« | Main | sintoma »

julho 25, 2008

Até o fim

Até o fim

Por mórbido que pareça, o fato é que desde menino de tempos em tempos me pego imaginando quais seriam meus últimos pensamentos antes de morrer se me visse numa situação fatal e inescapável. Faça a prova você: imagine-se olhando para um relógio preso à parede para além das grades de uma cela. Você sabe que é o dia em que será executado. A hora chega, você ouve os passos na sua direção e a ordem para se levantar. Você vai sendo conduzido pelo corredor, outros presos lhe olham com solenidade e você dá seus últimos passos. Que tipo de pensamentos será que perpassariam sua mente? Que tipo de preocupações você demonstraria?

Naquela sexta-feira escondida sob dois milhares de anos, um homem foi conduzido para morrer. É provavelmente o mais famoso dos homens, sua vida mereceu ser registrada por quatro biógrafos e em todos eles esses momentos ocupam nada menos que um terço inteiro das biografias. Com tanto nível de detalhe e tanta ênfase na execução, é possível ter uma idéia do tipo de pensamentos que Lhe ocorreram. O que me escandaliza é reconhecer, algo estupefato, que os pensamentos dEle certamente caminharam por caminhos absolutamente diferentes daqueles que sempre me imaginei tendo em uma ocasião parecida.

Vemos Jesus cuidando de pedir perdão aos que o matavam. Nós o vemos preocupado com o futuro de Sua mãe. Nós o vemos preocupado com a salvação de um ladrão crucificado ao Seu lado. Nós podemos vê-lo tentando sensibilizar a autoridade romana que o condenava. Nós o flagramos prestando atenção ao que se passava com um discípulo mentindo desconhecê-Lo no pátio, do lado de fora do lugar onde era torturado.

Caminhando para uma morte certa, extremamente dolorida e cheia de uma angústia espiritual indizível, sentindo uma inédita separação de Deus, Jesus ainda assim focou toda Sua atenção nos que estavam a Sua volta. Esteve empenhado em salvar, salvar os que O amavam, os que O odiavam e até mesmo aqueles que eram indiferentes a Ele até então. Jesus amou até o fim.

Seria assim uma eventual caminhada sua pelo corredor da morte? A morte de Jesus Cristo não conseguiu ainda perder o impacto gigantesco sobre mim. Ela continua me impressionando, me deixando cheio de espaços brancos onde eu preferiria ter palavras. Suspeito que será sempre assim. Ela será sempre a repetição de uma constatação substancial e de uma indagação sem resposta. A constatação é: tenho ainda muito que aprender com Meu mestre. A indagação é: que tipo de amor é esse, que me elegeu como seu alvo improvável?

Posted by marcol at julho 25, 2008 10:55 AM

Comments

Lindo post. Emocionante mesmo.

Posted by: Adrina at agosto 7, 2008 3:09 PM

Post a comment




Remember Me?


Type the characters you see in the picture above.