#adeusjb

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por Os Ceifadores (Jorge Rocha e Thiago Araújo)
Post atualizado: leia o adendo sobre a nova edição


☼ 9 de Abril de 1891 † 31 de agosto de 2010


RIP JB

Falece hoje a edição impressa do Jornal do Brasil. Aos 119 anos, o velho jornal impresso deixa uma renca de jornalistas desaguando um chororô desmedido ao longo desse dia. Puta troço chato. Vocês não tem vergonha? Ô, bando de carpideiras em desencanto, respondam rápido: antes da derradeira, qual foi a última edição do JB que compraram? Mantinham o costume de comprar jornais impressos, qualquer um? Hein?

Jornal do Brasil - Última Capa

Seguinte: era para o blog inteiro ser um grande necrológio do jornalismo, mas fazemos questão de frisar a natureza desta publicação neste post em especial, só por conta do teor lacrimogêneo desta data. André Deak já disse que a cachorra dele vai sentir falta do JB impresso. Agora, irão dizer que o JB isso, que o JB aquilo, que a redação de tal época fazia assim, fazia assado, esse trelelê todo que se fala dum defunto. Irão até falar duma "gloriosa trajetória como espaço de liberdades" - que mais parece trecho de samba na Apoteose. Melhor pensar na lição dos tibetanos do Sebrae: enxergar oportunidade onde vai haver diminuição no estoque de papel para embrulhar peixe. Como diria nosso diagramador de jazigos, covas rasas e desova de hard news, Almíscar desGasto: "o melhor do papel jornal vai pra gaiola do meu pardal".

(Atenção, produção multimídia: agora entra uma imagem de alguém jogando uma pá de terra nessa parte do texto)

Antes mesmo de martelar o último prego no caixão, os hereges do online mandaram o recado: "Será que ainda é possível a alguém, com mínimos poderes de observação, lucidez e honestidade intelectual, achar que o jornal em papel continua a ser um "veículo" de comunicação?". Alô vocês, viúvas do Telex, saudosistas do papel carbono e da caneta tinteiro: "O JB estará compatível com todos os leitores digitais (iPad, Kindle, Alfa, Nook, Mix, Libre)". A grande questão aqui é: vai atender realmente aos "leitores digitais" que interessa? Nos comentários do referido recado há uma penca do que parecem ser atuais assinantes do papel já ensandecidos pela 'assinatura do online'. Em algum lugar do mundo ...

Rupert Murdoch

... tem nome e sobrenome: Rupert Murdoch.

Façamos uma reflexão. O Item 39 do comunicado faz referência ao novo modelo online:

* Tempo Real: alimentado e produzido por fontes próprias e as melhores agências de notícias brasileiras e internacionais.
* JB Digital: o tradicional Jornal do Brasil que concentra os grandes diferenciais de conteúdo que sempre categorizaram o jornal.
* Blogosfera/Sociedade Aberta: Haverá muitos blogs interativos com os principais colunistas e articulistas do JB. Além da mídia colaborativa mediante a editoria 'Sociedade Aberta', marco da democracia digital no Brasil, em que o leitor é repórter e articulista

Aparentemente, nada essencialmente muito novo, a não ser o que parece mais um daqueles remakes de colaborativismo a ser chamado por aqui JBwiki - "jornal produzido e alimentado 100% pelos leitores". Sei não, cara pálida: ultimamente nem injeção na testa é de graça.

Pra djá! o JB precisa é jogar seu atual site fora e começar do zero sua presença online. A assinatura mensal está prevista para módicos e R$ 9,90 - mais ou menos 40 edições de um Super-jorra-sangue. Vem aí um imenso desafio pela frente. Façamos coro ao Haja Muuito Saco!: "Amílcar de Castro, que nos anos 50 revolucionou o design de jornais com a reforma gráfica que aprontou lá, deve estar dando voltas no túmulo. Resta saber se de tanto rir ou de tanto chorar..."

#reflitam

Atualização

Thiago falando:

O endereço da famigerada 'edição digital' é esse. Não se assustem. É exatamente o que vocês pensaram amiguinhos: diagramaram um impresso comum e tacaram em um flashzão com flip.

A tentativa de adaptação para uma diagramação horizontal é clara, mas não há nenhuma novidade substancial no aspecto gráfico do jornal. Mesmo tamanho de fontes, posicionamento de fotos e diagramação básica de impresso. Até é meio difícil de ler às vezes. A ideia é interessante, mas merece amadurecimento.

Novo JB

Sistema de navegação é incrivelmente simples e fácil: ponto positivo! e deve funcionar em dispositivos de toque... que aceitem Flash. o0 No comunicado, falaram da adaptação a todos e-readers, mas não conheço nenhum famoso que aceite. Ipad? No way.

Ah, quer saber da multimídia? Pois então! Na página 10, há um player de vídeo também improvisado, sem botões de navegação. Não rola pause, stop e o ele já vai pro play assim que você clica nele. O contéudo? É a INTEGRA de um programa da Rede Vida onde o personagem da matéria em questão deu uma entrevista. Sem edição nenhuma. Só isso, por enquanto.

QUE PLAYER É ESSE?

A "versão HTML" é um Ctrl+C + Ctrl+V pobre, sem imagens, nem nada. Dá pro gasto por enquanto.

12 x R$ 9,90 / 365 = R$ 0,32 a edição digital com 31 'folhas' de hoje. O que dá pouco mais de um centavo por página. Acho que mais ou menos isso que seria em um eventual sistema que cobrasse o clique via micropagamentos - sistema já em teste fora do país como em lojas Itunes, por exemplo.

Continuamos a observar. Iniciativa começa meio improvisation--style, mas pode ficar bastante interessante. Pelo menos eles prometeram....

Resposta do @jbonline

Alô você usuário do Hootsuite que na tarde dessa terça-feira, dia 11 de agosto de 2010, recebeu um simpático email do Ryan Holmes, CEO do site, despejando aquela bomba na sua cara: o serviço agora é freemium. #comassim e #comofas agora?


Hootsuite agora é Freemium

Pra quem ainda não conhece o termo, freemium é um daqueles conceitos 2.0 para o popular: "tô te dando a mão... mas o braço só pagando!". É nesse mesmo estilo que funcionam serviços como os de compatilhamento de fotos Flickr, o disco virtual Dropbox e mais uma penca de sites que oferecem alguns recursos de graça para a grande maioria de seus usuários, enquanto uma minoria sustenta o endereço com recursos 'a mais'. Pelo menos em tese...

No email, o pessoal das corujas manda avisar que na próxima semana a maioria dos recusos básicos que o site oferecia, como as contas e usuários múltiplos, e que fizeram do serviço famoso e útil, se tornarão parte de pacotes pagos. O grande problema que enxergo nessa mudança do Hootsuite é que a opção 'free' vai tornar o site em simplesmente mais um cliente para o Twitter e Facebook, na medida em que o usuário que não paga só poderá ter uma conta de cada rede e não poderá compartilhar a mesma com uma equipe. Atualização: Na realidade, como é explicado aqui pelo site, são 5 contas, independente de que serviço seja, podendo ser de mesma rede. No entanto, nada de gerenciamento de equipes.

