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maio 2, 2008

sex 2mai08 22:13
Entrevista: José Eduardo Gonçalves

"José Eduardo Gonçalves, jornalista, editor e escritor, atualmente é presidente da Rádio Inconfidência, vinculada à Secretaria Estadual de Cultura de Minas Gerais. Edita e apresenta, desde novembro de 2005, o programa Rede Mídia, na Rede Minas de Televisão, espaço de debate sobre comunicação, culturas e tecnologias midiáticas. Tem três livros publicados - Cartas do Paraíso, Vertigem e A Cidade das Memórias Flutuantes. Desenvolve projetos editoriais, como a coleção "BH. A Cidade de Cada Um", com 10 livros já publicados. Foi professor na Faculdade de Comunicação da PUC-Minas e editor da revista de cultura Palavra. É curador do projeto literário Ofício da Palavra".

entrevistadora convidada: gabriela jardim

Jorge Rocha - O recente episódio da saída do ex-ombusdman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães, aponta uma certa precariedade no exercício prático da crítica embasada que, para dar real valor à esta função, não deveria ser cerceada. Sim, este é um juízo de valor. Até que ponto você considera que a credibilidade da Folha de São Paulo - e, conseqüentemente, do cargo de ombudsman - pode ser arranhada com este episódio ?

José Eduardo Gonçalves - Não acho que a credibilidade do jornal foi ou será arranhada por conta do episódio. Nos primeiros dias houve um evidente incômodo por parte da comunidade de leitores, especialmente pelo vácuo de uma posição editorial, ou seja, a Folha não se manifestou. Mas vamos lembrar que o ombudsman se despediu como quis, expôs suas razões, pegou o boné e byebye. Esse vácuo durou ainda alguns dias até o anúncio do novo ocupante do cargo. Mesmo levando-se em conta que o Mário Magalhães abdicou do cargo por não concordar com as mudanças propostas pela direção do jornal em regras vigentes no seu trabalho, vale a pena registrar que: 1) a Folha continua sendo o único jornalão a manter a figura do ombudsman; 2) as críticas internas continuam sendo feitas e é válido (concordemos ou não com) o argumento de que este material vinda sendo monitorado por concorrentes; 3) a coluna dominical continua valendo e: 4) já temos um novo profissional no cargo, o que é uma reafirmação na crença do trabalho do ombudsman. Para finalizar: embates internos são corriqueiros e cotidianos na vida de um jornal, ainda mais num veículo como a Folha, prensado na ambigüidade que o faz tentar ser mais audacioso que outros (reformas gráficas, em especial) e a realidade que o obriga a se pautar, na maioria das vezes, como seus colegas de classe.

JR - A idéia de mediawatching sempre me fascinou porque, além de esmiuçar brigas de cachorro grande, ajuda a desmistificar a falácia da tal da imparcialidade. E eu engrosso as fileiras daqueles que têm birra com esse conceito. Por isso, repasso duas perguntas da vizinha de condomínio, Larissa Bueno, registradas na caixa de comentários deste blog-blefe: "de onde vem essa idéia de imparcialidade da imprensa, no Brasil?" e "por que o posicionamento é ou passou a ser mal visto?"

JEG - Não sei de onde vem essa idéia, esse puritanismo ideológico, essa coisa asséptica da imparcialidade da imprensa, que é simplesmente impossível. De modo geral, as regras de jornalismo pregam maior isenção, distanciamento, objetividade, de forma a que o público faça suas próprias deduções. Na prática isso é uma balela, em tudo há opinião, posicionamento. O que não quer dizer que não deva ser tentado, diariamente. Veja só, todo mundo critica a VEJA (eu, inclusive) quando a revista publica uma capa dizendo, sobre a renúncia de Fidel: "Já vai tarde". Isso é jornalismo? Não, isso é opinião. Mas é opinião de direita, reacionária, por isso tanta rejeição. Mas se fosse opinião de esquerda podia? Pois em casos como este prefiro que se faça muita reportagem, muita análise (de gente de todas as tendências), que se abra para muitas fontes, e que o público decida, afinal, sua opinião.

Gabriela Jardim - Você apresenta um programa de entrevista e análise de temas ligados à mídia, na tv pública. O quanto há de "público" empregado no jornalismo que é praticado nesta emissora ?

