Este intrigante questionamento talvez possa sintetizar toda a preocupação com os caminhos do aprendizado relativo às novas tecnologias de informação e comunicação abordados no livro “Letramento Digital – aspectos sociais e possibilidades pedagógicas”. A coletânea organizada pelas professoras Carla Viana Coscarelli e Ana Elisa Ribeiro tem um objetivo simples e direto: pensar o ensino em um contexto onde a informática reconfigura e modula os papéis informacionais do produtor e do leitor.
Carla Coscarelli e Ana Elisa Ribeiro não se acanham em buscar uma resposta para a pergunta formulada logo acima – afinal, esta é uma seara com qual estão acostumadas a lidar. A primeira autora é professora na Faculdade de Letras da UFMG e vem, há vários anos, desenvolvendo projetos sobre leitura de hipertextos e ensino à distância, além de ministrar cursos relativos ao tema junto ao Centro de Alfabetização e Escrita da UFMG (Ceale) e a outras instituições. Ana Elisa Ribeiro, em 2003, defendeu dissertação de mestrado sobre a leitura de jornais em tela e defenderá, em breve, tese de doutorado sobre o mesmo tema. Ambas as pesquisadoras têm se preocupado em conhecer e explicar as novas posturas do leitor de telas em relação ao leitor dos outros meios e suportes de leitura e escrita.
E para tratar deste assunto, com a devida atenção que merece, as organizadoras reuniram vários pesquisadores que tratam o tema em suas práticas acadêmicas cotidianas. Os onze artigos selecionados para esta publicação – que faz parte da Coleção Linguagem e Educação, uma parceria do Ceale com a editora mineira Autêntica – buscam evidenciar as maneiras com as quais os professores devem repensar a sala de aula e as estratégias de ensino/aprendizagem. Ou, conforme aponta Luiz Antonio Marcuschi, na orelha do livro, melhor avaliar o fato de que “a comunicação digital consegue hoje com mais rapidez aquilo que a escolaridade compulsória vem penosamente tentando há mais de dois mil e quinhentos anos: estimular a comunicação escrita”.
Tal observação pode tomar como ponto de partida o próprio texto de Marcuschi, intitulado “A coerência no hipertexto”. Nele, o autor aponta que a idéia de deslocamento do centro produtor e controlador de sentido, atribuída como uma das mais importantes características percebidas na utilização de hiperlinks em contraponto ao texto impresso – e até mesmo oral – não é de todo nova. Para ele, tal deslocamento modifica o conceito de coerência, uma vez que afeta elementos como centração temática e continuidade de sentido, motivando uma forma diferenciada de interpretá-lo.
Concentrando o foco na escola, Carla Coscarelli, no texto “Alfabetização e letramento digital”, evidencia a importância da informática em relação à educação. Em um texto leve, ela dialoga com os professores, no sentido de enfatizar a importância de uma escolha acertada a respeito da concepção de ensino-aprendizagem que se pretende adotar.
A relação entre novos processamentos de informação e ensino-aprendizagem também é discutida por Cecília Goulart, em “Letramento e novas tecnologias: questões para a prática pedagógica”. Ela concentra suas considerações em dois tópicos: “Letramento: discutindo aspectos da escrita na cultura, na história e na prática pedagógica” e “Novas tecnologias, novos gêneros discursivos: novos e antigos saberes em tensão”. No primeiro, Goulart toma como base os estudos de Mikhail Bakhtin a respeito da linguagem na perspectiva da enunciação e dos usos sociais para lidar com a questão complexa da constituição dos sujeitos. “Nessa perspectiva, sugerimos a noção de letramento como horizonte ético-político para a ação pedagógica nos espaços educacionais”, aponta.
Preocupação semelhante com a entrada e uso dos computadores na sala de aula pode ser percebida também no texto “Alfabetização digital: problematização do conceito e possíveis relações com a pedagogia e com a aprendizagem inicial do sistema de escrita”, de Isabel Cristina Frade. O foco deste texto mantém-se em apontamentos sobre o impacto cultural e cognitivo da utilização das novas tecnologias de informação e comunicação na sala de aula, apoiando-se em autores como Roger Chartier e Pierre Lévy. Para Frade, estes estudos buscam evidenciar a vinculação do uso do computador – principalmente nos processos de alfabetização – com gêneros híbridos de diálogo.
Este processo, segundo a autora, ocasiona uma reconfiguração conceitual e prática, complementando a ação de ensinar/aprender a ler com o sentido de entender ainda “seus modos de circulação e distribuição na sociedade”. Sobre este segundo ponto, Frade recorre ainda aos estudos de Magda Soares, objetivando conhecer e compreender a construção de um processo interativo entre leitor e escritor. Neste ponto, podemos considerar que se estabelece um aprofundamento de questões como instabilidade/estabilidade dos textos na tela, controle de qualidade para publicação e reformulação do conceito de autor.
Ana Elisa Ribeiro concorda em parte com o ponto de vista de Isabel Cristina Frade, mas defende que não é tão difícil trazer este analfabeto digital para a leitura na tela. Com o texto “Ler na tela – letramento e novos suportes de leitura e escrita”, ela parte de uma revisão histórica das práticas de leitura e dos suportes de ler e escrever, tentando desmistificar considerações apocalípticas ou integradas. “Todas as novas formas de ler parecem vilãs de um tempo sem calor, quando, na verdade, são apenas novas possibilidades para algo que já se fazia e já se fez na história das interfaces de leitura, interfaces homem/objeto de leitura”, define a autora.
Neste texto, ela aponta a existência de uma ação recíproca entre leitor e novo suporte de leitura, onde o primeiro se adapta às condições diferenciadas oferecidas pelo segundo e este se refina, durante este processo interativo. Esta ação, que podemos denominar como leitura híbrida, é também marcada pela recombinação, ou seja, pelo fato de que os suportes digitais apresentam características de tecnologias de leituras que os antecederam.
E a soma de experiências arquitetada para esta coletânea não deixa sombra de dúvidas: trata-se, conforme o desejo das organizadoras, de um hipertexto conectado ao aprendizado de caminhos diferenciados de leitura, apontando múltiplas possibilidades de recombinações do conhecimento.
[resenha - aqui editada - feita para a revista presença pedagógica]

