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Entrevista: Beth Saad

bethsaad

"Estrategista web e consultora em mídias e comunicação digital. Professora Titular do Departamento de Jornalismo e Editoração - ECA/USP, coordenadora do Grupo de estudos em mídias digitais, em nível de pós-graduação junto ao CNPq. Professora e orientadora: em nível de pós-graduação junto ao PPGCOM - ECA-USP; junto ao GESTCORP, na área de comunicação digital; de graduação nos cursos de Jornalismo e Editoração da ECA-USP; autora do livro Estratégias para a mídia digital e colaboradora do blog Intermezzo".
[entrevistador convidado: eduardo vasques]


Jorge Rocha - Recentemente você mediou um debate no lançamento do livro O destino dos jornais. Lendo suas impressões sobre o debate, verifico que, nos jornalões, o posicionamento discursivo e prático de boa parte das pessoas que coordenam os processos de integração de redações continua tacanho e dotado de uma certa inoperância. Que modelo estratégico possível você poderia sugerir para sanar esta questão, envolvendo aí academia, formação profissional e empresas jornalísticas ?

Beth Saad -A mudança de postura das empresas jornalísticas é fundamental e isso exige flexibilidade das pessoas envolvidas nos processos de decisão. Iniciar a mudança, ou pelo menos, apoiar a mudança por meio de um processo de aproximação universidade-empresa para desenvolvimento de pessoas, treinamentos de quadros, e geração de um novo currículo de formação na carreira é um grande avanço. É uma estratégia muito bem sucedida em diversos setores que envolvem alta tecnologia e aceleração do conhecimento, e poderia dar certo no campo da Comunicação e do Jornalismo. A questão é que também por parte da Universidade (no caso a pública) teríamos que promover um esforço interno para retirar os ranços com relação à proximidade com a iniciativa privada e outros aspectos ideológicos e corporativistas. No caso da universidade privada é mais fácil. Não existe exatamente um modelo fechado para isso, mas, por exemplo, a construção de programas de especialização e treinamento em nível de pós-graduaçao, como o que existe entre o jornal espanhol El País e a Universidade Autonoma de Madrid, juntando profissionais da prática com pesquisadores é um excelente projeto.

Eduardo Vasques - O processo de integração de redações, a meu ver, andam travados principalmente por conta da falta de visão de quem detém o poder e está no alto escalão nas redações - em geral pessoas mais velhas e presas a conceitos antigos, com medo de ousar. Quem tem a força da decisão na mão tem medo de arriscar o próprio pescoço. Como você enxerga a quebra desse paradigma/barreira no contexto atual do jornalismo?

BS - Esta é uma constatação, um fato vigente em nossas redações. O poder ainda não rejuvenesceu e, mesmo aqueles mais jovens que estão muito próximos do nível de decisão, ainda estão sob a tutela de uma cultura empresarial muito forte, arraigada a valores familiares e ao tamanho do poder social e de formação de opinião que o jornalismo supostamente possui. Hoje, quem decide não tem disposição em arriscar o pescoço porque o negócio como está ainda dá certo, ou seja lucro - não audiëncia . E além disso, esta faixa de executivos não é muito afeita a inovações e muito menos a aprender algo diferente....poucos sabem ir além de seus e-mails ou buscas no Google, com todo respeito. E também não podemos nos esquecer uma visão que foi muito evidente no debate do livro O Destino do Jornal: o jornalismo se basta!

EV - O jornalismo brasileiro aprendeu a integrar redações on e offline? E mais: está preparado para a introdução dessa nova cultura à medida em que a qualidade dos profissionais de comunicação vem decaindo com o passar dos anos e, mesmo com todo o crescimento do consumo e do acesso da classe C à web, o conhecimento das ferramentas proporcionadas pela internet ainda é restrito?

BS - Não, ainda não aprendeu. Está dependente de poucas consultorias internacionais que vendem seu "pacote de soluções". Mas, muitas redações andam divulgando que estão promovendo integração porque é a onda....Com relação ao preparo diria que os jovem jornalista e comunicador já tem arraigada em sua cultura a noção de mundo digital. É uma geração que nasceu sob a égide das telas, do celular e conhecem quase que naturalmente as ferramentas. Mesmo com as evidentes questões de classe sócio-econômica e acesso.