JEG - Sinceramente, não sou a melhor pessoa para analisar o jornalismo da Rede Minas por uma questão muito simples: quase não assisto telejornais. Nem dela nem de outros. Prefiro me informar por internet, jornal, revista, rádio, eventualmente tv. Na tv gosto de esporte (especialmente futebol) e algumas séries ou programas. Mas acho que a Rede Minas faz bons programas, tem um leque de opções de qualidade muito maior que as tevês abertas. O próprio programa que eu edito e apresento é um bom exemplo. Pode ter muitos defeitos, mas é um espaço raro na tv brasileira. Tenho total liberdade para levantar as pautas (mesmo porque, se não tivesse, lá eu não estaria), nunca recebi qualquer recomendação sobre o que tratar ou não tratar. E tenho tratado de muita coisa, dado voz a muita gente. Acho que este espaço é uma verdadeira trincheira de resistência no terreno inóspito da tv brasileira, tratando com seriedade e em horário nobre de questões que considero relevantes para o público. O conceito de público é muito amplo, mas deve necessariamente respeitar a diversidade (étnica, religiosa, sexual, cultural, regional etc) da sociedade brasileira. Não sei se a Rede Minas oferece o tempo todo esse cardápio, mas ela me parece, sem dúvida, muito mais saborosa e inteligente que outras, focadas unicamente na questão da audiência. Por exemplo: por que apenas uma TV Cultura, em São Paulo, e uma Rede Minas, aqui, são capazes de investir em programas infantis menos imbecis? Por que outras com mais capital, muito mais, não o fazem? E o engraçado é que todas são concessões públicas...

GJ - Focando na questão das fases cíclicas da mídia, vivemos hoje em uma fase de convergência midiática, na qual, a tendência é sempre uma aproximação e complementação dos veículos. É a partir deste pressuposto que você lançou a parte inédita do programa no site?

JEG - Em parte, sim. Não dá pra ficar imune a isso. O fato é que estamos enquadrados em um formato padrão, temos ali preciosos 25 minutos semanais, então é pegar ou largar, e eu peguei certo de que valeria a pena, acho que estava certo, mas é muito frustrante a coisa só funcionar naquele curto período de tempo. Por isso arrisquei: que tal levar um pouco do conteúdo para a internet, quem sabe isso atrai um novo público? Acho que hoje nada mais existe sozinho, veículo nenhum é uma ilha. Tem de dialogar com outros meios.

GJ - Ainda visando a fase convergente da mídia, você, como apresentador de um programa cujo objetivo é ser "um fórum de debates sobre todas as nuances e formatos da comunicação", não acredita que seria interessante estender este fórum para além da tv?

JEG - Sim, seria bem interessante. E natural, até.Só não o faço porque isso exigiria de mim, hoje, um tempo que não posso dar. Fazer o programa já é uma baita empreitada, tendo em vista as inúmeras outras atividades que exerço. Abrir mais uma frente seria inviável. Não vejo como ampliar este fórum sem que eu pudesse participar diretamente, e isso hoje não dá.

JR - Bill Kovach e Tom Rosenstiel, no excelente "Os elementos do Jornalismo", dão a medida exata acerca da construção da credibilidade jornalística. Para eles, a audiência pode dar mais crédito à determinada publicação se esta explicitar seu perfil ideológico-editorial - "ideológico-editorial" é redundância, eu sei. Por que esse não parece ser um caminho viável no modelo de negócios das empresas jornalísticas brasileiras ?

JEG - As publicações podem explicitar seu perfil ideológico-editorial em editoriais, é a forma mais "limpa" e transparente de se fazer isso. Em período eleitoral, me parece louvável que qualquer jornal explicite, em editorial, a sua preferência. Mas contaminar o noticiário com isso me parece uma sacanagem, o público quer informação de qualidade, e não apenas opinião. Aliás, tenho a impressão que hoje temos opinião de mais e informação de menos...

GJ - Durante todos estes anos de mídia, iniciando lá na impressa e chegando hoje na internet, a relação entre jornalista e público foi sendo fortemente alterada. Diante disso, como você vê o processo ainda fechado, do ponto de vista de participação do público, do "fazer tv" de hoje? Uma saída para isso seria o que eu chamei anteriormente de convergência? Ou você acha que o "fazer tv" será sempre assim?

