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julho 28, 2008

sintoma

Sintomas

Dia desses um colega de condomínio aqui do Verbeat contava que ficou sabendo de uma velha amiga que queria entrar em contato. A menção me levou a recuperar uma recente descoberta; colecionei em poucas semanas algumas histórias ou memórias às quais não ligara muita importância, em que mulheres entram em contato com velhos amigos, sempre falando muito nostalgicamente demais. Em 100% dos casos, o casamento de cada uma delas terminou nos meses seguintes.

Eis aí um fenômeno curioso: parece que as mulheres, ao verem soçobrar o ideal de felicidade romântica que alimentaram, se lançam a cavocar o passado para ver aonde erraram, aonde estaria o príncipe encantado de verdade, que teriam deixado passar. Seria isso mesmo? E tenho a impressão de que os homens reagem de forma completamente diferente, tentando conhecer gente nova quando o caldo começa a desandar.

De um jeito ou de outro, eu, que vivo meu ideal romântico a pleno vapor, continuo achando todos esses sintomas muito tristes. O verso da música do Jobim parece banal, mas o amor é a coisa mais triste quando se desfaz.

Posted by marcol at 11:25 AM | Comments (2)

julho 25, 2008

Até o fim

Até o fim

Por mórbido que pareça, o fato é que desde menino de tempos em tempos me pego imaginando quais seriam meus últimos pensamentos antes de morrer se me visse numa situação fatal e inescapável. Faça a prova você: imagine-se olhando para um relógio preso à parede para além das grades de uma cela. Você sabe que é o dia em que será executado. A hora chega, você ouve os passos na sua direção e a ordem para se levantar. Você vai sendo conduzido pelo corredor, outros presos lhe olham com solenidade e você dá seus últimos passos. Que tipo de pensamentos será que perpassariam sua mente? Que tipo de preocupações você demonstraria?

Naquela sexta-feira escondida sob dois milhares de anos, um homem foi conduzido para morrer. É provavelmente o mais famoso dos homens, sua vida mereceu ser registrada por quatro biógrafos e em todos eles esses momentos ocupam nada menos que um terço inteiro das biografias. Com tanto nível de detalhe e tanta ênfase na execução, é possível ter uma idéia do tipo de pensamentos que Lhe ocorreram. O que me escandaliza é reconhecer, algo estupefato, que os pensamentos dEle certamente caminharam por caminhos absolutamente diferentes daqueles que sempre me imaginei tendo em uma ocasião parecida.

Vemos Jesus cuidando de pedir perdão aos que o matavam. Nós o vemos preocupado com o futuro de Sua mãe. Nós o vemos preocupado com a salvação de um ladrão crucificado ao Seu lado. Nós podemos vê-lo tentando sensibilizar a autoridade romana que o condenava. Nós o flagramos prestando atenção ao que se passava com um discípulo mentindo desconhecê-Lo no pátio, do lado de fora do lugar onde era torturado.

Caminhando para uma morte certa, extremamente dolorida e cheia de uma angústia espiritual indizível, sentindo uma inédita separação de Deus, Jesus ainda assim focou toda Sua atenção nos que estavam a Sua volta. Esteve empenhado em salvar, salvar os que O amavam, os que O odiavam e até mesmo aqueles que eram indiferentes a Ele até então. Jesus amou até o fim.

Seria assim uma eventual caminhada sua pelo corredor da morte? A morte de Jesus Cristo não conseguiu ainda perder o impacto gigantesco sobre mim. Ela continua me impressionando, me deixando cheio de espaços brancos onde eu preferiria ter palavras. Suspeito que será sempre assim. Ela será sempre a repetição de uma constatação substancial e de uma indagação sem resposta. A constatação é: tenho ainda muito que aprender com Meu mestre. A indagação é: que tipo de amor é esse, que me elegeu como seu alvo improvável?

Posted by marcol at 10:55 AM | Comments (1)

julho 23, 2008

Fresh Tears

E já que estamos falando de mazelas do corpo - logo logo este blog assumirá sua caráter essencialmente geriátrico -, no começo do ano fui acometido de seguidas conjuntivites de natureza alérgica. Me receitaram pingar de tempos em tempos o colírio Fresh Tears , um trocinho bem caro, por sinal.

