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Um conto de fim de ano

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ESPERANDO AMOR NO MATADOURO

Você dança com os pés para trás.

Sussurrando no ouvido. Perninhas bambeiam. Ela cospe na minha cara, pelo destrato. Orquestra finge desdém. Volto para a mesa. Três lugares sobrando. Eu embaixo da luz. Vontade de deixar cabeça espremida entre as pernas. Os bagos apertados.

[... livrai-nos do fogo do inferno ...]

No banheiro, coço o couro cabeludo. Por causa da seborréia. Duas ou três considerações. Outras tantas perguntas. Fisioterapia ajuda, mas ela ainda manca. Puxa de uma das pernas arqueadas. Como se pretendesse rastejar. Sem disfarce. Encarar a sociedade: como ? Máquina de moer carne.

Menos um lugar desocupado na mesa. Ela. Toda sestrosa. Batendo pezinho como se marcasse compasso. Barulhinho de cnemoscoliose. Perninhas que lembram quelíceras. Ficam assim: tarântulas na minha cabeça.

Lembrando outra tarde:

Lataria compactada abaixo do cóccix. Ela. Entrevada ? Descarte. Transubstanciação: passando de ferragens para ferrolhos. Como aquelas imagens de soldados gregos dos livros. Protegendo as pernas com metal. Encontrei o nome dado à essas plaquetas. No estupor de cachacinha com formaldeído que passei a beber. Cnêmide.

Chorei três dias e três noites. Fiquei seco depois.

Agora cantam um tango. Ela. Olhando para mim. Quase ganindo súplica. Disfarço virando um copo para dentro da garganta. Cachacinha misturada no guaraná. Buliçosa no estômago: são as pás de Deus trabalhando.

Sambinha. Marchinha. A pedidos, valsa. Ela. Tirando copo das minhas mãos. Benção ?

[... levai as almas todas para o céu ...]

Girando. Girando. Girando. Dois pra cá, fundo. Dois pra lá, raso.

Cantinho mais escuro do salão. Mãos seguram o rosto. Espera um beijo. Ela. Pescoço estala araminho. Torcido duas vezes. Para um lado e para o outro. Uma negativa. Não deixo cair. Na cadência permanecemos atados: segurando cinturinha. Eu. Parasita de invertebrado. Carinho morfina. Fazendo cafuné naqueles cabelos amarelos de boneca, descubro novidade de anjo. Seborréia.
Estremeço.

[... socorrei principalmente aqueles que mais precisarem ...]

A felicidade é um espasmo.


ilustração: Flávio.

Comments (1)

Um conto excelente. Muito bem escrito, criativo e com uma ótima dose de bom-humor. Grande abraço!

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