JEG - Não sei como será o "fazer tv" no futuro, mas sei que vai mudar. Tudo muda. A relação entre jornalista e público mudou muito desde Gutenberg, você mesmo disse isso. Não existe mais o jornalista encastelado, dono da verdade, capaz de todos os desatinos. A opinião pública é muito mais vigilante e a internet derrubou as fronteiras antes invisíveis das redações. Hoje, se leu e não gostou, o pau comeu. A tv também é sensível a isso, apesar dos rígidos padrões de produção. As grandes redes ainda mandam no terreiro, mas o poder delas vem decaindo ano a ano. Muita coisa ainda vai mudar - a tecnologia digital, a convergência com outras mídias (em especial o celular), a internet banda larga se popularizando, as disputas entre grupos de telefonia -, tem água demais passando embaixo dessa ponte. Ainda acredito que teremos uma tv mais inteligente no futuro. Ou, pelo menos, muito mais opção de inteligência na tv. E acredito que o público será cada vez mais influente nesse processo.

abril 23, 2008

qua 23abr08 00:49
Siga o coelho branco

Em A arte da guerra, Sun Tzu escreveu: "Uma vez que não tens forma perceptível, não deixas pegadas que possam ser seguidas, os informadores não encontram nenhuma fresta por onde olhar e os que estão a cargo da planificação não podem estabelecer nenhum plano realizável". A poeta belo-horizontina Ana Elisa Ribeiro brinca com a idéia de deixar ou não pistas em seu novo livro, adequadamente batizado como Fresta por onde olhar. Terceira obra poética da autora - anteriormente publicou Perversa (Ciência do Acidente, 2002) e Poesinha (Coleção Poesia Orbital, 1997) -, Fresta por onde olhar reúne poemas que foram cuidadosamente burilados e amadurecidos, tanto em eventos literários quanto em conversas e vivências. O resultado é notado nos 40 poemas que compõem o livro: peças que denotam o vigor artístico de quem sabe esgrimar com as palavras, fazer as sentenças contorcerem-se ante uma compulsão de fina ironia e, finalmente, sucumbirem diante de nossos olhos incautos.

O poeta Fabrício Marques, que assina o prefácio de Fresta por onde olhar, faz uma cartografia do modo poético da autora. Em suas palavras, traça que "a respeito das ´obsessões´de Ana Elisa Ribeiro - as relações amorosas, a própria poesia, um eu lírico tentando definir-se -, pode-se dizer que a poeta as desdenha com muita ironia e humor, ora inclinando-se para o erotismo, ora para o lirismo, ora para uma coloquialidade sem-vergonha, ora para tudo isso ao mesmo tempo". E eis que temos algumas pistas a respeito de onde a poesia de Ana Elisa Ribeiro costuma andar.

Fresta por onde olhar é ainda uma obra plenamente autoral, imbuída de espírito self made, o que faz com seja alvo de maior apreço por parte da poeta. Para lançar este livro, a autora criou um selo próprio, chamado InterDitado, e controlou todas as etapas de produção, da elaboração conceitual até a impressão gráfica. Por tudo isso, as pistas que Fresta por onde olhar lança ao leitor podem conduzi-lo a inúmeras portas. O que pode e deve ser natural à poesia.

[anotem na agenda. o lançamento em BH acontecerá no próximo dia 26, no Café com Letras, a partir das 11h. em SP, no dia 6 de maio, na mercearia s. pedro, às 19h]

abril 7, 2008

seg 7abr08 16:48
Réquiem para um ombudsman

Confesso que, desde sempre, olhei de soslaio para o cargo de ombudsman. Fico cismado com reclamação ou oposição consentida, pois não me sinto confortável com "espaço permitido, demarcado e controlado" para críticas, apontamento de falhas e - por que não ? - vitupérios públicos. Mas não deixo de considerar e admirar quem tem culhão para aceitar esta função. Do mesmo modo, fico aborrecido - para dizer o mínimo - quando um profissional é demitido desta função por resolver esgarçar um tantinho a mais as pregas dos limites impostos para o exercício da crítica ponderada e argumentativa - esta sim, valorizada por este exucaveiracover. A demissão do ombudsman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães - que ocupava o cargo desde abril do ano passado, no lugar de Marcelo Beraba -, causou-me esgares pelo simples fato de que a liberdade consentida transfigurou-se em armadilha para ursos. Conforme aponta Eduardo Guimarães, em Cidadania.com - leiam o post "A gota d´água", publicado no último dia 5 -, o jornal parecia não querer que o jornalista publicasse suas opiniões em outro espaço que não fosse em sua coluna dominical, fazendo culminar um processo de críticas mais apimentadas que Mário Magalhães vinha escrevendo. Adotando tal prática, a Folha de São Paulo atiça minhas cismas a respeito deste cargo e reforça minha convicção valorativa de que é melhor recusar-se a ficar quieto e arcar com os custos do que, para ser premiado, ter que fingir-se de morto.

