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junho 26, 2008

Precisamos falar sobre o Kevin

kevin.jpg Acabo de ler a última linha desse livro; ele está revolvendo aqui dentro. Sei que vai continuar assim durante um bom tempo.

Eu possivelmente jamais teria ouvido falar dele não fosse ter que dar pro amigo secreto do último natal uma dica do tipo de presente que não me deixaria frustrado. Entrei então no site da Saraiva e essa era uma das opções que estava por ali. O enredo pareceu interessante: estamos falando de um menino de 15 anos que assassina nove colegas de escola, doze dias antes do massacre de Columbine e quem conta a história é a mãe dele, através de cartas.

Lionel Shriver ouviu não de 30 editoras antes de alguém ter coragem de publicar algo que toque numa ferida nacional assim desse jeito.

Pois bem, trata-se de um livro excelente. Tem 463 páginas que você praticamente devora. Todas aquelas oficinas de escritores nos EUA, com suas dicas matemáticas de a quantas páginas tem que aparecer alguma coisa triste, de quantas em quantas páginas uma reviravolta ou a revelação de um segredo deve acontecer, etc, ajudaram bastante L. Shriver, mas este livro vai bem além do mero apropriamento servil dessas formulinhas (que é o que, por exemplo, O caçador de Pipas, um sucesso brutal, faz). Ele apresenta raciocínios argutos, insights brilhantes sobre a cultura do povo americano e sobre a alma humana de forma mais geral. É profundo, complexo e arquitetado com perfeição impressionante.

O livro disseca a tragédia de um lugar onde tudo funciona e todos têm a perspectiva de uma vida confortável, um lugar onde se cultiva com fervor a aparência de felicidade, mas cujo combustível para isso (comida, consumismo, debates políticos inócuos e algum sexo) se revela cada vez mais ineficaz.

A mãe do assassino se pergunta o tempo todo se a culpa foi sua, como todos, explícita ou tacitamente, dão a entender. Ao invés de eximir-se da culpa, ela disseca a vida em família desde o começo, reconstituindo minuciosamente as passagens marcantes e emblemáticas do caminho para a barbárie e você tem aquela sensação de voyeur devassando a intimidade de algo que o mundo inteiro vê só pelas lentes da encenação.

Acho que é um péssimo livro para alguém que ainda não teve filhos ler. Isso pode prejudicar a decisão de um dia procriar. Mas Precisamos falar sobre o Kevin
é muito mais do que uma história sobre criação de filhos; é o retrato de uma sociedade que atingiu um sucesso tão retumbante em sua busca pelo bem-estar, que se permitiu defenestrar a Deus de sua vida.

Posted by marcol at junho 26, 2008 6:05 PM

Comments

Não li, achei interessante o post e o livro. Ele fez com que eu e minha filha déssemos gargalhadas na frente de uma livraria. Eu olhei a foto da capa e disse para ela:

- É, precisamos conversar mesmo.

Ela a princípio não entendeu, depois foi aquilo.

Grande abraço.

Posted by: Milton Ribeiro at junho 26, 2008 11:27 PM

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