Sei, não é de hoje, que não estou só quando
entôo o mantra "o jornalismo morreu". Encasquetado com algumas questões que não pude tratar a contento no post anterior, enviei três singelas perguntas a dez professores universitários cujas opiniões aprendi a respeitar, embora vez ou outra discorde d´algumas - o que já era esperado, não ? Destes, apenas
Vitor Menezes,
Raquel Recuero e
Adilson Cabral enviaram suas considerações. Não sei os motivos dos demais não terem respondido, mas apresso-me a dizer que estas são perguntas em aberto, sempre à espera de maiores considerações. Surgindo mais algumas, posto-as aqui. Por enquanto, sigam aquele carro:
Recentemente, Paul Bradshaw perguntou em seu blog se as escolas de comunicação preparam estudantes para uma indústria jornalística que não os quer, apontando a redução de - aham - material humano nas redações e a formação profissional (ou falta de) em relação às mídias digitais com diversos exemplos. Uma das questões que me parece relevante é: "preparar" alunos para o mercado ou proporcionar uma formação humanista ? Sim, trata-se dum velho pensamento dicotômico colocado em xeque. Como vocês lidam com isso ?
Vitor Menezes - As escolas de jornalismo foram inventadas por jornalistas, justamente por perceberem que a dimensão técnica da profissão é menos importante do que as suas implicações éticas e humanísticas. Mas este era um outro tempo, quando jornais eram empresas aventureiras, quase sempre de políticos ou de jornalistas, que viam no jornalismo muito mais uma forma de interferir politicamente na vida pública, do que exatamente uma forma de ganhar dinheiro -- embora uma coisa acabasse, muitas vezes, por gerar a outra.
Nos dias atuais, os jornais muito mais se pensam como empresas do que como veículos de jornalismo. E daí a importância que conferem aos técnicos, sejam eles repórteres que apuram/redigem/editam com rapidez, ou administradores e especialistas em recursos humanos e as suas idéias quase sempre risíveis para promover a tal boa ambiência nos locais de trabalho.
Nas duas faculdades onde leciono, a Faculdade de Filosofia de Campos e a Faculdade Salesiana de Macaé, ambas cidades do Norte Fluminense, ainda percebo uma acentuada carga de conteúdo humanístico, o que considero uma opção acertada. A técnica muda a todo instante, já o que se faz com ela e o sentido que tem uma profissão precisam de noções mais consolidadas.
É engraçado quando os jornais reclamam que não encontram alunos com o perfil que desejam, quando na verdade eles estão por aí, aos montes. O que parece é o contrário: vejo muitos formandos mais criativos, mais preparados, do que muitos dos jornalistas que estão nas redações. O que há é que os estudantes estão sendo preparados para um jornalismo mais interessante, que ainda está por ser feito, e que não tem sido encontrado no mercado tradicional. É como se um sapateiro reclamasse por não mais encontrar aprendizes interessados em seu ofício. Repito: o jornalismo ensinado pelas universidades é melhor do que o praticado nas redações.
Raquel Recuero - Eu tenho um posicionamento meio controverso a respeito do papel da Universidade. Acho que o papel dela é formar críticos e não técnicos, ou seja, preparar o aluno para ser capaz de pensar, compreender o mercado, saber avaliá-lo, criticá-lo e posicionar-se a partir disso. E para isso, é claro que uma formação humanista é a melhor. E acho isso pelo simples fato de que é impossível, hoje, dizer que alguma faculdade prepara alguém para o mercado. O mercado está em constante mudança e, muito, muito rápido. O aluno que aprende o Corel 10 na faculdade pode ter a certeza de que, quando se formar, já se usará o Corel 15 (ou um programa completamente diferente). E durante todo a sua vida no mercado, as ferramentas e as técnicas estarão em constante mudança e o profissional terá de adaptar-se ou ficar rapidamente ultrapassado. Não que a técnica não deva ser ensinada, mas ela não deve ser o único ou principal foco de um curso universitário de jornalismo. Acho que a formação crítica a respeito da atualidade e daquilo que nos cerca é essencial.
Adilson Cabral - É uma dicotomia que não deveria existir, pois sempre permanece a demanda de uma formação profissional que incorpore essa visão humanista. Falta debate entre professores, faltam referências/projetos de qualidade a serem adaptados / intercambiados, falta diálogo. E isso é fruto tanto de uma indústria cada vez mais concentrada e pragmática como da falta de propostas no campo humanista que se contraponham a esse projeto de sociedade e de mercado de trabalho.
Um dos debates mais pobres nesse sentido é o da afirmação da obrigatoriedade do diploma de jornalismo no contexto desse mercado de trabalho a despeito da qualificação das relações de trabalho nas redações, que ficam relegadas a segundo/terceiro plano pelas organizações de trabalhadores do setor.
Neste mesmo texto do Bradshaw, o jornalista Patrick Thornton espicaça as escolas de jornalismo, dizendo que a maior parte delas está obsoleta. No Brasil, retomam-se os embates acerca da obrigatoriedade do diploma em Jornalismo, no mesmo momento em que um livro como "Eu, Mídia" é lançado e o Movimento em Defesa dos Jornalistas sem Diploma busca articular-se e "contra-atacar". Neste cenário, quais são os papéis possíveis aos estudantes e professores de Jornalismo ?