Testei três serviços concorrentes e trago para vocês agora uma breve análise e um veredito, claro!, porque não sou de ficar em cima do muro. hehe Os critérios são interface, diferencial e suporte à várias contas/usuários... e obviamente, eles deveriam ser serviços que rodassem direto no navegador.

Seesmic

Interface do Seesmic

No quesito interface, sendo bastante similar ao Hootsuite, o Seesmic também se organiza pelas já clássicas colunas. Seu ponto alto é o fato dele ser completamente em português e bem limpo. Como diferencial, o serviço possui uma visualização de tweets em linhas, Gmail-style!

Diferencial do Seesmic

Suporte a múltiplas contas? Vai sonhando! Apesar da variedade, você só poder ter uma conta de cada serviço, o que é uma pena. O Seesmic possui também um sistema de gerenciamento de contatos bastante inteligente e inovador, mas não compensa para o que estamos procurando aqui.

Contas no Seesmic

Sobees

Apesar do duplo sentido não intencional no nome (hahahaha), na verdade o serviço é para todo mundo... que possui Silverlight. O concorrente microsoftiano do Flash é a base para esse serviço que funciona também direto da nuvem. A interface é relativamente simples, bastante moderna e funcional, também dividida em colunas.

Interface do Sóbichas

O diferencial fica por conta da variedade e da ousadia na disposição das colunas no serviço, podendo em uma mesma tela acompanhar buscas diversas e contas de redes sociais diferentes de forma simultânea. Quem tem DDA com certeza gostou!

Diferencial do Sobees

O suporte a múltiplas contas acho que ficou claro pra todo mundo na primeira captura de tela do serviço, mas o que não dá para perceber por aí é que ele é leeeeennnnto. Não sei se foi a conexão aqui na república ou é coisa do Silverlight, a fato é que real-time passou longe do serviço.

CoTweet

Interface do CoTweet

Por fim, o campeão! Se você gostava do Hootsuite, também vai aproveitar muito o CoTweet. Mesmo com formatos diferentes, várias das funções e serviços da corujinha estão também presentes aqui, como colunas de busca personalizadas e o perfil de usuários. A interface é também de colunas, com destaque para o menus laterais fixos que funcionam a partir de abas. Ficou devendo a integração com um RSS, mas isso a gente resolve usando o Twitterfeed.

Diferencial do CoTweet

A painel de busca (SearchPad) é o ponto alto do serviço. Extremamente eficiente para monitoramento de eventos e palavras chaves, como no exemplo acima. O serviço de rastreamento de menções e envio de um resumo por email também é interessantíssimo.

O suporte a múltiplas contas também é reduzido a 5 (como é agora no Hootsuite), mas em contrapartida é possível adicionar vários usuários para controlar um mesmo username e assim trabalhar com uma equipe. Bingo! Problema resolvido... por enquanto. Enjoy!

Contas no CoTweet

* Texto do jornalista Lúcio Carvalho
Edição e Layout: Carlos Conti

Andrzej_Dragan_01.jpgDragan Effect é uma técnica de manipulação fotográfica digital criada pelo polonês Andrzej Dragan. Dotadas de características singulares, que mesclam elementos de pintura, fotografia e ampla manipulação digital, as imagens produzidas por Dragan são elaboradas com paciência e meticulosidade.


Ao contrário dos paradigmas mercadológicos da indústria cultural, nos quais a quantidade de material produzido é sinônimo de valor, o polonês foca seus esforços exclusivamente na qualidade das fotografias, que são trabalhadas até a obtenção de todos os elementos estéticos desejados. Em entrevista concedida a Paola Bonini, em 2007, o artista polonês resume o processo artístico da técnica Dragan Effect:

Eu tiro muitas poucas fotos e muito rapidamente, não fico procurando por pessoas ou fotografias o tempo todo. [...] Esse é apenas o começo do processo. Eu gasto muito tempo trabalhando no material, posso demorar até um mês para editar uma única foto - como aconteceu recentemente com a foto de um famoso ator, Mads Mikkelsen. Eu fiquei a maior parte do tempo olhando e pensando e, comumente, após muitas horas eu me sinto preparado para escolher quais daqueles retratos que tirei eu irei utilizar. É aí que o processo de pós-produção digital começa. Em algumas características esse método lembra uma pintura, porque é como se fosse um pincel - só que digital. Eu procuro não adicionar novos elementos, eu aproveito e ressalto alguns aspectos da imagem.

Devido à ampla utilização da manipulação digital, as fotos de Andrzej são, comumente, interpretadas de forma errônea. Elementos manipulados no processo de pós-produção são tidos como "verdadeiros" e, características que não sofreram grandes alterações, são consideradas como "artificiais" pelo público. Para analisar a recepção e interpretação do público perante as fotografias produzidas pelo polonês, é necessária a análise da percepção do "não manipulado" por parte do público perante as fotografias de Andrzej. É também de grande importância estudar as imagens do polonês sob a fundamentação dos elementos básicos da fotografia e entender como o suporte digital - no qual o trabalho de Andrzej possui mais alcance - influencia na percepção imagética. Ao falar dos elementos básicos da fotografia a serem analisados, é contemplada a definição analógica de Godolphim (1995), que os coloca da seguinte forma:

Já a máquina fotográfica, em sua mecânica, dá a possibilidade ao fotógrafo de controlar o volume e a velocidade da luz e com isto precisar e selecionar o campo de foco e a plasticidade da imagem. Esses tópicos são responsáveis por uma particular captação e manipulação do tempo e do espaço no fotograma. A química por sua vez vai fornecer mais um conjunto de elementos dessa gramática da luz. O conjunto desses elementos, e mais alguns, constitui o sintagma fotográfico. (GODOLPHIM, 1995, p. 176)

A falta de propósitos faz com que o fotógrafo invente, manipule e desconstrua imagens. Sua técnica, conhecida por intermediar elementos de pintura com fotografia e uma realidade aumentada - na qual é possível ver cada ruga, fio de cabelo e até mesmo poro do modelo - leva o público a uma "brincadeira" entre o real e o imaginário. Ao definir, conceitualmente suas imagens, Andrzej é claro. "Algumas pessoas dizem que um bom retrato irá revelar alguma verdade sobre o modelo. Fico, indubitavelmente, triste ao dizer que essas pessoas não encontrarão nada de interessante em minha fotografia, que não possui propósitos."

