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maio 2, 2008

Entrevista: José Eduardo Gonçalves

"José Eduardo Gonçalves, jornalista, editor e escritor, atualmente é presidente da Rádio Inconfidência, vinculada à Secretaria Estadual de Cultura de Minas Gerais. Edita e apresenta, desde novembro de 2005, o programa Rede Mídia, na Rede Minas de Televisão, espaço de debate sobre comunicação, culturas e tecnologias midiáticas. Tem três livros publicados - Cartas do Paraíso, Vertigem e A Cidade das Memórias Flutuantes. Desenvolve projetos editoriais, como a coleção "BH. A Cidade de Cada Um", com 10 livros já publicados. Foi professor na Faculdade de Comunicação da PUC-Minas e editor da revista de cultura Palavra. É curador do projeto literário Ofício da Palavra".

entrevistadora convidada: gabriela jardim

Jorge Rocha - O recente episódio da saída do ex-ombusdman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães, aponta uma certa precariedade no exercício prático da crítica embasada que, para dar real valor à esta função, não deveria ser cerceada. Sim, este é um juízo de valor. Até que ponto você considera que a credibilidade da Folha de São Paulo - e, conseqüentemente, do cargo de ombudsman - pode ser arranhada com este episódio ?

José Eduardo Gonçalves - Não acho que a credibilidade do jornal foi ou será arranhada por conta do episódio. Nos primeiros dias houve um evidente incômodo por parte da comunidade de leitores, especialmente pelo vácuo de uma posição editorial, ou seja, a Folha não se manifestou. Mas vamos lembrar que o ombudsman se despediu como quis, expôs suas razões, pegou o boné e byebye. Esse vácuo durou ainda alguns dias até o anúncio do novo ocupante do cargo. Mesmo levando-se em conta que o Mário Magalhães abdicou do cargo por não concordar com as mudanças propostas pela direção do jornal em regras vigentes no seu trabalho, vale a pena registrar que: 1) a Folha continua sendo o único jornalão a manter a figura do ombudsman; 2) as críticas internas continuam sendo feitas e é válido (concordemos ou não com) o argumento de que este material vinda sendo monitorado por concorrentes; 3) a coluna dominical continua valendo e: 4) já temos um novo profissional no cargo, o que é uma reafirmação na crença do trabalho do ombudsman. Para finalizar: embates internos são corriqueiros e cotidianos na vida de um jornal, ainda mais num veículo como a Folha, prensado na ambigüidade que o faz tentar ser mais audacioso que outros (reformas gráficas, em especial) e a realidade que o obriga a se pautar, na maioria das vezes, como seus colegas de classe.

JR - A idéia de mediawatching sempre me fascinou porque, além de esmiuçar brigas de cachorro grande, ajuda a desmistificar a falácia da tal da imparcialidade. E eu engrosso as fileiras daqueles que têm birra com esse conceito. Por isso, repasso duas perguntas da vizinha de condomínio, Larissa Bueno, registradas na caixa de comentários deste blog-blefe: "de onde vem essa idéia de imparcialidade da imprensa, no Brasil?" e "por que o posicionamento é ou passou a ser mal visto?"

JEG - Não sei de onde vem essa idéia, esse puritanismo ideológico, essa coisa asséptica da imparcialidade da imprensa, que é simplesmente impossível. De modo geral, as regras de jornalismo pregam maior isenção, distanciamento, objetividade, de forma a que o público faça suas próprias deduções. Na prática isso é uma balela, em tudo há opinião, posicionamento. O que não quer dizer que não deva ser tentado, diariamente. Veja só, todo mundo critica a VEJA (eu, inclusive) quando a revista publica uma capa dizendo, sobre a renúncia de Fidel: "Já vai tarde". Isso é jornalismo? Não, isso é opinião. Mas é opinião de direita, reacionária, por isso tanta rejeição. Mas se fosse opinião de esquerda podia? Pois em casos como este prefiro que se faça muita reportagem, muita análise (de gente de todas as tendências), que se abra para muitas fontes, e que o público decida, afinal, sua opinião.

