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agosto 2008 Archives

agosto 7, 2008

Recriando o cachorro louco

[enquanto finalizo o terceiro post sobre o tema ensino de jornalismo x mercado de trabalho, deixo vocês com a resenha que fiz sobre à espera de tom para a paradoxo. como foi publicada sem os links que selecionei, coloco-os aqui neste blog-blefe.]

No encarte de Pesadelo na Discoteca, da banda carioca Zumbi do Mato, o vocalista Löis Lancaster vislumbrava um futuro onde o estilo de cantar de Tom Waits, que era ouvido com ressalvas pelos ocidentais, acabaria agradando os servos do Islã. Carlos Careqa talvez não queira chegar a este ponto, mas é indiscutível que À espera de Tom acertou em cheio os fãs de Tom Waits, costumeiramente viscerais quando se trata de defender o universo idiossincrático deste. Um exemplo: se isso não tivesse acontecido, eu não estaria agora, escrevendo estas palavras a respeito desta homenagem realizada por um artista ímpar para outro. Ahá!

[update: como os devidos links foram colocados na resenha publicada pela paradoxo, tirei o texto que estava aqui na íntegra, para que possa ser lido em seu habitat natural - obrigado, renata d´elia e marcus cardoso, editora de música e editor-chefe. fica, neste blog, apenas um aperitivo da resenha.]

agosto 29, 2008

Entrevista: Beth Saad

bethsaad

"Estrategista web e consultora em mídias e comunicação digital. Professora Titular do Departamento de Jornalismo e Editoração - ECA/USP, coordenadora do Grupo de estudos em mídias digitais, em nível de pós-graduação junto ao CNPq. Professora e orientadora: em nível de pós-graduação junto ao PPGCOM - ECA-USP; junto ao GESTCORP, na área de comunicação digital; de graduação nos cursos de Jornalismo e Editoração da ECA-USP; autora do livro Estratégias para a mídia digital e colaboradora do blog Intermezzo".
[entrevistador convidado: eduardo vasques]


Jorge Rocha - Recentemente você mediou um debate no lançamento do livro O destino dos jornais. Lendo suas impressões sobre o debate, verifico que, nos jornalões, o posicionamento discursivo e prático de boa parte das pessoas que coordenam os processos de integração de redações continua tacanho e dotado de uma certa inoperância. Que modelo estratégico possível você poderia sugerir para sanar esta questão, envolvendo aí academia, formação profissional e empresas jornalísticas ?

Beth Saad -A mudança de postura das empresas jornalísticas é fundamental e isso exige flexibilidade das pessoas envolvidas nos processos de decisão. Iniciar a mudança, ou pelo menos, apoiar a mudança por meio de um processo de aproximação universidade-empresa para desenvolvimento de pessoas, treinamentos de quadros, e geração de um novo currículo de formação na carreira é um grande avanço. É uma estratégia muito bem sucedida em diversos setores que envolvem alta tecnologia e aceleração do conhecimento, e poderia dar certo no campo da Comunicação e do Jornalismo. A questão é que também por parte da Universidade (no caso a pública) teríamos que promover um esforço interno para retirar os ranços com relação à proximidade com a iniciativa privada e outros aspectos ideológicos e corporativistas. No caso da universidade privada é mais fácil. Não existe exatamente um modelo fechado para isso, mas, por exemplo, a construção de programas de especialização e treinamento em nível de pós-graduaçao, como o que existe entre o jornal espanhol El País e a Universidade Autonoma de Madrid, juntando profissionais da prática com pesquisadores é um excelente projeto.

Eduardo Vasques - O processo de integração de redações, a meu ver, andam travados principalmente por conta da falta de visão de quem detém o poder e está no alto escalão nas redações - em geral pessoas mais velhas e presas a conceitos antigos, com medo de ousar. Quem tem a força da decisão na mão tem medo de arriscar o próprio pescoço. Como você enxerga a quebra desse paradigma/barreira no contexto atual do jornalismo?

BS - Esta é uma constatação, um fato vigente em nossas redações. O poder ainda não rejuvenesceu e, mesmo aqueles mais jovens que estão muito próximos do nível de decisão, ainda estão sob a tutela de uma cultura empresarial muito forte, arraigada a valores familiares e ao tamanho do poder social e de formação de opinião que o jornalismo supostamente possui. Hoje, quem decide não tem disposição em arriscar o pescoço porque o negócio como está ainda dá certo, ou seja lucro - não audiëncia . E além disso, esta faixa de executivos não é muito afeita a inovações e muito menos a aprender algo diferente....poucos sabem ir além de seus e-mails ou buscas no Google, com todo respeito. E também não podemos nos esquecer uma visão que foi muito evidente no debate do livro O Destino do Jornal: o jornalismo se basta!