VM - Acho que estes movimentos são interessantes para manter acesa a necessidade de lutar pela legitimidade do jornalismo. Se estas vozes surgem e ganham alguma relevância, são sintomas de que a infinita crise do jornalismo se mantém, o que não é de todo um mal, dado que, como qualquer outra profissão, ele precisa ter a sua necessidade questionada a todo instante.
Não creio que a luta pela obrigatoriedade do diploma, ou pela regulamentação da profissão -- que é bem mais que uma luta pelo diploma -- sejam ações contrárias a estes questionamentos. São apenas as expressões desta luta pela legitimidade da profissão.
Ainda acredito no jornalismo como uma profissão, que por se confundir com comunicação de modo mais amplo e como noções como liberdade de expressão e entretenimento, acaba por ter seu papel menos nítido neste mundo de excesso de informações. Mas este papel ainda existe.
É muito bacana que cada um possa ser a sua própria mídia. E muito bacana que informações relevantes possam ser veiculadas a partir de um celular. Mas a questão é: quem garante isso de modo perene e industrial? Quem assume o compromisso de colocar esse conteúdo a todo minuto nas ruas? Quem busca formas de sobreviver deste fazer profissional? Ainda é o jornalismo e os jornalistas.
E falo isso na condição de jornalista, mas também de blogueiro -- que não me obrigo a postar todos os dias e nem tenho a pretensão de manter um blog jornalístico, a despeito de reunir vários jornalistas.
Ainda acredito no papel que têm os tais cães perdidos, como definidos por Ciro Marcondes Filho, e por isso defendo a tribo, o fazer profissional e as suas especificidades. Alguém precisa passar a madrugada à espera da libertação do refém, precisa arriscar-se acompanhando uma operação policial, e precisa estar disponível para o entediante feijão-com-arroz do dia-a-dia. O jornalismo pode até alimentar-se dos diletantes, mas não sobrevive deles.
RR - Eu penso que, na prática, não é diploma que faz um jornalista. Mas também acho que a Universidade ajuda, sim, a formar jornalistas mais críticos e mais capazes de articular-se diante do mercado. Conheço jornalistas excepcionais que não tiveram formação universitária (pré-obrigatoriedade) e também conheço jornalistas formados que são incapazes de exercer a profissão com competência. Do meu ponto de vista, a questão do diploma é cada vez menos relevante. Eu acho que os alunos devem procurar a universidade como um espaço para abrir os horizontes, gerar um crescimento humano e crítico e os professores devem pensar em como proporcionar isso e não apenas o ensino da "técnica", mas do "pensar sobre a técnica". Assim que penso que a grande questão não é o diploma, mas sim, a recolocação do jornalismo diante dos desafios das novas tecnologias. Esta circunstância sim, coloca em xeque o papel "tradicional" da mídia. Costumo discutir com os alunos que há uma grande mudança no sentido de que a Mídia chamada "tradicional" no jornalismo, sempre foi raramente questionada pela sociedade. Hoje, com o advento das tecnologias interativas e massivas da Internet, o jornalismo é criticado, o trabalho do jornalista é constantemente avaliado, discutido e debatido. Com isso, os erros, os problemas, os interesses econômicos e políticos aparecem cada vez mais. E, se o jornalista não faz bem seu trabalho, haverá quem tome para si esta função (jornalista ou não) e o fará na Internet. O grande diferencial do jornalista formado deveria ser a credibilidade e a capacidade crítica, cada vez mais valorizada nesses espaços e infelizmente, cada vez menos discutida nos bancos universitários.
AC - Valorizar a profissão, valorizando as relações de trabalho nas redações e a formação profissional capaz de evidenciar essas contradições e formas de superá-las. A defesa da obrigatoriedade do diploma nesse contexto acaba legitimando a indústria tal como ela vem sendo estabelecida, pois não aponta para mudanças significativas nas práticas de trabalho.
Poderíamos considerar que a crise do jornalismo encontra-se resumida da seguinte forma: entraves no ensino - desde questões laboratoriais até possíveis desacertos conceituais sistematizados na primeira pergunta - mais quedas de braço políticas entre sindicatos e entidades acadêmicas com empresas de comunicação mais visão empresarial tacanha, baseada na premissa "o que ? eu ? correr riscos ?" ?
VM - A questão é que não vejo uma crise maior nas escolas de jornalismo do que a existente nos próprios veículos. E, como disse anteriormente, percebo um vigor até maior nas escolas do que nas redações. E quanto aos sindicatos, é um erro acreditar que eles são anacrônicos ou criam caso por qualquer coisa. Acho os sindicatos dos jornalistas até bem cândidos, perto das mazelas que a categoria enfrenta. Sou assessor de imprensa do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense, e sei o que é uma categoria organizada. Na relação com os patrões, os jornalistas são uns anjos.
RR - O problema atual, para mim, não é a questão do diploma. É o problema da "mercantilização" do ensino superior apoiada pelo governo federal. Vejo uma quantidade enorme de novos cursos sendo criados sem nenhum critério, faculdades abrindo sem nenhuma condição de funcionamento, sem biblioteca, sem nada... Há uma quantidade enorme de novos cursos de jornalismo sendo abertos sem sequer um professor da área. Será que, nesse universo de cursos sem qualidade, o diploma será um diferencial? Será que não deveríamos discutir esse problema primeiro? São questões que me fazem pensar bastante.
AC - A visão tacanha está mais alastrada e impregnada do que a gente pensa...mas da crise estão sendo reinventadas formas de pensar o jornalismo das quais podem sair sínteses interessantes.