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abril 2008 Archives

abril 1, 2008

Mentiras sinceras me interessam

A figura, história e mitologia acerca de Pinóquio sempre me fascinaram - de um modo parecido com o que ocorreu com Giorgio Manganelli. Como acontece todos os anos, fico esperando as obviedades associativas de 1º de abril com o boneco de madeira criado por Collodi. Mas hoje - ainda é o Dia da Mentira enquanto escrevo este post e respiro como Darth Vader - acompanhei uma pequena estratégia sagaz desta associação, por cortesia da agência de publicidade 5Clicks, localizada em Belo Horizonte - assim como eu; ahá ! A agência criou o perfil @pinoquio no Twitter, convidando twitteiros e twitteiras - ô termo desgraçado - a postar mentiras de proporções variadas ao longo do dia, concorrendo a prêmios. O resultado dos premiados será divulgado amanhã, dia 2 de abril - vocês acreditam nisso ? -, neste site, que reúne todas as mentiras apregoadas. A utilização de uma ferramenta como o Twitter para - *pigarreando* - promover interação é louvável e demonstra um tantinho a mais de perspicácia num mundinho onde a mediania assenta-se coroada. Por isso este blog-blefe destaca a iniciativa da 5Clicks. E, terrível simetria, foi no mínimo irônico ver esta ação ocorrer concomitantemente com a volta da campanha "Dedure um blogueiro"*, que utiliza-se do Twitter e é pilotada por este exucaveiracover que batuca estas teclas, onde meias-verdades e empulhação em geral são disparadas por agentes provocadores que aproveitam-se da situação para, vez ou outra, soltar alguns podres reais de alvos desavisados. Chico Science estava certo: me organizando eu posso desorganizar.

[*no twiiter, a tag da campanha é #dedureumblogueiro]

DÚVIDA FILOSÓFICA: Caminho natural: será que, após esta ação no Twitter, a 5Clicks vai investir em ARG para a(o?) InterMinas ?

abril 7, 2008

Atenção: percepção requer envolvimento

A vida é cheia de som é fúria. Pffdfff, tremenda falácia. A vida é feita de terríveis simetrias. Inflamado pelos posts de Gabriela Zago, Gilberto Pavoni Jr e Ana Maria Brambilla, eu andava batucando um esboço de apontamentos sobre Jornalismo Colaborativo, quando Cristine Delphino pediu que respondesse uma entrevista para sua monografia. Sobre ... Jornalismo Colaborativo, oras. Pensaram o que, filisteus ? Que eu iria dedurar (mais) blogueiros ? Da entrevista, destaco três perguntas, diretamente associadas com algumas de minhas inquietações:

Você acredita que conteúdos colaborativos podem substituir o jornalismo tradicional?

O que você chama de jornalismo tradicional ? Os jornais impressos buscaram um verniz diferente em sua produção textual quando "ameaçados" pela fetiche da velocidade informacional propalada pelos idiotas tecnológicos, estes crentes discípulos de Lévy. A televisão estratificou-se em regurgitações insossas em sua programação aberta e prostrações ao hollywood way of life na "tv paga". Rádio ? Mais do mesmo. A Internet suplantou as velhas mídias ou estas iriam acabar mesmo em um "processo de estupidificação", independente da entrada da tecnologia de comunicação não-massiva no cenário midiático ? Trabalho com a idéia fixa de recombinação, nunca suplantação ou substituição. Se você preferir, posso dizer que os conteúdos colaborativos podem suplementar as práticas do jornalismo tradicional. Isso significa que as práticas colaborativas não precisam estar atreladas às corporações jornalísticas - portais, por exemplo - para terem relevância. E é preciso sempre bater nesta tecla aqui no Brasil. Penso que o Jornalismo Colaborativo - assim como toda e qualquer social media - pode incrementar qualitativamente a comunicação, a forma de pensar e relacionar-se com a informação. Acredito também que o pensamento webjornalístico, compreendendo sua função ligada à cartografia de informação e modos de interação, necessita ainda contemplar questões referentes às novas configurações do espaço público observadas com o advento das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação para um desempenho adequado de sua função.

