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fevereiro 19, 2008

HQs

Estava de bobeira em Florianópolis (na escala de "lugares de onde é difícil voltar pra São Paulo" Floripa atinge grau quase máximo) quando vi numa Saraiva, com desconto, um volume chamado "Marvel 1602", lindamente ilustrado. Tratava-se da compilação de uma mini-série em oito volumes escrita por Neil Gaiman, visitando o universo dos heróis Marvel como se ele existisse não agora, mas no ano que leva seu título.

Quando Gaiman explodiu com seu inventivo e cheio de referências mitológicas e cult nas revistas de Sadman, para a DC Comics, eu já não era mais tão fã de quadrinhos assim. Estava farto da baboseirada cósmica que percorria o gênero. As exceções honrosas eram cada vez mais raras e, embora Sadman fosse uma delas, pouco acompanhei o título. Mas sabia que o cara tem um nível bem superior de escrita. Tinha lido alguma coisa. Bateu uma certa nostalgia. E, além do mais, estava com 10% de desconto.

Comprei, li duma sentada no avião e a decepção foi tão profunda que larguei lá mesmo, em cima do banco, quando desci. Começava muito bem, misturando personagens reais como a rainha Elizabeth aos personagens da Marvel, fazendo os mutantes serem os perseguidos da vez pela Inquisição, mas no fim se torna adivinhe no que: baboseirada cósmica. Com inúmeras inconsistências e furos.

Mas o fato serviu para reavivar minhas reminiscências sobre os melhores títulos do gênero quadrinhos que me caíram nas mãos e causaram grandes revoluções internas. Há alguns poucos realmente muito impactantes. Fiz, portanto, meu Top top personal de quadrinhos:

Top 7 das melhores Histórias em Quadrinhos ever de todos os tempos and ever

watchmen.jpg 1. Watchmen, de Alan Moore, ilustrada por Dave Gibbons

Não é novidade pra ninguém que conhece um pouco de quadrinhos. Watchmen catapultou o gênero para um nível muito mais elevado que até então o gênero havia palmilhado, e, para tanto, utilizou o universo mais conhecido dos quadrinhos: o dos heróis mascarados e coloridos. Só que Moore se perguntou como seria o mundo se houvesse realmente pessoas superpoderosas andando por aí de colant e capas. Imaginou um bando de perturbados, sociopatas e uma trama genial, que não tem pressa de se explicar. Ele inspirou metade das HQs que vieram depois dele e até coisas como o filme Os incríveis, que tem algumas cópias descaradas de Watchmen. A diferença é que Watchmen não tem nada de engraçadinho. Nele, a pessoa mais sensata e justa é a mais estranha e o final até hoje está entre os melhores de todos. Não de todos os quadrinhos de todas as obras artísticas em geral. Tudo isso, mesmo com uma arte nem tão boa assim...

darkknight.jpg2. O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller Quando esta mini-série começou a ser vendida no Brasil eu não entendi muito bem. Os pensamentos do herói eram expressos em retângulos, e não mais naquelas clássicas nuvenzinhas. Havia páginas inteiras com uma única gravura, sem qualquer palavra. A diagramação era toda diferente, havia uma abundância enorme de chiaroscuros, parecia cinema da melhor qualidade. Se Watchmen elevou o gênero a um nível de qualidade comparável ao da literatura, esta HQ reinventou sua linguagem toda. Mas não foi só revolucionário, como se a grandeza de O Cidadão Kane estivesse só nos malabarismos de câmera. A história é fantástica, com uma dosagem de tensão, cheia de ápices inesperados e de tirar o fôlego. O final também é outro capítulo à parte. Eu só mudaria a última frase. Em lugar de "Vai ser uma boa vida", colocaria "Vai ser uma boa morte".


edifício.jpg 3. O Edifício, de Will Eisner

Eisner, o criador do clássico herói Spirit, é um mestre rematado dos quadrinhos, autor de histórias antológicas e de livros que ensinam a fazer histórias nesse formato. Mas foi quando se descobriu um cronista de Nova York que fez seus melhores trabalhos. O Edifício é um conto que ciranda sobre personagens que têm suas vidas afetadas sobre um edifício, acompanhando desde sua inauguração, anos de ouro e decadência. Eisner aqui se revela mais do que um artista de mão cheia; sua narrativa lírica e nostálgica emociona qualquer um.