Não tardou para que a solidariedade de outros jornalistas - há quem fale em espírito corporativo em um momento desses - ganhasse corpo, expondo idéias semelhantes as que defendo. No site do Luiz Carlos Azenha, tomei conhecimento do texto escrito por Hélio Sassen Paz sobre esta demissão - cujo teor endosso. Trechos inteiros deste texto soam familiares para mim; venho escarafunchando idéias similares desde que cunhei o bordão que dá nome a este blog. Por conta disso, fico pensando, metido a fazer análises que sou, quais serão os próximos passos que Mário Magalhães irá tomar agora. Defenderá impiedosamente a bandeira de que a Internet é o único território realmente isento que temos quando os tópicos são crítica e pluralidade de opiniões ? Investirá em termos próprios, como fez Paulo Henrique Amorim após sua "saída" do IG, ou outros antes dele que não quero listar aqui e agora ? E a blogosfera tupiniquim, tão envolvida em debates midiáticos - cof cof cof -, repercutirá o caso assaz prontamente ? Sei não, Tiagón e Gejfin, mas vocês deveriam convidar o Mário Magalhães para a Verbeat.

seg 7abr08 00:58
Atenção: percepção requer envolvimento

A vida é cheia de som é fúria. Pffdfff, tremenda falácia. A vida é feita de terríveis simetrias. Inflamado pelos posts de Gabriela Zago, Gilberto Pavoni Jr e Ana Maria Brambilla, eu andava batucando um esboço de apontamentos sobre Jornalismo Colaborativo, quando Cristine Delphino pediu que respondesse uma entrevista para sua monografia. Sobre ... Jornalismo Colaborativo, oras. Pensaram o que, filisteus ? Que eu iria dedurar (mais) blogueiros ? Da entrevista, destaco três perguntas, diretamente associadas com algumas de minhas inquietações:

Você acredita que conteúdos colaborativos podem substituir o jornalismo tradicional?

O que você chama de jornalismo tradicional ? Os jornais impressos buscaram um verniz diferente em sua produção textual quando "ameaçados" pela fetiche da velocidade informacional propalada pelos idiotas tecnológicos, estes crentes discípulos de Lévy. A televisão estratificou-se em regurgitações insossas em sua programação aberta e prostrações ao hollywood way of life na "tv paga". Rádio ? Mais do mesmo. A Internet suplantou as velhas mídias ou estas iriam acabar mesmo em um "processo de estupidificação", independente da entrada da tecnologia de comunicação não-massiva no cenário midiático ? Trabalho com a idéia fixa de recombinação, nunca suplantação ou substituição. Se você preferir, posso dizer que os conteúdos colaborativos podem suplementar as práticas do jornalismo tradicional. Isso significa que as práticas colaborativas não precisam estar atreladas às corporações jornalísticas - portais, por exemplo - para terem relevância. E é preciso sempre bater nesta tecla aqui no Brasil. Penso que o Jornalismo Colaborativo - assim como toda e qualquer social media - pode incrementar qualitativamente a comunicação, a forma de pensar e relacionar-se com a informação. Acredito também que o pensamento webjornalístico, compreendendo sua função ligada à cartografia de informação e modos de interação, necessita ainda contemplar questões referentes às novas configurações do espaço público observadas com o advento das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação para um desempenho adequado de sua função.

Quais são as maiores dificuldades encontradas no jornalismo colaborativo?

Primeiro problema: fugir da afirmação falaciosa de que o Jornalismo Colaborativo vai acabar com o papel do jornalista diplomado. Torna-se quase impossível não ouvir esta afirmação - ou variações desta, mas com o mesmo teor - quando se fala em Jornalismo Colaborativo. Particularmente encontro-me enfadado em repetir que tal prática jornalística não prescinde dos jornalistas diplomados - eu sou um deles, ora bolas -, mas sim pensa em integrá-los a um processo interacional, que pode enriquecer as rotinas produtivas jornalísticas. Desde que estes jornalistas - ou as empresas para qual trabalham - estejam dispostos a realizar alterações/adaptações em seu modus operandi. E é nesse exato ponto que tudo começa a degringolar. Segundo problema: os portais brasileiros apenas dizem abrir espaço para Jornalismo Colaborativo quando não o praticam de fato. Adaptam práticas colaborativas neste ou naquele espaço, moldando-o como mais um fator agregador ao seu modelo de negócios. Complementando este cenário, não temos hoje, no Brasil, uma audiência "acostumada" a lidar com práticas colaborativas - embora minhas análises me façam pensar que ainda estamos "construindo" essa audiência. Junte estes dois pontos - e estou referindo-me "apenas" ao Brasil - e temos um certo campo de batalha em que o Jornalismo Colaborativo prefere combater com as armas da conversação e investidas hiperlocais.

Como você vê o jornalismo colaborativo daqui a cinco anos?

