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"Eu tão somente e cada vez mais prezo os meus amigos"


JR e Ayala cinza

Mais de uma vez** ouvi a reclamação: "você só sabe falar mal de tudo, não gosta de nada !". O pobrema, mizifios, é que não sou chegado à mistificação. Tanto é que não tenho ídolos; sempre procurei travar amizade com as pessoas que realmente admiro - o que me dá até mesmo oportunidades de xingá-los com mais propriedade. Até onde a vista alcança, nunca tive que ceder um milímetro à babação de ovo, puxação de saco ou congêneres para isso. Um tanto de cara-de-pau e mais um punhado de pequenas estratégias a compensar minha afamada rabugice garantiram-me sucesso em alguns destes casos. Claro, ser jornalista possibilitou conhecer algumas das pessoas que se encaixam na categoria citada acima e tê-las - até este momento, pasmem ! - como amigas. E todo esse intróito é apenas para dizer que hoje eu posso chamar de amigo o sujeito que tem uma parcela considerável de culpa pelo jornalista reclamão que eu sou. Seu nome: Sylvio Ayala.

Verdadeiro culpado apontado. Débitos dirigidos. Hail to the thief.

Por cortesia de Alessandra Nahra Leal, a autora da foto que ilustra este post e que também está na lista, estive cara a cara com Sylvio Ayala, num local tenebroso e mal-frequentado, cuja localização não posso revelar***. A função: colocar uns quinze anos - pelo menos - de conversa em dia. Tremenda satisfação finalmente conhecê-lo pessoalmente e poder culpabilizá-lo por sua participação em minha formação intelectual - atenção, Bródi Negão, é a primeira vez que uso o termo em benefício próprio !

Detalho o crime: no começo dos famigerados anos 90, ele editou dois números do jornal libertário chamado O Bobo da Corte, que tratava de política, literatura e subversões a granel. A qualidade do material - gráfico, editorial, textual, etc, etc, etc - acachapou-me de primeira. Dois pensamentos estribaram-se em minha cachola assim que tive o primeiro número em mãos. O primeiro, evidentemente, foi um palavrão. O segundo foi: quero escrever como esse malaco. Era o que faltava para que eu decidisse embicar de vez em direção ao jornalismo - e do tipo em que eu acredito desde sempre.

Mas o ato hediondo de Sylvio Ayala não se concentra apenas nisso. Não satisfeito com a bagunça que havia armado, tratou ainda de colaborar para que eu compreendesse a necessidade de uma auto-definição política. Que me orgulho de manter inflexível até hoje. Aprendi com ele, seguindo a uma distância calculada suas produções com o passar o tempo, um bocado sobre como ser este exucaveiracover que incorporo ao batucar textos de qualquer espécie.

E pensar, seu Sylvio, que o senhor havia escapado incólume todo esse tempo de ter esta culpa pesando sobre tua carcaça.

Conversar com ele fez com que eu lembrasse de outras conversas representativas que ocorreram nos últimos cinco anos - quando eu envelheci sobremaneira - com pessoas com as quais sempre aprendo bastante. Há a lembrança de uma conversa com o malacomano João Filho numa noite de 2004, em Salvador, fumando cigarrilhas baratas e proseando sobre tridentes, grand guignol, estética do perrengue e outros assuntos menos cotados na tabela periódica de elementos. Há a atenção prestimosa do casal Tadeu Sarmento e Patrícia Gondreck, acompanhada por Jack Daniels, Leonard Cohen e John Coltrane, contando histórias de família. Há as histórias de Löis Lancaster, outro desses culpados, camaradagem que rendeu parcerias das quais me orgulho com empáfia****. São pessoas como estas que mantêm a minha fé na humanidade. Em honra e glória a esses amigos distantes - e outros mais -, bebi umas Devassas e umas doses de uísque dia desses. Santifiquei-os.


* o título desse post veio - apropriadamente - de uma conversa com tadeu sarmento

** duas ? três ? cadê as estatísticas ?

*** merchandising é proibido aqui na verbeat. ordem dos donos.

**** empáfia: fato corriqueiro.


Comments (1)

graaaande jorge rocha!
que honra estar nessa lista ;)

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