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setembro 17, 2007

Entrevista: José Antonio Meira da Rocha


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Se eu visse minha vida passar na minha frente como um filme, seria isso (sem os momentos mais constrangedores): José Antonio Meira da Rocha é professor de jornalismo no IPA Metodista (Porto Alegre). Especialista em Informática na Educação, Mestre em Mídias, já foi editor de arte nos diários Zero Hora e Jornal do Comércio. Viciado em computadores desde 1988, mantém um site sobre mídias digitais.”

Lamentamos a carência e um "capenguismo" jornalístico - isso na mídia tradicional - em relação ao uso de ambientes digitais informacionais. E agora você vem com o uso jornalístico do Google Earth! Quer despirocar de vez a cabeça da rapaziada ?

Huahuahuahua! O melhor é que a coisa vicia. É meio voyerismo digital globalizado . Não é à toa que a empresa criadora do Earth se chamava Keyhole, buraco de fechadura. Como a raiz do jornalismo é a necessidade do ser humano por fofoca e picuinhas da vida dos outros, nada mais lógico que juntar as duas coisas. Embora o grande hype de ambientes tridimensionais hoje seja o Second Life (mais por marqueteiros que por jornalistas), vejo o Google Earth (GE) como tendo possibilidades jornalísticas muito mais consistentes. Costumo fazer uma comparação: Google Earth é o retrato retocado da realidade sócio-geográfica. Então é jornalismo. Second Life são personagens de mentira num ambiente tridimensional de mentira . Então é ficção, literatura. Vejamos um exemplo: se acontece um acidente de avião, é possível fazer um mashup (maquete) no GE com as rotas, com aerovias corretas consultadas no NASA World Wind. Pode-se inserir modelos de aviões convertidos do MS Fligh Simulator, colocar fotos, prédios, vídeos do You Tube, links para diversas fontes. Isso tudo enriquece tremendamente uma narrativa jornalística. Um site web com a notícia textual pode terminar com um link para um arquivo KML do GE com toda a maquete. Neste caso, como o Second Life (SL) poderia enriquecer a matéria? Por isso vejo essa onda toda em torno do Second Life como uma bolha imobiliária digital. Não que não tenha alguma utilidade. O professor da PUCRS, André Pase, por exemplo, usa o SL para simulações de entrevistas coletivas. É um uso criativo. Mas como simulador, não como mídia para difusão jornalística.

UOL toma barriga na cobertura na "área colaborativa" do acidente da TAM, Estadão achincalha blogosfera e Folha de São Paulo abre espaço para comentários – em algumas notícias. Isso aí é desespero ou você consegue dar outro nome?

A imprensa estabelecida sempre andou atrás da internet. Nos idos de 1995, quando a coisa começou no Brasil publicamente, eu ainda comprava avidamente revistas sobre internet. Aí comecei a ver que as revistas fazem matérias que levam até três meses para serem publicadas, da pauta ao produto impresso. E quando a pauta foi criada, o fato já estava rolando há seis meses ou mais, na rede. Então, a imprensa está sempre atrasadíssima em relação ao que acontece na internet. Os jornais são mais ágeis, mas também estão atrasados. O resultado é que deixei de comprar revistas e jornais. Se eu estou vivendo os fatos na hora, em listas de discussão, na Web, me informando por RSS, não preciso de versões desatualizadas sobre o fato. Como seria de se esperar, em geral os grandes veículos de imprensa têm uma estrutura burocrática que os impede de tomar decisões ágeis. Quando um repórter consegue convencer o editor, e o editor consegue convencer o editor-chefe, e o editor-chefe consegue convencer o diretor, o fato já envelheceu. Para se ter uma idéia, o primeiro jornal a ter um editor de colaboradores é do interior de São Paulo, não da capital. Nem valorizar o estagiário da seção de cartas a imprensa mofada conseguiu fazer...

Google Earth, Jornalismo Colaborativo, metaversos, mídias móveis ... Você nunca se perguntou se há mesmo quem produza tanto assim ? E se há realmente quem consuma tanta informação ?