EV - O jornalismo brasileiro aprendeu a integrar redações on e offline? E mais: está preparado para a introdução dessa nova cultura à medida em que a qualidade dos profissionais de comunicação vem decaindo com o passar dos anos e, mesmo com todo o crescimento do consumo e do acesso da classe C à web, o conhecimento das ferramentas proporcionadas pela internet ainda é restrito?

BS - Não, ainda não aprendeu. Está dependente de poucas consultorias internacionais que vendem seu "pacote de soluções". Mas, muitas redações andam divulgando que estão promovendo integração porque é a onda....Com relação ao preparo diria que os jovem jornalista e comunicador já tem arraigada em sua cultura a noção de mundo digital. É uma geração que nasceu sob a égide das telas, do celular e conhecem quase que naturalmente as ferramentas. Mesmo com as evidentes questões de classe sócio-econômica e acesso.

JR - Em Estratégias para a mídia digital, você destaca alguns tipos de modelos de negócios para redações, como turbina informativa, publishing house e mídia modular. Você consegue apontar um passo evolutivo seguinte à estas classificações ? Como enquadrar, por exemplo, redes sociais nessa formatação integradora produtiva?

BS - Sim, as coisas evoluíram. Aliás, já está na editora, com lançamento previsto para outubro próximo, a segunda edição do livro, com uma atulização profunda dos modelos, além de toda uma discussão com relação à entrada das empresas informativas no mundo 2.0 das mídias sociais digitalizadas. De qualquer forma, os modelos que vocë cita são característicos dos dez primeiros anos de web. Hoje, a tendência maior está na reformatação das operações da redação num modelo de desk central, sem paredes, totalmente multimídia e multiplataforma.

EV - Como aplicar a realidade de The Daily Telegraph, Miami Herald, entre tantos outros ao Brasil, com redações extremamente precárias, inclusive do ponto de vista de infra-estrutura, de máquinas e dispositivos para a produção de conteúdo digital? Sim, a criatividade vale muito, mas sem recursos é possível fazer bem pouco não?

BS - É indiscutível. Modelos deste tipo exigem investimentos pesados. Recursos financeiros. Todos eles foram baseados (e bem sucedidos) quando ocorreu uma mudança radical no espaço físico da redação acompanhado de uma política de treinamento e desenvolvimento e de pessoas, e acompanhado de um planejamento de produtos e serviços multiplataforma. O improviso brasileiro não cabe neste cenário. Muito menos a criatividade.

EV - A união entre os dois públicos (impresso e mídias digitais) tem considerado a integração de um terceiro elemento: o cidadão interativo e participativo? Estes veículos estão prontos para lidar com essa nova realidade em que não se permite somente ouvir, ler e assistir, mas interagir?

BS - O usuário-participante ainda é uma figura ameaçadora no atual perfil de relacionamento com o público das empresas brasileiras. É só verificar o que nossos websites informativos oferecem em termos de ferramentas de participação e comparar com o que é oferecido no exterior. Na segunda edição de meu livro tem um capítulo quase todo dedicado a esse tema.

JR - Ao mesmo tempo em que o modelo brasileiro de integração de redações parece ainda engatinhar, temos visto alguns trabalhos de conclusão de curso de Jornalismo aproveitando o manancial hipermidiático para elaborar - é o verbo que vem à cabeça no momento - uma linguagem comunicacional própria. Mas, infelizmente, ainda são casos um tanto quanto isolados. O que falta para a academia cumprir esse aspecto da formação profissional de um comunicador ?

BS - Neste final de semestre tive o prazer de orientar um TCC deste tipo e que foi bastante elogiado. A aluna Gabriela Agustini desenvolveu todo o trabalho com recursos próprios e de amigos - equipamentos (os poucos necessários, mas específicos), desenvolvimento do site, trilha sonora, edição não linear, etc. A ECA não possui esse tipo de recurso, e os professores voltados para as matérias de desenvolvimento de reportagem não têm noção do que seja o básico, por exemplo, um código em html. Para se ter uma idéia os dois professores que ministram a dita disciplina "jornalismo online" uma é engenheira eletrônica que há anos tenta se adaptar na linguagem e o outro é recém entrante no departamento, jamais editou nada no online, mas como prestou concurso por motivos políticos na cadeira, agora precisa ministrar a matéria. Portanto, o que a universidade precisa fazer? Acho que a resposta está dada.

