Entrevista: Rogério Christofoletti

[entrevistador convidado: Gilberto Pavoni Jr]
Gilberto Pavoni Jr - Se a indústria jornalística é um produto da Revolução Industrial e de uma máquina (a prensa, aquele tear de letrinhas) e esse fenômeno social-econômico tem só dois séculos na história da humanidade, por que se deve acreditar que ela não está defendendo seus interesses do capital quando fala que a forma de comunicação que ela produz em economia de escala é a única útil para a sociedade?
Rogério Christofoletti - A indústria jornalística defende seus interesses sim quando advoga a utilidade do jornalismo para a sociedade. No entanto, não é só isso que está na mesa. O conhecimento é útil e necessário para o homem. A informação também. Informação e conhecimento não são a mesma coisa, mas ambos são altamente necessários não apenas para alguma sobrevivência dos humanos como também para sua própria reinvenção. É claro que o jornalismo não é a única fonte geradora e difusora de Conhecimento e Informação, mas não se pode negar que ele tenha - nesses poucos séculos - assumido relevância para a nossa vida em comunidade. Isto é, o jornalismo - de alguma forma - conseguiu criar um espaço para si na vida social, e hoje imaginar a vida contemporânea sem ele é muito complicado. O jornalismo não é um mal necessário. Há bom e há mau jornalismo. Assim como há boa e má medicina. O raciocínio da pergunta poderia ser estendido, por exemplo, à indústria de fármacos, às cooperativas de saúde, aos conglomerados médico-hospitalares...
Jorge Rocha - Você deve estar acompanhando o Luiz Nassif contra a Veja. Para nos atermos ao mínimo, o que Nassif está fazendo é duma puta relevância histórica, porque ninguém antes dava nome aos bois. Não acha que está faltando um tanto de repercussão por parte da - valha o termo - blogosfera? Conversando sobre isso com algumas pessoas durante o Campus Party, uma figura me disse: "se não tem 'espetáculo', então não faz eco". Usando linguagem de empreendedor, te pergunto: essa é a receita do sucesso ?*
RC - Tenho acompanhado sim o caso do Nassif. E gostado de ver ele dando o nome aos bois. É importante, é histórico, é necessário. Sinceramente, não monitorei a blogosfera nesse caso, e não saberia dizer se houve pouca repercussão. Na verdade, me ative a ler o Nassif e ver alguma coisa em sites e portais, como o Observatório da Imprensa, por exemplo. De qualquer forma, acho que um nicho bem delimitado da blogosfera - quem é do jornalismo ou quem muito discute isso - deve repercutir e não propriamente A blogosfera... Mas retornando à questão principal, penso que há alguma razão no comentário que você colheu na Campus Party. Alguma. Eu ainda acho que a blogosfera não é uma sopa homogênea, um creme. É heterogênea, e comporta muitíssimas coisas. Inclusive bobagens e espetaculices. Não sei se essa é a receita do sucesso. Mas posso dar um testemunho muito pessoal. Acompanho diariamente as estatísticas de meu blog e, volta e meia, percebo uma enxurrada de cliques num determinado post que deixei por lá há meses. O post se refere a imagens de acidentes na internet. (Aliás, ao dizer isso aqui, aposto que muita gente vai lá conferir... ). Observo mais atentamente às estatísticas e vejo que muita gente chegou ao blog porque buscava expressões como "fotos de tragédia", "acidentes e corpos", etc... Se o prezado leitor se mantém lendo estas linhas e ainda não foi ao meu blog conferir esse tal post, certamente não se frustrou. Afinal, no alardeado post, eu condeno essa prática nefasta, e chego a discutir com um leitor que se diz proprietário de um site que faz este tipo de serviço. "Para educar as pessoas que o trânsito mata". Ora, faça-me o favor! Bom, mas o que posso concluir com isso? Concluo que tem muita gente que busca na internet o que não vê por aí, mas cuja mente procura avidamente. Seja sensacionalismo, pornografia, excentricidades, bizarrices, etc... Isso tudo ainda chama muito a atenção. Não acho que seja a fórmula do sucesso, mas ainda tem um brilho cegante para muitos...