Os oftalmologistas por que passei elogiaram horrores o dito cujo e adicionaram que a procura por esse colírio tem aumentado muito. É que ele serve como lágrimas artificiais. As pessoas passam tempo demais olhando pra uma tela de computador, geralmente inclinada para cima, o que faz refletir as lâmpadas fluorescentes do teto, e isso tudo faz com que as "esqueçam" de piscar os olhos. Com isso o globo ocular não se lubrifica, o que acarreta uma penca de problemas.

Ou seja: chegamos ao ponto de precisar de lágrimas artificiais.

Enquanto isso, há já um enorme oceano de plástico no Pacífico, se é sério um e-mail que recebi (embora verossímil, é um e-mail, logo, fique-se com dois pés atrás).

Não demora e vamos chegar ao tempo profetizado em Os guardiões, ficção científica adaptada pela TV alemã como mini-série e transmitida por aqui pela TV Cultura de São Paulo em meados dos anos 90. Já falei dela aqui em outro contexto. Na peça, as árvores dão de plástico e têm auto-falantes que emitem sons de passarinhos.

Posted by marcol at 9:49 AM | Comments (1)

julho 22, 2008

Shit happens

Passei uma semana como um lobo solitário, que uiva para a lua nas gélidas estepes desse mundo. A patroa e os patrõezinhos foram-se para a praia, aproveitando que a estiagem que torna o ar que se respira em São Paulo visível e apalpável fez uns lindos dias de sol plenamente aproveitáveis.

Nos primeiros três dias curti minha liberdade solitária de macho. Uhu. Joguei videogame até o umbigo fazer biquinho. Aí no terceiro dia já bateu uma solidão danada e esse negócio ficou chato pra burro.

Na 6a feira, corri pra praia, matar a saudade de meus agora bronzeados rebentos e costela. No sábado de manhãzinha levei o meu primogênito, seu casal de primos e uma agregada que eles conheceram ali na praia até umas pedras que há entre as praias de Mocóca e Cocanha, em Caraguatatuba. Ao que parece, era uma tradição, todo santo dia a vó andava com eles até lá pra eles fazerem umas escavações arqueológicas e admirarem a perfeição da criação de Deus em cada pedaço de concha encontrado.

Pois bem, é aí precisamente que a história ganha contornos trágicos. Meu filho escorrega numa pedra e começa a cair. Eu fico apavorado e quero correr pra acudi-lo, mas esqueço que seria mais conveniente olhar onde estou pisando; olhando pra ele apenas, meu pé não alcança uma pedra à minha frente e quando eu dou conta de mim, estou caído, estropiado e sentindo alguns dentes do céu da boca.

Eu beijei uma pedra com gosto e ainda ralei as duas pernas, arranquei um pedaço dum dedão do pé e de um dedo da mão, detonei um cotovelo e fiquei com uma dor nas costas que me fez andar igual ao Robocop. O passeio acabou, logicamente. Voltamos melancolicamente, de forma contrastante com a alegria da ida. As crianças voltaram disputando quem se machucara mais feio na vida e tentando me convencer de que os machucados deles haviam sido mais doloridos que os meus.

Mais que isso, tive de subir para São Paulo com urgência. Meu irmão dentista teve sua noite de sábado véspera do aniversário da patroa atrapalhada. Eu afundei dois dentes da frente. Ele os reduziu (para os leigos: botou no lugar) e começou a tratar o canal de ambos. Para mexer atrás, teve de colocar uma contenção na frente, ou seja, um aparelho que está me fazendo amaldiçoar aquela pedra até sua quarta geração pouco importando que pedra não tem geração. Estou com os lábios todos cortados por dentro.

É como dizem os filósofos pós-Weird Al Yancovich: shit happens.

Mas a shit sempre poderia ser pior. Segundo meu irmão, uma batida um pouco mais pra cima arrancaria o osso e um pouco (milímetros, na verdade) mais pra baixo quebraria os dentes. Graças a Deus não foi a cabeça. Imagina só aquelas quatro crianças vendo o tio esbugalhado e desacordado no meio do nada.

Ah, sim, meu filho só fez um cortezinho no dedo.

* * * * * * *

O mais estranho de tudo é que, embora esse blog esteja querendo subir no telhado, um dos primeiros pensamentos que me surge lá, com a boca cheia de sangue e manquitolando quase um quilômetro pela praia é: catzo, preciso dar um jeito de falar disso no blog.

