« | Main | »

abril 30, 2008

Vida inteligente lá fora

De quando em vez alguma coisa vem e nos lembra daquela massa de forma, cor e envergadura indefinidas que existe em algum canto impreciso de nosso peito. Não de todos, claro, mas de boa parte de nós. Aquele troço que tem o vago nome de lirismo e que aponta para a necessidade inescapável de existir um sentido maior para o ato banal de respirar, ou então para o fato de existir sob a pele das coisas (citando Drummond), mesmo as mais rústicas, inacabadas, frias ou doloridas, uma beleza, tão difícil de processar quanto efetivamente... bela. Do tipo que se agiganta e emudece você. Do tipo que te reaviva lembranças bem específicas, bem adormecidas, que você nem lembrava mais que estavam ali.

Todo esse papo meio metafísico demais me surge por reconhecer que A trégua, do uruguaio Mario Benedetti, teve para mim esse efeito reavivador do lirismo empoeirado pela fuligem cotidiana.

Foi um presente da minha querida prima Danielle, e só de pensar que alguém pensou em mim lendo isto já me sinto lisonjeado demais.

A trégua é um livro pequeno, que você lê duma sentada. Foi publicado em 1960 e é do meu tipo predileto de literatura: escrito em primeira pessoa, como se fossem diários redigidos pra ninguém mais ler, o que confere um ar intimista e te dá aquela sensação de voyeur, sempre bacana, embora não o confessemos assim tão facilmente. No caso, os diários são de um sujeito às vésperas de completar 50 anos, viúvo e contador, com três filhos já adultos, lidando com a aposentadoria iminente (o que fazer com tanto ócio?), com a entropia, pequenas situações de trabalho e, no meio de tudo isso, uma inesperada, inusitada, paixão por uma colega de trabalho muito mais nova.

A foto de Benedetti na orelha dessa edição mostra um velhinho sorridente com a cara de um mineiro matuto. Seria impossível pressentir que haveria tamanha carga sentimental inteligente ali dentro!

A despeito do desfecho com um cheiro de clichê, entrou pro rol das coisas favoritas de se ler. Já citei aqui uma frase do livro, mas gostaria de transcrever a descrição que ele faz das relações inter-pessoais no escritório. Do tipo que tem aplicação universal.

E aprofunda o meu recente descobrimento do Uruguai, que começou com o filme Whisky, continuou com o cantor Jorge Drexler e agora deságua em Benedetti!


Outra coisa muito boa que cirandou aqui por dentro esses tempos foi Juno, o filme independente escrito por uma linda stripper e que narra a história de uma adolescente grávida que decide dar o filho para a adoção.

Quem me acompanha aqui sabe que eu sou tudo, menos atualizado em matéria de filmes. Este aí já não é nenhuma novidade e mesmo assim eu só vi porque a TAM teve o bom gosto de inseri-lo na programação de entretenimento de vôo na minha recente viagem.

Mas o que importa é que é um belo filme. Cheio de diálogos inteligentes, com boas atuações, com desenvolvimento e desfecho incomuns, sua força, contudo, não está aí, mas na verossimilhança dos personagens. É gente real, palpável. Gente em 3D. Não é gente como gostaríamos que elas fossem.

Aí, além de lembrar do tal lirismo latente (e por vezes dormente), lembro também do quanto isso faz falta: ver gente não idealizada, errando, refazendo a rota, dando meia volta, mostrando insegurança, mostrando fé.

Posted by marcol at abril 30, 2008 6:33 PM

Comments

Post a comment




Remember Me?


Type the characters you see in the picture above.