JR - Em Estratégias para a mídia digital, você destaca alguns tipos de modelos de negócios para redações, como turbina informativa, publishing house e mídia modular. Você consegue apontar um passo evolutivo seguinte à estas classificações ? Como enquadrar, por exemplo, redes sociais nessa formatação integradora produtiva?

BS - Sim, as coisas evoluíram. Aliás, já está na editora, com lançamento previsto para outubro próximo, a segunda edição do livro, com uma atulização profunda dos modelos, além de toda uma discussão com relação à entrada das empresas informativas no mundo 2.0 das mídias sociais digitalizadas. De qualquer forma, os modelos que vocë cita são característicos dos dez primeiros anos de web. Hoje, a tendência maior está na reformatação das operações da redação num modelo de desk central, sem paredes, totalmente multimídia e multiplataforma.

EV - Como aplicar a realidade de The Daily Telegraph, Miami Herald, entre tantos outros ao Brasil, com redações extremamente precárias, inclusive do ponto de vista de infra-estrutura, de máquinas e dispositivos para a produção de conteúdo digital? Sim, a criatividade vale muito, mas sem recursos é possível fazer bem pouco não?

BS - É indiscutível. Modelos deste tipo exigem investimentos pesados. Recursos financeiros. Todos eles foram baseados (e bem sucedidos) quando ocorreu uma mudança radical no espaço físico da redação acompanhado de uma política de treinamento e desenvolvimento e de pessoas, e acompanhado de um planejamento de produtos e serviços multiplataforma. O improviso brasileiro não cabe neste cenário. Muito menos a criatividade.

EV - A união entre os dois públicos (impresso e mídias digitais) tem considerado a integração de um terceiro elemento: o cidadão interativo e participativo? Estes veículos estão prontos para lidar com essa nova realidade em que não se permite somente ouvir, ler e assistir, mas interagir?

BS - O usuário-participante ainda é uma figura ameaçadora no atual perfil de relacionamento com o público das empresas brasileiras. É só verificar o que nossos websites informativos oferecem em termos de ferramentas de participação e comparar com o que é oferecido no exterior. Na segunda edição de meu livro tem um capítulo quase todo dedicado a esse tema.

JR - Ao mesmo tempo em que o modelo brasileiro de integração de redações parece ainda engatinhar, temos visto alguns trabalhos de conclusão de curso de Jornalismo aproveitando o manancial hipermidiático para elaborar - é o verbo que vem à cabeça no momento - uma linguagem comunicacional própria. Mas, infelizmente, ainda são casos um tanto quanto isolados. O que falta para a academia cumprir esse aspecto da formação profissional de um comunicador ?

BS - Neste final de semestre tive o prazer de orientar um TCC deste tipo e que foi bastante elogiado. A aluna Gabriela Agustini desenvolveu todo o trabalho com recursos próprios e de amigos - equipamentos (os poucos necessários, mas específicos), desenvolvimento do site, trilha sonora, edição não linear, etc. A ECA não possui esse tipo de recurso, e os professores voltados para as matérias de desenvolvimento de reportagem não têm noção do que seja o básico, por exemplo, um código em html. Para se ter uma idéia os dois professores que ministram a dita disciplina "jornalismo online" uma é engenheira eletrônica que há anos tenta se adaptar na linguagem e o outro é recém entrante no departamento, jamais editou nada no online, mas como prestou concurso por motivos políticos na cadeira, agora precisa ministrar a matéria. Portanto, o que a universidade precisa fazer? Acho que a resposta está dada.

JR - Uma vez, perguntei ao José Antonio Meira da Rocha quais seriam as competências que um webjornalista deveria apreender. Imbuído do mesmo espírito - de porco -, recorro agora à perguntas semelhantes: quais são as capacidades que um gestor de redações integradas deve buscar ? Estas capacidades podem realmente ser aplicadas no "caso brasileiro" ?

BS - Dinamismo, visão de conjunto, estar sempre antenado com inovaçoes São algumas das competëncias. Mas a principal é saber lidar com pessoas, gerenciar o grupo, conduzir as diferenças. Hoje, não conheço profissional totalente pronto aqui no Brasil. Tem muita gente quase lá, mas as empresas não os aproveitam.

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