Mais do que uma análise isolada, as imagens de Dragan proporcionam o estudo da recepção, interpretação e estética da fotografia manipulada na arte contemporânea. A noção de realidade e fantasia dentro desse campo é uma perspectiva que carece de estudos:

As adulterações e modificações permitidas na edição podem conter uma maior força ou carga expressiva que o próprio original. [...] A técnica permite sempre a dúvida ao espectador se aquela imagem é real ou manipulada. [...] Falta-nos, agora, estarmos abertos para saber quais serão as mudanças na recepção da imagem manipulada advinda das novas tecnologias digitais, e como essa nova forma de arte irá se portar diante desse novo espectador. (SOUZA, 2009, p. 9 -11)

A não obrigatoriedade com a representação do real, as novas perspectivas e cortes, o processo de pós-edição e as "brincadeiras" entre a "não manipulação" e o "simulacro" mostram que o trabalho de Dragan apresenta uma linha tênue e, ao mesmo tempo marcante, na relação entre o objeto fotografado e aquilo que foi "criado". Tal fator fomenta a hipótese de que o público não consegue, por si só, identificar, dentro das imagens produzidas pelo polonês, o limite entre a fotografia "crua" (não manipulada) e a fantasia. Isso se deve em parte à grande quantidade de manipulação fotográfica e maquiagem que envolve os modelos, fator que "encobre" o "cru", mesmo quando este é exibido de forma clara e nítida. Tal hipótese afirma-se na medida em que o fotógrafo possui grande interesse, provindo de sua carreira como físico, em promover um "jogo" que envolve o real, a manipulação e a interpretação do público:

Grandes cientistas como Einstein, Planck, De Broglie e Schrödingerelaboraram suas teorias e as abandonaram, porque eles também não conseguiam acreditar nelas. Elas eram tão estranhas, tão absurdas que não havia margens de tolerância para isso. O engraçado é que depois de muitos anos de testes, as teorias mostraram não estarem erradas. Os cientistas tiveram simplesmente que aceitar o inconfortável fato de que o universo é estranho. Eu penso que isso prova meu ponto de vista: aquilo que as pessoas pensam ser verdade ou não, mesmo se você for Einstein, tem pouca relação com a realidade. Nossa opinião sobre a verdade não é o mais importante - o método empírico é. A verdade apenas pode ser discutida quando pode ser testada, de outra forma não possui significados. Então, considero uma expectativa boba a de que a fotografia é um pedaço da realidade que serve como forma de entretenimento. (Andrzej Dragan, em entrevista à Lúcio Carvalho. A íntegra da entrevista se encontra no final deste post)

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Um pouco sobre a vida acadêmica e artística de Andrzej Dragan

Nascido em 1978, o polonês Andrzej Dragan estudou em Varsóvia e, por meio de bolsas de ensino, em Amsterdã, Oxford e Lisboa, onde obteve seu PhD em física quântica no ano de 2005. Premiado pela melhor tese polonesa de física pela Sociedade Polonesa de Física, em 2001, obteve um salário da Fundação Européia de Ciência em 2001 e 2002, subsídios do Comitê de Estado Para Pesquisa Científica em 2002 e 2003, prêmio Young Scholars da Fundação Polonesa de Ciência (2003, 2004), e uma bolsa de estudos da maior revista semanal polonesa (Polytika), em 2004. Contribuiu em conferências e seminários nas cidades de Amsterdã, Cracóvia, Glasgow, Londres, Minsk, Munique, Oxford, San Andreas, Varsóvia, St. Andrews, Varsóvia e Tóquio. Membro e secretário-fundador do Comitê-chefe das Olimpíadas de Física, trabalhou no Colégio Imperial de Londres. Atualmente é professor assistente de física na Universidade de Varsóvia.

Andrzej começou a se envolver com fotografia no ano de 2003. Publicou seus trabalhos em livros especializados de 12 países, incluindo a seleção de 200 melhores fotógrados mundiais da Luzer, em 2006. Premiado com medalha de ouro e prata no festival de propaganda KYR em 2006, obteve duas pratas e um bronze em 2007, duas medalhas de ouro, duas de prata e duas de bronze em 2008. Foi indicado ao Leão no Festival de Cannes de 2006. Obteve medalha de prata no Prêmio Corbis de Fotografia (2007), medalha de ouro no Golden Drum Festival (2007), bronze no Épica Awards (2007) e terceiro lugar no Desafio Pilsner Uruquel (2007). Escolhido como fotógrafo do ano em 2007 pela revista inglesa Digital Camera, trabalhou com as agências Brain, DDB, Euro RSCG, Grey, JWT, McCann-Erickson, Ogilvy Dubai, Ogilvy Frankfurt, Outfit Londres, Publicis Brasil, Scholz & Friends e TBWA de Londres. Entre as marcas de seu portifólio estão Amnesty Internatioal, Aniela, Arkadia, Axura, Converse, Energizer, Jaga Hupalo, Play, Playstation, Polpharma, Radio Eska e Xbox.

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Entrevista com Andrzej Dragan, realizada pelo jornalista Lúcio Carvalho:

Dragan: Antes de tudo, deixe-me esclarecer que eu realmente não gosto de tirar fotografias. Para ser bem franco, eu não gosto disso. Soa estranho, eu sei... Quando meus amigos pedem para tirar uma foto deles e eu nego, eles se desapontam. Mas eu simplesmente não gosto de fotografar. Não possuo, nem mesmo, uma postura neutra em relação a isso: eu não gosto. E ainda, por alguma razão desconhecida que eu ainda não compreendi, algumas vezes eu subitamente corro em direção a alguém que quero fotografar, porque a face daquela pessoa parece interessante para mim. No começo eu apenas perguntava para a pessoa se eu poderia tirar uma foto dela após uma breve conversação. A coisa toda geralmente não dura mais que alguns minutos. Eu gradualmente fui me tornando mais seletivo na escolha das pessoas que eu gostaria de fotografar e, atualmente, tiro cerca de uma foto por mês.

Lúcio Carvalho: Você sempre carrega a câmera com você?

Dragan: Não, eu não gosto disso. Eu apenas carrego o equipamento quando procuro por algumas caras para meus retratos. Eu sei que muitos fotógrafos carregam sempre suas câmeras com eles - Ouvi dizer que Cartier Bresson já tinha gasto alguns rolos de filmes antes mesmo do café da manhã - mas esse não é o meu caso. Eu tiro muitas poucas fotos e muito rapidamente, não fico procurando por pessoas ou fotografias o tempo todo. Esse é apenas o começo do processo. Eu gasto muito tempo trabalhando no material, posso demorar até um mês para editar uma única foto - como aconteceu recentemente com a foto de um famoso ator, Mads Mikkelsen. Eu fiquei a maior parte do tempo olhando e pensando e, comumente, após muitas horas eu me sinto preparado para escolher quais daqueles retratos que tirei eu irei utilizar. É aí que o processo de pós-produção digital começa. Em algumas características esse método lembra uma pintura, porque é como se fosse um pincel - só que digital. Eu procuro não adicionar novos elementos, eu aproveito e ressalto alguns aspectos da imagem.

Lúcio Carvalho: Uma vez que você tenha escolhido e estudado sua fotografia, você já sabe qual resultado específico pretende obter?