Não sou um futurist-in-residence como Michael Rogers, mas daqui do meu terreiro hipermidiático esboço dois cenários possíveis, ao menos para o Brasil. Se o Jornalismo Colaborativo continuar sendo tratado como mero fator agregador em uma cadeia de modelo de negócios, prática comum em portais, que distorcem e subjugam sua rotina produtiva - de caráter relacional e interpessoal -, então possivelmente os prognósticos que se podem captar a partir do relatório The State of News Media 2008 serão confirmados. Ou seja, teremos um decréscimo na produção colaborativa - mas um decréscimo no "campo de atuação" dos jornalões, é bom ressaltar. Poderia-se perguntar nesse caso: "o Jornalismo Colaborativo não ´é atraente´ ou ´possível de realmente ser implementado ?´". Uma resposta plausível para agora mesmo: portais não implementam Jornalismo Colaborativo. Ponto. Caminhando para outra direção, podemos conjecturar: e se a idéia de que o Jornalismo Colaborativo não pode ou deve ser atrelado à corporações para - aham - ganhar notoriedade encontrar terreno fértil no imaginário comunicacional interacional brasileiro ? A resposta não é tão óbvia assim quanto possa soar. Para realizar-se, é claro, este cenário depende também - não vou aqui e nesse momento quantificar isso - da atuação dos players envolvidos com o Jornalismo Colaborativo para constituir redes e explicitar - preferencialmente de maneira prática - de que a estratégia hiperlocal constitui-se algo de valor exeqüível e imprescindível. E com isso me dou conta que estou bancando Morpheus, oferecendo a Neo a escolha entre a pílula vermelha e a azul. Gosto disso.

abril 1, 2008

ter 1abr08 22:30
Mentiras sinceras me interessam

A figura, história e mitologia acerca de Pinóquio sempre me fascinaram - de um modo parecido com o que ocorreu com Giorgio Manganelli. Como acontece todos os anos, fico esperando as obviedades associativas de 1º de abril com o boneco de madeira criado por Collodi. Mas hoje - ainda é o Dia da Mentira enquanto escrevo este post e respiro como Darth Vader - acompanhei uma pequena estratégia sagaz desta associação, por cortesia da agência de publicidade 5Clicks, localizada em Belo Horizonte - assim como eu; ahá ! A agência criou o perfil @pinoquio no Twitter, convidando twitteiros e twitteiras - ô termo desgraçado - a postar mentiras de proporções variadas ao longo do dia, concorrendo a prêmios. O resultado dos premiados será divulgado amanhã, dia 2 de abril - vocês acreditam nisso ? -, neste site, que reúne todas as mentiras apregoadas. A utilização de uma ferramenta como o Twitter para - *pigarreando* - promover interação é louvável e demonstra um tantinho a mais de perspicácia num mundinho onde a mediania assenta-se coroada. Por isso este blog-blefe destaca a iniciativa da 5Clicks. E, terrível simetria, foi no mínimo irônico ver esta ação ocorrer concomitantemente com a volta da campanha "Dedure um blogueiro"*, que utiliza-se do Twitter e é pilotada por este exucaveiracover que batuca estas teclas, onde meias-verdades e empulhação em geral são disparadas por agentes provocadores que aproveitam-se da situação para, vez ou outra, soltar alguns podres reais de alvos desavisados. Chico Science estava certo: me organizando eu posso desorganizar.

[*no twiiter, a tag da campanha é #dedureumblogueiro]

DÚVIDA FILOSÓFICA: Caminho natural: será que, após esta ação no Twitter, a 5Clicks vai investir em ARG para a(o?) InterMinas ?

março 12, 2008

qua 12mar08 14:38
A "última juventude" de Nick Cave

É perceptível também um realce na maestria com que Nick Cave trata as palavras em um eterno jogo de xadrez cognitivo. Podemos arriscar dizer que, com Grinderman, "banda paralela" que montou após o duplo Lyre of Orpheus/The Abbatoir Blues, ele parecia anunciar o que estava preparando, em termos musicais e de atitude, para este Dig, Lazzarus,Dig - ainda mais quando passou a envergar um bigodón no estilo Paulo Leminski, outro membro do clã dos exus.


