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setembro 25, 2008
O outro Brasil na porta de casa
Cresci numa casa no bairro de Cidade Dutra, em São Paulo, há menos de um quilômetro do kartódromo de Interlagos, que por sua vez fica ao lado do autódromo famoso. As tardes de sábado eram sempre embaladas pela música dos motores de lá. Era uma casa bonitinha, sem afetação, com um Ypê amarelo na frente. Meu pai comprou aquele terreno porque no começo dos 70 aquele bairro ameaçava se tornar muito bom. A rua era de terra, com casas de um único lado da rua. Do outro, uma pirambeira cheia de mato que formava um pequeno vale e na outra margem dele passava a linha do trem de carga que vai para Santos.
A rua era muito pouco povoada. Minhas únicas amizades locais eram três meninos que moravam ali perto. Eles eram minhas companhias de brincadeiras. Eu nem notava que pertencia a um Brasil e eles a outro. Sua mãe era empregada doméstica e eles eram muito pobres. Eu nem notava. Enquanto eu queria brincar de Batman, com um pano de prato amarrado no pescoço, eles queriam brincar de Lampião, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Olhava para eles com o mesmo estranhamento que eles me direcionavam quando eu falava de Batman.
E eu nem notava que nas brincadeiras existia uma certa hierarquia. Eu e meu irmão mandávamos. Agora lembro. Se a brincadeira era de batalha de espadas de pau, nós éramos os últimos a morrer, sempre. Nas guerrinhas de mamona, eles fingiam que acertavam a gente, a gente acertava eles de verdade.
Nós pertencíamos à nova classe média, surgida com o Milagre Econômico. Tínhamos algum conforto, carro zero e brinquedos no Natal e aniversários. Era difícil imaginar que aquilo nos posicionava de certo modo em algum tipo de elite, especialmente quando se tem nove anos e se brinca de Lampião com os meninos da casinha humilde da esquina.
Até que chegou a hora e não deu mais pra ignorar que havia dois Brasis na rua Julio de Barros. A pirambeira em frente à nossa casa foi ocupada por uma favela da noite para o dia. Apelamos para a prefeitura, que fez ouvidos moucos e o povo por lá ficou.
Vi o susto estampado no rosto dos meus pais e notei que a coisa era séria, porque venderam a casa (a preço de banana) e mudaram-se para mais perto da civilização (no caso, Santo Amaro). Quem bateu pé e ficou por lá teve a casa assaltada, um triste caso de confirmação de preconceitos.
O Ira! tem uma interessante música chamada "A Etiópia e meus problemas", que começa com o jogo de palavras "Na Etiópia moscas e fome/na Etiópia do outro lado do mundo/ Na Etiópia moscas e fome/na Etiópia do outro lado da rua". Fechei os olhos e vi a minha rua, os dois Brasis, as mamonas voando, o trem passando com estrépito e a música minimalista do ira! ao fundo.
Então sorri feliz da vida de não ter notado que há uma dicotomia evidente neste mundo pelo máximo de tempo que pude. A inocência, meu amigo, a inocência!
Posted by marcol at 4:07 PM | Comments (1)
setembro 9, 2008
Mais do homem de 30 anos
No outro dia aí completei 35. Aí lembrei do que havia escrito aqui há três anos: "Agora que estou rumando a passos firmes para os 32, já dá pra ter uma idéia do que é viver nessa década da existência humana.
Assim, ter 30 anos é fazer algum esforço para ter o mesmo tipo de arrebatamento que uma música, um quadro ou um livro, às vezes só uma poesia, podiam provocar há alguns anos. A excelência técnica, a genialidade da idéia, do arranjo, da cor, está tudo ali, e eu sei, mas a experiência de gozo dos sentidos não vem mais tão fácil.
Ter 30 anos é redescobrir sentimentos que julgava superados, como o medo. Você começa a perceber uns tilts na máquina e nota que é por puro uso. Você é confrontado, se bem que de forma ainda sutil e leve, com a finitude desta coisa aqui. Sem falar no maior e mais aterrorizante de todos os medos, que é saber que seu filho e sua esposa estão lá fora, na selva de pedra e alumínio e chumbo.
Ter 30 anos é encontrar um tipo de contentamento diferente, mais difícil e suado, como, por exemplo, o de estudar. Argh, quando é que eu ia poder dizer que tiraria prazer de estudar? Mas é, isso é ter 30 anos.
