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Apenas surubim

Discussões sobre a natureza da suruba, no meio do melelê, em pleno confessionário. Uma pesquisadora da importância de orgias turbinadas por psicotrópicos que se torna habitat para 12.625 demoniozinhos da high society dos infernos. Uma freira em processo de auto-contenção de neurose e que foi hostess dum clube de BDSM. Acabei de descrever a tua idéia de felicidade plena na Terra ? Então você está devidamente convocado - pela otoridade que me cabe nesta coluna - a intumescer sua visão com "Apenas surubim", filme dirigido e co-roteirizado por Carlos Aníbal Ossomani, um temerário cafajeste apreciador de infâmias, cerveja preta com ovo de codorna e imagens de garotas com metralhadoras. Não me perguntem qual é a relação, faz favor.

A bagaça, que está em fase final de filmagem, é uma livre versão de "O Exorcista" - se foi ou não autorizada a equipe de reportagem não sabe e, na verdade, está cagando e andando a respeito desta informação; top top procês. O que quer que essa refilmagem pretenda passar pode assim ser sintetizado: uma dúvida filosófica a respeito da quantidade de pessoas necessárias para começar uma suruba faz com que um padre, acometido de priapismo, convoque uma consultora sobre o assunto. À medida em que ela vai se envolvendo com os assuntos da Igreja, começa a chamar a atenção de um clube de espíritos demoníacos, cujos integrantes estão planejando onde irão passar as férias. Os mefistofelizildos - que não são bobos nem nada; bando de sacanetas babões - escolhem logo o corpinho da pesquisadora como estância de lazer. E vão chegando, se acomodando e gritando "peladinho, peladão, todo mundo nu". Até que o padreco, travado pelos efeitos adversos do priapismo, resolve acabar com todo aquele furdunço e convoca os exorcistas. Saravá !

- Capaz do Christopher Walken fazer uma ponta, como um dos demônios exorcizados, é claro. E eu tô querendo colocar o Pereio como um dos exorcistas. Ou o Mário Bortolotto. Ou até você mesmo, cabrón. - explica o diretor.

Mas whoddafucka is Carlos Aníbal Ossomani ? E por que ele quer meter o autor deste texto nessa estória ? Se o primeiro parágrafo te deixou sem sacar qual é a desse sujeito, então acompanhar as filmagens ou as idéias dele para "Apenas surubim" vai te deixar ainda mais de olhos esbugalhados. Osso - como a equipe de roteiristas o chama - é um destes diretores que grita "gravando !" e depois resmunga "essa merda !" ou "essa porra !". Em seguida, pode enfiar o dedo no ouvido de quem estiver mais perto, fazer barulhos inomináveis com a boca ou simplesmente jogar o que estiver à mão nos atores, caso não esteja gostando da interpretação. Também é capaz de sair abraçando e beijando todo o elenco, caso uma cena tenha saído exatamente como ele queria. Nesses casos, as cenas costumam ser as mais trash possíveis.

Foi exatamente esta demonstração de afeto descabido que a equipe de reportagem presenciou, no momento da gravação de uma "cena de metalinguagem" - termo usado insistentemente por Ossomani para convencer-nos a assistir esses takes. A tal cena parte de um dos pontos focais do filme: a suruba realizada no confessionário, onde três pessoas se enfiam - eita conotação ! - naquela casinhola para começar as safardanices. É possível ouvir, num crescendo, o coro dos belzebus taradões: "suruba ! suruba ! suruba !". Até que um deles, sempre em off, pergunta: "peraí, três pessoas já é suruba ?". A câmera se desloca para um casal em seu lar doce lar. Ela, uma das roteiristas do filme, está confabulando com a equipe em um destes programas de conversação. Sem tirar os olhos do computador, pergunta para o marido, que está arrumando discos numa prateleira: "tutti-frutti, três pessoas já é suruba ?". Sem tirar os olhos dos discos, o marido responde: "não inventa, pô !".

As cenas tiveram o tom desejado pelo diretor já no primeiro take. Assim que a parte do casal foi finalizada, Ossomani deu duas cambalhotas e saiu pulando em direção aos atores, gritando "suruba, surubão, surubim". Agarrado ao casal, anunciou que haveria uma pausa de dez minutos e em seguida, filmariam a cena onde mais pessoas entram no confessionário para participar da suruba. Os atores desta parte - um casal de corretores de seguro, uma ponygirl, dois bombeiros e quatro sósias da Aldine Muller quando jovem - repassavam suas falas (??!!) ali por perto. Era a deixa para que saíssemos dali, ainda sem seqüelas.

Depois de sair da nuvem atordoante do set de filmagem, uma constatação: faltava ainda algum ponto chave para compreender porque pessoas como Carlos Aníbal Ossomani cometem atos deste tipo. Nem careceu voltar para dirimir - eita, Rocha, você tá chato hoje, hein ! - a dúvida. A resposta, bem ao gosto da metalinguagem apreciada pelo diretor, veio de um grito de um dos atores participantes da cena da suruba no confessionário:

- É a putaquepariuzação da sociedade que faz isso ! Ahhhhhh !!!


[publicado originalmente aqui]

Comments (1)

"Putaquepariuzação", falou e disse. Tudo.

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