Dragan: Nem sempre, o propósito de observer é precisamente para encontrar aquilo que eu quero ressaltar na imagem, na ordem que eu irei trabalhar. Algumas vezes eu sei disso enquanto estou tirando a foto. Nesse caso eu volto para casa e mergulho em vinte e quatro horas de trabalho até terminar. Um dia eu estava no ônibus e comecei a conversar com um homem. Reparei que quando ele conversava seus olhos brilhavam - ele tinha olhos profundo e expressivos - mas quando ficava em silêncio eles ficavam menos visíveis, vívidos, interessantes. Na ocasião, eu imediatamente entendi que seu eu quisesse mostrar a vivacidade daqueles olhos eu teria de os fotografar enquanto homem conversava e fazer uma montagem com sua boca fechada. Eu apenas combinei duas imagens - olhos abertos e boca fechada. O resultado é o retrato de um homem que fala por meio dos olhos - interessante e trivial ao mesmo tempo. Eu já sabia disso quando estava tirando as fotos, então a fase do processamento foi muito mais rápida. Mas algumas outras vezes eu não sei exatamente oque eu quero obter, então simplesmente tento manter minha mente aberta para achar algo interessante.

Lúcio Carvalho: Você mencionou retratos. O que você acha que eles são?

Dragan: Um retrato é a ilusão de olhar para uma pessoa real. O público espera que retratos revelem algo sobre pessoas e suas histórias. Eu não sei onde isso é verdade, poderia ser, mas, se fosse, seria impossível fotografar alguém que você não conhece: como você pode dizer algo sobre um estranho? Nesse caso, o retrato releva apenas a impressão do fotógrafo sobre a pessoa, mas essa impressão pode ter muito pouco, quase nada, de comum com o indivíduo. Eu não me preocupo com definições. Eu faço o que faço. Se as pessoas não os chamam de retratos, por mim está tudo bem. Eu não me preocupo com nomes.

Lúcio Carvalho: Existe algo em comum entre suas carreiras de físico e artista?

Dragan: Bem, primeiro eu gostaria de salientar que eu não me considero um artista. Eu não gosto do significado sofisticado dessa palavra. Mas, voltando à pergunta, eu não sei onde existe a conexão, mas certamente fui educado com vários anos de estudo científico. Por exemplo, eu sei que algumas vezes eu posso ser incômodo porque, se alguém diz algo que não soa verdadeiro para mim, começo a investigar no mesmo instante, e isso pode deixar as pessoas nervosas. Mas a coisa é que quando as pessoas - incluindo a mim mesmo - dizem algo, na maioria das vezes estão erradas. Você pode dizer que a Terra gira em torno do Sol em círculos. Mas se você cuidadosamente estudar essa hipótese, verá que não é correta. É bastante difícil dizer algo verdadeiro. Eu não possuo absolutamente nenhuma idéia sobre a veracidade de algumas realidades, mas as tenho de aceitar, não possuo escolha. Isso é o que aborrece na ciência. Mas não tenho muita certeza de como isso se aplica na fotografia. Quando eu tiro fotos não presto atenção nisso, eu não penso sobre a verdade. Algumas pessoas relutam em dizer que meu trabalho não é fotográfico, porque, de acordo com elas, ele não obedece a certas regras. Mas eu não ligo para essas regras. Regras são, basicamente, prescrições para aqueles que não podem pensar por si mesmos. Ironicamente, quebrar algumas regras se tornou um novo princípio na fotografia - o que não tem sentido. A obrigação de seguir regras ou verdades na fotografia não chega nem mesmo a ser um pensamento. É algum tipo de embrião de idéia ridícula. Pense na fotografia em preto e branco - eu quero dizer, você já viu alguém em preto e branco andando pelas ruas?

Lúcio Carvalho: Mas a ciência também assume que diferentes verdades podem co-existir paralelas, como alternativas...

Dragan: Mas elas não são auto-contraditórias. Você sabe, a mecânica quântica parece idiotice para um principiante. Grandes cientistas como Einstein, Planck, De Broglie e Schrödingerelaboraram suas teorias e as abandonaram, porque eles também não conseguiam acreditar nelas. Elas eram tão estranhas, tão absurdas que não havia margens de toerância para isso. O engraçado é que depois de muitos anos de testes, as teorias mostraram não estarem erradas. Os cientistas tiveram simplesmente que aceitar o inconfortável fato de que o universo é estranho. Eu penso que isso prova meu ponto de vista: aquilo que as pessoas pensam ser verdade ou não, mesmo se você for Einstein, tem pouca relação com a realidade. Nossa opinião sobre a verdade não é o mais importante - o método empírico é. A verdade apenas pode ser discutida quando pode ser testada, de outra forma não possui significados. Então considero uma expectativa boba a de que a fotografia é um pedaço da realidade que serve como forma de entretenimento. A arte não é natural, não é verdadeira. Assim como o próprio nome diz - arte é uma maneira de celebrar a alegria, até mesmo em poloês - "sztuka jest sztuczna". Comer, defecar e respirar é natural - a arte é artificial.

Lúcio Carvalho: Esse assunto parece interessar você...

Dragan: Eu sou interessado. Por exemplo, uma de minhas fotos pode ser considerada "praticamente verdadeira": é o retrato de uma garota anoréxica, uma modelo de 18 anos, muito alta e bela, mas muito magra. Eu quase não realizei processos de pós-produção nessa foto. Deixei a imagem "crua", assim como ela é. E essa é uma das fotos nas quais as pessoas menos confiam. Elas não confiam na verdade que eu as ofereci e acham que eu apresentei um simples truque de computação. É interessante brincar com esse conceito de verdade, porque isso sempre acaba virando um grande desentendimento. Outro exemplo: o retrato de meu modelo favorito representando Cristo. Eu tive uma conversa com alguém sobre essa foto. Ela se sentiu repelida pelo trabalho por motivos religiosos, mas eu a perguntei: tudo bem, você não gosta, mas o que você vê na imagem? E ela disse: Eu vejo Cristo. Eu perguntei: Bem ele é Cristo, você tem certeza, eu vejo alguém posando como Cristo. Mas obviamente não é Cristo, apenas um modelo, alguém qualquer. Ele não parece bem. Ele tem olhos ferozes. Ele não pode ser uma boa personificação de Cristo. Não há verdade no trabalho. Se eu quisesse características verdadeiras, ele olharia com dor, mas não o faz. Ele é silencioso, pacífico, ele usa uma coroa de espinhos na cabeça, que também são falsos - feitos de plástico. E mais - seu gesto se refere a São Thomás, perguntando a Cristo se seus espinhos são verdadeiros - ele não acreditava antes de os tocar. Nosso Cristo aponta seu dedo para suas chagas para parecerem reais, enquanto todos nós sabemos que são falsos. Ela concluiu que apenas o fundo da imagem era verdadeiro. Mas na verdade, também era falso. Há uma única coisa nessa imagem que é verdadeira - uma cicatriz proveniente de uma operação cirúrgica que o modelo fez alguns anos atrás. A única coisa real que é um problema: o reflexo de uma história passada, escondida entre mentiras. Essa interação entre verdade e ficção é uma bagunça. E mostra meu ponto de vista. A imagem se chama "Allegory on the Truth".