É a pergunta que não deve se calar! :) Produzir, há sempre gente produzindo e copiando coisas. A medida disto é a quantidade de memória produzida anualmente pela indústria (HDs, memórias flash etc.). Cada vez se produz mais informações. Cada serviço do Google ocupa "fazendas digitais" com centenas de milhares de PCs. A capacidade supera dezenas de terabytes. Seja lá o que for um terabyte, é muito. Mas são informações vendáveis? Dificilmente. Só uma fração poderia ser transformada em material jornalístico. Meu ditado preferido, aplicável à vida em geral, é: noventa por cento de tudo é uma merda. Em matéria de matérias jornalísticas, os dez por cento que sobram têm a concorrência de milhões de pessoas, mas é um público consumidor fragmentado, interesses diversos. A grande questão é como capitalizar isso (ou monetizar, que é o termo blogueiro da moda). A gurizada que faz blogs "monetizados" consegue ganhar um ou dois mil reais por mês. E são poucos. Isso não sustenta uma empresa, embora possa sustentar um pós-adolescente solteiro. Ao fim e ao cabo, o que vai determinar o futuro do jornalismo é a capacidade de ganhar dinheiro (que afinal, foi o que incentivou Gutemberg a desenvolver a imprensa em seu empreendimento Fábrica de Livros, fazer dois empréstimos com um banqueiro, perder sua empresa para o banqueiro, e tal). E isto está em cheque. Principalmente por conta do novo modelo publicitário tipo Google Adsense. A grande imprensa, em papel ou eletrônica, gasta rios de dinheiro e repassa isso para os anunciantes, que repassam isso para os produtos. Embutido em qualquer produto, estão de 5% a 10% de publicidade. É um modelo espalha-chumbo, porque o dinheiro rola mesmo se o leitor não ler o anúncio. O leitor que leu o anúncio e comprou o produto está pagando pelos que não leram. O modelo AdSense mudou isso, porque só paga o anúncio se ele surtir efeito. Isso dá à publicidade uma eficiência maior, e pode efetivamente diminuir os investimentos em publicidade, diminuindo também o preço dos produtos. Todos sairiam ganhando, menos a imprensa tradicional, que se formou num modelo de desperdício de recursos.

O ambiente acadêmico está mesmo preparado e preparando os estudantes universitários para lidar com a comunicação digital ?

Algumas instituições, sim, como a sua (hehe). Mas isso depende quase que unicamente dos professores porque as Universidades também são paquidérmicas como as empresas e demoram a se adaptar às situações. O problema é que talvez falte proatividade (Falei! Falei! Pode me matar!) dos professores e maior compreensão da rede. Isso só se consegue freqüentando a rede, listas de discussão, lendo a Web, RSS. Pelo que eu leio dos estudantes, são poucos professores que têm essa desenvoltura. Até mesmo algumas instituições que tomam a dianteira o fazem de maneira equivocada. Só para dar uma idéia, tem uma aqui no Sul que montou um curso de Comunicação Digital e sequer alugou um servidor Web para os alunos praticarem. Algo que custa hoje apenas 80 reais por mês, imagine! E oitenta por cento dos professores não tinham capacitação em mídias digitais, estavam ali apenas para emprestar seu título de doutor.

Vamos brincar de Frankenstein: monte o webjornalista ideal para você.

A pessoa deveria saber:
1.Ler muito, inclusive em inglês.
2.Escrever bastante.
3.Pesquisar na internet e relacionar as informações encontradas.
4.Operar planilhas e editores de texto.
5.Operar programas de email e messengers.
6.Participar de diversos fóruns e listas de discussão.
7.Fotografar, manipular as fotos em programas específicos, distribuir as fotos em fotologs.
8.Fazer e editar vídeos em celular ou câmeras domésticas, publicar e embutir estes vídeos em páginas Web.
9.Gravar entrevistas com seu MP3 player ou celular.
10.Editar áudio digital e fazer podcast.
11.Contratar e instalar serviços em hospedagem internet (CMS, blogs, sistemas de workgroup, fóruns, galerias de fotos).
12.Gerenciar um sistema gerenciador de conteúdo (CMS), blog, fórum.
13.Conhecer HTML o suficiente para fazer links ou modificar templates e skins.
14.Usar sistemas de anúncios tipo AdSense.
15.Assinar e gerenciar uma enorme lista de feeds RSS sobre sua especialidade.
16.Trocar arquivos em sistemas peer-to-peer ou de troca de grandes arquivos.
17.Fazer mashups, mapas e modelos 3D com Google Maps, Google Earth e Google SketchUp.
18.Gerenciar, com diplomacia, comunidades de leitores.
19.Resolver pepinos e abacaxis em seu computador.
20.Estar sempre antenado com as tendências das mídias digitais.
Só isso. É pedir demais? :)