Resenha que cometi sobre Dig Lazarus Dig na revista Paradoxo. Aproveitei para enfiar um bando de exus no texto. Siga o coelho branco.

março 10, 2008

seg 10mar08 01:10
Entrevista: Sergio Leo

sergioleo.jpg

"Sergio Leo formou-se em jornalismo pela Escola da Comunicação da UFRJ na oitava década do século passado, e, neste milênio, especializou-se na UnB em Relações Internacionais. Já deu aulas de jornalismo em um curso de extensão da UnB e no Ceub, Centro de Ensino Unificado de Brasília. Trabalhava no Segundo Caderno dO Globo quando foi convidado por Ricardo Noblat para a sucursal do JB em Brasília, no começo do governo Sarney; passou, desde então, pelas sucursais da Folha, Estadão, O Globo, Rede Globo, isto É e Isto É Dinheiro, até se aquietar no Valor, onde está desde 2001. Como repórter especial do Valor, cobre todos os assuntos de Economia e Política, mas prefere mesmo acompanhar a política externa, especialmente na América do Sul, as negociações comerciais e as discussões sobre política industrial. Em 2004 inaugurou o blogue Sítio do Sergio Leo que, desde 2007, desdobrou em outro, o Ralações Internacionais."

entrevistador convidado: andré deak.

Jorge Rocha - Pedro Dória bate numa tecla, não é de hoje, que não existem blogs sobre política no Brasil e tal afirmação sempre causa mal-estar nos incautos. O tom que ele usa aponta que isso é um contra-senso - sim, é minha interpretação, não me contrarie -, pois blogueiros poderiam muito bem usar o poder catalisador que esta ferramenta potencializa para iniciar, movimentar ou até mesmo inflamar uma discussão "com alguma relevância social". Por que será que tal predisposição aparentemente não existe entre nós, no Brasil ?

Sergio Leo - Acho que o Dória se refere a blogueiros não-jornalistas, porque há muitos e bons blogues de política no Brasil, que chegam a provocar governo e posição, motivar respostas, etc. O Blog dos Blogs do Tales Faria, o Blog do Alon, o Blog do Josias... Acho que também são fontes importantes de informação, e tendem a crescer de importãncia, os blogues de políticos, como o finado Blog do César Maia e o do José Dirceu. Um cara que faz um trabalho interessante, com viés partidário, claro, é o Luis Favre, numa militância crítica em cima das informações veiculadas por aí, claro que em defesa dos interesses do grupo político dele. Muitos blogues fazem um trabalho analítico interessante, destrinchando as notícias, como é o caso do Hermenauta. Faltam bons blogueiros de direita com domínio dos instrumentos da Internet (não valem os histriões hidrófobos da classe média desinformada, como o Reinaldo Azevedo) e ânimo investigativo. Curiosamente, há mais blogueiros falando de política externa, com conhecimento de causa, que de política interna. O Maurício Santoro, do TodososFogos, é um analista excelente da cena internacional (embora ele já tenha sido dessa raça jornalística, hoje é mais cientista político que outra coisa); o Idelber às vezes faz isso, como agora na eleição nos EUA. Eu acredito que o essencial, para um blogueiro, é ter informação, capacidade de análise e de exposição. Os blogues não competem com a imprensa comercial, pelo contrário, se alimentam dela, e muito. Trazem informação sob ponto de vista diferente, apontam fontes alternativas na rede. Falta, talvez, um blogueiro que tenha fontes alternativas próprias de informação (citar a Carta Capital não vale) e compita na apuração com o mainstream jornalístico. Mas isso é muito difícil, e caro, não vejo espaço, a não ser, talvez, no caso dos blogues partidários ou de organizações políticas. Esses ainda não aprenderam a fazer isso.

André Deak - A maior base militar dos Estados Unidos na América do Sul fica em Manta, no Equador, e o presidente Rafael Correa já disse não ter interesse em renovar o contrato com os EUA. Pouco antes do massacre dos guerrilheiros das Farc, oficiais do Comando Sul estiveram em Bogotá. Se os EUA estiverem tentando desestabilizar a região, a imprensa não pode estar contribuindo para piorar a situação? Onde estão os jornalistas que poderiam revelar os interesses ocultos nessas movimentações, tanto por parte dos EUA quanto da Colômbia, do Equador e da Venezuela?

