« janeiro 2008 | Main | março 2008 »
fevereiro 27, 2008
Henry James rocks
Um cara chamado Henry James
Ganhei de aniversário há algum tempo um tal de "Contos Fantásticos do século XIX", uma compilação organizada por Umberto Eco. Não é lá meu gênero favorito, mas tem coisas sensacionais, dentre os quais um Rudyard Kipling e um Henry James.
Não conhecia esse cidadão a não ser por uma menção feita a ele em Um lugar chamado Notting Hill e fiquei largamente impressionado. Aliás, "largamente impressionado" é uma expressão que parece sacada diretamente de uma obra sua. Depois disso comprei um livrinho desses de bolso, que não chegou a entusiasmar muito, mas mais recentemente peguei o Retrato de uma Senhora, que parece ser sua obra máxima.
No século que nos deu Madame Bovary e outras assim, James nos apresenta uma mulher fascinante e de um caráter raro. Quando você espera que ela seja corrompida finalmente, ela dá um olé e mostra que é feita de uma matéria prima diferente. Isso mostra que o autor não se deixava levar pela boiada, mas o livro não é só isso. O estilo de Henry James é que fascina, é absolutamente delicioso. Dá alegria ler. Seus diálogos são inteligentes e ele parece dominar todas as entrelinhas da linguagem não verbal, os conflitos entre pensamento/sentimento e o que é dito, as mensagens transmitidas pelos trejeitos involuntários.
Depois de um longo tempo sem ler nada no campo da ficção, foi um bálsamo voltar ao ninho nos braços desse novaiorkino que passou a vida quase toda na Europa. Recomendo.
Posted by marcol at 5:51 PM | Comments (3)
fevereiro 21, 2008
Tempus fugit
Estes dias tiramos passaporte para a família toda. Agora o passaporte é todo feito na Polícia Federal, eles mesmos nos fotografam. Na hora do Davi, contudo, que à época tinha sete meses, disseram que precisávamos tirar a foto fora, porque ele era muito pequeno. Não entendemos muito bem, mas lá fomos nós, pra não nos indispormos cos homes. Tirar uma foto dele foi muito difícil, ele ainda não ficava parado durinho, a gente precisava segurar seu tronco mas de modo que as mãos não aparecessem. E precisava também fazer ele olhar pra frente. Mas enfim conseguimos e a foto ficou mesmo bem engraçada, porque ele deu um meio sorriso cheio de curiosidade, como quem se pergunta que raios seria aquela maquininha ali na frente. E, numa clássica "venda casada", eu não podia comprar uma foto só, tinha que levar cinco.
Daí que uma delas eu pendurei aqui, ao lado do meu computador e de uma foto do Eduardo, meu filho mais velho.
Daí que eu parei um pouco de trabalhar feito um camelo, como faço de quando em quando, e fiquei olhando pro rosto dos dois.
Daí que me ocorreu contar aqui que o Davi, agora com quase onze meses, já olha pra gente, aponta o dedinho pra gente, e dá uma risada engraçadíssima, que enruga o rosto inteiro dele.
Daí que pensei em como contaria isso, e aí começaria com a frase "meu filho mais novo..."
Daí que me ocorreu que eu já tenho um "filho mais novo" e subitamente notei que o tempo corre rápido, mano velho - citando Pato Fu.
E terminei por concluir que é bom dar-se conta disso ocasionalmente. E melhor ainda se, assim fazendo, me flagrar agradecendo pela forma como ele flui. Mesmo não podendo segurar, nem determinar com muita exatidão seu rumo. Tem aí umas risadas e uns dedinhos apontados pra garantir isso.
Posted by marcol at 4:23 PM | Comments (3)
fevereiro 19, 2008
HQs
Estava de bobeira em Florianópolis (na escala de "lugares de onde é difícil voltar pra São Paulo" Floripa atinge grau quase máximo) quando vi numa Saraiva, com desconto, um volume chamado "Marvel 1602", lindamente ilustrado. Tratava-se da compilação de uma mini-série em oito volumes escrita por Neil Gaiman, visitando o universo dos heróis Marvel como se ele existisse não agora, mas no ano que leva seu título.
Quando Gaiman explodiu com seu inventivo e cheio de referências mitológicas e cult nas revistas de Sadman, para a DC Comics, eu já não era mais tão fã de quadrinhos assim. Estava farto da baboseirada cósmica que percorria o gênero. As exceções honrosas eram cada vez mais raras e, embora Sadman fosse uma delas, pouco acompanhei o título. Mas sabia que o cara tem um nível bem superior de escrita. Tinha lido alguma coisa. Bateu uma certa nostalgia. E, além do mais, estava com 10% de desconto.
