulada pelo Jornalismo Colaborativo, soa como ferocidade autoritária. É querer negar os rumos da história, é querer perpetuar um modelo cristalizado de jornalista, como se este agente social não merecesse uma revisão constante de seu papel junto à sociedade da qual faz parte e deve ser um observador/comentarista atento, para dizer o mínimo. É deixar de lado até mesmo análises de modelos de negócios que estão sendo colocados em prática, em resposta ao fechamento de portas que atinge os jornalões, como a criação do Printcasting.com, do mesmo grupo que gerencia o Bakersfield Californian. O que me deixa menos preocupado é encontrar ponderações mais equilibradas em relação a este tema.
Como professor de Jornalismo, Publicidade e de uma pós em Produção em Mídias Digitais, não dou um tiro no pé quando digo que não defendo o diploma obrigatório para a prática jornalística. Do mesmo modo, não defendo a existência de um órgão regulamentador da profissão - como a OAB é para os advogados. Sou franco-atirador, não kamikaze. Em minha defesa - como se precisasse, hah, chupins ! -, que não consigo compreender uma universidade pelo prisma de uma vendedora de diplomas, mas sim como um espaço de capacitação plena do exercício desta ou daquela profissão, imbuindo um estudante - no nosso caso, de Jornalismo - de uma formação humanista e de pensamento estratégico que o permita analisar seu campo de atuação. Parece simplista ? Não mesmo. Ter esse conjunto de valores em mente pode propiciar uma formação que capacite o jornalista diplomado a ter, por exemplo, argumentos que rebatam a opinião de diretores de conteúdo de jornalões que atrelam a morte do jornalismo ao acesso livre à informação na web.
Purista, eu ? Nem. Prefiro acreditar em coerência.