SL - André, Manta é um tema recorrente na política equatoriana. A base tem uma parte sob controle dos EUA desde 1999, antes de Chávez, Morales ou qualquer governo esquerdista atual dar as caras no continente, e faz sentido a alegação de que seu principal objetivo é o controle do tráfico. Claro, já que há um forte transito de aeronaves de vigilância, não custa usar algumas para reprimir a imigração ilegal, em barquinhos que tentam chegar à costa estadunidense, não é mesmo? Num cenário de governos hostis aos EUA no continente, é claro que a rede de bases e contingentes mantidos por Washington na região (eles têm muita gente na Colômbia, alguma coisa no Peru e colaboração com os paraguaios) serve de instrumento dissuasório e de pontos de apoio no caso imrpovável de alguma intervenção por aqui. Um objetivo não-declarado mas óbvio dessa presença militar é assegurar os interesses americanos em relação ás reservas de petróleo abaixo do Rio Grande. A imprensa cobre mal, mas tem dado notícias dessa questão das bases e das movimentações de pessoal dos EUA, mas a precária estrutura de cobertura dos jornais e tvs brasileiros no continente impede um trabalho mais profundo. A demonstração mais escandalosa desa precariedade é a quantidade de matérias sobre Bolívia, Equador e Colômbia feitas para as TVs por repórteres plantados nas ruas de... Buenos Aires. Ora, para cobrir a América Andina desse jeito, o repórter da TV Amazonas ou da TV do Mato Grosso deve ter mais condições de fazer o trabalho. Mas há tentativas meritórias; o Estadão, apesar de seu viés anti-América Latina, enviou correspondentes, e há boas matérias feitas por esse pessoal, por exemplo. Faltam mais repórteres baseados nesses países, com condições de ter fontes de informação para fazer a investigação profunda que, como você bem nota, não vem sendo feita. Não creio em interesse dos EUA em estabilizar a região, pelo contrário; a Condoleeza vem esses dias ao Brasil exatamente para ver se o Lula ajuda a acalmar as coisas, para que eles possam se dedicar ao atoleiro em que se meteram no Oriente Médio e manter um olho aberto para as movimentações dos chineses mundo afora...

AD - Há alguns anos entrevistei os editores de política internacional da Folha de S. Paulo, de O Estado de S. Paulo e da Veja, sobre a cobertura que faziam (ou não faziam) sobre os zapatistas do México. Na época, chegaram a dizer que não era um movimento sério, "ficavam lá tocando violão, não são como as Farc". A que você atribui o total desconhecimento da realidade latino-americana desses editores?

SL - Existe um enorme comodismo nos grandes jornais, somado à avaliação equivocada de que o leitor brasileiro não se interessa por temas internacionais. Isso faz com que, como costumam se queixar os editores da área, as editorias dedicadas aos temas mundiais tenham poucos repórteres, os orçamentos para coberturas internacionais sejam limitados, dediquem-se poucas páginas a essas editorias e sejam poucos os correspondentes dos jornais no exterior; e a esmagadora maioria do material publicado nas editorias Internacional ou Mundo sejam de agências internacionais que, logicamente, refletem os interesses de seus centros geradores. Por isso ouvimos tanto falar do Oriente Médio e tão pouco dos países africanos de língua portuguesa, por exemplo. Temos mais detalhes sobre as eleições dos EUA do que tivemos sobre a da Argentina, ou teremos sobre as do Paraguai, que também nos interessam muito. Não há uma cultura de cobertura sistemática dos países latino-americanos, tanto que, até recentemente, só Buenos Aires tinha correspondentes brasileiros (mais recentemente, por motivos óbvios, a Folha instalou em Caracas o excelente Fabiano Masionnave). A formação dos editores de Internacional, na maioria das vezes, também reflete muito essa dependência das agências internacionais, o que provoca um viés avesso a assuntos regionais (a não ser em caso de conflitos flagrantes) na cobertura da grande imprensa. Há tímidos sinais de mudança, em parte provocados pela crescente integração dos países, com desdobramentos políticos, econômicos e sociais. Em parte levantada pela exuberância nada irracional do comandante Chávez. Já melhorou muito mas ainda é lamentável a falta de visão dos jornais para a rqiueza da América latina como fonte de notícias para os brasileiros.

JR - No teu blog, você escreve de maneira informativa, analítica e opinativa - fatores que, para mim, não deveriam faltar no jornalismo; sim, sou um cara ultrapassado - "também" sobre tópicos com os quais você convive em tua vida profissional. Há uma diferença de tratamento aí ? Algo como microblogagem poderia dar uma faceta nova ao que você já faz ?

SL - O jornalismo brasileiro é muito avesso às coberturas na primeira pessoa, ou a matérias impressionísticas, talvez por haver pouca gente que saiba fazer isso bem. O Clóvis Rossi é um dos poucos; a Míriam Leitão, que é muito criticada por isso, às vezes faz muito bem esse trabalho (às vezes essa abordagem mais pessoal escorrega para a opinião pura e simples, o que não é bom; mas leiam as matérias dela sobre meio ambiente e entenderão o que digo). Acho que a principal diferença entre o que escrevo no blogue e no jornal é que, na imprensa tradicional, tenho um compromisso de maior impessoalidade, limites para avançar em minha opinião particular e para tratar dos assuntos num tom mais escrachado. No blogue, me sinto mais à vontade para fazer crônica, provocar polêmica, divulgar impressões e contar com os comentários dos leitores para complementar o que digo (ou até refutar; gosto muito quando me corrigem com embasamento, coisa que odiaria se acontecesse no jornal, onde se espera um produto mais acabado). No blogue, imagino uma situação mais próxima do convívio social normal, em que manifestamos nossas opiniões e impressões, com base no nosso conhecimento, e pelo menos no meu caso, nos dispomos a ouvir o que os outros têm a dizer sobre isso, para refinarmos nossas posições em relação ao mundo. Fiz o que odeio ver nos entrevistados, falei demais. Mas essa é outra vantagem dos blogues, o espaço é mais elástico, e sempre se pode camuflar um texto longo num link a ser clicado pelos mais interessados... Maleme Exu!