Lúcio Carvalho: Você detecta inlfluências de outros artistas em seus trabalhos?

Dragan: No começo não. Agora, eu não posso dizer. Eu faria qualquer coisa para não ver quaisquer outras fotos em minha vida. Não considero que seja bom submergir nelas. Você pode dizer que um pouco de inspiração é bom, mas existem limites. No começo, quando eu estava totalmente alienado em relação àquilo que os outros faziam, era maravilhoso. Eu apenas fazia aquilo que desejava, desenhando no objeto ou pessoa no qual estava interessado. Agora eu sei algo sobre o trabalho de outras pessoas e estou começando a ser influenciado por isso. Por exemplo, eu parei de fazer determinadas coisas porque as pessoas começaram a tentar fazer o mesmo que eu realizava. Meu campo de trabalho é limitado nesse aspecto. Eu não estou interessado em repetições, minhas ou de quaisquer outros. O melhor conselho que eu dou é o de não aceitar conselhos. Eu não sou necessariamente atraído pela fotografia, gosto apenas de umas poucas pinturas. Quando eu era criança visitei a Tate Gallery em Londres e fiquei bastante entediado, cercado por fotografias que todos consideravam maravilhosas. Mas em determinado momento eu fui conquistado por uma única pintura, "Metamorphosis of Narcissus" de Salvador Dali. Eu fiquei a observando por horas e no final fui expulso, porque o museu estava fechando. Mas as outras imagens pareciam vazias para mim, é duro, mas é a verdade. Desde então procurei não procurar por coisas interessantes. Prefiro achá-las de forma inusitava, onde eu não esperava que elas tivessem.

Informações adicionais:

Site Oficial do artista Andrzej Dragan
Para conversar com o jornalista Lúcio Carvalho: (e-mail) (twitter)

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* Projeto de Pesquisa de autoria do jornalista e publicitário Lúcio Flávio Teixeira de Carvalho, realizado em 2010, apresentado ao curso de pós-graduação em Gestão Estratégica de Imagem do IEC PUC-Minas, em Arcos.

Afinal, que tipo de interação é essa?

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Navegando pela internet afora, me deparei com a seguinte manchete: "Globo apresenta TV interativa e leva programação para ônibus". Uau! Finalmente uma TV que vai parar de seguir minhas ordens e, a partir de agora, vai começar a puxar papo comigo! Chega de saber apenas o que ela tem para me falar! Agora, sim, vamos nos conhecer melhor! Estou ansioso para falar um pouco sobre a minha vida, minhas preferências... Mas quero também aproveitar a oportunidade para oferecer várias idéias e fazer críticas abertas sobre a programação e o conteúdo que ela me oferece. Assim, acredito que vou ajudar bastante a moldar o produto que eu quero e vou consumir. Mas, claro, somente se minhas opiniões forem respeitadas e compartilhadas em ciberespaço igualmente aberto. Para tanto, as minhas garantias são a transparência e a compreensão. E se eu tiver errado, me desculpe! Vamos reunir todos em um mesmo ciberlocal, inclusive a Vossa Senhoria, e conversar sobre o assunto. Pode ser até que, a partir daí, a maioria concorde que o errado da vez é você, Globo! Mas tudo bem! Agora nós somos amigos! Assuma seu erro e se comprometa, diante dos seus chapas, a se redimir do erro e, assim, o faça (ixi...). Se você realmente conquistar a minha confiança e respeito, vamos até sair para tomar uns lubrificantes de fígado e pegar uns fogõezinhos.

Opa! Mas espera aí! O texto que acompanha a manchete está descrevendo outro tipo de interação! Achei que era a mútua, mas é a reativa. Mas, hein? Não entendeu nada do que eu acabei de afirmar? Tá bom! Vou recorrer ao PRIMO 1 para me fazer compreendido:

"Na interação mútua, os interagentes reúnem-se em torno de contínuas problematizações. As soluções inventadas são apenas momentâneas, podendo participar de futuras problematizações. A própria relação entre os interagentes é um problema que motiva uma constante negociação. Cada ação expressa tem um impacto recursivo sobre a relação e sobre o comportamento dos interagentes. Isto é, o relacionamento entre os participantes vai definindo-se ao mesmo tempo que acontecem os eventos interativos (nunca isentos dos impactos contextuais e relações de poder). Devido a essa dinâmica, e em virtude dos sucessivos desequilíbrios que impulsionam a transformação do sistema, a interação mútua é um constante vir a ser, que se atualiza através das ações de um interagente em relação à(s) do(s) outro(s), ou seja, não é mera somatória de ações individuais."

"As interações reativas, por sua vez, são marcadas por predeterminações que condicionam as trocas. Diferentemente das interações mútuas (cuja característica sistêmica de eqüifinalidade se apresenta), as reativas precisam estabelecer-se segundo determinam as condições iniciais (relações potenciais de estímulo-resposta impostas por pelo menos um dos envolvidos na interação) - se forem ultrapassadas, o sistema interativo pode ser bruscamente interrompido. Por percorrerem trilhas previsíveis, uma mesma troca reativa pode ser repetida à exaustão (mesmo que os contextos tenham variado)."

Em outras palavras, essa TV apresentada pela Globo, e por outras tantas emissoras, me permite, na verdade, uma interação reativa. Significa que, para eu ter acesso à programação que desejo consumir, basta clicar em uma tecla do controle remoto, do celular ou na própria tela da TV e... Plim! Plim!

Tá! Maravilha! Mas quando eu tinha uma TV com apenas dois canais e com a imagem em preto e branco, bastava clicar no botão "ligar" e ela ligava! Eu me interagia com aquela TV da mesma forma que os aparelhos de hoje e do futuro. Ou seja, havia uma interação reativa. Então, concluo que a Globo está usando o termo errado. A TV que ela promete não é exclusivamente interativa, mas um aparelho que possibilita um maior acesso à diversos tipos de informações. Com ela, terei mais possibilidades de emitir estímulos e, conseqüentemente, obter uma variada gama de respectivas respostas. Em resumo, a TV prometida é mais interativa do que as outras e não exclusivamente interativa.

Agora fica uma pergunta: a Globo não sabe disso ou sabe e está fingindo de boba para ter mais um argumento forte de venda? E as outras emissoras que tudo copiam? Estão mais uma vez nos rastro da iniciativa global como se esta fosse a cobaia de laboratório? Pois, pelo visto, estão copiando a mesma insipiência ou estratégia... sem pensar!

