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abril 25, 2008

Isabella e Chamberlain

Isabella e os Chamberlain

Em 1980, o pastor adventista Michael Chamberlain, em férias, levou sua família para acampar junto a Ayers Rock, a maior rocha do mundo, em Queensland, Austrália. Os acampantes todos se reuniram em volta de uma fogueira à noite para bater papo. Em determinado momento, Lyndi, a esposa de Michael, levantou-se para ver se estava tudo bem com Azaria, seu bebê, que dormia na barraca. Ela ouviu um barulho e viu o vulto de um dingo (uma espécie de cão selvagem) em disparada. Ao adentrar a barraca, não encontrou Azaria.

Começaram uma busca desesperada pela criança, mas não a encontraram. Logo a imprensa local começou a noticiar suspeitas de que Azaria houvesse sido sacrificada em algum culto macabro. Enalteceram o fato de que a principal líder adventista, Ellen White, que morou um tempo na Austrália, vestia-se sempre de preto (já que nas pinturas dela ela sempre aparecia assim). Frisaram o fato de que nos cultos adventistas capitaneados por Michael, caixões eram introduzidos na nave da igreja (na verdade, um caixão aparecia nos populares cursos "como deixar de fumar em 5 dias", para que os fumantes enterrassem simbolicamente seus maços de cigarro). Afirmaram que nunca na história se soubera de um dingo ladrão de bebês e que a reação da mãe não era suficientemente desesperada para alguém isenta de culpa. Distorceram todas as declarações da família e armaram um clima de tamanha indignação popular contra o casal que o resultado foi Lyndi ser condenada à prisão perpétua pelo assassinato de sua filha.

Oito anos depois o casaquinho que Azaria vestia naquela noite foi encontrado a quilômetros do acampamento. Seria impossível Lyndi haver saído para sacrificar sua filha e voltado ao acampamento. Sua versão estava certa, a opinião pública de uma nação inteira estava radicalmente errada. Lyndi foi liberta*.

Quando o furacão do caso Isabella Nardoni explodiu, eu estava fora do país. Foi, portanto, difícil entender o tamanho da comoção em torno do caso. Até agora, me espanta o espaço dedicado pela mídia ao caso e me espanta principalmente ver que pessoas vêm de outras cidades, de outros estados até, fazer vigília em frente à casa deles. Já fui questionado por diversas pessoas o que eu penso do caso, como se o fato de ser advogado pudesse dar algum peso mais abalizado, de preferência no sentido de enterrar de vez o casal acusado do assassinato.

É preciso menos pressa para julgar. O caso é triste, revoltante, mas, ainda assim, é preciso menos pressa para julgar.

* Para mais detalhes sobre esta história, recorra ao filme "Um grito no escuro", de Fred Schepisi, que rendeu a Meryl Streep um de seus muitos Oscar. Ela interpreta Lyndi.

Posted by marcol at abril 25, 2008 12:03 PM

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