Quais são as maiores dificuldades encontradas no jornalismo colaborativo?

Primeiro problema: fugir da afirmação falaciosa de que o Jornalismo Colaborativo vai acabar com o papel do jornalista diplomado. Torna-se quase impossível não ouvir esta afirmação - ou variações desta, mas com o mesmo teor - quando se fala em Jornalismo Colaborativo. Particularmente encontro-me enfadado em repetir que tal prática jornalística não prescinde dos jornalistas diplomados - eu sou um deles, ora bolas -, mas sim pensa em integrá-los a um processo interacional, que pode enriquecer as rotinas produtivas jornalísticas. Desde que estes jornalistas - ou as empresas para qual trabalham - estejam dispostos a realizar alterações/adaptações em seu modus operandi. E é nesse exato ponto que tudo começa a degringolar. Segundo problema: os portais brasileiros apenas dizem abrir espaço para Jornalismo Colaborativo quando não o praticam de fato. Adaptam práticas colaborativas neste ou naquele espaço, moldando-o como mais um fator agregador ao seu modelo de negócios. Complementando este cenário, não temos hoje, no Brasil, uma audiência "acostumada" a lidar com práticas colaborativas - embora minhas análises me façam pensar que ainda estamos "construindo" essa audiência. Junte estes dois pontos - e estou referindo-me "apenas" ao Brasil - e temos um certo campo de batalha em que o Jornalismo Colaborativo prefere combater com as armas da conversação e investidas hiperlocais.

Como você vê o jornalismo colaborativo daqui a cinco anos?

Não sou um futurist-in-residence como Michael Rogers, mas daqui do meu terreiro hipermidiático esboço dois cenários possíveis, ao menos para o Brasil. Se o Jornalismo Colaborativo continuar sendo tratado como mero fator agregador em uma cadeia de modelo de negócios, prática comum em portais, que distorcem e subjugam sua rotina produtiva - de caráter relacional e interpessoal -, então possivelmente os prognósticos que se podem captar a partir do relatório The State of News Media 2008 serão confirmados. Ou seja, teremos um decréscimo na produção colaborativa - mas um decréscimo no "campo de atuação" dos jornalões, é bom ressaltar. Poderia-se perguntar nesse caso: "o Jornalismo Colaborativo não ´é atraente´ ou ´possível de realmente ser implementado ?´". Uma resposta plausível para agora mesmo: portais não implementam Jornalismo Colaborativo. Ponto. Caminhando para outra direção, podemos conjecturar: e se a idéia de que o Jornalismo Colaborativo não pode ou deve ser atrelado à corporações para - aham - ganhar notoriedade encontrar terreno fértil no imaginário comunicacional interacional brasileiro ? A resposta não é tão óbvia assim quanto possa soar. Para realizar-se, é claro, este cenário depende também - não vou aqui e nesse momento quantificar isso - da atuação dos players envolvidos com o Jornalismo Colaborativo para constituir redes e explicitar - preferencialmente de maneira prática - de que a estratégia hiperlocal constitui-se algo de valor exeqüível e imprescindível. E com isso me dou conta que estou bancando Morpheus, oferecendo a Neo a escolha entre a pílula vermelha e a azul. Gosto disso.

Réquiem para um ombudsman

Confesso que, desde sempre, olhei de soslaio para o cargo de ombudsman. Fico cismado com reclamação ou oposição consentida, pois não me sinto confortável com "espaço permitido, demarcado e controlado" para críticas, apontamento de falhas e - por que não ? - vitupérios públicos. Mas não deixo de considerar e admirar quem tem culhão para aceitar esta função. Do mesmo modo, fico aborrecido - para dizer o mínimo - quando um profissional é demitido desta função por resolver esgarçar um tantinho a mais as pregas dos limites impostos para o exercício da crítica ponderada e argumentativa - esta sim, valorizada por este exucaveiracover. A demissão do ombudsman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães - que ocupava o cargo desde abril do ano passado, no lugar de Marcelo Beraba -, causou-me esgares pelo simples fato de que a liberdade consentida transfigurou-se em armadilha para ursos. Conforme aponta Eduardo Guimarães, em Cidadania.com - leiam o post "A gota d´água", publicado no último dia 5 -, o jornal parecia não querer que o jornalista publicasse suas opiniões em outro espaço que não fosse em sua coluna dominical, fazendo culminar um processo de críticas mais apimentadas que Mário Magalhães vinha escrevendo. Adotando tal prática, a Folha de São Paulo atiça minhas cismas a respeito deste cargo e reforça minha convicção valorativa de que é melhor recusar-se a ficar quieto e arcar com os custos do que, para ser premiado, ter que fingir-se de morto.