JR - Uma vez, perguntei ao José Antonio Meira da Rocha quais seriam as competências que um webjornalista deveria apreender. Imbuído do mesmo espírito - de porco -, recorro agora à perguntas semelhantes: quais são as capacidades que um gestor de redações integradas deve buscar ? Estas capacidades podem realmente ser aplicadas no "caso brasileiro" ?

BS - Dinamismo, visão de conjunto, estar sempre antenado com inovaçoes São algumas das competëncias. Mas a principal é saber lidar com pessoas, gerenciar o grupo, conduzir as diferenças. Hoje, não conheço profissional totalente pronto aqui no Brasil. Tem muita gente quase lá, mas as empresas não os aproveitam.

agosto 31, 2008

Redes sociais sob o símbolo da samsara

Não é só discurso de pequeno-empreendedor-web-emulando-balcão-sebrae-way-of-life que faz meu fígado azedar sobremaneira. Época de campanha eleitoral dá uma forte contribuição para o azedume da minha bílis, sobrecarregando meu duodeno - esse pobre coitado. Para se ter uma idéia, não posso ver o cartaz de um certo candidato a vereador aqui em Belo Horizonte proclamando que "roqueiro vota em roqueiro" sem reagir com engulho. Não há anti-ácido que dê conta, mizifio. E tudo se complica quando, no tabuleiro político, mixa-se oportunismo travestido de camaradagem e conversação "sem compromisso" sobre internet, formação de opinião e chá das cinco com blogueiros. Lembro de um amigo, frasista exemplar sempre inspirado pelo Piritas Siderais, de Guilherme Kujawski, dizendo que "político conversa com poste encenando discurso pros holofotes e ensejando holodeck". De imediato, passo a escarafunchar as seguintes idéias: e se rolar um mashup da proposta do candidato mineiro com esta estratégia paulista, possivelmente teremos o slogan "blogueiro vota em blogueiro" ? Seria esta aproximação - tal caso merece o termo ? - um desses próximos passos evolutivos sobre os quais já ouvi falar ?

São vários os fatores que dão um ar de Twilight Zone a este momento específico. Além do beija-mão e morde-assopra deste período eleitoral, junta-se à equação o fato de que o termo "relevância" se encontra ... eeerrr ... bem ... em relevância. Eu avisei que são tempos bicudos. Redes sociais se encontram em evidência e é claro que o assim chamado mainstream está de olho nisso - até aí nenhuma novidade; ah, a "antropofagia enquanto fenômeno cultural e mercadológico" ... A questão é que, em relação à redes sociais, a relevância - esta bandeira levantada pelos adeptos da cauda longa e afins - não deveria seguir preceitos semelhantes àqueles que formam o status quo onde a mídia tradicional/convencional atua. O que é possível observar em casos como esse da "aproximação política" em plena campanha eleitoral - potencializada para pior se deslumbramento substituiu racionalidade no modo de pensar de certos players - é que parece haver necessidade de aprovação de, digamos, majors para que esta relevância tenha sentido.

O que soa, para dizer o mínimo, estapafúrdio.

Isso tudo parece acenar com mais força de que há um desvio no fluxo estratégico relativo à natureza das redes sociais. Em suma, há o risco de cair na esparrela de repetir conceitos e práticas de mídia de massa em meios digitais - o que iria de encontro ao que se apregoa de ... aham ... revolucionário nas redes sociais. Trata-se de evidenciar a samsara: de novo de novo de novo de novo. O que me leva a concordar - quem diria, hein ? - com Wagner Martins/Mr Manson, quando este fala sobre o mais do mesmo que acometeu certas redes, que parecem ciosas em funcionar nos mesmos moldes de conglomerados de comunicação. Assim como Alessandra Nahra Leal - cujas análises me mantém são - também não acredito em chiqueirinhos ou cercadinhos digitais num mundo de porteiras abertas. Ainda mantenho-me adepto da idéia de abrir caminhos.

É em momentos como esse que eu penso em apelar pro Velho Zuza.

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