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junho 2008 Archives

junho 1, 2008

Contos da Terra Plana

Antes de mudar de Campos para Belo Horizonte, organizei - juntamente com Vitor Menezes - a coletânea Contos da Terra Plana, reunindo escritos de autores campistas sobre a cidade que habita(va)m, tanto por amor quanto por ódio. O livro levou quatro anos para ser publicado e finalmente será lançado hoje, dia 1º de junho, na Bienal do Livro de Campos. A coletânea que reúne a "nova safra de autores campistas", que autodenominava-se Aglomerado Terra Plana - terra plana é a forma como chamamos Campos -, ambientou suas paranóias, singelezas, obsessões e safardanices nas quebradas de uma cidade que hoje vive momentos de polvorosa política. Eu estou ali com os contos "Kemosabe e o apanhador nos campos de cana-de-açúcar" e "Depois do centenário, até que chegue a primavera", uma homenagem esquizóide a Waldir de Carvalho - escritor já falecido e para o qual nunca mostrei o original desse conto, esperando que ele pudesse ler no livro. O grupo não existe mais faz algum tempo, assim como a Mutável Saralho Band, que era o braço lítero-musical do aglomerado, responsável pela leitura dramatizada de mini-contos em saraus. O que não significa que não haja mais produção literária nessa "nova safra". Continuo dizendo hoje o que já dizia quando saí da terra plana: o melhor escritor de Campos chama-se Jules Rimet. Basta ler "Esmeraldo", "Magrão" e "Filha do Diogo" para ter certeza.

junho 12, 2008

Decálogo da Audiência Precavida

No último dia 21 completou-se o primeiro ano que este blog está hospedado no condomínio Verbeat, por obra e graça de Tiagón e Gejfin. Por estar envolvido até agora nas comemorações, entretido com uísque, charutos e bandalheiras que me eram ofertadas - o que é natural à prática do jornalismo -, não pude escrever um post comemorativo. Mas agora que abrandaram as safardanices, calhordagens e sardonices - porque estas não findam, como sabem os caros leitores -, resumo em um decálogo preceitos norteadores de uma boa conduta para a audiência que insiste em engalfinhar-se com o tal do jornalismo. O motivo disso ? Durante estas comemorações, entre uma baforada e outra de um charuto oferecido por André Deak, ouvi diversas vezes a seguinte assertiva, com pequenas variações: "se o jornalismo morreu, a audiência celebra a missa de sétimo dia". Vai depender do vinho, digo, do que esta audiência se propõe a fazer. Ou vocês acham que estamos falando aqui de coroinhas e beatas ? Sigam a bolinha:

1) Toda vez em que falarem "e agora as notícias do dia" leve sua mão ao coldre.

2) Esmurre os próprios olhos antes de assistir telejornais. Dificilmente o que vier depois lhe será mais doloroso.

3) Entre um e outro vício reserve tempo para a caridade. Desconfie.

4) A revolução não será televisionada, downloadeada, printscreenizada ou efecincozada.

5) Colecione chatos (Pthirus pubis, bem entendido). Indique-os como referência quando lhe perguntarem sobre credibilidade.

6) Na dúvida se jornalismo pode ou não ser entretenimento, responda sempre: achei tendência.

7) Borrife spray de pimenta ao redor ao ouvir o termo "quarto poder". Atrai bons fluidos.

8) Nunca pergunte a um jornalista para qual lado o vento sopra.

9) "Somos os cavaleiros que dizem Wii" não associa-se às Novas Tecnologias de Informação e Comunicação.

10) O jornalismo morreu ? Apele para o Cabôco Mamadô.

junho 25, 2008

"Eu tão somente e cada vez mais prezo os meus amigos"


JR e Ayala cinza

Mais de uma vez** ouvi a reclamação: "você só sabe falar mal de tudo, não gosta de nada !". O pobrema, mizifios, é que não sou chegado à mistificação. Tanto é que não tenho ídolos; sempre procurei travar amizade com as pessoas que realmente admiro - o que me dá até mesmo oportunidades de xingá-los com mais propriedade. Até onde a vista alcança, nunca tive que ceder um milímetro à babação de ovo, puxação de saco ou congêneres para isso. Um tanto de cara-de-pau e mais um punhado de pequenas estratégias a compensar minha afamada rabugice garantiram-me sucesso em alguns destes casos. Claro, ser jornalista possibilitou conhecer algumas das pessoas que se encaixam na categoria citada acima e tê-las - até este momento, pasmem ! - como amigas. E todo esse intróito é apenas para dizer que hoje eu posso chamar de amigo o sujeito que tem uma parcela considerável de culpa pelo jornalista reclamão que eu sou. Seu nome: Sylvio Ayala.

Verdadeiro culpado apontado. Débitos dirigidos. Hail to the thief.

Por cortesia de Alessandra Nahra Leal, a autora da foto que ilustra este post e que também está na lista, estive cara a cara com Sylvio Ayala, num local tenebroso e mal-frequentado, cuja localização não posso revelar***. A função: colocar uns quinze anos - pelo menos - de conversa em dia. Tremenda satisfação finalmente conhecê-lo pessoalmente e poder culpabilizá-lo por sua participação em minha formação intelectual - atenção, Bródi Negão, é a primeira vez que uso o termo em benefício próprio !

Detalho o crime: no começo dos famigerados anos 90, ele editou dois números do jornal libertário chamado O Bobo da Corte, que tratava de política, literatura e subversões a granel. A qualidade do material - gráfico, editorial, textual, etc, etc, etc - acachapou-me de primeira. Dois pensamentos estribaram-se em minha cachola assim que tive o primeiro número em mãos. O primeiro, evidentemente, foi um palavrão. O segundo foi: quero escrever como esse malaco. Era o que faltava para que eu decidisse embicar de vez em direção ao jornalismo - e do tipo em que eu acredito desde sempre.

Mas o ato hediondo de Sylvio Ayala não se concentra apenas nisso. Não satisfeito com a bagunça que havia armado, tratou ainda de colaborar para que eu compreendesse a necessidade de uma auto-definição política. Que me orgulho de manter inflexível até hoje. Aprendi com ele, seguindo a uma distância calculada suas produções com o passar o tempo, um bocado sobre como ser este exucaveiracover que incorporo ao batucar textos de qualquer espécie.

E pensar, seu Sylvio, que o senhor havia escapado incólume todo esse tempo de ter esta culpa pesando sobre tua carcaça.

Conversar com ele fez com que eu lembrasse de outras conversas representativas que ocorreram nos últimos cinco anos - quando eu envelheci sobremaneira - com pessoas com as quais sempre aprendo bastante. Há a lembrança de uma conversa com o malacomano João Filho numa noite de 2004, em Salvador, fumando cigarrilhas baratas e proseando sobre tridentes, grand guignol, estética do perrengue e outros assuntos menos cotados na tabela periódica de elementos. Há a atenção prestimosa do casal Tadeu Sarmento e Patrícia Gondreck, acompanhada por Jack Daniels, Leonard Cohen e John Coltrane, contando histórias de família. Há as histórias de Löis Lancaster, outro desses culpados, camaradagem que rendeu parcerias das quais me orgulho com empáfia****. São pessoas como estas que mantêm a minha fé na humanidade. Em honra e glória a esses amigos distantes - e outros mais -, bebi umas Devassas e umas doses de uísque dia desses. Santifiquei-os.


* o título desse post veio - apropriadamente - de uma conversa com tadeu sarmento

** duas ? três ? cadê as estatísticas ?

*** merchandising é proibido aqui na verbeat. ordem dos donos.

**** empáfia: fato corriqueiro.


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