julho 15, 2008
A ditadura e meu pai
Meu pai, como alguns de seus contemporâneos, guarda uma mal escondida nostalgia dos tempos da ditadura. Ele acha que comunistas têm mesmo é que morrer, já que são, por definição, assassinos. Ele acha que o judiciário brasileiro é o maios cancro do país. Ele acha que todo discurso em torno de direitos humanos, manutenção do estado de direito, absolvições por falta de provas, etc., balelas deslavadas e arde de ódio e indignação todo santo dia, ao ver o noticiário em que essas coisas marcam presença certa, desfilando livremente.
O curioso é que ele foi, num grau muito leve, é verdade, uma vítima da ditadura. Quando voltou da lua-de-mel com minha mãe, sugeriu gastarmos as últimas fotos do filme que sobrara na máquina na bela praça que existe ao lado do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual paulista. Estavam lá, posando para fotos transbordantes de puro melô apaixonado quando foram cercados por meganhas e conduzidos de forma pouco urbana para uma sala sinistra dentro do palácio. Passaram ali algumas horas repetindo a sua história até enfim serem liberados, não sem terem o filme com as fotos da lua-de-mel confiscado.
Para meu pai, liberdade de pensamento e expressão é coisa para idiotas.
Curioso choque de gerações. É quase impossível para quem não respirou a retórica do medo espalhada pelo regime durante os anos de chumbo ver alguma virtude na ausência de liberdade.
Por outro lado, o Brasil ainda está 200 mil léguas submarinas de ter real liberdade de expressão. Aqui, a liberdade de expressão é garantida apenas para falar bem de outros. Se sua liberdade atinge de alguma forma as suscetibilidades de alguém, sacrifica-se a liberdade sem o menor pejo. Estão aí os casos da biografia de Roberto Carlos e da Cicarelli X YouTube para exemplificar. Mas o meu predileto é o caso dos blogs censurados durante as últimas eleições a mando de José Sarney.
E com a justiça que temos, a liberdade capenga que temos, as instituições corruptas até a raiz do cabelo que temos, vem o Financial Times dizer que somos uma superpotência. Gostaria que essa alcunha fosse dada única e exclusivamente para países em que as coisas funcionam.
Posted by marcol at julho 15, 2008 3:51 PM
Comments
Carlos, bem notado. Escorreguei! Roger, acho que todo pai é interessantíssimo por definição. Mas interessante é algo vago demais, dá margem a trocentilhões de possibilidades.
Posted by: Marco Aurelio Brasil at julho 18, 2008 11:39 AM
"sugeriu gastarmos as últimas fotos do filme"...
Gastarmos? VC já havia nascido?
Tudo bem, foi somente para aporrinhar...
Mas falando de ditadura e de pais ditadores, o meu não era diferente, mas como bom rebelde que fui (camuflado), eu diria que foi um dos melhores pais que alguém poderia ter, mesmo com suas reconhecidas falhas. Um cara duro mas que fazia o que achava ser o melhor para a família.
Dentro de minha visão diatatorial (afinal eu tb cresci), vejo muitos pais "frouxos" com filhos "libertinos" que não respeitam o próximo e não conhecem o termo cidadania.
Posted by: Carlos at julho 17, 2008 3:37 AM
O meu era do sindicato dos metalúrgicos, não nos deixava assistir a TV Globo, e a primeira vez que consegui carregar o velho para o MC Donald, ele pediu uma esfirra de carne.
Acho que não conseguirei ser um pai tão interessante quanto ele, rsrs...
Posted by: Roger at julho 16, 2008 4:50 PM