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Réquiem para um ombudsman

Confesso que, desde sempre, olhei de soslaio para o cargo de ombudsman. Fico cismado com reclamação ou oposição consentida, pois não me sinto confortável com "espaço permitido, demarcado e controlado" para críticas, apontamento de falhas e - por que não ? - vitupérios públicos. Mas não deixo de considerar e admirar quem tem culhão para aceitar esta função. Do mesmo modo, fico aborrecido - para dizer o mínimo - quando um profissional é demitido desta função por resolver esgarçar um tantinho a mais as pregas dos limites impostos para o exercício da crítica ponderada e argumentativa - esta sim, valorizada por este exucaveiracover. A demissão do ombudsman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães - que ocupava o cargo desde abril do ano passado, no lugar de Marcelo Beraba -, causou-me esgares pelo simples fato de que a liberdade consentida transfigurou-se em armadilha para ursos. Conforme aponta Eduardo Guimarães, em Cidadania.com - leiam o post "A gota d´água", publicado no último dia 5 -, o jornal parecia não querer que o jornalista publicasse suas opiniões em outro espaço que não fosse em sua coluna dominical, fazendo culminar um processo de críticas mais apimentadas que Mário Magalhães vinha escrevendo. Adotando tal prática, a Folha de São Paulo atiça minhas cismas a respeito deste cargo e reforça minha convicção valorativa de que é melhor recusar-se a ficar quieto e arcar com os custos do que, para ser premiado, ter que fingir-se de morto.

Não tardou para que a solidariedade de outros jornalistas - há quem fale em espírito corporativo em um momento desses - ganhasse corpo, expondo idéias semelhantes as que defendo. No site do Luiz Carlos Azenha, tomei conhecimento do texto escrito por Hélio Sassen Paz sobre esta demissão - cujo teor endosso. Trechos inteiros deste texto soam familiares para mim; venho escarafunchando idéias similares desde que cunhei o bordão que dá nome a este blog. Por conta disso, fico pensando, metido a fazer análises que sou, quais serão os próximos passos que Mário Magalhães irá tomar agora. Defenderá impiedosamente a bandeira de que a Internet é o único território realmente isento que temos quando os tópicos são crítica e pluralidade de opiniões ? Investirá em termos próprios, como fez Paulo Henrique Amorim após sua "saída" do IG, ou outros antes dele que não quero listar aqui e agora ? E a blogosfera tupiniquim, tão envolvida em debates midiáticos - cof cof cof -, repercutirá o caso assaz prontamente ? Sei não, Tiagón e Gejfin, mas vocês deveriam convidar o Mário Magalhães para a Verbeat.

Comments (10)

Salve, Jorge! ;)

Em primeiríssimo lugar, teu blog é EXCELENTE. Leitura diária! :)

Em segundo lugar, MUITÍSSIMO GRATO pela citação do post que o AZENHA repercutiu do PALANQUE DO BLACKÃO. Pior é que eu acho que ele só repercutiu do jeito que repercutiu em função de ter sido publicado no DIA DO JORNALISTA.

Pra ser bem sincero, sequer havia pensado nisso, pois não sou jornalista e não tenho a obrigação de saber disso. Aliás, sou um publicitário desvirtuado que agora só quer saber de redes sociais, blogosfera e nada de agência: só ensino, pesquisa e extensão acadêmica. Então, não sei nem qual é o dia do publicitário... :P

Eu falo bastante sobre crítica da mídia e sobre jornalismo participativo com uma agenda diferente daquela da mídia corporativa hegemônica, o PIG.

Também tenho um blog sobre futebol, onde, quando tenho tempo, acompanho os campeonatos europeus porque o futebol brasileiro tá muito feio e sem graça. Sem perder o meu lado crítico e politizado, também dou meus pitacos a esse respeito falando sobre o meu GRÊMIO.

http://heliopaz.wordpress.com - PALANQUE DO BLACKÃO

http://blackao.wordpress.com - APITO DO BLACKÃO

LONGA VIDA À VERBEAT!!!

[]'s,
Hélio

salve, Jorge! assim: o nó é que jornalismo passou a ter 'lado', entende? e tá tudo tão descarado, que o lado 'vareia' conforme o gosto do freguês ou apenas não aparece. aí, pra expiar a culpa, 'sarta' o tal de ombudsman [quase homem-bunda pela sonoridade::: seria por acaso?].

joia, cara. aguardo.
merci.

JR:

pertinentes perguntas, larissa. vou encaminha-las para o proximo entrevistado deste blog. um sujeito q trabalha com mediawatching. vamos ver como ele se sai.

desculpa ai, me perdi nas virgulas. acento, nunca. ;)

meu caro vizinho,
posso te fazer uma perguntinha cretina? farei. farei.
de onde vem essa idéia, conceito, sei la, de imparcialidade da imprensa, no brasil? por que, o posicionamento é, ou passou a ser mau visto? de quando, onde, vem a idéia de que um veiculo pode ser imparcial??
(desculpa me atravessar. faz tempo que me perguntam isso - pq estudei 2 anos de jornal na vida e larguei tudo e não tenho resposta pra isso e nem nunca a encontrei. verdade que nunca procurei muito tb.
te agradeço!

deak e
tainã, a figura do ombudsman sempre me pareceu "oposição consentida", algo q eu sempre detestei em termos politicos. nao conheço o mario magalhaes, mas nao é de hj q pessoas q respeito falam bem do sujeito. so espero q ele esteja com a consciencia tranquila - e q nao caia na esparrela de "virar reporter especial" da folha apos este episodio. tremenda armadilha mesmo. e caso isso ocorra, é claro, analisaremos o caso por aqui. nao seria uma boa uma entrevista com ele ?


poli, vc me subestima. na verdade, valho mais do que tres experts.

Poli:

Tu es trés expert, Jorge Rocha.

Tainã:

Acho difícil que ele endosse as afirmações de que a internet independente é o único meio plural, tal qual PHA e seu coro contra o famigerado PIG. Mário Magalhães continuará na Folha como repórter especial, assim como o próprio Marcelo Beraba, depois de aposentar-se do ombudsmanato.

De qualquer forma, gostei das suas considerações. E a Folha perde mais do que ganha, na minha opinião de coisa alguma. Tive a oportunidade de freqüentar uma aula ministrada por ele na Folha, no ano passado, e virei admiradora.

É, meu velho. No caso dos jornais, tenho convicção de que o ombudsman não serve para melhorar o jornalismo (que jornalismo?), mas para fazer marketing (temos ombudman!). No entanto, acho que Mario Magalhaes era um dos melhores, e útil aos estudantes de jornalismo e aos pesquisadores, com suas colunas diárias. Mas certamente ele era bom "demais", ou seja: fazia críticas demais, e mexia em certas feridas - bem no meio delas.

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