Lembro que também o aparelho e a tecnologia da TV Digital possibilitam a interação mútua. E não estou falando de uma interação em que se utiliza o Twitter ou o e-mail para participar de um determinado programa. Afinal, estas mensagens são filtradas e retransmitidas ao público que não tem acesso à internet naquele instante e que representam a maior parte da audiência e dos estatelados em confortáveis poltronas. Ora, percebe-se aí mais uma estratégia das antigas! Além do mais, alguém comenta ou faz uma pergunta para outra pessoa, mas esta responde e pronto! Não há mais comunicação entre eles. Neste caso, se parece mais com uma interação reativa: eu pergunto, você responde. O foco continua no aspecto transmissionista. Mande suas perguntas! Envie-nos um comentário! Envie e-mail para...! E se o destinatário não me responder? Fico no vácuo? E se a resposta for daquelas padronizadas, do tipo "Obrigado por nos enviar sua mensagem! Responderemos assim que possível!". Será que adianta muita coisa? Vou continuar mandando mensagem apenas para um robô aumentar a minha auto-estima? No meu caso, acho que vou rir da mesma forma quando eu ligo pela primeira vez para uma empresa e escuto a mensagem gravada: "Oi! Estamos muito felizes pela sua ligação..." Hã? Você nem me conhece!

Bom, mas eu não sou o dono da verdade! Por isso, estou abrindo este espaço para iniciarmos uma discussão sobre a forma ideal de se utilizar a tecnologia da TV Digital no relacionamento entre emissoras de comunicação e seus respectivos públicos, assim como na oferta de conteúdo programático. Afinal, parece que ainda há uma indefinição sobre o potencial e papel da TV Digital na comunicação, principalmente com a concorrência da internet de banda larga e dos dispositivos digitais móveis. A minha opinião sobre o processo comunicativo que deveria ser adotado pela emissora de TV, eu compartilho com FISHER 2 e PRIMO 1:

"A comunicação, para Fisher (1987, p.8), não se trata apenas das ações de uma pessoa em direção a outra. Trata-se, isso sim, da interação criada pelas ações de ambos. Com efeito, em cada encontro as ações de cada interagente definem (ou redefinem) o relacionamento. O autor afirma que existe uma reflexividade entre o relacionamento e o si mesmo de cada participante. Além de participarem da definição de suas relações, os participantes também são definidos pelos relacionamentos. Isto é, as relações afetam os seus participantes, como também seus relacionamentos futuros (mas, claro, o impacto não será o mesmo em cada participante, tendo em vista suas singularidades".

Eu também gostaria de escutar a sua opinião e criar aqui, ou em outro ciberespaço, um debate sobre o tema. Acredito que se todos colaborarem com aquilo que sabem ou pensam sobre o assunto, vamos construir uma rica rede de informações, útil para qualquer um que se interesse pelo tema! O compartilhamento de informações é a solução para uma sociedade educada pelo sensacionalismo desinformativo. Em resumo, acredito que você, assim como eu, não quer mais ficar apenas escutando e lendo informações, mas quer também aprender compartilhando aquilo que sabe e, finalmente, falar e ser ouvido. Se esta é a sua intenção, eis aqui mais uma oportunidade!
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1 PRIMO, Alex. Interação mediada por computador: comunicação, cibercultura, cognição / Alex Primo. Porto Alegre: 2° Edição, Sulina, 2008. (Coleção: Cibercultura) 240 p.

2 FISHER, B. Aubrey. Interpersonal communication: pragmatics of human relationships. Nova Iorque: Romdom House, 1987. 416 p.

Manual Prático do Ilusionismo - I

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Fui questionado, tempos antes do lançamento da Cartilha de Redação para a Web, elaborada por Bruno Rodrigues para o governo federal, sobre a viabilidade de redigir um manual de jornalismo. Não respondi, mas logo me veio à mente que um bom nome para uma publicação desse feitio poderia ser Manual Prático do Ilusionismo - um título autoexplicativo sobre o tipo de jornalismo que vemos empregado aqui, ali, acolá e, ó, praquele lado também. Com o título a martelar minha cachola, não tardou a surgir a primeira - valha o termo - constatação de efeito para um livro desse teor: "o segredo de todo truque de mágica é fazer a platéia olhar para o outro lado. no jornalismo também".


Se essa máxima define o caráter de Manual Prático do Ilusionismo, agora esse livro passa a ganhar forma no blog. A partir deste post, traremos para vocês, meu irmão trabalhador, minha amiga dona de casa, alguns verbetes que irão compor este manual. Claro, à medida em que estes forem escritos - acreditamos em work in progress. E a primeira parte aqui apresentada trata de:


Patos jornalísticos

Como o capítulo anterior* versou sobre objetividade e obviedade jornalística, seremos curtos e grossos nesta definição: patos jornalísticos não existem. É tudo fruto da sua imaginação: quem mandou confiar no que lê, assiste ou ouve? É o que defende o pesquisador Ganso Filho (1934)**, ao considerar que os patos jornalísticos não existem piamente, a não ser quando são (re)produzidos - em cativeiro - pelo jornalismo. Tal consideração vai de encontro às ideias relativas ao pato social, elaboradas por Duckheim e que nem mesmo vêm ao caso nesse momento. Ainda assim, é necessário reconhecer a existência de um fluxo objetivo da realidade, um vai-e-vem malemolente, um ritmo sincopado, um tilintar na conta bancária, quando os patos jornalísticos são cortados, destrinchados, eviscerados, destruídos, desovados e servidos à cabidela***. Isso vende jornal.


*Vocês não viram o capítulo anterior porque estavam olhando para o outro lado.
** Trata-se do Ano do Pato, ou seja, o ano de criação do Pato Donald.
***Muito molho e pouco macarrão: a receita do jornalismo. Isso é o que posso falar sobre gastronomia

Um jornalismo que clama por participação...

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Nos dias de hoje, não é a notícia o produto mais valioso de um jornalista. Até porque se fosse, seria tratada como uma arte escultural. E trabalhos artísticos desta espécie demandam tempo. É necessário observação, reflexão, construção cuidadosa e detalhada modelagem. Se for para fazer de qualquer jeito, qualquer um faz. Mas neste caso, os erros serão inevitavelmente constantes. E para piorar, muitos se acostumarão com eles, considerando-os normais. Em pouco tempo, nem mesmo serão identificados entre linhas e imagens. Serão erros forçosamente (ou não) transfigurados em fatos.

Inevitável também será a desvalorização do profissional, diplomado ou não. Afinal, qualquer um pode aprender rapidamente a organizar uma estante para chamar a atenção do público. Basta colocar os produtos mais atraentes na prateleira de cima e estrategicamente posicionados próximo a entrada de cada setor. Aqueles com pouca saída devem ser colocados na prateleira de baixo, atrás do balcão, e bem escondido no interior de cada segmento. Estes podem até ter boa qualidade... e alguns realmente têm. Mas deixa do jeito que está, pois, do contrário, irá atrapalhar as negociações com vários dos melhores fornecedores de material já industrializado.

