julho 22, 2008
Shit happens
Passei uma semana como um lobo solitário, que uiva para a lua nas gélidas estepes desse mundo. A patroa e os patrõezinhos foram-se para a praia, aproveitando que a estiagem que torna o ar que se respira em São Paulo visível e apalpável fez uns lindos dias de sol plenamente aproveitáveis.
Nos primeiros três dias curti minha liberdade solitária de macho. Uhu. Joguei videogame até o umbigo fazer biquinho. Aí no terceiro dia já bateu uma solidão danada e esse negócio ficou chato pra burro.
Na 6a feira, corri pra praia, matar a saudade de meus agora bronzeados rebentos e costela. No sábado de manhãzinha levei o meu primogênito, seu casal de primos e uma agregada que eles conheceram ali na praia até umas pedras que há entre as praias de Mocóca e Cocanha, em Caraguatatuba. Ao que parece, era uma tradição, todo santo dia a vó andava com eles até lá pra eles fazerem umas escavações arqueológicas e admirarem a perfeição da criação de Deus em cada pedaço de concha encontrado.
Pois bem, é aí precisamente que a história ganha contornos trágicos. Meu filho escorrega numa pedra e começa a cair. Eu fico apavorado e quero correr pra acudi-lo, mas esqueço que seria mais conveniente olhar onde estou pisando; olhando pra ele apenas, meu pé não alcança uma pedra à minha frente e quando eu dou conta de mim, estou caído, estropiado e sentindo alguns dentes do céu da boca.
Eu beijei uma pedra com gosto e ainda ralei as duas pernas, arranquei um pedaço dum dedão do pé e de um dedo da mão, detonei um cotovelo e fiquei com uma dor nas costas que me fez andar igual ao Robocop. O passeio acabou, logicamente. Voltamos melancolicamente, de forma contrastante com a alegria da ida. As crianças voltaram disputando quem se machucara mais feio na vida e tentando me convencer de que os machucados deles haviam sido mais doloridos que os meus.
Mais que isso, tive de subir para São Paulo com urgência. Meu irmão dentista teve sua noite de sábado véspera do aniversário da patroa atrapalhada. Eu afundei dois dentes da frente. Ele os reduziu (para os leigos: botou no lugar) e começou a tratar o canal de ambos. Para mexer atrás, teve de colocar uma contenção na frente, ou seja, um aparelho que está me fazendo amaldiçoar aquela pedra até sua quarta geração pouco importando que pedra não tem geração. Estou com os lábios todos cortados por dentro.
É como dizem os filósofos pós-Weird Al Yancovich: shit happens.
Mas a shit sempre poderia ser pior. Segundo meu irmão, uma batida um pouco mais pra cima arrancaria o osso e um pouco (milímetros, na verdade) mais pra baixo quebraria os dentes. Graças a Deus não foi a cabeça. Imagina só aquelas quatro crianças vendo o tio esbugalhado e desacordado no meio do nada.
Ah, sim, meu filho só fez um cortezinho no dedo.
* * * * * * *
O mais estranho de tudo é que, embora esse blog esteja querendo subir no telhado, um dos primeiros pensamentos que me surge lá, com a boca cheia de sangue e manquitolando quase um quilômetro pela praia é: catzo, preciso dar um jeito de falar disso no blog.
Posted by marcol at julho 22, 2008 9:49 AM
Comments
Bem-vindo ao clube dos que pensam "eu preciso colocar isso no blog". Comigo é direto!
Posted by: O Primo at agosto 3, 2008 5:07 PM
Ah Marcao... um verdadeiro blogueiro, rsrs. Deus te abencoe e cure o machucado... Abracos pros lindoes e pra lindona.
Posted by: Lucy at julho 22, 2008 9:58 PM
O meu blog já morreu várias vezes. E ainda insiste em sempre respirar.
Os pimpolhos não riram da queda?
Posted by: Roger at julho 22, 2008 1:52 PM