setembro 13, 2007

Entrevista: André Deak


andredeak.jpg

Mini-autobiografia: "André Deak se tivesse estudado teria sido outra coisa, mas é jornalista há quase dez anos e na maior parte desse tempo escreveu para mídias digitais. Participou do Coletivo EmCrise, experiência online de produção jornalística independente. Foi co-organizador do livro Vozes da Democracia, do Intervozes, organização civil que batalha pelo direito à comunicação. Anos depois de ter trabalhado no Último Segundo e ter jurado jamais voltar para o jornalismo de tempo real, foi trabalhar com jornalismo de tempo real na Agência Brasil, onde está desde 2004 e hoje é editor executivo multimídia. Trabalhou no projeto de deschapa-branquização da agência, que atualmente é reconhecida como veículo público de notícias apartidário. Tem coordenado, recentemente, os projetos multimídia do site, incluindo aí experiências com hipervídeo, documentários interativos e multilinguagens, seja lá o que isso signifique. Criou um blog esse ano sobre jornalismo online e tenta mantê-lo atualizado diariamente, o que é absolutamente impossível. Mas vale a visita"

Em um artigo publicado no Observatário da Imprensa, você fala sobre a utilização de um sentido informacional hipermidiático aplicado ao jornalismo e cita, como potencial exemplo, o Second Life. Mas, seguindo o senso comum, metaversos são vistos - com mais força recentemente - como modelos hype de negócios ou ambientes de exacerbação de futilidade on-line. Você acredita mesmo numa concatenação "convergência digital + espaço público midiatizado + pensamento prático jornalístico" ?

Supondo que ambientes de metaverso como o Second Life são "espaços 3D virtuais totalmente imersivos", como conceitua o José Murilo Junior, as possibilidades para o jornalismo são várias. A educaçãoo, há muito, tem testado a efetividade de jogos educativos interativos no computador (é verdade que na maioria chatos, pelo que me lembro do que vi nos anos 80 e início dos 90: ajude a escova a chegar no dente, essas coisas). A evolução mais recente dos jogos os torna experiências cada vez mais interessantes. Muitos já descobriram nos video-games ferramentas poderosas para contar histórias - veja o caso do Hezbollah, ue desenvolveu um jogo de guerra em primeira pessoa (ao estilo Counter Strike) para mostrar como foram as batalhas contra Israel, do ponto de vista deles. O jornalismo poderia, portanto, se apropriar da interatividade desenvolvida nas últimas duas décadas pelos video-games para contar histórias, especialmente aquelas que possam envolver algum tipo de imersão. Como funciona o lobby no Congresso? Você poderia entrar num ambiente virtual do Congresso e verificar o lobby sendo feito. Por que não entrar nos gabinetes virtuais e conversar com os avatares de deputados e senadores reais? E quem sabe ter a resposta dos próprios parlamentares, aliás. Mas não só isso: visitas a museus, a batalhas históricas, a cenários dos mais diversos. As possibilidades são infinitas. Claro, isso não será para hoje nem para amanhã - algumas experiências dessas no campo do jornalismo já existirem. Mas poderá ser desenvolvido à medida em que as ferramentas de criação de ambientes virtuais se tornem mais acessíveis.

O bom e velho jornalismo está morrendo. Você é muito gentil com carcaças nauseabundas. Na verdade, o jornalismo morreu. Forma, prática, credibilidade, trato com a informação ... a lista é grande. Ou você acha possível algo como um zombie journalism ?

Taí. Eu chamaria muito do que existe hoje de zombie journalism. Noventa por cento dos que saem das faculdades de jornalismo são zumbis, que se encontram depois com os outros zumbis que infestam as redações. Fazem o que sempre fizeram, sem questionar o modelo, sem sequer entendê-lo. Mesmo o conceito mercadológico que move o jornalismo comercial não é compreendido pelos repórteres que entram lá e apertam parafusos todos os dias. Há um livro ótimo, O Jornalista e o Assassino, de Janet Malcom, que vale citar: "Todo jornalista que não é muito estúpido ou cheio de si para perceber o que acontece no mundo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável". O contexto não é bem esse que estamos falando - é um livro sobre ética -, mas a frase é boa. Com uma forma antiga, uma prática deteriorada (quando não desonesta mesmo), credibilidade próxima à dos políticos e dos advogados, vivemos de fato tempos de zombie journalism. Quando digo que o bom e velho jornalismo está morrendo, é uma provocação, especialmente aos praticantes do velho jornalismo. Por velho, entendo o jornalismo mono-mídia, que não dialoga com o leitor/telespectador/usuário, não-aberto às novas formas de comunicação. Mas podemos nos questionar: As novas tecnologias irão matar o jornalismo? Os velhos oligopólios já mataram? Esses sem dúvida são golpes que modificam a profissão e introduzem novos atores, mas, como já se disse, o jornalismo não se define por uma técnica, mas por uma ética. Sou otimista. Creio que veremos algo bom surgir. Trabalhamos para isso, aliás: terminar de matar o velho e fazer nascer logo o novo.