GPJ - Se 20% da população acessa a Internet e só em 2007 houve a entrada nesse mercado das classes C e D; se os telecentros costumam exigir que os usuários gastem 45% do tempo em afazeres "proveitosos" como aulas e envio de currículos (somente 15% no Messenger ou Orkut); estão certos os que acham que a tal (autoproclamada, diga-se de passagem) blogosfera ativa é apenas a elite social brasileira representada na rede? Se isso for um fenômeno verdadeiro, quais os erros de análise e medição de mercado que pode acarretar?
RC - Não sei responder a isso. Sabe por quê? Porque não tenho pesquisa na área. Não tenho números, e se tem uma coisa que a gente vê por aí é chute sobre números da internet. Eu não acho que haja apenas uma elite, mas isso é um achismo, e pouco importa essa minha opinião...
JR - Ana Maria Brambilla disse recentemente, no Libellus, que "o vazio de ser blogueiro é uma condenação a qualquer sujeito (às vezes, até jornalistas!) que pratica a metablogagem". Ou seja, deu no saco uma certa exarcebação egóica de umbigosfera, cartões de pessoas cool e nhenhenhéns sobre jornalistas versus blogueiros. E o que realmente me incomoda é a moçadinha conectada se comprazendo em louvar o inócuo. Demora ainda para cair a ficha que a contraposição é redes sociais x espetacularização ?
RC - Não sei se demora. Mas eu quero assistir a esse confronto sim... só intuo que ele não seja nada parecido com o que já assistimos...
GPJ - Por que as faculdades formam operários da comunicação e não CEOs de empresas de mídia?
RC - Pelo mesmo motivo que as escolas de medicina formam médicos e não gestores. Elas formam Gregory House e não Liza Cudy. Os cursos de comunicação, como outros, se concentram na formação de mão de obra para atender às demandas do mercado. Agora, acho que os novos tempos estão empurrando o carro para outra direção. Veja o caso dos blogs. Com eles, temos que não apenas abastecer com informação, mas gerenciar a coisa em si... Eu penso que as escolas deverão se render a oferecer uma formação que contemple noções que possam auxiliar na gestão de veículos de mídia...
GPJ - Se a mídia é o quarto poder e as manchetes diárias mostram corrupção e desmandos nos outros três tradicionais poderes, deve o consumidor de produtos de jornalismo acreditar que a quarta ponta desse quadrado é impoluta só porque é delatora desses desmandos?
RC - Não, não deve. Há alguns anos, Ignácio Ramonet publicou um texto em que clama por um Quinto Poder, um contrapoder que possa ocupar a lacuna deixada pela mídia. A tese é simples: se a mídia já não é mais confiável, ela também precisa ser observada. E quem deve fazê-lo é o público. Ora, essa é a filosofia que sustenta o ofício dos media watchers, como o Observatório da Imprensa ou do Monitor de Mídia. Há autores norte-americanos que têm livros sendo vendidos na Amazon que defendem que a blogosfera deva se colocar como esse quinto poder. Acho que ela - ao menos no Brasil - ainda não funciona assim. Mas quem garante que ela não venha ajudar a fazer esse acompanhamento, que não é apenas oferecer a crítica, mas sinalizar erros, denunciar desequilíbrios, cobrar balanceamento, etc.
GPJ - Se a notícia é o insumo básico dos produtos que a indústria jornalística põe no mercado, mas em sua forma bruta, o factual, ele pode ser coletado, distribuído e precificado por qualquer pessoa ou empresa sem que ele perca qualidade ou agilidade (considerando-se a popularização de novos meios de captura e transmissão de informações: celular, por exemplo), que outros tipos de valor agregado essa indústria pode acrescentar ao insumo para ganhar competitividade?
RC - Credibilidade. Quero fazer apenas um exercício de futurologia, que é meio besta porque é super óbvio: o que vai distinguir o joio do trigo no meio desse matagal informacional todos é credibilidade. Como chegar a isso? Como definir os parâmetros para isso? É uma das minhas reais preocupações e objeto de pesquisa ultimamente.
* Recentemente alguns blogs - poucos, bem poucos - incorporaram google bomb, linkando a palavra "Veja" ao site de Luiz Nassif.
[nota comportamental: por um motivo completamente bisonho que eu desconheço, não envei duas perguntas que havia preparado. estas ficam para a próxima. estou mesmo ficando velho.]