Gabriela Jardim - Você apresenta um programa de entrevista e análise de temas ligados à mídia, na tv pública. O quanto há de "público" empregado no jornalismo que é praticado nesta emissora ?

JEG - Sinceramente, não sou a melhor pessoa para analisar o jornalismo da Rede Minas por uma questão muito simples: quase não assisto telejornais. Nem dela nem de outros. Prefiro me informar por internet, jornal, revista, rádio, eventualmente tv. Na tv gosto de esporte (especialmente futebol) e algumas séries ou programas. Mas acho que a Rede Minas faz bons programas, tem um leque de opções de qualidade muito maior que as tevês abertas. O próprio programa que eu edito e apresento é um bom exemplo. Pode ter muitos defeitos, mas é um espaço raro na tv brasileira. Tenho total liberdade para levantar as pautas (mesmo porque, se não tivesse, lá eu não estaria), nunca recebi qualquer recomendação sobre o que tratar ou não tratar. E tenho tratado de muita coisa, dado voz a muita gente. Acho que este espaço é uma verdadeira trincheira de resistência no terreno inóspito da tv brasileira, tratando com seriedade e em horário nobre de questões que considero relevantes para o público. O conceito de público é muito amplo, mas deve necessariamente respeitar a diversidade (étnica, religiosa, sexual, cultural, regional etc) da sociedade brasileira. Não sei se a Rede Minas oferece o tempo todo esse cardápio, mas ela me parece, sem dúvida, muito mais saborosa e inteligente que outras, focadas unicamente na questão da audiência. Por exemplo: por que apenas uma TV Cultura, em São Paulo, e uma Rede Minas, aqui, são capazes de investir em programas infantis menos imbecis? Por que outras com mais capital, muito mais, não o fazem? E o engraçado é que todas são concessões públicas...

GJ - Focando na questão das fases cíclicas da mídia, vivemos hoje em uma fase de convergência midiática, na qual, a tendência é sempre uma aproximação e complementação dos veículos. É a partir deste pressuposto que você lançou a parte inédita do programa no site?

JEG - Em parte, sim. Não dá pra ficar imune a isso. O fato é que estamos enquadrados em um formato padrão, temos ali preciosos 25 minutos semanais, então é pegar ou largar, e eu peguei certo de que valeria a pena, acho que estava certo, mas é muito frustrante a coisa só funcionar naquele curto período de tempo. Por isso arrisquei: que tal levar um pouco do conteúdo para a internet, quem sabe isso atrai um novo público? Acho que hoje nada mais existe sozinho, veículo nenhum é uma ilha. Tem de dialogar com outros meios.

GJ - Ainda visando a fase convergente da mídia, você, como apresentador de um programa cujo objetivo é ser "um fórum de debates sobre todas as nuances e formatos da comunicação", não acredita que seria interessante estender este fórum para além da tv?

JEG - Sim, seria bem interessante. E natural, até.Só não o faço porque isso exigiria de mim, hoje, um tempo que não posso dar. Fazer o programa já é uma baita empreitada, tendo em vista as inúmeras outras atividades que exerço. Abrir mais uma frente seria inviável. Não vejo como ampliar este fórum sem que eu pudesse participar diretamente, e isso hoje não dá.

JR - Bill Kovach e Tom Rosenstiel, no excelente "Os elementos do Jornalismo", dão a medida exata acerca da construção da credibilidade jornalística. Para eles, a audiência pode dar mais crédito à determinada publicação se esta explicitar seu perfil ideológico-editorial - "ideológico-editorial" é redundância, eu sei. Por que esse não parece ser um caminho viável no modelo de negócios das empresas jornalísticas brasileiras ?

JEG - As publicações podem explicitar seu perfil ideológico-editorial em editoriais, é a forma mais "limpa" e transparente de se fazer isso. Em período eleitoral, me parece louvável que qualquer jornal explicite, em editorial, a sua preferência. Mas contaminar o noticiário com isso me parece uma sacanagem, o público quer informação de qualidade, e não apenas opinião. Aliás, tenho a impressão que hoje temos opinião de mais e informação de menos...