Entre 2002 e 2003, você fez parte do EmCrise, grupo que trabalhava produção jornalística coletiva, primando por uma tônica profissional incisiva nas reportagens. O que falta para um webjornalista hoje, agora, nesse exato momento, entender como aplicar as potencialidades do meio de comunicação digital na apuração, produção e publicação de reportagens ?

Além do que sempre faltou - conteúdo e crítica -, falta a pílula vermelha. Enxergar que é possível contar histórias não mais apenas a partir de uma narrativa linear, na plataforma que melhor servir aos interesses da história. Entender que, como bem disse Dan Gillmor, "meus leitores sabem mais do que eu". Perceber que os leitores não são adversários que só entram em contato para reclamar, mas colegas, que podem muito bem guiar e participar da pauta, da apuração, da produção e até da edição, pelo que estamos vendo por aí. Uma pesquisa recente do grupo colombiano El Tiempo, feita com 70 redações online da América Latina, perguntou aos editores o que mais faltava no treinamento dos jornalistas da web. O que 70% respondeu foi que falta entendimento de produção multimídia. As redações são organizadas em guetos, os próprios jornalistas se apresentam como "de texto", "de vídeo", "de rádio". Claro que sempre haverá quem é melhor em certa plataforma, mas ninguém mais poderá ignorar como se produz em todas elas. Como disse o argentino Julian Gallo num artigo finalista do prêmio FNPI de jornalismo multimídia: um adolescente hoje já sabe mais, em se tratando da utilização de diversas mídias para contar histórias, do que muitos jornalistas...

"Imprimir suas notícias em guardanapos. Os guardanapos nunca sairão de moda; Inventar novas e melhores promoções, como 'assine nosso jornal e ganhe automaticamente um porsche'; Contratar a Gisele Bundchen e o Rodrigo Santoro para vender assinaturas de porta em porta". Com essas sugestões você ganhou o livro "Os jornais podem desaparecer ?", do Philipe Meyer, numa promoção do Jornalistas da Web. Já pensou em se candidatar a um cargo de futurista ?

Creio que as sugestões que dei para evitar o desaparecimento dos jornais não será adotada, apesar de achar que funcionariam bem. De qualquer forma, não vejo muito futuro para futuristas - veja o caso da Mãe Dinah, relegada agora ao passado. O Michael Rogers, futurista do NYT, faz um trabalho interessante, de viajar o mundo para perceber as tendências tecnológicas, preparando a redação para entregar a informação "na hora, no lugar e no formato desejado pelos leitores". Várias empresas, especialmente as de moda, têm "cool hunters", o caçador de tendências, para lançar produtos antenados com o hype do momento - antes, aliás, de virar hype mesmo, ajudando a virar hype. William Gibson, o futurista que imaginou o universo ciberpunk, conta uma boa história sobre essa profissão no livro Pattern Recognition. O que o Rogers faz é basicamente descobrir quais as tendências de comunicação nos próximos cinco anos - imaginar o que substituirá o Iphone, por exemplo. Agora, se quisessem me contratar para viajar o mundo descobrindo tendências tecnológicas para o jornalismo eu não ia achar ruim não.

setembro 11, 2007

Remember, remember the 11th september

Edney Souza catalogando as lembranças da twittosfera sobre o 11 de setembro.

setembro 10, 2007

Banana, meu bem

O caderno Link, do Estadão, procurou a mim, Alex Primo e Ana Maria Brambilla, para falarmos a respeito deste embate entre o jornal e a blogosfera. Falei por mais de meia hora pelo telefone com o repórter Rodrigo Martins e, como era de se esperar, apenas uma frase assim, banal, foi publicada. Não sei se o mesmo ocorreu com os demais entrevistados. Estava receoso de que isso acontecesse, mas preferi pagar pra ver - vocês não imaginam o quanto ando crédulo. Mas já voltei à programação normal: entrevista só por email. Para que eu possa publicá-la aqui na íntegra, rendendo assim - ao menos - mais um post.

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