Posted by marcol at 9:49 AM | Comments (3)

julho 15, 2008

A ditadura e meu pai

Meu pai, como alguns de seus contemporâneos, guarda uma mal escondida nostalgia dos tempos da ditadura. Ele acha que comunistas têm mesmo é que morrer, já que são, por definição, assassinos. Ele acha que o judiciário brasileiro é o maios cancro do país. Ele acha que todo discurso em torno de direitos humanos, manutenção do estado de direito, absolvições por falta de provas, etc., balelas deslavadas e arde de ódio e indignação todo santo dia, ao ver o noticiário em que essas coisas marcam presença certa, desfilando livremente.

O curioso é que ele foi, num grau muito leve, é verdade, uma vítima da ditadura. Quando voltou da lua-de-mel com minha mãe, sugeriu gastarmos as últimas fotos do filme que sobrara na máquina na bela praça que existe ao lado do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual paulista. Estavam lá, posando para fotos transbordantes de puro melô apaixonado quando foram cercados por meganhas e conduzidos de forma pouco urbana para uma sala sinistra dentro do palácio. Passaram ali algumas horas repetindo a sua história até enfim serem liberados, não sem terem o filme com as fotos da lua-de-mel confiscado.

Para meu pai, liberdade de pensamento e expressão é coisa para idiotas.

Curioso choque de gerações. É quase impossível para quem não respirou a retórica do medo espalhada pelo regime durante os anos de chumbo ver alguma virtude na ausência de liberdade.

Por outro lado, o Brasil ainda está 200 mil léguas submarinas de ter real liberdade de expressão. Aqui, a liberdade de expressão é garantida apenas para falar bem de outros. Se sua liberdade atinge de alguma forma as suscetibilidades de alguém, sacrifica-se a liberdade sem o menor pejo. Estão aí os casos da biografia de Roberto Carlos e da Cicarelli X YouTube para exemplificar. Mas o meu predileto é o caso dos blogs censurados durante as últimas eleições a mando de José Sarney.

E com a justiça que temos, a liberdade capenga que temos, as instituições corruptas até a raiz do cabelo que temos, vem o Financial Times dizer que somos uma superpotência. Gostaria que essa alcunha fosse dada única e exclusivamente para países em que as coisas funcionam.

Posted by marcol at 3:51 PM | Comments (3)

julho 4, 2008

C.S.Lewis, mais conhecido no meio secular por suas Crônicas de Nárnia, tem um interessantíssimo livro chamado The Screwtape Letters. Screwtape é um demônio, digamos, sênior, escrevendo para orientar um demônio mais jovem e assim, com sua experiência, garantir que ele vá mesmo desencaminhar seu "paciente".

Lá pelas tantas Lewis introduz uma idéia bastante interessante. Screwtape diz que uma ótima ferramenta a serviço deles, os demônios, na guerra contra o "inimigo" (Deus) é a distorção do sentido de certas palavras, entre elas, a palavra "democracia". Por ser endeusada sem muita reflexão, democracia deixa de designar um sistema político que concede valor isonômico a todos os cidadãos capazes para extrapolar esse conceito ao ponto de se entender que todas as pessos são, de fato, iguais.

Uma coisa é ter direitos iguais, outra coisa é sermos todos iguais, o que não é verdade. Sob a ótica política, seria bom se fôssemos representados por cidadãos com padrões morais e éticos acima da média nacional. E, sob a ótica cristã, não somos todos iguais, porque uns poucos de nós foram transformados.

Posted by marcol at 4:38 PM | Comments (2)

julho 2, 2008

Coisas que me ensinaram depois de grandinho

Quando eu estava aprendendo a dirigir, meu pai me disse que seria bom sempre estar prestando atenção ao que acontecia mais adiante, cem, duzentos metros à frente. O conselho revelou-se oportuno e utiliíssimo, até mesmo se aplicado metaforicamente a outras tantas situações da vida.

Me ensinaram também a ter um caderno e anotar coisas por fazer. O conselho revelou-se oportuno e utilíssimo não só para situações de trabalho. Porque memória é coisa muito boa, e tals, mas não a ponto de merecer confiança.

Aí me ensinaram que, se você está numa escada rolante e está sem pressa, o ideal seria ficar parado do lado direito, deixando o esquerdo livre pra quem está na correria. O conselho revelou-se oportuno e bom seria que todo mundo que pega trem aqui em São Paulo tivesse aprendido também.

Posted by marcol at 6:24 PM | Comments (10)