Comprei, li duma sentada no avião e a decepção foi tão profunda que larguei lá mesmo, em cima do banco, quando desci. Começava muito bem, misturando personagens reais como a rainha Elizabeth aos personagens da Marvel, fazendo os mutantes serem os perseguidos da vez pela Inquisição, mas no fim se torna adivinhe no que: baboseirada cósmica. Com inúmeras inconsistências e furos.
Mas o fato serviu para reavivar minhas reminiscências sobre os melhores títulos do gênero quadrinhos que me caíram nas mãos e causaram grandes revoluções internas. Há alguns poucos realmente muito impactantes. Fiz, portanto, meu Top top personal de quadrinhos:
Top 7 das melhores Histórias em Quadrinhos ever de todos os tempos and ever
1. Watchmen, de Alan Moore, ilustrada por Dave Gibbons
Não é novidade pra ninguém que conhece um pouco de quadrinhos. Watchmen catapultou o gênero para um nível muito mais elevado que até então o gênero havia palmilhado, e, para tanto, utilizou o universo mais conhecido dos quadrinhos: o dos heróis mascarados e coloridos. Só que Moore se perguntou como seria o mundo se houvesse realmente pessoas superpoderosas andando por aí de colant e capas. Imaginou um bando de perturbados, sociopatas e uma trama genial, que não tem pressa de se explicar. Ele inspirou metade das HQs que vieram depois dele e até coisas como o filme Os incríveis, que tem algumas cópias descaradas de Watchmen. A diferença é que Watchmen não tem nada de engraçadinho. Nele, a pessoa mais sensata e justa é a mais estranha e o final até hoje está entre os melhores de todos. Não de todos os quadrinhos de todas as obras artísticas em geral. Tudo isso, mesmo com uma arte nem tão boa assim...
2. O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller Quando esta mini-série começou a ser vendida no Brasil eu não entendi muito bem. Os pensamentos do herói eram expressos em retângulos, e não mais naquelas clássicas nuvenzinhas. Havia páginas inteiras com uma única gravura, sem qualquer palavra. A diagramação era toda diferente, havia uma abundância enorme de chiaroscuros, parecia cinema da melhor qualidade. Se Watchmen elevou o gênero a um nível de qualidade comparável ao da literatura, esta HQ reinventou sua linguagem toda. Mas não foi só revolucionário, como se a grandeza de O Cidadão Kane estivesse só nos malabarismos de câmera. A história é fantástica, com uma dosagem de tensão, cheia de ápices inesperados e de tirar o fôlego. O final também é outro capítulo à parte. Eu só mudaria a última frase. Em lugar de "Vai ser uma boa vida", colocaria "Vai ser uma boa morte".
3. O Edifício, de Will Eisner
Eisner, o criador do clássico herói Spirit, é um mestre rematado dos quadrinhos, autor de histórias antológicas e de livros que ensinam a fazer histórias nesse formato. Mas foi quando se descobriu um cronista de Nova York que fez seus melhores trabalhos. O Edifício é um conto que ciranda sobre personagens que têm suas vidas afetadas sobre um edifício, acompanhando desde sua inauguração, anos de ouro e decadência. Eisner aqui se revela mais do que um artista de mão cheia; sua narrativa lírica e nostálgica emociona qualquer um.
4. Batman, Ano Um, de Frank Miller com arte de David Mazucchelli
Depois de visitar um futuro hipotético do Homem Morcego, Miller se dedicou ao primeiro ano de vida desse personagem que rendeu muitas das melhores histórias em quadrinhos até hoje feitas. Para tanto, chamou um artista diferenciado. Mazzuchelli tem um estilo todo dele, com traços grossos e se mostra completamente avesso a recursos para expressar movimento como desenhar aquele "ventinho" nos pés do heróis que voa. Seus desenhos paracem fotos pintadas por cima. Demorou para eu aprender a gostar disso. A história, aqui, ajudou horrores. Miller viveu seus melhores anos nessa época, criando uma história factível para o nascedouro do Batman e de alguns dos personagens mais importantes de seu universo, como o Comissário Gordon, então, apenas Capitão Gordon. Como todas dessa lista, esta história surpreende, pega você desprevenido, foge dos clichês e dos desenlaces fáceis. Batman Begins, o filme, é chupinhado desta história. Melhor seria se houvesse sido mais fiel. Uma das mais geniais seqüências da história é a que mostra o Batman acuado nas ruínas de um prédio, sem armas, ativando um sonar que atrai milhares de morcegos para conseguir se safar. O filme desperdiçou essa idéia ao não mostrar a situação como aparentemente insolúvel. A moral é a de sempre: esqueça os filmes e vá às fontes!
