junho 3, 2008
Teste de honestidade
O CQC (programa que a rede Bandeirantes exibe às 2as feiras à noite e que é uma franquia de uma idéia argentina) deu uma refinada na antiga e infame pegadinha. O verniz de dignidade conferido a ela é testar, na frente das câmeras, a honestidade de incautos passantes pelo passeio público.
Ontem, por exemplo, exibiram matéria em que o "repórter" (está mais para humorista cara de pau) perde um celular em calçada e fica filmando para ver se alguém pega. Numa das ocasiões, um sujeito pega e sai andando com o celular. O repórter, então, liga para esse número e pergunta onde foi encontrado o aparelho, que ele o havia perdido e precisava muito dele, etc. O cara começa a dizer que está dentro de um carro, indo pra não sei onde, e aí o repórter, falando ainda falando com ele, aparece na frente dele - o sujeito estava de pé na calçada, tentando dar um perdido no aparelho. Na pior seqüência, uma mulher pega o celular e simplesmente não atende aos chamados insistentes do repórter que está ligando para ele. Ela entra em um salão de cabeleireiros e eles vão atrás, perguntando por um celular, e a mulher, na cara de pau, diz que não sabe de nada. Eles dão milhões de chances de ela dizer: "ops, esqueci, olha aqui o celular" - se bem que na mira das câmeras... - mas a mulher fica o pé, diz que vai à polícia, etc. O repórter pergunta se ela acha os políticos honestos, o que ela acha de gente desonesta, e todas as respostas são as padrão, só que ela não devolve o aparelho. Enfim, eles precisam chamar a polícia para ir lá buscar o celular deles de volta.
No final da matéria o tal repórter conclui que a classe política é o fiel retrato do povo.
Embora possamos discutir se é válido expor assim escancaradamente as mazelas do caráter humano na TV, se isso não é tão apelativo quanto as tais pegadinhas infames, o fato é que o quadro é de uma perspicácia ímpar e comprova um fato que eu observo desde pirralho: a corrupção não é da classe política, da polícia, dos fiscais de impostos nem dos donos de padaria que roubam no troco; ela é generalizada, está em todos os níveis, em todos os lugares, só variando sutilmente na gradação do nível de malandrice.
Por exemplo, eu embora conviva num meio de classe média, boa parte dela cristã professa, conheço quem compre notas fiscais para engordar o abatimento do Imposto de Renda e que, inobstante esse fato, refere-se aos Malufs e Paulinhos (pra citar um recente) com ódio exemplar. Eles dificilmente se veriam num mesmo saco, pois justificam seus atos como uma resposta ao surrupiamento anterior, histórico, do qual ouvem falar desde pirralhos. Mas não dá pra fugir: é tudo a mesma coisa.
Cá entre nós, eu preferiria que esse negócio de representatividade não fosse levado tão a sério. Melhor seria se a classe governante fosse uma certa elite moral, pessoas acima dessa média nauseabunda do nosso povo, mas parece só cair em evidência quem justamente reforça os traços gersonianos latentes em sua brasilidade. Pena.
* * * * * * * *
Quanto ao CQC, se rir é o melhor remédio, tenho imunidade por um bom tempo. Ri muito. Claro que, como o humor do programa anda no limiar do bom gosto, algumas vezes resvala-se para o lado do grotesco e do mau gosto. O teste de QI aplicado a uma atriz pornô foi um desses momentos.
Posted by marcol at junho 3, 2008 10:47 AM
Comments
Assisti ao programa descrito por você. Realmente: hilário! Existe um quadro que é de denúncia sobre alguma irregularidade na prestação de serviços públicos. Os responsáveis, chefes, diretores nunca estão disponíveis, as desculpas são esfarrapadas e o povo que se dane! Seria cômico se não fosse trágico.
Posted by: Cláudio Costa at junho 7, 2008 12:23 PM
Na verdade é uma reedição do que Marcelo Tas fazia com o Ernesto Varela nos anos 80, que tem umas das melhores pérolas do jornalismo brasileiro, qundp pergunta ao Sr. Paulo Maluf: "O senhor é ladrão?"
Para ter mais audiência as "piadas" políticas sérias são entremeadas por quadros copiados do pânico, com entrevista de celebridades e cobertura de eventos.
O que ainda acho interessante é que em muitos momentos eles riem de si mesmos, vamos ver até quando.
O vídeo abaixo posso dizer que até é obrigatório para quem tem 25 anos ou mais.
http://www.youtube.com/watch?v=fS4WWOIgzUQ
Um abraço
Posted by: Ricardo A. at junho 3, 2008 7:39 PM
Diálogo do repórter inexperiente com o experiente leão Lobo, passado no programa de ontem:
R.I. - Se eu transar com o senhor, eu sou homossexual?
L.L - Sim, você será homossexual.
R.I. - Se eu transar com minha irmã, eu serei homossexual?
L.L. - Não, nem você nem sua irmã
(segue algumas cenas de carinho mútuo entre os dois, beijinhos e abraços entre os dois)
L.L. - Sua irmã é tão bonita quanto eu?
R.I - Minha irmã morreu...
(ps: caguei de rir)
Posted by: Roger at junho 3, 2008 6:58 PM