Mas tempo é dinheiro! E jornalista também precisa pagar as contas no fim do mês. Então, vista o macacão vermelho e coloque o capacete - se inicia mais um dia de correria. O objetivo é cruzar a linha de chegada antes do deadline. Se quiser percorrer um caminho mais completo, vai perder tempo. Procure os atalhos, o básico. Faça algo superficial mesmo. Não se preocupe com o público. Há muito tempo não se ouve vaias, mas aplausos.

Como assim? Você ainda acredita que, enquanto profissional, é possível se aproximar do público e do fato ao invés de se afastar deles, como a maioria faz? Tá! Não vou ser pessimista também, né? Há solução, sim! E bem diante dos seus olhos. Afinal, não é isso que você mais tem feito ultimamente em redes sociais - se aproximado de pessoas? As mesmas pessoas que, apesar de se esconderem por detrás de nicknames e avatares, ainda sim, são testemunhas, vítimas ou protagonistas de fatos jornalísticos? Então? Por que não entrevistá-las através de um e-mail, MSN, Skype ou Formspring, por exemplo? Todas são ferramentas populares, intuitivas e ainda permitem gravar as entrevistas. Estas podem ser realizadas em texto, áudio ou em vídeo. Em resumo, é oportunidade, praticidade mútua e comprovação de contato. Porque não utilizá-las profissionalmente?

Claro que uma entrevista à distância pode facilitar a fuga de certas perguntas. Mas a culpa não é das ferramentas digitais onlines utilizadas para se entrevistar alguém. Em qualquer outra situação, o mesmo entrevistado poderia também se negar a falar sobre determinado assunto. Pode, por exemplo, desligar o telefone, bater a porta em seu nariz ou simplesmente ressaltar em vários tons a insistente frase "Não vou falar sobre isso!".

Aos jornalistas de hoje, é necessário abranger o campo de visão sobre o uso profissional do computador. O aparelho digital com acesso a internet deixou de ser ferramenta apenas para edição e organização de informações. Hoje ela é também meio eficiente de comunicação para se apurar, publicar e distribuir informações. Então, se liberte! Tire o cabresto, Pé de Pano!

Ao ser jornalista que se aproxima do público, você pode tê-lo como excelente "parcêro". Apurações jornalísticas complexas seriam facilmente decifradas com a colaboração de várias cabeças pensantes, de experiências e culturas diferentes. Twitter, blogs e fóruns virtuais são ótimas ferramentas para isso. Ajuda quem quer, colabora com o que se pode. Quanto mais pessoas participarem, mais informações serão confirmadas. Enquanto houver discussões, mais apurada será a filtragem que separa a verdade daquilo que é duvidoso ou errado. Você terá agentes, fontes e protagonistas de fatos jornalísticos em vários cantos do país, quiçá do mundo. Eles irão te oferecer textos confidenciais, fotos, vídeos e testemunhas.

Em contrapartida, o público vai encontrar em você a oportunidade de dar voz ao que realmente interessa ao cidadão. Seus textos jornalísticos serão mais respeitados e confiáveis. O mesmo acontecerá com os ciberespaços organizados e administrados por você que, nas horas não tão vagas assim, assume a postura de cartógrafo da informação.

Pode ser o início de uma viciosa relação informativa, em que todos se encontram nivelados no direito de ir e vir, falar ou permanecer calado. Um processo que nunca terá fim, já que qualquer informação sempre permitirá o complemento e a atualização dos fatos. Basta, para isso, ter vigilância constante. E se comporte, hein? Pois se fizer algo que desvalorize a confiança do colaborador-interagente, você poderá ir do céu ao inferno, sem pausa para ir ao banheiro.

Ôpa! Então perder o domínio sobre a informação é um retrocesso? Sim! É um retrocesso moderno, sem ser contraditório! Pois o trabalho do jornalista, na teoria, deveria ser próximo ao público e aos fatos, como assim foi durante saudosos tempos de um jornalismo investigativo. E não este que muitos praticam atualmente, próximo ao empresariado e às agências de notícias, preocupado apenas em garantir o salário no final do mês... doe a quem doer.

Aliás, o fato nunca te pertenceu. É algo que acontece e você conta para as outras pessoas. Quanto mais detalhes e coerência, melhor se pode visualizar o acontecimento e, conseqüentemente, entender melhor o funcionamento de vários quebra-cabeças sociais que nos afeta enquanto cidadão. Se fugir muito disso, é placebo. Se fizer de qualquer jeito, é negligência.

O jornalismo com a participação irrestrita e constante do público, potencializa de forma benéfica e necessária o verdadeiro significado do verbo "reportar". Ceder ao público o domínio da informação é uma responsabilidade enorme, mas não tenha dúvidas que irá te valorizar enquanto profissional, assim como aumentará a sua responsabilidade social.

Se um dia o jornalismo foi considerado o "quarto poder", hoje ele se encontra corrompido. Continua exercendo sua força, mas do lado errado. Aqueles que tinham pavor e pesadelos com o jornalismo, hoje riem com os pés sobre os profissionais da comunicação. Porém, os ventos levaram as boas sementes para outras terras, tão férteis quanto aquelas em que nasceram as primeiras mudas de árvores frondosas e de bons frutos. Mas nas recentes terras descobertas, também há ervas daninhas. Porém, com um bom arado, são elas, as ervas daninhas, que serão sufocadas pelo jornalismo participativo.

Entrevista: Marcelo Soares

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marcelo


(participação especial: alec duarte)

Marcelo Soares é instrutor de jornalismo de precisão e repórter especial de política da MTV Brasil. Em 2006, coordenou a criação do projeto Excelências, um banco de perfis de legisladores usando dados públicos que recebeu o Esso de Melhor Contribuição à Imprensa. Também traduz quadrinhos Marvel (Demolidor, Hulk, Novos Vingadores) relativamente bem e toca violão absolutamente mal.


Alec Duarte: Como cobrir as eleições monitorando a web? Que tipo de palavra-chave eu deveria buscar, quais alertas informativos são mais relevantes, como montar uma coleção de insights interessantes, que tipo de informação buscar?

Eu pessoalmente acho que nenhuma possibilidade deve ser excluída. Duas perguntas que devemos nos fazer: que informações se tornam relevantes? E como extrair o máximo delas? Em 2008, por exemplo, tinha eleições municipais e começou a aparecer uma porção de notícias sobre candidatos que sofreram atentados. A título de exercício, criei um mapa chamado "Faroeste Caboclo" mostrando como esses fatos se distribuíam no território. Em termos de dados brutos, acho que os do TSE são extremamente importantes. Nas eleições de 2000 e 2002, fiz para a Folha reportagens analisando dados extraídos das ações movidas entre os candidatos. A forma como eles escolhem quem atacar judicialmente espelha muito a campanha. No meu leitor de RSS, tenho os feeds do TSE e do STF, que alertam sobre os últimos julgamentos, fora Câmara e Senado, que ecoam o que acontece. No começo do ano eu comecei a fazer tag clouds com os discursos dos políticos, mas depois todo mundo começou a fazer e perdeu a graça. Estou inventando uma coisa diferente pra fazer no portal da MTV. O quê? Segredo, por enquanto.