5. A clássica série do Homem Aranha X Duende Verde, de Gerry Conway, Gil Kane e John Romita.
Esta série foi publicada no ano em que eu nasci, 1973. Quando eu a li, portanto, ela já tinha status de antológica, já tinha aquele verniz de coisas incríveis. Gostaria de ter lido na época, de fôlego preso, lágrimas rolando pelo rosto. Se você viu o fraquinho filme do Homem Aranha, o um, vai se lembrar do momento em que o Duende Verde tem Mary Jane Parker em cima da Brooklin Bridge. Pois bem, a história termina com exatamente esta cena, só que quem está lá é não Mary Jane, mas Gwen Stacy (que entrou ninguém sabe com que finalidade, no terceiro filme), então a namorada de Peter Parker e uma das criaturas mais doces já desenhadas em quadrinhos. Pois bem, só que lá o Duende a joga do alto da ponte. Parker consegue acertar seu calcanhar com uma teia, mas o impacto acaba quebrando o pescoço dela. Mortes de personagens eram novidade, então. E não havia ressurreições estapafúrdias como hoje. Lembro de haver emprestado este meu gibi para alguns amigos. Lembro da cara de choro deles ao terminar. Além de tudo, a história aborda pela primeira vez a questão das drogas. Anos de ouro dos heróis...
6. A série "A queda de Murdock", de Frank Miller e David Mazzuchelli Miller começou sua carreira desenhando histórias desse personagem, então em decadência. A Marvel avaliava a possibilidade de cancelar o título quando ele assumiu também o argumento das histórias e aí tudo mudou. O Demolidor, apontado por Stan Lee como sua criação favorita, voltou ao papel de protagonista com a série clássica envolvendo Murdock ainda na faculdade, seu treinamento e a emblemática intromissão de Elektra. Esta história também foi retratada com defeitos no cinema em Demolidor e em Elektra. Mas estou falando é da série criada por ele e Mazzuchelli para o Demolidor anos depois. Ele mostra um cerco diabólico ao herói perpetrado por seu maior inimigo, o Rei do Crime, que descobre sua identidade graças a uma antiga namorada do herói que vende o segredo pra conseguir mais uma dose de sua droga favorita. Ele perde tudo, apanha, quase morre, é salvo pela freira aí ao lado e começa um novo começo, largando a pompa e circunstância de seu papel de advogado número 1 dos EUA. Mais uma vez, palmas pro desfecho, absolutamente inusitado e que, de tabela, serve como uma homenagem a um personagem aparentemente sem mais espaço no século XXI, o Capitão América.
7. Mundo Cão, de Miguelanxo Prado
Pra fechar, esta Graphic Novel reúne histórias de um quadrinista genial que vem da Espanha com histórias mordazes, cáusticas e surpreendentes, focadas sempre em coisas aparentemente banais do cotidiano. Me abriu os olhos para o mundo da crônica e para a revelação da alma humana que pode haver nas atitudes mais banais.
Posted by marcol at 8:14 AM | Comments (2)
fevereiro 12, 2008
Festa na floresta
Este blog atingiu a marca de 100 mil visitas. Custo a acreditar. É coisa pra dedéu. Confesso que não sei se o condomínio Verbeat aproveitou a contagem do meu antigo hospedeiro, o Blogger, aonde fui nominado uma ou duas vezes como "Blogs of Notes". Quem andou por lá sabe como isso dá uma turbinada meio artificial no número de visitas e só isso explicaria chegar às cem mil sem ser o blogueiro mais assíduo do mundo e sem ser pop e criativo como alguns caras talentosos que habitam esta blogosfera tupiniquim.
Lembro de haver saudado outras marcas cabalísticas com fotos de biscoitudas como uma forma de agradecer a quem se acostumou a passar aqui de quando em vez. Bem, não pode haver marca mais festejável que essa. Se levei cinco anos de blog para chegar a 100 mil, acho que vou precisar de mais dez pra chegar a duzentos mil. Voilá, entonces, comemoro com o rosto mais bonito que apareceu nas telonas nos últimos anos, Natalie Portman em dois momentos, um produzido, outro de sopetão.
Mas nem só de biscoitudas mundialmente conhecidas faz-se uma comemoração. De tão importante a data, vale postar a biscoituda-mor, aquela que faz todas as outras parecerem biscoito Maria guardado com o pacote aberto dois meses no armário, a minha musa inspiradora. E, para a mulherada não reclamar da falta de representantes do sexo masculino nesse panteão, estou eu aí, com meu visual "Falcon vai passear no rio Tigre".