GJ - Durante todos estes anos de mídia, iniciando lá na impressa e chegando hoje na internet, a relação entre jornalista e público foi sendo fortemente alterada. Diante disso, como você vê o processo ainda fechado, do ponto de vista de participação do público, do "fazer tv" de hoje? Uma saída para isso seria o que eu chamei anteriormente de convergência? Ou você acha que o "fazer tv" será sempre assim?

JEG - Não sei como será o "fazer tv" no futuro, mas sei que vai mudar. Tudo muda. A relação entre jornalista e público mudou muito desde Gutenberg, você mesmo disse isso. Não existe mais o jornalista encastelado, dono da verdade, capaz de todos os desatinos. A opinião pública é muito mais vigilante e a internet derrubou as fronteiras antes invisíveis das redações. Hoje, se leu e não gostou, o pau comeu. A tv também é sensível a isso, apesar dos rígidos padrões de produção. As grandes redes ainda mandam no terreiro, mas o poder delas vem decaindo ano a ano. Muita coisa ainda vai mudar - a tecnologia digital, a convergência com outras mídias (em especial o celular), a internet banda larga se popularizando, as disputas entre grupos de telefonia -, tem água demais passando embaixo dessa ponte. Ainda acredito que teremos uma tv mais inteligente no futuro. Ou, pelo menos, muito mais opção de inteligência na tv. E acredito que o público será cada vez mais influente nesse processo.

maio 20, 2008

Redes são conversações


palestra aglomerado da serra
"seguinte: a apropriação criativa tem que ser constante no cotidiano de vocês, pô !"


A semana que passou reservou-me uma variedade de momentos em que comprovei, de novo e de novo e de novo, a veracidade da frase que dá título a este post. No dia 12 de maio, fui convidado pelo projeto RedeMuim a fazer uma palestra no Centro Cultural Vila Marçola, no Aglomerado da Serra, sobre processos criativos e tecnologias digitais. A idéia central era falar sobre apropriações criativas, hibridização e recombinações midiáticas como formas de expressão artística e cultural - esse foi o singelo briefing que me passaram. E deveria falar sobre isso em pouco mais de uma hora; tremendo risco de meter tudo num balaio de gatos e acabar parecendo (mais) pedante. Mas não contavam com minha astúcia ! Junto à moçadinha que se desenfronhou de casa e enfrentou a friaca que fazia naquela noite, dispensei o microfone e desfiz a "mesa de palestrante" que haviam armado para mim.

- Se alguém veio esperando uma palestra, sinto ter que decepcionar essa pessoa. Eu vim aqui para conversar com vocês.

Olhares incrédulos. O vigia do centro cultural, postado do lado de fora, solta uma tosse nervosa. Ao fundo, trilha sonora imaginária de filme de bang bang. Disparo o verbo:

- Eu quero conversar com vocês sobre como arte, tecnologia e cultura podem sempre se juntar para criar e recriar valores. Pra começo de conversa, vamos falar sobre re:combo, moçada do Recife, terra do manguebeat. Falar sobre BNegão e como é possível driblar a indústria. Falar de artistas como todos vocês que estão aqui.

O vigia não mais tossia lá fora. Do lado de dentro, atores de teatro, rappers, músicos de róqui pesado e pessoas ligadas à rádio comunitária do Aglomerado da Serra, além da equipe do RedeMuim, movimentavam a conversa. Na leva, falamos sobre direitos autorais, dribles no jabá, cultura livre, espaço cultural como espaço público - e formas de intervenções artísticas apoiadas nessa idéia -, sobrando ainda espaço para espinafrar o Jota Quest e congêneres.

O leitor mais espertinho desse blog pode se pegar pensando: "mas não há nenhuma grande novidade aí!!!". E quem está pensando fast food aqui ? De conversações e recombinações é que estamos falando! Tanto aqui como naquele momento. Processo de formação e implementação de redes: sobreposição informacional, camadas interpretativas, cartografia da informação. Eu voltei para casa naquela noite com algumas caraminholas na cachola, a reverberar sob o mantra "não espere nada do centro, se a periferia está morta". Andei debatendo algumas delas na semana que passou com pessoas que apreendi como amigas.

Mas isso é assunto pra outra conversa.


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