« janeiro 2009 | Main | março 2009 »
fevereiro 20, 2009
Pré carnavalesca
Rá. Carnaval. A melhor época do ano, ao lado do reveillon, pra ficar em São Paulo e é o que pretendo fazer. Como, exatamente, vou usar tal dádiva, não tenho ideia, mas sei que batalhas do terrível Meleca contra os dois heróis que moram lá em casa são favas contadas. Sei, também, que devo evitar a TV a todo custo, ao menos a aberta. É o que já tem acontecido. Esta semana os noticiários já estão insuportáveis com as mesmas reportagens batidas de sempre sobre essa data que eu confesso que não entendo.
***********************
A despropósito, tive, na última semana, a oportunidade de me atualizar um pouco em termos cinematográficos e acabei vendo dois filmes excepcionais.
An unconvenient truth, o documentário-palestra de Al Gore, é realmente um primor de didatismo a serviço de um dos assuntos mais emergenciais de toda História. A comparação de imagens de paisagens da Patagônia e da Sibéria, confrontando o aspecto dos lugares com distância de apenas 5 anos, e também as cenas de geleiras se dissolvendo, são o que devem ser: alarmantes. É um filme contundente, que faz uma denúncia seriíssima sem ser chato, arrogante ou radical.
Batman, o cavaleiro das trevas, é uma porção de coisas ao mesmo tempo. Primeiro, ele joga os filmes de ação baseados em histórias em quadrinhos para um patamar de qualidade até então só tentado. Segundo, ele não se limita a fazer uma diversão plausível com personagens conhecidos, ele confere a eles uma profundidade e verossimilhança psicológicas que em muito poucas HQs eles alcançaram. O filme, portanto, dá plausibilidade aos próprios personagens. Terceiro, ele pede desculpas por todas as asneiras realizadas em filmes e programas de TV anteriores. A cena em que o Coringa cai para a morte rindo é uma citação do primeiro filme do Batman, de 1989, mas desta vez o herói impede o desfecho salvando o Coringa - exatamente o tipo de atitude que os leitores dos quadrinhos estão acostumados a ver. O diálogo que se segue é lapidar. Comparar o Duas Caras de Aaron Eckhart deve estar fazendo Tommy Lee Jones corar e arrancar os poucos cabelos até hoje.
Quanto ao Coringa...
Muito se tem falando da interpretaçao de Heath Ledger, que é realmente sensacional, mas convenhamos: o poder dele e do filme todo está no roteiro. É óbvio que aquela caracterização inovadora - até mesmo em termos de quadrinhos - do Coringa é fruto da criação do diretor, que co-roteirizou o filme com seu irmão.
O filme merece tanto mais aplausos quanto temos que considerar o quão difícil é sermos supreendidos em um trabalho baseado em algo que conhecemos tão bem. Poucos personagens são melhor conhecidos do que este, e no entanto, o que se vê é algo novo.
Há também um abismo de qualidade entre o Cavaleiro e o filme anterior, Begins. Naquele, há uma cena patética de um Bruce Wayne tentando convencer Rachel Dawes de que ele não é aquela figurinha frívola que aparenta ser. Neste, nenhuma concessão é feita. Naquele, desperdiça-se uma das melhores ideias dos quadrinhos, a fuga que Batman empreende de uma situação absolutamente sem saída, acionando um sonar que atrai uma nuvem de morcegos. Neste, há uma sequência genial de uma espécie de roleta russa coletiva, em que o Coringa coloca centenas de pessoas numa situação de matar ou morrer com desfecho genial.
Batman, o Cavaleiro das Trevas, levanta a questão: e se fizéssemos justiça com as próprias mãos? Ele mesmo responde: o resultado haveria de ser catastrófico. Coringa só existe porque existe o Batman e aí uma inundação de sofrimento passa pela cidade que ele jurou defender.
Um filme de super herói que convida à reflexão? É, isso é mais do que se poderia esperar.