É ver que você é bem pequeno e que os seus sonhos de moleque podem não ter-se realizado totalmente e certamente nunca serão, porque, afinal de contas, seus sonhos mudaram e você fica feliz com isso. Ter 30 anos é meditar se você nunca vai ter tanto dinheiro quanto gostaria, é entender que o tempo é o maior dos dons, é entender que
não se pode descurar de relacionamentos - porque é entender que pessoas são as coisas mais importantes que existem. Ter 30 anos é começar a ter avisos do espelho, é odiar não ser ainda plenamente capaz de domar alguns impulsos incovenientes e é ter um calendário sempre à mão. É tudo isso, mas é mais, claro, e pretendo descobrir
enquanto caminho por eles, os 30 anos."
E, portanto, chegando à metade dessa década da existência preciso acrescentar a essa lista o fato de que há uma diferença brutal entre o homem que sou com o que eu imaginava que seria com essa idade. Eu tinha uma certa idéia de que aos 35 o sujeito já era uma pessoa acabada, um homem feito como se diz por aí. Alguém que já tem todos os projetos de vida postos e só trabalha na manutenção e desenvolvimento deles. E, no entanto, me pego pensando se devo fazer uma pós-graduação ou escrever um livro, se é melhor investir na carreira ou tentar me tornar professor, se compro uma bicicleta ou não entro no cheque especial (porque casar já casei). Em outras palavras, me vejo em encruzilhadas não tão distantes das que me apareciam há dez, quinze anos.
Notei que sou ainda um homem em construção e saudei isso como um dos aspectos saudáveis dessa semi-maturidade. Mais 35 e serei ainda "homem em construção"?
Posted by marcol at 6:29 PM | Comments (4)
setembro 1, 2008
Atonement foi idiotamente traduzido para o português como Desejo e Reparação. A tradução mais exata seria "expiação", uma palavra pouco conhecida em português. Ela é mais familiar na expressão "bode expiatório" e remete ao ritual do dia da expiação, do Israel antigo. Expiação significa purgar um pecado, sofrer para limpar uma mancha. A escolha por "desejo e reparação" decerto foi para surfar na onda de relativo sucesso dos filmes baseados em obras de Jane Austen, como "Orgulho e Preconceito" (com a mesma Keira Knightley) e "Razão e Sensibilidade", mas a trama de Atonement não tem absolutamente nada que ver com as histórias morais de Austen - de quem eu gosto bastante, aliás.
O filme é belíssimo como um todo, mas existe uma seqüência em especial que é absolutamente antológica. Acontece mais ou menos no meio do filme, quando o protagonista chega ao fim de uma caminhada gigantesca pelo interior da França até as praias da Normandia. Ali, as tropas aliadas que combateram os alemães estão se reunindo de forma anárquica aguardando uma forma de voltar pra casa. A seqüência é longa, a câmera o acompanha sem cortes, faz volteios, personagens somem e reaparecem enquanto ele anda e a moldura mistura cenas fortes de cavalos sendo sacrificados, soldados cantando hinos cristãos, alguns aboletados em brinquedos de parques de diversão, caminhões virados, bêbados cambaleantes, brigas e outras cenas impactantes acompanhadas de uma trilha sonora inspirada.
Nem queria falar de mais nada, Essa sequência merece espaço em antologias e vale o filme por si só. Mas o mote do roteiro é digno de uma pensata. Um ato, um julgamento sem base ou com bases frágeis, podem impactar as vidas de outras pessoas de forma irremediável. Não importa depois o que você faça, aquele mal não tem expiação.
Existe uma diferença vital entre perdão e desculpa. A desculpa é uma tentativa de justificar o ato e, por conseqüência reflexa, diminuir o tamanho do dano. O perdão existe quando não há o que mitigar no terror do mal cometido. Um caso como o exemplificado no filme só tem cura mediante o perdão.
Mar perdão, você e eu sabemos bem, é produto deveras raro...
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Uma tentativa de início de mestrado e uma enxurrada de trabalho me põem longe deste blog. Não sobriu um só nequinho de tempo para falar de Olimpíada, por exemplo. Que seja. A vida continua pulsando por aqui, espero que baste.
Posted by marcol at 10:11 AM | Comments (1)