yearone.jpg 4. Batman, Ano Um, de Frank Miller com arte de David Mazucchelli

Depois de visitar um futuro hipotético do Homem Morcego, Miller se dedicou ao primeiro ano de vida desse personagem que rendeu muitas das melhores histórias em quadrinhos até hoje feitas. Para tanto, chamou um artista diferenciado. Mazzuchelli tem um estilo todo dele, com traços grossos e se mostra completamente avesso a recursos para expressar movimento como desenhar aquele "ventinho" nos pés do heróis que voa. Seus desenhos paracem fotos pintadas por cima. Demorou para eu aprender a gostar disso. A história, aqui, ajudou horrores. Miller viveu seus melhores anos nessa época, criando uma história factível para o nascedouro do Batman e de alguns dos personagens mais importantes de seu universo, como o Comissário Gordon, então, apenas Capitão Gordon. Como todas dessa lista, esta história surpreende, pega você desprevenido, foge dos clichês e dos desenlaces fáceis. Batman Begins, o filme, é chupinhado desta história. Melhor seria se houvesse sido mais fiel. Uma das mais geniais seqüências da história é a que mostra o Batman acuado nas ruínas de um prédio, sem armas, ativando um sonar que atrai milhares de morcegos para conseguir se safar. O filme desperdiçou essa idéia ao não mostrar a situação como aparentemente insolúvel. A moral é a de sempre: esqueça os filmes e vá às fontes!

spider.jpg 5. A clássica série do Homem Aranha X Duende Verde, de Gerry Conway, Gil Kane e John Romita.

Esta série foi publicada no ano em que eu nasci, 1973. Quando eu a li, portanto, ela já tinha status de antológica, já tinha aquele verniz de coisas incríveis. Gostaria de ter lido na época, de fôlego preso, lágrimas rolando pelo rosto. Se você viu o fraquinho filme do Homem Aranha, o um, vai se lembrar do momento em que o Duende Verde tem Mary Jane Parker em cima da Brooklin Bridge. Pois bem, a história termina com exatamente esta cena, só que quem está lá é não Mary Jane, mas Gwen Stacy (que entrou ninguém sabe com que finalidade, no terceiro filme), então a namorada de Peter Parker e uma das criaturas mais doces já desenhadas em quadrinhos. Pois bem, só que lá o Duende a joga do alto da ponte. Parker consegue acertar seu calcanhar com uma teia, mas o impacto acaba quebrando o pescoço dela. Mortes de personagens eram novidade, então. E não havia ressurreições estapafúrdias como hoje. Lembro de haver emprestado este meu gibi para alguns amigos. Lembro da cara de choro deles ao terminar. Além de tudo, a história aborda pela primeira vez a questão das drogas. Anos de ouro dos heróis...

daredevil.jpg 6. A série "A queda de Murdock", de Frank Miller e David Mazzuchelli Miller começou sua carreira desenhando histórias desse personagem, então em decadência. A Marvel avaliava a possibilidade de cancelar o título quando ele assumiu também o argumento das histórias e aí tudo mudou. O Demolidor, apontado por Stan Lee como sua criação favorita, voltou ao papel de protagonista com a série clássica envolvendo Murdock ainda na faculdade, seu treinamento e a emblemática intromissão de Elektra. Esta história também foi retratada com defeitos no cinema em Demolidor e em Elektra. Mas estou falando é da série criada por ele e Mazzuchelli para o Demolidor anos depois. Ele mostra um cerco diabólico ao herói perpetrado por seu maior inimigo, o Rei do Crime, que descobre sua identidade graças a uma antiga namorada do herói que vende o segredo pra conseguir mais uma dose de sua droga favorita. Ele perde tudo, apanha, quase morre, é salvo pela freira aí ao lado e começa um novo começo, largando a pompa e circunstância de seu papel de advogado número 1 dos EUA. Mais uma vez, palmas pro desfecho, absolutamente inusitado e que, de tabela, serve como uma homenagem a um personagem aparentemente sem mais espaço no século XXI, o Capitão América.

miguelanxo.jpg 7. Mundo Cão, de Miguelanxo Prado

Pra fechar, esta Graphic Novel reúne histórias de um quadrinista genial que vem da Espanha com histórias mordazes, cáusticas e surpreendentes, focadas sempre em coisas aparentemente banais do cotidiano. Me abriu os olhos para o mundo da crônica e para a revelação da alma humana que pode haver nas atitudes mais banais.


Posted by marcol at fevereiro 19, 2008 8:14 AM

Comments

Vergonha. Só li a série do Homem Aranha vs. Duende Verde. E você FINALMENTE me explicou como diabos ela morreu só por causa da queda!

Posted by: O Primo at fevereiro 20, 2008 7:11 PM

Vai ali ter um treco, vai > http://www.flickr.com/photos/officialwatchmenphotos/

Papo nerd included, tua lista é igual a minha, mas eu troco o Will Eisner do Edifício pelo Will Eisner do Homem que sabia voar'; o Mundo Cão por uns Asterixes e/ou Tintims da velha guarda; e tenho que incluir o Flash Gordon do Alex Vai Desenhar Bem Assim Longe Raymond e um Laerte qualquer, sejam os Palhaços Mudos, A insustentável leveza do ser ou mesmo (por não ser só dele) Los 3 amigos.

Li um fascículo do 1602 e atirei longe. E o Ano 1 tenho autografada pelo Mazzuchelli.

Posted by: Bruno Porto at fevereiro 20, 2008 3:57 PM

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