Posted by marcol at 3:48 PM
fevereiro 16, 2009
Viagem
Era um daqueles dias. A mão dele suava no balaústre do ônibus lotado. Lá fora a borrasca não dava trégua e o trânsito não desatava. Todo mundo que tinha celular - ou seja, todo mundo - se entretinha ligando pros respectivos patrões e dizendo da dureza que estava chegar no serviço aquele dia. Ele evitava fazê-lo. Se entretinha olhando os narizes das pessoas. Aquele ali é chato demais. O do lado é batatinha. Aquele outro é estranho, não combina com o rosto. Grande demais. Opa, aquele ali é bem bonitinho.
A tempestade de raios estava particularmente estranha. Algumas pessoas já demonstravam publicamente seu medo. Os relâmpagos pareciam cair de ambos os lados do coletivo, como se fossem enormes raízes de árvores brilhantes cortando o céu para todos os lados.
De repente viram-se cercados por luz e a temperatura aumentou consideravelmente. O ônibus estava, sem mais nem mais, no meio de uma selva. Após os gritos de susto e a primeira perplexidade o motorista abriu as portas e todos desceram. Olhavam-se em busca de uma explicação, mas ninguém a possuía.
Descobriram-se numa ilha deserta, daquelas. Aprenderam a construir cabanas. A pescar. A comer côcos. Com o tempo foram perdendo os pudores, passando a andar de roupas íntimas, apenas, por conta do calor. Tiveram de criar leis para o bom relacionamento. Definir a área que serviria para banheiro.
E ele se viu líder daquele grupo. Os romances já pipocavam fazia tempo quando ele enfim cedeu à própria carência, à pressão do grupo e, sobretudo, à beleza daquele narizinho. Numa outra situação jamais teria se envolvido com ela. Era um tanto vulgar, nunca havia lido um livro, aparentemente. Mas ali os predicados que melhor dispunha sobressaíam. Eram o casal perfeito para aquela situação: o líder e a bela. Outros tentaram mas ela soube rechaçar, afiar os ardis e esperar. Até que ele cedeu. Jogou a aliança e a memória da família feliz que outrora tivera, com os três filhos, ao mar.
Teve outros dois filhos ali. Até o dia em que decidiram fazer uma festa dentro do ônibus, que estava todo estropiado lá, no meio da ilha. Foi o último colocar o pé ali dentro e viram-se outra vez no mesmo ponto da avenida parada naquele dia chuvoso. Agora bronzeados, barbados, cabelos compridos. Alguém olhou o relógio, que não funcionava mais fazia tempo, mas agora funcionava, e notou que não havia passado mais do que dois minutos desde o momento do "teletransporte".
Todos olharam para ele, que segurava o caçula no colo, em busca de uma explicação. Mas não havia.
Posted by marcol at 1:38 PM
fevereiro 11, 2009
Benjamin Button
De tudo o que está disputando o Oscar, só consegui uma brechinha para ir ver O curioso caso de Benjamin Button.
É um filme muito curioso. Ao mesmo tempo que tem uma porção de pontas soltas, personagens mal acabados e situações mal trabalhadas, é um grande filme. Um grande filme cheio desses defeitinhos? Pois é.
Aí reforça minha tese de que mais da metade de um filme é roteiro. E Benjamin Button tem um maravilhoso. A outra metade que faz desse um grande filme está na maquiagem sensacional e nas atuações do par central, mas especialmente na de Cate Blantchet. Ela domina cada cena em que aparece, imprime verossimilhança a cada mínimo ato.
E, definitivamente, ando numa fase de reconciliação com minhas lágrimas. Desde a adolescência eu passei anos e anos sem chorar em nada. Minha mulher não me perdoa eu não ter chorado nem quando nasceram nossos filhos - tive uma reação esquisita: fiquei eufórico e desandei a falar sem parar. Só que a coisa tem mudado. Fico todo cheio de água por dentro da cabeça com livros, ouvindo música e a represa transbordou vendo Marley e eu. Mas o tsunami mesmo veio com este Benjamin Button. Saí com os olhos vermelhos mesmo, todo desidratado de tanto que chorei. Sintomas da velhice ou de alguma outra coisa melhor, nem sei. E, se não tivesse lá uma certa satisfação nisso, não estaria aqui confessando de público, homessa.
Posted by marcol at 10:54 AM