AD - Você acompanhou viagens dos presidentes Sarney, Collor, FHC e Lula. Nessas viagens é comum formar-se uma panelinha de jornalistas, um perguntando para o outro qual é a notícia, qual é a fala mais importante, para todos darem igual. Isso porque se um deles dá outro enfoque, existe a chance do editor dar um esporro: "Você tá aí e não viu isso?!". Além da falta de preparo, quais são outros problemas de quem cobre política internacional?

SL - O risco de andar com passo diferente no batalhão é total, e muita gente, por isso, adota o comportamento de manada. Isso é particularmente comum nas salas de imprensa, entre setoristas. A cobertura de presidentes, seja no Brasil ou no exterior, é pior, porque os jornais se aferraram a um tipo de noticiário superficial, de frases de efeito, que, muitas vezes descontextualiza a informação, ou passa ao largo da verdadeira notícia. Felizmente, na minha experiência nos jornais em que trabalhei, e, especialmente, no Valor, raras vezes me senti cobrado por noticiar algo diferente dos outros jornais, e, quando isso aconteceu, pude ter uma conversa com o editor mostrando o porquê da minha opção por outros assuntos. Aprendi nessas coberturas que o importante não é saber o que os outros vão noticiar no dia seguinte para dar igual. O interessante é sacar o que os outros jornalistas consideram a principal notícia para, se for o caso, mencionar isso na matéria, e mostrar ao leitor por que seu jornal não considerou isso o principal fato a ser noticiado. Afinal, se algum aspecto da viagem chamou a atenção de muitos jornalistas é porque tem alguma importãncia; nem que seja importante porque os jornalistas estão interpretando erradamente o fato. Mas, se numa cobertura, você ficar muito preocupado com o que os outros vão fazer, é melhor desistir de viajar, para evitar uma úlcera.

JR - Nessa entrevista, Deak é o entrevistador equilibrado e eu sou o irreprimível. Assim, posso fazer uma afirmação peremptória: todo e qualquer jornalista que lida com cobertura política, não importando o porte ou localização do veículo de comunicação onde trabalha, está terminalmente próximo demais de antros de tentações. Você está nesse inferno de Dante desde 1983. Como consegue se desvencilhar e escapar incólume ?

SL - Já fui convidado para ser assessor de imprensa de petistas e tucanos, já me ofereceram comprar carros com belos descontos, já me sugeriram free-lancers com trabalho ridículo e remuneração de encher os olhos. Não topei; o principal é manter um código de ética rígido, e coerente. Pode-se ganhar bom salário como jornalista, especialmente em Brasília, sem entrar em conchavos ou abrir mão dos escrúpulos. Mais delicada é a questão da relação pessoal, na busca da notícia. As fontes adoram o jornalista doméstico, aquele que reproduz tudo sem questionar ou, melhor, compartilha de intimidades. Mas também respeitam muito o profissional que consegue construir uma reputação de imparcial, de jornalista que transmite todos os lados de uma questão, sem distorcer. Meu melhor exemplo disso é a Marta Salomon, da Folha, que fez matérias muito críticas no governo Fernando Henrique Cardoso e no governo Lula, e, no entanto, é solicitadíssima e respeitadíssima pelas fontes do governo. Como sou casado com ela, embora em regime de separação de notícias, às vezes vejo o cuidado que ela tem em checar dados, números, declarações. Raramente aceitamos convites para almoço ou jantar, embora eu considere válida essa maneira de obter informações (faço uma avaliação de custo-benefício mesmo, prefiro almoçar com meus filhos). Claro que a intimidade é uma boa maneira de obter informações exclusivas, mas descobri, em Brasília, que é preciso manter limites nessa proximidade com as fontes, até porque, se você fica muito íntimo do poder, corre o risco de ter um monte de informações que não pode publicar para não trair o amigo. Para quem não deseja cargo público nem participar de esquemas do Poder, é o pior dos mundos.