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agosto 12, 2008
A revolução nossa de cada dia II
E continuando a conversa do post de baixo, curioso notar que em algum momento da nossa história recente criou-se a percepção praticamente universalizada de que o sentido vida dos cidadãos e dos estados é proporcionar qualidade de vida e bem estar aos indivíduos.
Começa a ser realmente levado em conta em larga escala o tal do balanço vida pessoal/vida profissional, que era desprezado no final dos anos 80, a era dos yupies.
Então, felicidade é ter conforto, remédios, sistema de saúde que garanta longevidade e até mesmo umas melhoras na nossa aparência, lazer abundante. E isso tudo é cada vez mais acessível, está aí, à mão.
Tá certo que temos muito para andar no caso específico do Brasil e do hemisfério sul como um todo, mas pense num país desenvolvido, onde tudo funciona maravilhosamente e o tal do sentido da vida virou o cotidiano, o banal.
Seria de se esperar que as pessoas estivessem felizes. No entanto, a depressão é a doença do século. O stress vem logo atrás e anda com ela de mãos dadas. Parecemos estar mais doentes do que na época em que não havia remédios.
Evidentemente que isso tudo não são insights meus. Boa parte dele eu tirei do texto do filósofo francês Gilles Lipovetsky que me deram a ler na pós graduação. O sujeito escreveu um livro chamado A Felicidade Paradoxal, no qual fala coisas como:
"O hiperconsumidor não está mais apenas ávido de bem-estar material, ele aparece como um solicitante exponencial de conforto psíqueico, de harmonia interior e de desabrochamento subjetivo, demonstrados pelo florescimento das técnicas derivadas do desenvolvimento pessoal bem como pelo sucesso das sabedorias orientais, das novas espiritualidades, dos guias da felicidade e da sabedoria."
E:
"Somos cada vez mais bem cuidados, o que não impede que os indívíduos se tornem uma espécie de hipocondríacos crônicos. Os corpos são livres, a miséria sexual é persistente. As solicitações hedonistas são onipresentes:as inquietudes, as decepções, as inseguranças sociais e pessoais aumentam."
Taí o paradoxo.
Posted by marcol at 6:37 PM | Comments (3)
agosto 5, 2008
A revolução nossa de cada dia
No século XVI, a rainha Eilzabeth da Inglaterra inaugurou o uso da gastança como ferramenta de governo. Banquetes com cúmulos de ostentação (por exemplo, servia-se uma mesa inteira com pratos primorosos à guisa de "pré-jantar"; momentos depois, tirava-se tudo e substituía-se por outros pratos ainda mais extravagantes e aí sim as pessoas comiam). Isso forçou a nobreza interessada em orbitar ao redor do poder a meter as mãos nos bolsos também.
Inaugurou-se aí a era da sociedade do consumo. O sujeito gastava fortunas para se vestir como estavam se vestindo na coorte e os da coorte, outras fortunas para fugir à imitação que deles estavam fazendo nos segundos escalões. Os caras começaram a manter uma casa em Londres também, e não mais apenas no campo. Isso desencadeou uma série de fatores que acabou por desembocar na sociedade que temos hoje.
Esse detalhe histórico, flagrado por um antropólogo canadense chamado Grant McCracken no livro Cultura & Consumo, ajuda a entendermos um outro lado da Revolução Industrial, pouco ou nada estudado: houve um boom na indústria porque antes disso houve um boom no mercado consumidor. Havia oferta porque antes havia demanda. As pessoas começavam a querer ter coisas novas. Antes deles, a coisa tinha mais valor tanto quanto mais velha fosse. As coisas valiam porque eram passadas de geração para geração. Nada mais radicalmente diferente do que se vê hoje.
Lembrei de alguns detalhes curiosos: há vinte anos atrás, visitar uma cidade do interior era encontrar fatalmente pessoas vestidas de um outro jeito, com um cabelo diferente. Os filmes chegavam lá meses depois de terem aportado nas locadoras de vídeo das capitais. Lembro de uma aula no cursinho, em 91, em que um professor contava para uma horrorizada platéia que no Japão as pessoas jogavam aparelhos eletrônicos de ponta ao menor defeitinho, preferindo comprar um novo. Não faz tanto tempo assim, passamos por uma revolução brutal sem muita reflexão.
E por citar videocassete, pense em quanto tempo correu desde seu lançamento comercial até ele ser realmente massivamente popular. Pense no DVD. Pense no iPod. O espaço de tempo encurtou-se escandalosamente e talvez a explicação esteja na questão do desejo. A sociedade de consumo, elevada a suas mais radicais condições, cria um estado de perpétuo desejo nas pessoas. Se você não tem (o novo), você não é. Se você tem, você é, mas por cada vez menos tempo, porque logo mais vai ter que ter outra coisa.
O desejo é irreal, é óbvio que não precisamos de nada disso e, por ser artificial, acaba desenbocando numa série de outras mazelas: depressão e stress, as doenças do século, são uma mostra. O uso de drogas é o fruto de uma sociedade que, de tanto repetir, acabou acreditando na retórico do "você precisa sentir", você precisa ter os sentidos arrebatados, a adrenalina correndo a milhão, todo santo dia de sua vida, se não você não está vivendo. Num cotidiano qualquer, é impossível "sentir" o tempo todo, por isso é preciso um êxtase artificial.
Estamos vivendo as últimas (espero) consequências da moda elizabetana. É insano. É ridículo. É quase irresistível.
Posted by marcol at 10:54 AM | Comments (2)