Não tardou para que a solidariedade de outros jornalistas - há quem fale em espírito corporativo em um momento desses - ganhasse corpo, expondo idéias semelhantes as que defendo. No site do Luiz Carlos Azenha, tomei conhecimento do texto escrito por Hélio Sassen Paz sobre esta demissão - cujo teor endosso. Trechos inteiros deste texto soam familiares para mim; venho escarafunchando idéias similares desde que cunhei o bordão que dá nome a este blog. Por conta disso, fico pensando, metido a fazer análises que sou, quais serão os próximos passos que Mário Magalhães irá tomar agora. Defenderá impiedosamente a bandeira de que a Internet é o único território realmente isento que temos quando os tópicos são crítica e pluralidade de opiniões ? Investirá em termos próprios, como fez Paulo Henrique Amorim após sua "saída" do IG, ou outros antes dele que não quero listar aqui e agora ? E a blogosfera tupiniquim, tão envolvida em debates midiáticos - cof cof cof -, repercutirá o caso assaz prontamente ? Sei não, Tiagón e Gejfin, mas vocês deveriam convidar o Mário Magalhães para a Verbeat.

abril 23, 2008

Siga o coelho branco

Em A arte da guerra, Sun Tzu escreveu: "Uma vez que não tens forma perceptível, não deixas pegadas que possam ser seguidas, os informadores não encontram nenhuma fresta por onde olhar e os que estão a cargo da planificação não podem estabelecer nenhum plano realizável". A poeta belo-horizontina Ana Elisa Ribeiro brinca com a idéia de deixar ou não pistas em seu novo livro, adequadamente batizado como Fresta por onde olhar. Terceira obra poética da autora - anteriormente publicou Perversa (Ciência do Acidente, 2002) e Poesinha (Coleção Poesia Orbital, 1997) -, Fresta por onde olhar reúne poemas que foram cuidadosamente burilados e amadurecidos, tanto em eventos literários quanto em conversas e vivências. O resultado é notado nos 40 poemas que compõem o livro: peças que denotam o vigor artístico de quem sabe esgrimar com as palavras, fazer as sentenças contorcerem-se ante uma compulsão de fina ironia e, finalmente, sucumbirem diante de nossos olhos incautos.

O poeta Fabrício Marques, que assina o prefácio de Fresta por onde olhar, faz uma cartografia do modo poético da autora. Em suas palavras, traça que "a respeito das ´obsessões´de Ana Elisa Ribeiro - as relações amorosas, a própria poesia, um eu lírico tentando definir-se -, pode-se dizer que a poeta as desdenha com muita ironia e humor, ora inclinando-se para o erotismo, ora para o lirismo, ora para uma coloquialidade sem-vergonha, ora para tudo isso ao mesmo tempo". E eis que temos algumas pistas a respeito de onde a poesia de Ana Elisa Ribeiro costuma andar.

Fresta por onde olhar é ainda uma obra plenamente autoral, imbuída de espírito self made, o que faz com seja alvo de maior apreço por parte da poeta. Para lançar este livro, a autora criou um selo próprio, chamado InterDitado, e controlou todas as etapas de produção, da elaboração conceitual até a impressão gráfica. Por tudo isso, as pistas que Fresta por onde olhar lança ao leitor podem conduzi-lo a inúmeras portas. O que pode e deve ser natural à poesia.

[anotem na agenda. o lançamento em BH acontecerá no próximo dia 26, no Café com Letras, a partir das 11h. em SP, no dia 6 de maio, na mercearia s. pedro, às 19h]

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