Febre fahreinheítica estala os miolos do Primeiro dos Ciborgues, agora entrevado em uma cadeira de rodas, carregando no colo um gato chamado Sarça. Dos mini-coolers em suas têmporas, é possível ver lampejo ou outro de arsenietos de cobalto e níquel. Os franceses, ao escreverem canções no piano, chamam aquilo que se passa na cabeça do Primeiro dos Ciborgues de
autopsie. Apure os ouvidos e talvez você consiga acompanhar um trecho de uma destas canções, entrecortado pelas rodinhas que giram lá fora, cada vez mais perto. Acompanhando o compasso minimalista, uma pequena fagulha estatela-se na cauda de Sarça, que pula para lamber as feridas salgadas dos pés embebidos em salmoura do Primeiro dos Ciborgues. Nenhuma memória desses passos: só as rodinhas girando
catrac catrac catrac catrac. A prostração de gado manso habituado ao curral substituiu qualquer feromônio em que se pudesse arriscar um
sweepstake. Para o momento, há apenas a expectativa para a chegada do que costumeiramente lhe servem como champanhe nessa época do ano. Do lado de fora, pancadinhas na porta de aço refratário, enquanto um desfibrilador é ajustado em 550 joules.
Tonistarque de araque que é, ele mentaliza sua contabilidade, enquanto ouve, em
dolby surround, o som das rodinhas entrando na sala. Um coração de latão.
Confere. Um braço biônico.
Confere. Um cérebro eletrônico.
Confere. Em sua mente, o Primeiro dos Ciborgues enxerga como satanhocos a equipe médica que tenta, mais uma vez, a Cura do Deslumbramento, chegando a estremecer antes que os botões sejam acionados durante a contagem regressiva.
[ao final de cada ano, envio aos amigos um conto desse naipe, ilustrado por alguém cujo trabalho eu reverencio. a ilustra deste é de autoria de arnaldo branco. depois das "boas festas", a bagaça vem para cá, para registro e ranger de dentes. em 2007, a parceria foi realizada com o cartunista flávio.]