Jorge Rocha: Você considera que as redes sociais podem realmente ser utilizadas para contrapor informações relativas à política nacional levadas à frente pela - valha o termo - mídia clássica?

Acho que as redes sociais têm mais potencial de amplificar do que de criar informação. Pelo menos por enquanto. Mas também acho que não dá pra exigir que o cidadão, eleitor, leitor, tenha clareza absoluta sobre o que é notícia ou não. Uma coisa é quando a notícia derruba sua casa ou transforma seu carro num caiaque - aí as mídias sociais têm um papel fundamental, como já se viu. Outra coisa é esperar que notícias relevantes sobre a política, que é uma coisa fluida, venham geradas pelos leitores. As notícias mais relevantes aí serão geradas pelas próprias fontes usando as mídias sociais. Talvez a reação dos leitores a esses fatos se torne notícia - tipo do irrevogável do Mercadante. Mas isso não é exatamente o tal do jornalismo cidadão. Acredito, porém, que se forem bem pautados por jornalistas conscientes das limitações do meio e da capacidade dos leitores, é possível fazer um crowdsourcing de qualidade. Aliás, prefiro o termo crowdsourcing ao mais otimista "jornalismo cidadão".


JR: Para os jornais, qual é o grau de importância de iniciativas como Ficha Limpa e outros projetos que visam trabalhar com o histórico de políticos?

Estou fora dos jornais brasileiros há quase uma década. Tenho amigos nas redações, mas não sei como funciona o "mindset" interno. Em 2006, quando coordenei a criação do Excelências, na Transparência Brasil, tive uma experiência prática com isso. O projeto imediatamente se tornou uma fonte de pesquisa para os colegas das redações. Mas o que me deixava meio triste era o seguinte: poxa, qualquer redação tem mais programadores e jornalistas, gente que sabe lidar com informação, do que uma ONG de escassos recursos. O Excelências saiu numa ONG porque as redações não enxergaram esse papel. E olha que eu ofereci o embrião do projeto a duas redações antes de bater à porta da Transparência Brasil. Como o Claudio Weber Abramo é um sujeito que sabe trabalhar com informação como muito poucos, aquele embrião virou algo muito mais poderoso do que eu podia sequer imaginar quando bati à porta das redações. Depois disso a Folha fez algo parecido só com políticos de São Paulo ainda nas eleições de 2006, e o Estadão fez algo parecido mas multimídia com os candidatos a vereador nas eleições de 2008. Sem falar que, depois de mostrarmos as pendências dos políticos pela primeira vez num só lugar pra quem estivesse interessado, a questão da limpeza das fichas virou uma obsessão nacional. Em resumo: acho que os jornais mais tradicionais podiam aproveitar a informação de maneira mais inteligente. Têm recursos e pessoal em condições de bem menor escassez do que a maior parte das ONGs. Acho que a questão é de prioridade. O pessoal reclama que o pessoal é pouco, e realmente é se a prioridade for anotar cada aspa dos políticos e fotografar cada bocejo das celebridades pra ter notícia a cada segundo no portal e manter as listas sempre gordas. Só que, convenhamos, isso é um jornalismo braçal. Se em vez de aproveitar os braços desses jornalistas os jornais aproveitassem mais suas cabeças, aí talvez tenhamos coisas mais interessantes para a frente.


AD: Política, a princípio, é tudo. Envolve qualquer passo do cidadão. A cobertura de eleições não deveria ser mais "globalizada", digo, espalhada por todos os cadernos diários dos jornalões? Ou o que já existe é satisfatório?

Eu acho que não é satisfatório. Mas no caso brasileiro vejo uma obsessão pela compartimentalização: se o caderno é de economia, por exemplo, espera-se que uma reportagem sobre contrabando enfatize a questão dos impostos e deixe em segundo ou terceiro plano os ângulos do crime organizado, da saúde etc. porque isso é assunto pra outros cadernos. Sério, já aconteceu. E eu tinha passado um ano investigando o ângulo do crime organizado. Isso eu falo como profissional. Como leitor, juro que tem domingos em que eu acho R$ 4 até caro pelos jornais que eu recebo. Em 15 minutos li tudo o que me interessava.

Essa sensação não é apenas brasileira. Semana passada conversei com jornalistas alemães, belgas e portugueses, hoje tenho conversa marcada com jornalistas britânicos. Todos têm a mesma sensação. Com o agravante de que no Brasil não temos nada que se assemelhe ao Guardian. Ao The Times talvez. Jornalistas americanos têm a mesma sensação - e olha que no Brasil não temos nada que se assemelhe ao New York Times. Ao Chicago Tribune talvez.

JR: Cabe aos jornalões, em suas práticas de contar uma história e avaliar determinadas situações, cobrir também as estratégias de comunicação utilizadas pelos candidatos à presidência da República?

Acho que é um assunto relevante, mas que ele não tem toda a importância atribuída em centimetragem pelos jornalões. Acho que é um assunto excitante para os políticos, mas de importância quase zero para o leitor - que além de ser bombardeado pelas estratégias de comunicação dos candidatos também é bombardeado por notícias sobre elas.

JR: O que mudaria no cenário nacional se cada empresa jornalística anunciasse abertamente, em seus veículos de comunicação, o apoio a esse ou aquele político em eleições presidenciais?

Não faço ideia. Acho que isso não é um aspecto tão importante. É legal em termos de transparência, mas não acho fundamental. Acho que mudaria muito mais se cobríssemos mais os programas de governo que os programas de TV.


AD: Por mais que se tente enquadrar, a web segue um território livre. Quais os perigos dessa terra resistente às leis?

Acho que o maior perigo é a manipulação. Como é um território livre, e precisa ser assim, qualquer um pode passar a mensagem que quiser. Os marqueteiros em geral sabem disso. Dos comentários em sites, nem falo - às vezes tenho a sensação de que só existem cinco pessoas, cada uma com trocentos nicks, comentando em todos os blogs de política do país. Penso em coisas mais sutis. Pode ser fácil filtrar numa Wikipedia uma alteração que apaga todo o verbete sobre o Brasil e troca o texto por "país de merda". É mais difícil filtrar alterações muito específicas de verbetes em nome de interesses especiais. Já aconteceu nos EUA e foi denunciado. Já deve ter acontecido no Brasil sem ninguém notar.

AD: Cite três ferramentas da web que o eleitor deveria manipular e monitorar até o dia de depositar seu voto.

Devido ao calendário eleitoral, ainda é cedo. Ainda não apareceram as ferramentas inovadoras deste ano. (Em 2006, o Excelências só apareceu em agosto, porque dependia do registro das candidaturas, que é em julho.) Mas pra citar três ferramentas atemporais: site do TSE, Excelências e o bom e velho Google.